21 de mar. de 2016

Prefeitura resgata grafia original da Praça Saenz Peña em nova sinalização

Na Avenida Maracanã, placas de sinalização provisórias voltaram a adotar a grafia original de Saens Peña.

Não há consenso: a grafia correspondente ao nome da praça mais famosa da Tijuca pode ser escrita de diferentes formas. A mais comum, Saens Peña, diverge do sobrenome original do presidente argentino, Sáenz Peña, com acento agudo e a letra Z ao invés da S. Entretanto, nas placas indicativas de logradouro, a praça, veja só, vem grafada como Saenz Peña, mas sem o acento agudo. Há quem diga que este último modo é o mais correto de se chamar a nossa querida praça. Segundo moradores antigos, a grafia apresentada inicialmente surgiu nos anos 1980, com a instalação do metrô, tendo sido reproduzida em diversos outros meios por mimetismo.

Com a interdição da Avenida Maracanã para finalização das obras do reservatório subterrâneo da Praça Varnhagen, em outubro de 2015, o trânsito no sentido Centro foi desviado para a Rua Barão de Mesquita. Eis que surgem novas placas de sinalização, só que alaranjadas, dessas provisórias, ao longo das vias adjacentes. A surpresa foi esta: o ressurgimento da grafia original, Praça Saenz Peña, no direcionamento das placas. Será que desta vez o nome volta?

20 de mar. de 2016

Rua Adalberto Aranha

Rua Adalberto Aranha: na esquina com a Rua Antônio Salema e o Pico da Tijuca ao fundo.

Imortalizada pelo seu mais ilustre morador – o jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues –, a Aldeia Campista é mais uma daquelas regiões que entrou para o rol de bairros que não constam mais nos mapas oficiais da cidade do Rio. Como exemplos, podem ser citados os bairros Peixoto e o de Fátima, ou a Boca do Mato, no Lins de Vasconcelos. Não sei dissertar tão bem sobre o porquê de estes bairros terem tido a sua representatividade reduzida. Talvez seja pelo território diminuto ou pelo número irrelevante de habitantes, quem sabe. Ou muito provavelmente por causa da especulação imobiliária. Segundo a Revista da Semana de junho de 1958, é bem dizer que se mora na Tijuca e o nome do bairro também serve de chamariz nos anúncios de imóveis para venda ou aluguel, quando na verdade querem se referir ao Andaraí ou a outros bairros vizinhos... A Tijuca conserva sua pontinha de esnobismo (1).

Este é o caso da Aldeia Campista, que, além disso tudo, ninguém sabe ao certo quais são seus limites enquanto “sub-bairro”, muito embora seu conjunto de ruas tenha sido incorporado oficialmente ao território de Vila Isabel. Ou seja, toda aquela região compreendida pelas ruas Barão de Mesquita, Maxwell e Gonzaga Bastos etc., é o que se poderia chamar de Aldeia Campista. A Rua Adalberto Aranha, portanto, está nesse “miolo”.

Nessa ocasião, eu havia iniciado o meu passeio pela Rua Antônio Salema, perpendicular à Adalberto Aranha. Rua muito simpática, diga-se de passagem, com casinhas primorosas, que mostra de forma bastante interessante ao passeador a dinâmica residencial nesta faixa de transição entre a Tijuca e Vila. A Aldeia Campista ainda continua sendo, de certa forma, um local majoritariamente de casas e edifícios baixinhos dos anos 1950, mas cujo boom imobiliário dos anos 1980 e 1990 fez levantar uma série de espigões que paira sozinha nos ares, em sua maior concentração nas ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos. Um bando de casas rodeado por uma ilhazinha de prédios. Eis a herança do bairro pacato tão bem retratado nos contos rodriguianos só que contaminado pela especulação imobiliária do dileto bairro vizinho, a Tijuca, que verticalizou-se a partir dos anos 1960 e 70, principalmente devido à construção do metrô.

O detalhe das fachadas antigas: são muitas na Rua Adalberto Aranha.

Diferente do entorno, como as ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos, a Rua Adalberto Aranha é
bastante arborizada: jardins com ixoras, cachos-dourados e palmeiras.

Azulejos: o charme da herança lusitana.

A Rua Adalberto Aranha é um desses exemplos de como a especulação imobiliária falou mais alto, desconfigurando, assim, muito do que devia ter existido por ali até 30 anos atrás. Mais progressista que a adjacente e mais tradicional Rua Antônio Salema, a Adalberto Aranha é não apenas sombreada pela sua arborização impecável, mas igualmente pelo corredor de edifícios  levantados por ali nos anos 1980. Tornou-se uma rua típica da classe média tijucana contemporânea: a mistura do velho com o novo, dos azulejos hidráulicos meio lusitanos com o vidro das varandas confortáveis no alto dos prédios, dos muros baixinhos de pedra com as grades de ferro dos portões, cujas pontas são espetadas e inibidoras à intrusão. A Paróquia Sangue de Cristo, no número 48, complementa à rua a vocação carola que Tijuca e Vila Isabel emanam na história da urbanização carioca.

Mais adiante, chama a atenção o simpático Edifício Bertioga, no número 16. A porta do edifício é uma singela entrada de madeira, peculiaríssima aos projetos hoje tidos como retrôs, e toda coberta por arabescos e pastilhas. Um mimo, como se diria nos antanhos. Por outro lado, foi entristecedor notar o estado decadente do prédio cuja fachada foi detonada por pichadores e pelo gradeamento irregular das janelas. O próprio espaço do Bertioga com a rua, antes livre, foi cercado por um gradil moderno, que decerto mataria de desgosto o autor do projeto. É muito comum que esses edifícios antigos no Rio como um todo não recebam o cuidado e a atenção merecida. Sendo assim, o panorama lamentável do Edifício Bertioga não é nenhuma novidade, mas apenas a reafirmação de que nossa história e nossa arquitetura tendem a ir para o beleléu em tempos tão pouco apegados à memória como este em que vivemos.

Os arabescos do decadente, mas charmoso, Edifício Bertioga.

Na esquina com a Barão de Mesquita, o estilo dos armazéns de outrora.

Carroça de frutas: atividades comerciais tradicionais se mantêm na região.

Na Rua Barão de Mesquita, em frente à Rua Adalberto Aranha, está o 1º Batalhão da
Polícia do Exército - antigo DOI-CODI, símbolo do indecoroso Regime Militar.

Por outro lado, acho que o infortúnio é coisa apenas do Edifício Bertioga, porque a Rua Adalberto Aranha, de uma maneira geral, é bem cuidada e aprazível. Jardins suspensos recaem sobre a fachada dos prédios enquanto ixoras colorem os canteiros pelas calçadas. Mesmo estando às margens da Rua Barão de Mesquita, importante artéria da região por onde passam muitos ônibus e automóveis, a Rua Adalberto Aranha é bastante silenciosa e com clima familiar. Os transeuntes são moradores e prestadores de serviço do entorno: estudantes uniformizados, senhoras com sacolas de compras, os ciclistas com entregas das farmácias que os empregam. Enquanto caminhava pela rua, era possível até mesmo escutar conversas ecoadas lá do alto dos apartamentos – os dos primeiros e segundos pisos, é claro –, tamanho o silêncio.

A esquina com a Barão de Mesquita é onde está localizada a arquitetura de maior idade, espectadora das grandes mudanças ocorridas ao longo dos anos na Aldeia Campista. Um sobrado centenário no lado ímpar todo coberto por placas cerâmicas nas cores branca e verde, onde funciona uma clínica podológica, e um armazém, também centenário, com pé-direito alto e múltiplas portarias estreitas e arqueadas no seu topo.

Em frente, e intacto, o 1º Batalhão da Polícia do Exército, local das instalações do DOI-CODI, símbolo indecoroso do Regime Militar fincado em nossas terras. Segundo Aldir Blanc, agentes provocadores espalham, em Copacabana, que existem algumas ruas, na Tijuca, em que mora um ex-torturador para cada vinte habitantes (e desses, mais da metade apoiava, ainda que por omissão, o que o monstro fazia na época da ditadura). Não é verdade (2).

Muito além dos contos de Nelson Rodrigues, por suas calçadas estreitas e algumas ruas meio pastoris, essa Aldeia Campista oferece é coisa para ver e história para contar.

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Texto adaptado; publicação original no meu outro blog As Ruas do Rio, em 17 de fevereiro de 2014.

(1) CARDOSO, Elizabeth Dezouzart et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984.
(2) Ver prefácio do livro “Tijuca e Floresta”, da coleção Bairros do Rio, lançado pela Editora Fraiha em 2000.

19 de mar. de 2016

As alamedas da Colina do Matoso e sua joia: o Santuário da Medalha Milagrosa

Santuário da Medalha Milagrosa: patrimônio tijucano situado na Colina do Matoso


Tijuca, do Brasil formosa ninfa... Apesar de pouco conhecidos do grande público, os versos de “Tijuca, Metamorfose I” deveriam ser ecoados por certas localidades do bairro com fins de ilustração à poesia neoclássica de Cruz e Souza. Mesmo tratando-se de uma obra que remete o atento leitor à Tijuca de tempos pretéritos à sua urbanização, caminhar pelas alamedas do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) não deixa de ser uma volta ao passado.

Para alcançá-lo, é preciso percorrer toda a Colina do Matoso, parte elevada da Tijuca bem na divisa com a Praça da Bandeira. O caminho que leva ao hospital, flanqueado de palmeiras entre outras espécies arbóreas, é um daqueles fantásticos recantos capazes de relaxar os ânimos e agraciar a alma. Por ser um hospital de grande referência, o número de atendimentos é elevado, mas poucos são os pacientes e visitantes que chegam ali como pedestres. Devido à ladeira, a maioria opta por carros e táxis para atingir o topo da colina, fazendo desse pequeno percentual de andarilhos uma classe privilegiada. Eu explico.

Vindo pela entrada principal – isto é, pela Rua Doutor Satamini –, o passeador deve seguir o caminho tortuoso de paralelepípedos, que flui o trânsito de automóveis pelo regime de mão-inglesa. A calçada é estreita e o espaço aéreo quase todo tomado por folhagens das altíssimas árvores; quase não se vê o céu. Portanto, há sombra. Muita sombra! Mas, o que chama a atenção mesmo é o lado esquerdo da via, margeado por um jardim impecável base de um paredão de pedras por onde brotam delicadamente pequenos esgalhos e ramas de flores.

Por si só, esse caminho já oferece um breve panorama do que deveria ser o antigo Engenho Velho, região da Tijuca que ia do que é hoje a Avenida Paulo de Frontin até a Igreja de São Francisco Xavier, na rua homônima. Vêm à imaginação os encantos da mata virgem, a Tijuca de Bentinho e Capitu, a ninfa de Cruz e Souza... tudo ali, intocado e materializado, aos pés das ruidosas vias urbanoides da Praça da Bandeira.

Um suave zéfiro até então mal percebido começa a beijar agradavelmente o rosto do passeador à medida que a alameda se curva e se eleva rumo ao pináculo. As copas das árvores farfalham e o platô à esquerda, meio escondido no início da trilha, agora se desvela como a brilhante estrela de um espetáculo teatral. Sustentado pelo paredão de pedras, o pátio que dá acesso à Associação São Vicente de Paulo exibe o seu monumento: vê-se o Santuário da Medalha Milagrosa.

Apesar dos ares medievais (ou seriam góticos?) do santuário, ele foi fundado em 1955 pelas irmãs de caridade vicentinas. Comemorou seu “jubileu de diamante” em 2015, quando completou 60 anos de existência. Por ser relativamente “novato” no bairro, e também por estar localizado numa área que não é de domínio completamente público, o Santuário da Medalha Milagrosa é uma construção muito bem conservada, patrimônio carioca desde 2003. A bem-composta passarela interliga o Santuário ao platô vizinho, de onde se pode alcançar a alameda que dá acesso ao hospital, mas já em um trecho mais elevado. Sob o seu arco, trespassa outra simpática alameda, que liga os fundos da Associação ao caminho que leva à entrada secundária do HSVP, na Rua Gonçalves Crespo quase defronte ao Instituto de Educação.

Mirante da Colina: a Tijuca e sua vista aérea, junto ao Corcovado e o restante do Maciço.

Uma caminhada matinal pelos jardins da Associação São Vicente de Paulo pode ser de um inestimável agrado àqueles que desfrutam dos passeios ao ar livre na Tijuca. E quem mantiver o fôlego e desejar alcançar o alto da Colina do Matoso, se depara com outra surpresa: a vista área da Tijuca, do Rio Comprido e da Cidade Nova fica parcialmente à mostra junto ao contorno do Maciço, enquadrando a extensão que vai do Corcovado ao Pico do Papagaio. Uma paisagem e tanta!

Agora, quem precisar de cuidados médicos, compartilho a notícia: em janeiro deste ano, o Hospital São Vicente de Paulo foi apontado como o melhor do Rio de Janeiro por meio de uma pesquisa anual promovida pela consultoria internacional AméricaEconomía Intelligence. A unidade tijucana foi a única do estado do Rio a ser ranqueada entre as melhores. O primeiro colocado da lista foi o Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.

Visita:
Rua Doutor Satamini 333 | Rua Gonçalves Crespo 430.

Missas:
Aos domingos: 08h30; 10h00; 18h00, com intenções comunitárias.
De segunda-feira a sexta-feira: 06h30.
Toda segunda-feira: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.
Aos sábados e feriados: 07h00.
Todo dia 27 de cada mês: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.

19 de fev. de 2016

Tijuca: o túnel, a fronteira final

As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Assim era caracterizada uma das tantas facetas da vida adolescente na Tijuca dos anos 1990 pelo repórter Paulo Reis. A reportagem "Tijuca: o túnel, a fronteira final", foi veiculada no fascículo B/Zine, do extinto Jornal do Brasil, no longínquo domingo 1 de agosto de 1993. Voltado para o público jovem, o B/Zine trazia matérias semanais sobre estilo de vida e comportamento numa linguagem claramente direcionada ao jovem leitor da Zona Sul.

Na matéria em questão, a Tijuca é sublinhada pelo repórter como um bairro "além-túnel", mas que mesmo assim é digno de importância. Entre os tantos motivos de "dignidade", fala sobre as bandas de rock do bairro e as músicas que, compostas e saídas daqui, se tornaram conhecidas Brasil afora (assim como seus autores). Aborda-se também a vocação musical do shopping center (hoje considerado uma galeria) localizado no número 229 da Rua Conde de Bonfim, onde funcionou a danceteria Mamute e hoje abriga uma filial da Igreja Maranata. Era lá onde funcionavam estúdios de gravação, lojas de instrumentos musicais, além da locadora Video Center, a "melhor" em aluguéis de vídeos, games e CDs, com as maiores novidades daquela época.

Já no finalzinho do artigo, comenta-se sobre a chegada do Mc Donald's na Tijuca, por volta de meados de 1993. Embora considerada uma lanchonete bacana para os padrões do início daquela década, o Mc Donald's enfrentou resistências do tijucano por sua nada velada preferência pelo Bob's. Isso se confirma na fala de João Emídio, adolescente de 15 anos, quando aponta que "o único defeito do Mc Donald's era não ter milk shake de ovomaltine", carro-chefe do Bob's até os dias atuais.

Embora esta reportagem provavelmente tenha sido escrita por um estagiário ou jornalista iniciante, dado o caráter juvenil do fanzine, há uma menção histórica importante ali: a que fala sobre os adesivos I'm Tijuca distribuídos pelo Mc Donald's no momento de sua inauguração na Barão de Mesquita. O adesivo é, sem sobra de dúvidas, uma peça rara, difícil de achar ou até mesmo comprar. Por outro lado, encontrei o dito cujo há alguns meses colado resistentemente ao vidro da janela de um apartamento na pequenina Rua Piracicaba, entre Visconde de Figueiredo e Conselheiro Zenha. Um verdadeiro exemplar do orgulho tijucano incorporado ao slogan imperialista do Mc Donald's. Raro. Veja esta edição do JB na íntegra aqui: https://news.google.com/newspapers?nid=0qX8s2k1IRwC&dat=19930801&printsec=frontpage&hl=pt-BR.

B/Zine, Jornal do Brasil, p. 10, 01/08/1993. 
Tijuca: o túnel, a fronteira final
Por Paulo Reis
Tem um túnel, o Rebouças. Ele é o elo perdido. De um lado, está a Lagoa, Ipanema, a Chaika, os shoppings e essas coisas que todo mundo conhece. Do outro lado, meu filho, está a Tijuca. Sabes lá o que é isso? Pois vamos explicar. Naquela imensa São Paulo, que começa na saída do Rebouças e sobe pelo Alto da Boa Vista, se esconde uma rapaziada pra lá de boa. Mas eu já sei, você não me engana. Já torceu o nariz e pensou: o máximo que pode sair da Tijuca é o Álvaro Valle. Caro amigo, você está desinformado. Não dá para esquecer que o peso-pesado do soul, Tim Maia, veio daquelas bandas. Que o Benjor inventou o sambalanço com guitarra lá. E que a Festa de Arromba do tremendão Erasmo e do Rei Roberto também foi por ali. Nos anos 80, a Tijuca botou no mundo um peixe pequeno do rock Brasil: Picassos Falsos. E Ed Motta ainda vive naquelas plagas. Acredita agora na importância da Tijuca, papudo? 
Ser tijucano é ser avant garde. É assim com Marcia Gonçalves, 28 anos, editora do fanzine BACKSTAGE. Respeitado no meio editorial, o zine tem all access em todos os grandes shows internacionais. Marcia acha que ser tijucano é muito bom. "Na Tijuca tem a melhor locadora de CDs e vídeos do Rio, a Video Center. Lá tem todas as novidades das lojas de fora. Só não existem lugares para shows de rock", fala Marcia. Ela sempre viveu na Tijuca e acha "muito muito legal não ser da zona sul". 
Se um skatista antes tinha que pegar o 415 para ir à pista do Rio Sul, hoje não precisa mais. O que não falta são picos para fazer manobras. Rodrigo Tavares, 14 anos, acha a Tijuca "muito irada, porque tem muita gente legal". Ele frequenta o point da Praça Xavier de Brito ou embaixo do viaduto do Maracanã. O grito de guerra é: "Maior cabeção. Tijucano até a morte!", avisa. 
Lá tem até estúdio. Os ex-Picassos Gustavo Corsi e Abilio Azambuja se juntaram ao Ivo Ricardo e fundaram o estúdio Pad e a loja Musix. Sabe onde? No shopping da antiga danceteria Mamute. Veja detalhes no texto abaixo. 
Estúdio, hambúrgueres, garotas: e o que você quer mais, amigão? 
Mas não é só de banda de garagem que vive o estúdio Pad. Tony Platão, Tânia Alves, Celso Blues Boy e a turma da Rio Sound Machine também ensaiam por lá. "A gente montou o estúdio porque tem muitas bandas aqui. E criamos a loja de instrumentos para facilidade de quem ensaia. Quando precisar de uma corda, é só atravessar o corredor", diz Gustavo. No futuro, os três músicos vão criar uma escola. "Três em um com garantia de qualidade", avisa Ivo. 
Cruzando pelo bairro, você dá de cara com o melhor sebo de quadrinhos da cidade, o Gibi Center, e também com a melhor loja de aluguel de CDs, a Video Center. Essa loja, que vive lotada, vende vídeos, games e CDs. Ana Elizabeth, uma das sócias, conta: "A loja atende em média 400 adolescentes por dia. São quase dez mil inscritos". Na loja de discos Sub Som, não é diferente. A gerente Inês diz que "o que mais sai são pesados e progressivos". 
As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Rafaela Stern, 10 anos, e Mariana Lang, 11, acham que "a Tijuca tem tudo e que ninguém precisa sair do bairro para se divertir. A não ser para ir à praia da Barra", dizem. 
Mas, então, o que falta na Tijuca? Uma "lanchonete que não seja poeira". Faltava, pois o Mc Donald's abriu há pouco mais de um mês e, para comemorar a data de inauguração, distribuiu um adesivo de carros com os dizeres: I'm Tijuca. Era só o que faltava. O exigente João Emídio, 15 anos, ainda quer mais. "O único defeito do Mc Donald's é não ter milk shake de ovomaltine", lembra, enquanto deixa escorrer a baba do sundae. Tijucano é assim mesmo. Nunca está satisfeito. 

18 de fev. de 2016

"Zimba", o teatro da Tijuca, é reinaugurado em grande estilo

Fachada do Zimba, na Avenida Heitor Beltrão: teatro foi reformado pela Secretaria Municipal de Cultura.

Após diversas idas e vindas nos seus quase 28 anos de existência, o Teatro Ziembinski foi finalmente reinaugurado ontem, 17 de fevereiro. A noite de gala começou a partir das 19 horas, quando o público convidado foi recebido por um coquetel servido pelos garçons do restaurante Otto. Holofotes discretos incidiam sobre a fachada do teatro, na Avenida Heitor Beltrão, e sobre o painel preenchido por logotipos da Prefeitura colocado no saguão.

A reforma do teatro, que ganhou novos assentos e palco, sistema de refrigeração e um café, nos fundos, virado para a Rua Urbano Duarte, foi toda custeada pela Secretaria Municipal de Cultura. Em 2015, foi divulgado um edital de ocupação do espaço pelo período inicial de dois anos. Licitação ganha, a partir de março, a nova residência artística do "Zimba" ficará a cargo da Opsis Soluções Culturais, gerida pelo casal Robson Sanchez e Monique Carvalho, presentes no evento. Marcelo Calero, jovem ex diplomata que agora ocupa o cargo de secretário, foi figura presente simpática em todo o evento.

Fernanda Torres durante o monólogo (Foto: Divulgação)
Às 20h25, a campainha soou e os convidados se direcionaram às dependências internas do Zimba. Por volta das 20h45, Fernanda Torres surgiu no palco encarnando a arisca senhorinha baiana criada por João Ubaldo Ribeiro na obra "A Casa dos Budas Ditosos" e adaptada para o teatro por Domingos de Oliveira. Em cartaz pela primeira vez na Tijuca, a platéia assistiu com atenção, em meio a risadas, a narrativa genial de peripécias sexuais evocada pela personagem, de 68 anos, notadamente feminista, esclarecida e progressista.

Quase duas horas transcorreram até o encerramento do espetáculo. Calero agradeceu a presença do público, mostrando em linhas gerais o "banho de loja" dado ao Zimba. Além disso, sublinhou a felicidade de estar podendo entregar um teatro como aquele à Tijuca, o bairro onde nasceu e foi criado. O ponto alto dessa conversa foi a reação quase imediata de Fernanda Torres, que também alegou ser tijucana e sócia do Tijuca Tênis Clube. Naturalmente, foi aplaudida com louvor.



A placa de reinauguração foi desvelada por Torres, Calero e Clara Becker, filha da atriz Cacilda Becker (1921-1969) e do ator Walmor Chagas (1930-2013), quem criou e inaugurou o Teatro Ziembinski em 6 de abril de 1988.

Segundo reportagem do Estadão, a cena cultural da Tijuca ficará ainda mais agitada. O Teatro Cesgranrio, cujo endereço não foi divulgado, será inaugurado ainda este ano na região num antigo auditório em reforma.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão, onde se situa o Teatro Ziembinski junto à estação do metrô.

A peça "A Casa dos Budas Ditosos" será reapresentada no Zimba na próxima quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016, às 20h30. Os ingressos serão vendidos de quarta para quinta no local (Rua Urbano Duarte 30, [21] 2254-5399, estação São Francisco Xavier do metrô).

11 de fev. de 2016

A Sede do America, na Rua Campos Sales 118: sem perspectivas favoráveis


Rua Campos Sales 118: o estado agonizante da antiga Sede do America Football Club

Ultimamente, caminhar pela Rua Campos Sales 118 deixou de ser um programa agradável. Entre as ruas Martins Pena e Gonçalves Crespo, jaz o que um dia foi um dos clubes mais importantes da Tijuca – quiçá da cidade do Rio de Janeiro: o America Football Club. A Sede foi interditada em julho de 2014 pelo Corpo de Bombeiros, seguida pela suspensão de todas as atividades de caráter social pelo presidente Léo Almada devido à falta de verbas para a manutenção das dependências do clube.

Desde então, muito se especulou sobre o futuro do prédio. Por parte da assessoria de imprensa do America, havia a promessa de que o espaço seria cedido a incorporadoras imobiliárias visando a construção de uma nova Sede. Além disso, boatos apontavam que junto à nova Sede, um shopping center seria incorporado ao local com o objetivo de arrecadar mais fundos para a sustentação do clube.

Gonçalves Crespo x Campos Sales: fachada deteriorada também enfeia a paisagem do bairro.

Passados quase dois anos, nada aconteceu e o prédio continua ali em estado cada vez mais calamitoso. No programa Bom Dia Rio, da TV Globo, moradores no entorno do clube denunciaram as piscinas abandonadas do America, filmando-as do alto de um edifício residencial na Rua Gonçalves Crespo. O panorama é assustador, uma vez que o pedestre não consegue ter ideia do que há por trás dos paredões depredados da Sede.

Uma das grandes preocupações neste momento é a de que as duas piscinas abandonadas do America funcionem como focos de reprodução do mosquito da dengue e zika. Até o dia 30 de janeiro deste ano, a Secretaria Municipal de Saúde já havia registrado 76 casos de suspeita de zika na área da Tijuca e Alto da Boa Vista contra 90 casos em toda a Zona Sul e 212 notificações no subúrbio da Leopoldina e Ilha do Governador.

30 de jan. de 2016

Na Rua Doutor Satamini, casarão dos anos 1920 volta a ser desocupado

Casario eclético da Rua Doutor Satamini na esquina de Professor Gabizo: desocupação e futuro incerto.

Apesar do alarde na imprensa, estes tempos de crise econômica não chegou a afetar tão negativamente o comércio da Tijuca. Mas, houve uma exceção: o Odorico Bar, que fechou suas portas recentemente no bairro. Comentários à parte sobre a qualidade e popularidade do estabelecimento, que, no último ano, vivia sem clientela, o que chama a atenção aqui é o imóvel ocupado pelo bar. 

Situado na esquina das ruas Doutor Satamini e Professor Gabizo (a uma quadra da Praça Afonso Pena), o Odorico foi um empreendimento bem-vindo à Tijuca não só por causa da sua bem-sucedida matriz ao lado cinema Estação Net Rio, em Botafogo, mas também porque reformou e resgatou um importante patrimônio tijucano.

Construído nos anos de 1920 em estilo eclético, o lindo casario passou décadas abandonado e à mercê da especulação imobiliária, que por pouco não forçou sua demolição. Segundo informações do Jornal O Globo, de 11 de agosto de 2005, a prefeitura havia tombado naquele ano o imóvel por recomendação do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro.

A crise parece ter afetado igualmente a matriz de Botafogo, também fechada há pouco tempo. O espaço diminuto onde o Odorico Bar funcionava na Rua Voluntários da Pátria já deu lugar a outro empreendimento comercial, mas, na Tijuca, o destino do imóvel ainda é incerto. Por tratar-se de um espaço relativamente grande e com limitações técnicas por ser Patrimônio, a manutenção é possivelmente custosa. Em suma, uma "boutique em ponto fraco". Esperamos que não volte a ser abandonado.

21 de jan. de 2016

Linha 413 vira 213 ao ser limada das ruas da Zona Sul

Linha 413: lataria dos anos 1990 é recordada com nostalgia

Na segunda etapa da operação que reorganizou os ônibus que circulam na Zona Sul do Rio, acabou sobrando para a nossa linha 413 (Muda-Jardim de Alah). Com a implantação das “troncais”, como estão sendo chamadas as novas linhas que ligam a Zona Sul ao Centro, a Prefeitura seccionou o itinerário de três linhas que saíam da Zona Norte. O objetivo foi conferir maior "racionalização" ao sistema de ônibus carioca.

Desde o início de janeiro de 2016, a linha 413, uma das afetadas, circula apenas entre a Muda e o Castelo, no Centro, onde o passageiro é obrigado a fazer baldeação caso deseje seguir até o Jardim de Alah. A mudança impactou até mesmo na numeração da linha, que passa a ser atendida de agora em diante por 213.

Operada pela Auto Viação Alpha, a linha 413 era uma das mais tradicionais da Tijuca. Originalmente, circulava apenas entre a Muda e Copacabana, tendo seu itinerário estendido até a entrada do Leblon por volta de 2010. Com a reorganização do sistema, a Linha 413, ao invés de seguir a Avenida Rio Branco rumo ao Aterro, passa a fazer o retorno na Avenida Presidente Antônio Carlos de volta à região da Muda.


Conde de Bonfim continua sem opções de ônibus via Rebouças

Muito embora o plano de racionalização das linhas de ônibus tenha mantido as linhas 415 (Leblon-Usina) e 426 (Jardim de Alah-Usina), é consenso entre os estudiosos de mobilidade urbana que se perdeu uma grande oportunidade de rever a eficiência dos itinerários afetados ao invés de simplesmente seccioná-los. Um bom exemplo disto é esta linha, a 413, cujo itinerário poderia ter sido transferido para o Túnel Rebouças.

Essa rota alternativa conseguiria oferecer uma opção inédita de coletivo que percorresse grande parte da Rua Conde de Bonfim rumo à Zona Sul via Rebouças, distância mais curta e mais eficiente do que a antiga, via Centro e Aterro do Flamengo. Atualmente, não existem ônibus que façam tal trajeto, com exceção da Linha 416, que circula apenas nos dias de semana em horário comercial, tendo como destino final o Horto do Jardim Botânico.

Além disso, é válido destacar que, aqui na Tijuca, já existem diversas linhas de ônibus que vão para o Centro, sem mencionar as quatro estações do metrô. Neste sentido, a criação da Linha 213 é redundante, sem trazer benefícios mais efetivos ao nosso bairro.

14 de jan. de 2016

Com tijucano não se brinca

Artur Xexéo (Reprodução: Internet)
Em 2002, o jornalista Artur Xexéo provocou a discórdia entre os tijucanos ao publicar em sua coluna do Jornal O Globo certa hipérbole quanto à criminalidade que assolava o bairro:

[...] Dizem que vivemos numa guerra civil. Não é bem assim. Numa guerra civil, como em qualquer guerra, sempre há a possibilidade de um armistício. Ou de a guerra acabar. Mas qual é a chance de o conflito que envolve cidadãos do Rio de Janeiro ter um fim? No Rio, só se vai a festas com a garantia de segurança. Ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficante de um dos morros que cercam a Tijuca. 
XEXÉO, Artur. Vivendo numa cidade entregue a Deus. Festa com comboio protegido por seguranças? Está ficando cada vez mais difícil ser carioca. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 28 ago. 2002.

Para quem não se lembra do contexto da época, um refresco:


O Globo, 20 ago. 2002
Naquela época, a Tijuca viveu episódios violentos de grande repercussão por causa da disputa pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Só em agosto de 2002, o comércio do bairro foi fechado duas vezes a mando dos líderes de facções criminosas presentes nas favelas da região. No dia 20, os comerciantes da Praça Saens Peña foram obrigados a paralisar suas atividades em luto forçado por traficante do Morro do Salgueiro morto pela PM. Dez dias antes, foi a vez das lojas da Muda e Usina, entre as ruas Medeiros Pássaro e Uruguai, baixarem suas portas por condolências a outro criminoso morto durante tiroteio com policiais no Morro da Formiga.

Assaltos, arrastões e balas perdidas também fizeram parte do cenário do bairro por pelo menos uma década. No entanto, para os tijucanos, a imprensa era injusta ao noticiar tais fatos de violência como peculiares unicamente à Tijuca, e não à cidade como um todo. Por muitos anos, ficamos estigmatizados como o único "bairro do perigo" na cidade - também chamavam-nos de "bairro decadente" - por culpa da opinião pública. Xexéo não ficou imune às críticas dos tijucanos, que, bairristas, trataram de defender seu torrão. Os depoimentos foram gentilmente publicados na coluna da semana seguinte:

[...] Acho que exagerei. Outro dia escrevi aqui que "ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficantes de um dos morros que cercam a Tijuca". As queixas não tardaram. "Desta vez você falou besteira. A despeito da barbárie que isso significa, aconteceu apenas uma vez", assinala Paulo Roberto Granja. 
"Nós, moradores deste bairro, não temos conhecimento de que uma vez por semana o comércio da Praça Saens Peña fecha. Só se é aos domingos! Fique sabendo que esta foi a primeira vez que isto aconteceu. De outra vez foi na Rua Conde de Bonfim, perto do Borel, e não em toda a Conde de Bonfim como pensa quem lê os jornais. Seria interessante que você viesse ao nosso bairro que é tão violento quanto qualquer outro do Rio ou de outras cidades do Brasil, mesmo acompanhado de seguranças para sua maior tranquilidade, para comprovar que as pessoas aqui levam uma vida normal, andam de ônibus, vão às lojas, aos shoppings e, logicamente, saem menos à noite como em todos os demais bairros. Parece que só aqui existe violência, mas leio diariamente notícias sobre assaltos e outros crimes em vários bairros como Botafogo, Barra, Recreio, Copacabana, embora a imprensa não dá o mesmo destaque", reclama Eugenia Szoor. 
"Como o senhor pode dizer uma coisa dessas? Só porque ouviu nas duas últimas semanas essa notícia, já condenou a Tijuca para o ano inteiro? O senhor sabe muito bem quais são os cariocas mais bairristas do Rio: os moradores da Ilha do Governador, os tijucanos e, apesar de tecnicamente não serem do Rio, os icaraienses. Então, como tijucano, solicito que esclareça em sua coluna que não foi bem isso o que queria dizer", exige Roberto Oliveira. Moral da história: com tijucano não se brinca. Portanto, não foi bem isso o que eu queria dizer.

XEXÉO, Artur. Os excluídos do cabelo duro. Como não dormir de touca e enfrentar tijucanos ofendidos. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 1 set. 2002.

Segundo Caderno, O Globo, 1o set. 2002.

Os e-mails e cartas não pararam, fazendo com que o assunto rendesse por mais de duas semanas. Xexéo reservou parte de sua coluna do dia 8 de setembro de 2002 para publicar, daquela vez, o relato de um tijucano que, diferentemente dos outros, ratificava a perspectiva levantada pelo jornalista no estopim da história. O título dessa coluna era sugestivo, "Entre tijucanos e insulanos", trazendo, ainda, comentários sobre o então recém-lançado filme "Cidade de Deus":

A Tijuca é mesmo uma caixinha de surpresas. Foi só eu voltar atrás e acabar admitindo que o bairro não é tão violento quanto pintam, para aparecerem os tijucanos que não acham nada disso, muito pelo contrário. Fala que eu te escuto, Reynaldo Tavares: 
"Desculpe-me abordá-lo com um tema já comentado, porém, como tijucano, com dois filhos no Colégio Marista São José, praticantes de esportes no Tijuca Tênis Clube e que estudam inglês também no bairro, quero dizer que não posso entender a posição de avestruz tomada por meus vizinhos e citada por você em sua coluna de domingo, pois tudo que você escreveu ainda é pouco para descrever o calvário em que vivemos no bairro. Quando dizem que a vida está normal pois continuam andando de ônibus, eu digo: e sendo assaltados! A Praça Saenz Peña é, sim, uma praça de guerra até o anoitecer, pois no acender das primeiras luzes é tomada por ambulantes agressivos e protegidos por algum tipo de poder paralelo, pois nada os assusta nem lhes causa respeito. Você não aumentou nada. O inferno é aqui e agora". 
Vocês são tijucanos, vocês que se entendam. Eu tô fora. No Bairro Peixoto. 
XEXÉO, Artur. Entre tijucanos e insulanos. Uma galinha no caminho da crítica a 'Cidade de Deus'. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 8 set. 2002.

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Opinião de O PASSEADOR TIJUCANO:

O que vou falar não é novidade para nenhum tijucano, mas apenas a confirmação - somos bairristas e contraditórios. Apesar da violência ter atingido toda a cidade, de 1990 a 2007 a Tijuca foi o bairro de classe média do Rio de Janeiro mais simbolicamente atingido pela falta de segurança pública. O depoimento da primeira leva de leitores reflete a principal faceta do tijucano, a de que só quem tem o direito de falar mal ou de se referir negativamente à Tijuca são seus próprios moradores. Todas as informações que, porventura, firam a imagem do bairro são atenuadas e contra-argumentadas por meio de suas palavras. Isso fica muito claro.

O leitor da última coluna, que corrobora com a perspectiva de Xexéo, aprofundando-a conforme sua experiência enquanto espectador (e participante) desse cenário, já representa o time dos bairristas "lúcidos". Observem que antes de dar o recado, Reynaldo Tavares enumera todas os hábitos que o legitimam como um "verdadeiro tijucano" para aí, sim, criticar aquele território onde está inserido e que o pertence.

De todas as formas, Xexéo estava certo: com tijucano não se brinca.

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Feliz 2016!

27 de dez. de 2015

Praça Hans Klussman


A imaginação das crianças é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com base nessa concepção que o professor Paulo de Tarso, morador da Rua Sabóia Lima, recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann um verdadeiro recanto de fantasias. Aliás, mais do que um professor, Paulo de Tarso é um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro assim como do reino animal.

Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos de 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos no bairro de como urbe e natureza se conectam e, portanto, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam o local (um bom repelente já resolve esta questão), o alto da Rua Sabóia Lima oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde podem ser observadas as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa; do outro, um jacaré.

Foi neste momento em que tive a percepção de não estar vendo tudo o que de fato existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, além de uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde: os animais, cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade.



Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klussmann ganhou um colorido todo especial, mas que, paralelamente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou de qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças pensam da ilusão ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são "interagíves", no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e, dessa maneira, fantasiar um passeio pelo deserto - por exemplo.



Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, contribuindo para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda forma um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, que fica no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar diante do espaço em que estamos inseridos.

Num mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade - gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho.


Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados em suas leituras. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós, e, em outro rincão, um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klussmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul – e, à noite, estrelado – da nossa natureza. A nossa real natureza.

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Texto publicado em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 10 de agosto de 2013.

21 de dez. de 2015

Rua Conde de Bonfim: o coração da Tijuca

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

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