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2 de jul. de 2017

Rua Coronel Aristarco Pessoa & Rua Rocha Miranda

Panorama da Rua Rocha Miranda, em primeiro plano, e da Rua Coronel Aristarco Pessoa, em segundo

Já se vão pouco mais de seis décadas desde que uma das mais simpáticas ruas da Usina, a Itabira, passava a ser oficialmente denominada como Coronel Aristarco Pessoa em tributo àquele comandante do corpo de bombeiros do antigo Distrito Federal brasileiro. O ano era 1951; mês, agosto (1).

Desde então, muita água rolou.

A Usina perdeu representatividade na cartografia e no imaginário carioca, salvo pela sua presença nos letreiros de alguns ônibus que circulam pelo Rio. Já não é mais caminho dos bondes que subiam o Alto da Boa Vista, embora ainda seja possível avistar os seus antigos trilhos interrompidos por algum ou outro pedaço de calçada colocado por cima. Já não tem mais a grande elite como classe majoritária, mas as belíssimas residências construídas por esses nobres e burgueses de outrora continuam por lá, paradinhas no tempo, imponentes.

Para quem não conhece, a Coronel Aristarco Pessoa é uma ruazinha estritamente residencial localizada próxima ao Largo da Usina. Os tradicionais fuscas-táxis, que só existem na Usina (note bem: em todo o Rio de Janeiro, eles permaneceram apenas na Usina!), fazem ponto justo ali, na esquina desta com a Avenida Edson Passos. As mototáxis também marcam presença no local e, junto a esses fusquinhas, representam uma opção alternativa e econômica para quem não pretende subir a pé as grandes ladeiras da região. É preciso fôlego. A Rua Rocha Miranda, transversal e vizinha à Rua Coronel Aristarco Pessoa, que o diga. Ambas as ruas se contrastam nestes termos: enquanto naquela impera a ladeira, a outra se apresenta por meio de um suave declive, dando as boas-vindas a quem lhe acessa pelo Largo da Usina.

Vista exuberante para o Maciço da Tijuca

O fusca-táxi da Usina: patrimônio carioca

Bucolismo à Rua Coronel Aristarco Pessoa.

A principal qualidade desta região, eu diria, é a quantidade de verde. Não é preciso ir ao topo da Rua Rocha Miranda para se desfrutar de uma vista tímida, mas espetacular das montanhas da Usina. Para quem não se simpatiza com as favelas, elas não aparecem no cenário – apenas muitas árvores, rochas, árvores, árvores e mais árvores estão enquadrados naquele panorama, portanto, belíssimo da Zona Norte. Em épocas de maior umidade e de baixas temperaturas, chega-se a ver até mesmo o deslize da água das chuvas escoando pelas rochas. Uma das visões mais emblemáticas, restauradoras e agradáveis deste trecho da Tijuca.

Aqui, abro um rápido parêntese para endossar que o clima bucólico e ligeiramente conservador de ambos os logradouros é exatamente verossímil às impressões de Joel Silveira, repórter da Revista O Cruzeiro (24 jul. 1943), sobre o nosso bairro:

"A Tijuca é assim como uma velha família mineira: tudo no seu passado é limpo, tudo no presente é claro sem discussões. Os homens ganham tranquila e honestamente a vida. Há os mesmos retratos de anos atrás na sala de visitas, a mesma cadeira de balanço de jacarandá, onde avós de ontem repousaram e onde os netos de hoje brincam de cavalo".

Nas ruas Coronel Aristarco Pessoa e Rocha Miranda, o estilo da arquitetura transparece muito bem esse jeito ancião dos confins da Tijuca ainda resistente neste princípio de século XXI. Tem-se, ali, a fisionomia clássica da casa dos avós, cujos filhos e netos devem passar apenas como visitas porque provável e decididamente preferem residir em cantos menos provincianos do que estes. Contudo, há um elemento moderno destoante nesta paisagem tão tradicionalista: um campo de paintball. A entrada sóbria para o campo do Paintball Usina não se compara, entretanto, ao intemperante comportamento das crianças e adolescentes que, efusivos, visitam o local.

Zona estritamente residencial na subida do Alto da Boa Vista

Rua Rocha Miranda

O trecho final da Rua Coronel Aristarco Pessoa

Voltando à Rua Coronel Aristarco Pessoa, dirijo-me ao seu final, que dá para um muro coberto por plantas. Não há saída. Tudo é muito silencioso, exceto pelo ruído mais ou menos intermitente do motor berrante dos fuscas e das mototáxis. E dos entregadores de pizza, também. E em meio a tantas casas, a única construção mais verticalizada e multifamiliar fica ali, no final da rua, o prédio de número 203. O clima de aconchego da vizinhança não se perde com ele; pelo contrário. O jardim que margeia a portaria é de uma simplicidade bela e suficiente para ornar ainda mais toda aquela Mata Atlântica que abraça tanto a rua, como o vale da Usina da Tijuca. Tudo está em aparente equilíbrio.


RUA ROCHA MIRANDA 53: A CASA ZUZU ANGEL

É destaque no local o imóvel situado à Rua Rocha Miranda 53, mais conhecido pela alcunha de “Casa Zuzu Angel”. Original do início do século XX, ele está para a Rua Rocha Miranda assim como o Edifício Cibrasil está para a Rua Professor Lafayette Côrtes, n’outro extremo do bairro da Tijuca. A imponente casa é propriedade da jornalista Hildegard Angel, filha da famosa e mitológica estilista Zuzu Angel, quem leva o nome da iniciativa lançada pela proprietária para transformar o local no futuro Museu da Moda.

A imponente casa da jornalista Hildegard Angel, à Rua Rocha Miranda 53: joia da arquitetura tijucana.

O imóvel possui estilo eclético com sala rococó, salas, banheiros, corredores e cozinha com azulejos de várias épocas e estilos nos quais predomina o art nouveau. Segundo informações institucionais fornecidas pela Casa Zuzu Angel, “seu belíssimo jardim e pátio externo já receberam personalidades da moda como Oscar de la Renta e Hubert de Givenchy”. A casa é uma das tantas joias arquitetônicas da Tijuca e passa por um projeto de restauro desde 2014. Paralelamente, abriga o acervo da falecida estilista e encontros mensais com pesquisadores, profissionais e interessados em compartilhar conhecimento e reflexões sobre pesquisas relacionadas a acervos, memória e patrimônio de moda no Brasil.

Os muitos e místicos rococós: a casa data do final do século XIX

Detalhe dos variados azulejos

De acordo com reportagem veiculada no caderno "Tijuca", de O Globo, em 1989 (18 jul.), Hildegard Angel afirmou ter comprado a casa em mau estado de conservação em meados daquela década e não poupou esforços para remodelá-la. Dentro do imóvel havia pelo menos três grandes vitrais não muito bem preservados, tendo um deles aproximadamente 10 metros quadrados. Com fins de recuperá-los, a jornalista contratou o mesmo restaurador de vitrais que, tempos antes, havia remodelado os vitrais da paróquia Bom Pastor, aqui mesmo no bairro. Na matéria, Hildegard comenta que o vitral "emprestava um ar místico à casa", aspecto que já se percebe na própria fachada pomposa e cheia de elementos religiosos.

A fachada, aliás, por si só já é um deleite para os pedestres que, direto do espaço público, podem contemplar tamanha beleza à espera, um dia, quem sabe, de convite para uma xícara de café. Um dedinho só de café, ali no jardim, junto à quaresmeira, vendo esses vitrais de perto, fotografando cada detalhe, cada centímetro dos azulejos. Um dia, quem sabe, adoraria, não seria muito incômodo, em nome da Tijuca, em prol dela... (Enquanto a casa ainda não se torna aberta ao público, resta-nos conhecê-la - e seu projeto por inteiro - por meio da Astorga Arquitetura e Restauração, encarregada de remodelá-la: https://www.astorgaarquitetura.com/casa-zuzu-angel).

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(1) Diário de Notícias (O Matutino de Maior Tiragem do Distrito Federal), quarta-feira, 1º ago. 1951, p. 3:

CEL. ARISTARCO PESSOA - No próximo sábado, às 10 horas, serão substituídas as antigas placas da rua Itabira, na Tijuca, há pouco denominada rua Coronel Aristarco Pessoa, numa homenagem da Municipalidade carioca ao antigo comandante do Corpo de Bombeiros. O ato contará com a presença de amigos do antigo comandante, do prefeito João Carlos Vital e do atual dirigente do Corpo de Bombeiros, coronel Sadock de Sá.

25 de jul. de 2016

A Barra nunca esteve tão longe da Tijuca: os problemas das linhas 301, 302 e 345

Linha 302, na Rua Doutor Satamini: os muitos problemas da conexão entre a Tijuca e a Barra via ônibus.

Da Barra para a Tijuca, da Tijuca para a Barra: deslocar-se entre esses dois lugares em transporte público nunca foi tão caótico. Famosa “extensão” da Tijuca até os anos 1980, a Barra hoje vive a sua epopeia no campo da mobilidade urbana com a chegada do metrô ao Jardim Oceânico e a implantação do Bus Rapid Transit (BRT) na Avenida das Américas. Mas, parece que quanto mais próxima a Barra vai ficando da Zona Sul e do Centro, mais distante ela fica da Tijuca. E não se trata de uma mudança geográfica (pois isto seria impossível): é o sucateamento das linhas de ônibus que ligam a Tijuca à Barra o motivo de tal percepção.

Atualmente, existem três itinerários que fazem esse trajeto: 301 (Rodoviária x Barra da Tijuca, via Américas), 302 (Rodoviária x Barra da Tijuca, via Praia) e 345 (Candelária x Barra da Tijuca). Todas essas linhas circulam pelo eixo viário da Tijuca rumo à Barra, passando pelo Alto da Boa Vista. Mas, desde 2011, a queda na qualidade do serviço tem sido notória e gradativa. Os frescões foram substituídos por veículos não refrigerados e, em muitas das vezes, parecidos a carroças. Muitos usuários afirmam que o motor não é potente o bastante para subir o Alto, causando transtornos à fluidez do tráfego na Avenida Edson Passos:

— Eu pego as linhas 301 e 345 diariamente e posso afirmar que é uma vergonha o que fazem com os passageiros. Todos os dias vejo ônibus enguiçados devido às péssimas manutenções nos ônibus que já deveriam ter virado sucatas. Sobem o Alto da Boa Vista mais lentos que uma bicicleta, e descem a toda para recuperar o tempo perdido. Já estive em dois ônibus que perderam o freio, mas a sorte é que um deles perdeu logo depois da descida e bateu devagar no ônibus da frente, quebrando todo o vidro mesmo assim – relatou Julio Cesar Camarate, morador da Praça Afonso Pena.

As péssimas condições de viagem também se confirmam no depoimento da gaúcha Fernanda Teodoro. Radicada na Usina, Fernanda é jornalista e vai diariamente ao Barra Shopping, onde trabalha, sempre por volta das 8 horas da manhã. Para ela, o agravante tem sido a diminuição da frequência dessas linhas no horário de rush, cujo intervalo pode chegar a quase meia hora de espera no ponto de ônibus. Dessa maneira, os veículos partem lotados da Tijuca em viagem não muito confortável dada a sinuosidade da estrada e as más condições de higiene no interior dos carros. Além disso, Fernanda destaca a má conduta dos motoristas como aspecto ainda mais desfavorável:

— Um dia o motorista bateu em outro ônibus ao dar marcha a ré no Terminal Alvorada, quebrando umas três janelas de vidro. O que você acha que o motorista fez? Seguiu viagem com os cacos de vidro em toda parte traseira! Por que não trocou já que ainda estava na Alvorada?


Nos anos 1990, a Auto Viação Tijuca chegou a oferecer linhas de ônibus especiais entre
a Saenz Peña e o Barra Shopping. Fonte: Cia de Ônibus.

Até 2011, também era possível viajar até a Barra (e vice-versa) nestes veículos refrigerados.
As mudanças datam do período de transição regulatória do serviço de ônibus no Rio,
com a criação dos consórcios.

O tijucano Alejandro Sainz de Vicuña, por sua vez, ressalta o não cumprimento dos itinerários sem aviso institucional prévio aos passageiros. Vicuña trabalha na região da Barrinha, trajeto considerado “fora de mão” pelos motoristas já que fica em sentido contrário à alça de acesso da Avenida das Américas:

— A linha 302, agora, é a única que entra na Barrinha. Para piorar, de noite, na Barrinha vazia, muitos motoristas seguem direto para o Itanhangá, deixando quem está no ponto de ônibus da Barrinha esperando feito trouxa. De dia isso acontece também. Arrisco a dizer que ocorre em mais de 50% das vezes. Em muitas delas, estou indo para o trabalho e o motorista grita aos passageiros: “Alguém vai para a Barrinha?”. Se ninguém disser que vai, ele não entra e deixa todo mundo que está lá no ponto esperando ainda mais.

Vicuña ainda problematiza ao lembrar dos turistas que vêm à Tijuca de metrô como meio de se chegar à Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista, em transporte público:

— Tomo o ônibus na Conde de Bonfim, na altura da Rua Henry Ford. A sinalização do ponto é antiga, deve ter mais de uma década, pois a numeração dos ônibus já mudou duas vezes e a mesma sinalização continua lá, confundindo quem não está acostumado a tomar ônibus ali e turistas. Sim, muitos turistas que vão visitar a Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista, não conseguem sequer saber onde tomar o ônibus. E, volta e meia, os motoristas, como de costume, passam direto quando fazemos sinal – pontuou.


Linha Afonso Pena x Barra, criada em 2013, foi extinta sem maiores explicações ao público

Outro motivo aparente para a queda na qualidade do serviço se deve ao monopólio da Auto Viação Tijuca. A falta de linhas concorrentes justifica a precarização do serviço oferecido pela “Tijuquinha”, que já procurou qualificar-se recentemente. Com fins de atender a população do Alto da Boa Vista, a Secretaria Municipal de Transportes lançou em 2013 a Linha Especial Coletora de Dados (LECD6) Praça Afonso Pena x Barra. A empreitada surgiu como uma forma de se experimentar a eficiência de um novo itinerário, mais otimizado, entre a Tijuca e a Barra. Contudo, a LECD6 foi extinta no início de 2015 sem maiores explicações à comunidade.

Com a inauguração do BRT e da Linha Quatro do metrô, é provável que os tijucanos passem a ouvir campanhas institucionais orientando-nos a usar o metrô até Ipanema e, de lá, até o Jardim Oceânico. Para o tijucano Fred Rocha, morador da Afonso Pena, a solução é inviável:

— Vão dizer “ah, agora tem o metrô”. Não, infelizmente o metrô não vai atender o trajeto Tijuca-Barra. A Linha Quatro vai ser apenas para estabelecer a relação da Barra com a Zona Sul – opina ele, quem considera “surreal” o trajeto da Tijuca à Barra via metrô.

* O passeador tijucano agradece a contribuição de Gabriel Reis, Jailson Pontes, Julio Cesar Camarte, Vanessa JM, Alejandro Sainz de Vicuña, Fred Rocha, Diego Carrara Bacellar e Diogo Belart.

4 de mai. de 2015

Usina, oásis e tradição na Tijuca

A Conde de Bonfim, na Usina: mais perto da Floresta.
A Usina sofre de uma espécie de rejeição calamitosa: suas ruas são desertas, aparentemente relegadas pelos pedestres, que, com exceção dos poucos moradores dali, circulam somente a bordo de seus carros rumo ao Alto da Boa Vista ou à Praça Saenz Peña. Grande pecado: além de ser uma das regiões mais bucólicas e agradáveis do nosso bairro, a Usina é também o local onde a Tijuca mostra com rigor a sua tradição e simbolismo histórico no contexto da cidade do Rio de Janeiro. Explico-me.

Uns desses primeiros indícios estão na Rua São Rafael, ruazinha pequena entre as ruas São Miguel e Conde de Bonfim. Chama a atenção por ali o conjunto de resistentes casas centenárias, bem de frente para a Avenida Maracanã. Os janelões frontais e os emblemas no topo da fachada estão preservados e remetem o pedestre a uma Tijuca pacata e aristocrática, mais conhecida por suas “benesses” serranas do que por sua intensa urbanidade como é hoje observada. O estilo da arquitetura e a ambiência local favorecem a imaginação: que famílias terão vivido lá? No lado de dentro, o que se preservou?

Um passo adiante, ainda na Rua São Rafael, é possível deparar-se com o córrego do Rio Maracanã perpassando, a alguns metros de profundidade, uma série de casas deterioradas. Nesse panorama, cabe destacar o estado límpido da água, que transcorre entre pedras e pequenas vegetações. Como essa região é um aclive – afinal, é a subida para a Floresta –, a água do Rio Maracanã ganha força e, em alguns trechos observáveis, tem um aspecto de riacho que ecoa um relaxante barulhinho por toda a bucólica Rua São Rafael.

Rua São Rafael: janelas frontais e emblemas no topo da fachada remetem ao século XIX.


O muro mais do que centenário da Rua São Rafael: placa remete ao ano de 1895.

No entanto, não era apenas este detalhe que eu queria lhes comentar. A vista para o Rio Maracanã é protegida por uma mureta de pedra que existe em ambos os lados da rua. Até aí, nada de demais – eu estaria falando apenas de um muro qualquer se não fosse o que há preso a este muro, algo que lhe dá uma importância extraordinária: uma placa aparafusada com o ano de “1895”. É bem capaz de que até os próprios moradores da região sequer tenham notado de que se trata de um muro centenário cuja placa – desde já, patrimônio nobilíssimo desta cidade – jaz sem nenhum tipo de aclamação.


Armazém do Loureiro: mercearia desde os anos 1930 na São Rafael com Conde de Bonfim.

Na esquina da Rua São Rafael com a Rua Conde de Bonfim, outra perseverante joia arquitetônica: o Armazém do Loureiro. Negócio familiar, inaugurado nos anos de 1930 pelo português “Seu” Loureiro, o armazém é uma espécie de mercearia que, até pouco tempo, era bastante resistente e alternativo frente à hegemonia dos supermercados. Segundo O Globo, de 22 de dezembro de 1987, o Armazém Loureiro era o local de compras preferido dos moradores da Usina por causa da qualidade dos produtos vendidos, como arroz, feijão, bacalhau, sardinhas portuguesas, vinho alemão e do Porto, uísque escocês, champanhe francesa, entre outros. A tradição do local é tanta que por muitos anos foram adeptos da venda a fiado, com caderninho e tudo para anotar as despesas de cada freguês.

Resquício dos trilhos dos bondes no Largo da Usina

Rua Rocha Miranda, na divisa com o Alto: residências espaçosas em local aprazível.
Outro casario remanescente de outrora, na Conde de Bonfim: à esquerda, a Herbert Ritchers.

Edifício Jequitibá: modernismo na Conde de Bonfim.
No Largo da Usina, os trilhos dos bondes ainda permanecem à mostra, como se pudessem voltar a ser utilizados a qualquer momento tal qual antigamente, quando a Usina, na verdade, era uma usina termoelétrica que gerava energia para esse meio de transporte. O Largo continua sendo um marco da região, na divisa entre a Tijuca e o Alto da Boa Vista, cujas ruas transversais ainda resguardam os signos de nobreza e sofisticação do bairro, como a Rua Rocha Miranda, ao passo que outras, mesmo assoladas pela decadência, ainda preservam o aspecto familiar e de calmaria, como o das ruas próximas ao Hospital da Ordem Terceira da Penitência.

Outro trecho interessante da Usina está na Rua Conde de Bonfim entre os números 1325 e 1337. No primeiro número, temos o Edifício Jequitibá, um belíssimo residencial modernista que se destaca na paisagem da rua com seus azulejos que remetem à obra de Athos Bulcão e as janelas venezianas que deslizam pela fachada. Ao lado desse edifício, outro marco da Usina: o imóvel onde funcionava a Herbert Ritchers, um dos estúdios de dublagem mais famosos do Brasil, falido em 2009. Abandonado, há uma vegetação crescente pela fachada, que há tempos já não deixa mais à vista o letreiro do derradeiro estúdio. E, por fim, nos números 1335 e 1337, vê-se mais um conjunto de casas centenárias intactas, que continuam preservando a história da Usina assim como as vizinhas na Rua São Rafael.

O que mostrei se trata apenas de um resumo das surpresas e detalhes que a Usina resguarda, esse pedacinho da Tijuca, por vezes, tão maltratado e pouco desfrutado pelos tijucanos. As fotos dão um destaque à beleza local: entende, agora, caro leitor, por que a Usina merece ser “passeada”?

8 de fev. de 2015

Avenida Edson Passos: ex-avenida Tijuca

Avenida Tijuca (1938-1940)

Quem sobe de carro o Alto da Boa Vista nem sequer imagina que, no acesso à Estrada Velha da Tijuca, próximo ao retorno subterrâneo em direção ao Montanha Clube e a Usina, é possível encontrar um nobilíssimo patrimônio da cidade do Rio de Janeiro: a placa de inauguração da antiga Avenida Tijuca, atual Avenida Edson Passos.

Segundo informações da própria placa, as obras de criação e pavimentação ocorreram entre os anos de 1938 e 1940 durante a administração municipal de Henrique Dodsworth em pleno Estado Novo de Getúlio Vargas. Foi somente em 1954 quando a via passou a chamar-se Avenida Edson Passos, em tributo ao engenheiro falecido em 10 de junho daquele ano.

Passos foi Secretário de Viação e Obras Públicas do Distrito Federal de 1937 a 1945 e participou não só da abertura da Avenida Tijuca, assim como a das avenidas Brasil e Presidente Vargas e do projeto de duplicação de túneis como o do Leme e o do Pasmado. Foi, portanto, uma figura simbólica nas reformas urbanas viárias do Rio em meados do século XX.

25 de ago. de 2014

O bucolismo em meio à Conde de Bonfim

A Tijuca é mesmo um bairro de surpresas. Caótico em virtude do progresso e da verticalização acentuada, este ainda resguarda certas paisagens e detalhes capazes de deixar atônito qualquer turista ou pedestre desatento. Um bueiro histórico, o detalhe arquitetônico de renome, os trilhos do bonde sufocados pela camada espessa de asfalto, um panorama mais bucólico em meio à urbe: a Tijuca é mestre em surpresas. Veja este vídeo, por exemplo:



À primeira vista, poderíamos supor que tal cenário corresponderia a qualquer cantinho verdejante, de natureza pulsante, do Alto da Boa Vista. Uma corrente d'água assim, tão limpinha, não combina nem um pouco com o espírito pra lá de babélico da Rua Conde de Bonfim. Pois é, esse trecho do Rio Maracanã, que desce o Alto e perpassa a Conde de Bonfim rumo à Avenida Maracanã, é um oásis de tranquilidade na Usina, por onde estava passeando e gravei esse vídeo.

Por ali, na altura do número 1328, há uma mureta no lado par da calçada que divide o rio em relação às pistas da Conde de Bonfim e, por conseguinte, ao outro lado da calçada, dotado de condomínios e prédios modernistas, como esse em evidência. Adorável...

10 de jul. de 2014

Maracaí, Saens Peña, e outras memórias afetivas de ônibus

Linha 221 (Maracaí x Praça XV): extinta no ano 2000. Foto: Companhia de Ônibus.

Dia desses, esperava um ônibus na Rua São Francisco Xavier, bem naquele ponto em frente à Escola Orsina da Fonseca, quando observei a placa que informava as linhas que paravam ali. Aproximei-me, analisando-a atento, pois o semblante era de surpresa ao perceber que a extinta linha 221 ainda constava na tal sinalização. 221! Quem se lembra dessa linha, Maracaí x Praça XV, que deixou de circular pelo bairro no início dos anos 2000?

Para quem não sabe, Maracaí é o nome de uma estradinha no Alto da Boa Vista já quase nas imediações de São Conrado, na Zona Sul. Tal linha, operada pela Auto Viação Tijuca (vulgo Tijuquinha), era a única cujo itinerário contemplava a Rua Mariz e Barros rumo à Usina (sim, não há mais linhas na Mariz e Barros que passem pela Usina).

Bateu uma onda nostálgica após esse encontro inesperado com uma placa – presto muita atenção em placas, diga-se de passagem. Recordei imediatamente as antigas pinturas que existiam nas latarias dos veículos, abolidas em 2010 com a padronização de cores por consórcios. É bem verdade que o sistema ficou mais organizado. Por outro lado, esquecemo-nos de que os ônibus, por mais odiosos que sejam no contexto do Rio, também têm o seu lado afetivo na vida dos cariocas.

Sou um usuário exemplar de transporte público desde os 10 anos de idade. Aqui na Tijuca, os ônibus mais marcantes para mim eram os da empresa Alpha e os da Tijuquinha. Afinal, eram os que eu mais pegava rumo à Zona Sul, no caso da Alpha, ou ao Centro, no caso da Tijuquinha. O layout de ambos era idêntico, mudando apenas a paleta de cores. Para a Alpha, tons avermelhados; para a Tijuquinha, azulados. E a Alpha sempre teve fama de possuir itinerários inseguros, alvo de assaltos.

Não bastasse o orgulho naturalmente bairrista do tijucano, além de uma empresa de ônibus com o nome do bairro, ainda tínhamos outra empresa cujo nome aludia à nossa principal praça, a Viação Saens Peña, com lataria que expunha em letras garrafais a sigla SP. O curioso era ver que mesmo com a alcunha tijucana, a empresa operava linhas bem longe do bairro, como a 125 – Central x General Osório ou a variante Central x Horto. Recentemente, a Viação Saens Peña mudou seu nome para Nossa Senhora das Graças. Fiel e orgulhoso tijucano que sou, obviamente preferia a versão antiga.

19 de mar. de 2014

Manhã dominical na Praça Afonso Vizeu

O chafariz francês do Alto da Boa Vista que, antigamente, localizava-se na Praça Onze

No fins de semana do verão, há os tijucanos que rumam para a praia ou para o clube, enquanto há outros que preferem fazer passeios tão refrescantes quanto, mas distantes da muvuca do balneário ou dos parques aquáticos. Incluo-me nesse último caso, consciente de que sou dos poucos que, ao invés de continuar seguindo viagem no 302 (antiga linha 233, Rodoviária-Barra da Tijuca) para a praia da Barra, acaba dando sinal e desembarcando ali mesmo na Praça Afonso Vizeu, o coração do Alto da Boa Vista.

Foi o que aconteceu nesse último domingo 16 de março, quando os termômetros da Praça Saenz Peña estavam marcando temperaturas ao redor dos 39 graus Celsius às 10h30 da manhã. Acenei, então, para o coletivo, muito embora já soubesse que não daria continuidade à viagem até a Barra da Tijuca. Pararia no Alto para desfrutar um pouco do clima ameno da região. Já tinha experimentado o passeio outras vezes e gostei, principalmente porque não tenho carro; vivo do transporte ativo. Assim, a praticidade de se passear pelo Alto indo e voltando de ônibus é um privilégio, sobretudo para nós, tijucanos, que contamos com tantas linhas que percorrem o Alto da Boa Vista, nosso quintal.

Apesar de muita gente reclamar deste percurso, não tem nada mais gostoso do que “subir” o Alto por meio de suas estradas longas e sinuosas. Basta o ônibus sair do Largo da Usina e adentrar a Avenida Edson Passos para o meu humor melhorar, salvo em casos de se estar com hora marcada na Barra e, por isto, desejar que o ônibus voe! Mas, repare bem, caro leitor: neste trajeto, sente-se a temperatura cair progressivamente enquanto os tipos arquitetônicos mais imponentes da região se descortinam pela janela do veículo. O cheiro de mata fresca também invade as nossas narinas, sem falar no ruído relaxante de uma ou outra queda d’água que aparece no meio do caminho. A urbe, ali, fica definitivamente pra trás.

A Praça Afonso Vizeu congrega os elementos ideais para a realização de atividades físicas e recreação infantil
Exemplo art déco na Avenida Edson Passos

O Bar da Pracinha, ao fundo, com o chafariz
Após alguns sacolejos por ruas que serpenteiam a floresta, o ônibus chega à parte plana do Alto, a Praça Afonso Vizeu, após uma viagem de aproximadamente 20 minutos a partir da Praça Saenz Peña. Essa praça também pode ser vista como benção, pois trata-se de um dos espaços públicos mais bonitos do Rio! Colada à entrada da Floresta da Tijuca, a Afonso Vizeu é arejada, infinitamente arborizada e, para completar, bem conservada. Sempre quando chego por lá, fico hipnotizado com o chafariz no centro do local. Obra do renomado arquiteto francês Grandjean de Montigny, ele conserva água fresca e limpa cujo reflexo, graças à luz solar tão potente das manhãs, incide sobre a base do monumento criando, assim, um visual incrível.

Em determinadas épocas do ano, o solo da praça fica todo coberto por um tapete de pétalas cor-de-rosa, todas despedaçadas, caídas de alguma árvore dali que eu não sei o nome. Parece cenário de casamento a céu aberto. Ciclistas que vêm do Horto e da Vista Chinesa, em trajes apropriadamente desportivos, perpassam pela Afonso Vizeu rumo à Floresta, enquanto famílias e casais realizam o desjejum ou tomam um simples choppinho nas mesas ao ar livre do Bar da Pracinha, extinto Robin Hood Pub.

Quem não quiser consumir na Praça Afonso Vizeu – no Bar da Pracinha, melhor dizendo –, não precisa desistir de visitá-la. Recomenda-se levar um livro ou uma cadeira de praia; vá acompanhado de amigos, aproveite o entorno bucólico para relaxar ao gorjear dos passarinhos. Observe, também, a diversidade de cores da flora local. Admire as casas que margeiam a praça, como o belíssimo exemplar art déco de Lucrezia Maria Petrelli, com seu belo painel em motivos florais na fachada. Ou então, bem ali na esquina com a entrada da Floresta, a nobre casa construída em 1865 pelo inglês Bartlett-James.

Depois de tudo isso, de espreguiçar-se e alongar-se, de sentir ar puro, caminhe um pouquinho mais e vá até à Cascatinha, distante apenas cinco minutos a pé da praça. Deixe-se magnetizar por essa cortina de água; adormeça, em pé mesmo. Se a temperatura aumentar - o Rio é úmido, sente-se calor facilmente -, refresque o rosto com a água gelada e natural que sai da boca de um "leão" que a despeja sobre uma luxuosa, mas velha banheira oitocentista. Seu dia estará salvo, garanto. E tudo "patrocinado" pela Tijuca.

A Cascatinha, a cinco minutos a pé da Praça Afonso Vizeu
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