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19 de mar. de 2016

As alamedas da Colina do Matoso e sua joia: o Santuário da Medalha Milagrosa

Santuário da Medalha Milagrosa: patrimônio tijucano situado na Colina do Matoso


Tijuca, do Brasil formosa ninfa... Apesar de pouco conhecidos do grande público, os versos de “Tijuca, Metamorfose I” deveriam ser ecoados por certas localidades do bairro com fins de ilustração à poesia neoclássica de Cruz e Souza. Mesmo tratando-se de uma obra que remete o atento leitor à Tijuca de tempos pretéritos à sua urbanização, caminhar pelas alamedas do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) não deixa de ser uma volta ao passado.

Para alcançá-lo, é preciso percorrer toda a Colina do Matoso, parte elevada da Tijuca bem na divisa com a Praça da Bandeira. O caminho que leva ao hospital, flanqueado de palmeiras entre outras espécies arbóreas, é um daqueles fantásticos recantos capazes de relaxar os ânimos e agraciar a alma. Por ser um hospital de grande referência, o número de atendimentos é elevado, mas poucos são os pacientes e visitantes que chegam ali como pedestres. Devido à ladeira, a maioria opta por carros e táxis para atingir o topo da colina, fazendo desse pequeno percentual de andarilhos uma classe privilegiada. Eu explico.

Vindo pela entrada principal – isto é, pela Rua Doutor Satamini –, o passeador deve seguir o caminho tortuoso de paralelepípedos, que flui o trânsito de automóveis pelo regime de mão-inglesa. A calçada é estreita e o espaço aéreo quase todo tomado por folhagens das altíssimas árvores; quase não se vê o céu. Portanto, há sombra. Muita sombra! Mas, o que chama a atenção mesmo é o lado esquerdo da via, margeado por um jardim impecável base de um paredão de pedras por onde brotam delicadamente pequenos esgalhos e ramas de flores.

Por si só, esse caminho já oferece um breve panorama do que deveria ser o antigo Engenho Velho, região da Tijuca que ia do que é hoje a Avenida Paulo de Frontin até a Igreja de São Francisco Xavier, na rua homônima. Vêm à imaginação os encantos da mata virgem, a Tijuca de Bentinho e Capitu, a ninfa de Cruz e Souza... tudo ali, intocado e materializado, aos pés das ruidosas vias urbanoides da Praça da Bandeira.

Um suave zéfiro até então mal percebido começa a beijar agradavelmente o rosto do passeador à medida que a alameda se curva e se eleva rumo ao pináculo. As copas das árvores farfalham e o platô à esquerda, meio escondido no início da trilha, agora se desvela como a brilhante estrela de um espetáculo teatral. Sustentado pelo paredão de pedras, o pátio que dá acesso à Associação São Vicente de Paulo exibe o seu monumento: vê-se o Santuário da Medalha Milagrosa.

Apesar dos ares medievais (ou seriam góticos?) do santuário, ele foi fundado em 1955 pelas irmãs de caridade vicentinas. Comemorou seu “jubileu de diamante” em 2015, quando completou 60 anos de existência. Por ser relativamente “novato” no bairro, e também por estar localizado numa área que não é de domínio completamente público, o Santuário da Medalha Milagrosa é uma construção muito bem conservada, patrimônio carioca desde 2003. A bem-composta passarela interliga o Santuário ao platô vizinho, de onde se pode alcançar a alameda que dá acesso ao hospital, mas já em um trecho mais elevado. Sob o seu arco, trespassa outra simpática alameda, que liga os fundos da Associação ao caminho que leva à entrada secundária do HSVP, na Rua Gonçalves Crespo quase defronte ao Instituto de Educação.

Mirante da Colina: a Tijuca e sua vista aérea, junto ao Corcovado e o restante do Maciço.

Uma caminhada matinal pelos jardins da Associação São Vicente de Paulo pode ser de um inestimável agrado àqueles que desfrutam dos passeios ao ar livre na Tijuca. E quem mantiver o fôlego e desejar alcançar o alto da Colina do Matoso, se depara com outra surpresa: a vista área da Tijuca, do Rio Comprido e da Cidade Nova fica parcialmente à mostra junto ao contorno do Maciço, enquadrando a extensão que vai do Corcovado ao Pico do Papagaio. Uma paisagem e tanta!

Agora, quem precisar de cuidados médicos, compartilho a notícia: em janeiro deste ano, o Hospital São Vicente de Paulo foi apontado como o melhor do Rio de Janeiro por meio de uma pesquisa anual promovida pela consultoria internacional AméricaEconomía Intelligence. A unidade tijucana foi a única do estado do Rio a ser ranqueada entre as melhores. O primeiro colocado da lista foi o Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.

Visita:
Rua Doutor Satamini 333 | Rua Gonçalves Crespo 430.

Missas:
Aos domingos: 08h30; 10h00; 18h00, com intenções comunitárias.
De segunda-feira a sexta-feira: 06h30.
Toda segunda-feira: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.
Aos sábados e feriados: 07h00.
Todo dia 27 de cada mês: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.

18 de fev. de 2016

"Zimba", o teatro da Tijuca, é reinaugurado em grande estilo

Fachada do Zimba, na Avenida Heitor Beltrão: teatro foi reformado pela Secretaria Municipal de Cultura.

Após diversas idas e vindas nos seus quase 28 anos de existência, o Teatro Ziembinski foi finalmente reinaugurado ontem, 17 de fevereiro. A noite de gala começou a partir das 19 horas, quando o público convidado foi recebido por um coquetel servido pelos garçons do restaurante Otto. Holofotes discretos incidiam sobre a fachada do teatro, na Avenida Heitor Beltrão, e sobre o painel preenchido por logotipos da Prefeitura colocado no saguão.

A reforma do teatro, que ganhou novos assentos e palco, sistema de refrigeração e um café, nos fundos, virado para a Rua Urbano Duarte, foi toda custeada pela Secretaria Municipal de Cultura. Em 2015, foi divulgado um edital de ocupação do espaço pelo período inicial de dois anos. Licitação ganha, a partir de março, a nova residência artística do "Zimba" ficará a cargo da Opsis Soluções Culturais, gerida pelo casal Robson Sanchez e Monique Carvalho, presentes no evento. Marcelo Calero, jovem ex diplomata que agora ocupa o cargo de secretário, foi figura presente simpática em todo o evento.

Fernanda Torres durante o monólogo (Foto: Divulgação)
Às 20h25, a campainha soou e os convidados se direcionaram às dependências internas do Zimba. Por volta das 20h45, Fernanda Torres surgiu no palco encarnando a arisca senhorinha baiana criada por João Ubaldo Ribeiro na obra "A Casa dos Budas Ditosos" e adaptada para o teatro por Domingos de Oliveira. Em cartaz pela primeira vez na Tijuca, a platéia assistiu com atenção, em meio a risadas, a narrativa genial de peripécias sexuais evocada pela personagem, de 68 anos, notadamente feminista, esclarecida e progressista.

Quase duas horas transcorreram até o encerramento do espetáculo. Calero agradeceu a presença do público, mostrando em linhas gerais o "banho de loja" dado ao Zimba. Além disso, sublinhou a felicidade de estar podendo entregar um teatro como aquele à Tijuca, o bairro onde nasceu e foi criado. O ponto alto dessa conversa foi a reação quase imediata de Fernanda Torres, que também alegou ser tijucana e sócia do Tijuca Tênis Clube. Naturalmente, foi aplaudida com louvor.



A placa de reinauguração foi desvelada por Torres, Calero e Clara Becker, filha da atriz Cacilda Becker (1921-1969) e do ator Walmor Chagas (1930-2013), quem criou e inaugurou o Teatro Ziembinski em 6 de abril de 1988.

Segundo reportagem do Estadão, a cena cultural da Tijuca ficará ainda mais agitada. O Teatro Cesgranrio, cujo endereço não foi divulgado, será inaugurado ainda este ano na região num antigo auditório em reforma.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão, onde se situa o Teatro Ziembinski junto à estação do metrô.

A peça "A Casa dos Budas Ditosos" será reapresentada no Zimba na próxima quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016, às 20h30. Os ingressos serão vendidos de quarta para quinta no local (Rua Urbano Duarte 30, [21] 2254-5399, estação São Francisco Xavier do metrô).

27 de dez. de 2015

Praça Hans Klussman


A imaginação das crianças é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com base nessa concepção que o professor Paulo de Tarso, morador da Rua Sabóia Lima, recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann um verdadeiro recanto de fantasias. Aliás, mais do que um professor, Paulo de Tarso é um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro assim como do reino animal.

Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos de 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos no bairro de como urbe e natureza se conectam e, portanto, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam o local (um bom repelente já resolve esta questão), o alto da Rua Sabóia Lima oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde podem ser observadas as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa; do outro, um jacaré.

Foi neste momento em que tive a percepção de não estar vendo tudo o que de fato existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, além de uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde: os animais, cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade.



Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klussmann ganhou um colorido todo especial, mas que, paralelamente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou de qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças pensam da ilusão ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são "interagíves", no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e, dessa maneira, fantasiar um passeio pelo deserto - por exemplo.



Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, contribuindo para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda forma um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, que fica no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar diante do espaço em que estamos inseridos.

Num mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade - gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho.


Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados em suas leituras. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós, e, em outro rincão, um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klussmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul – e, à noite, estrelado – da nossa natureza. A nossa real natureza.

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Texto publicado em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 10 de agosto de 2013.

21 de dez. de 2015

Rua Conde de Bonfim: o coração da Tijuca

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

3 de dez. de 2015

"O Tijucano", por Aldir Blanc

Eis um clássico de Aldir Blanc que merece ser compartilhado com os leitores de O PASSEADOR TIJUCANO. A crônica "O Tijucano", escrita por ele nos anos 1970 e que faz parte da antologia Rua dos Artistas e arredores (Editora Codecri, 1979), é uma dessas exemplares literaturas que mais bem refletem o ethos tijucano. Coloco-a aqui como ilustração ao mini-doc inserido no final deste post, divulgado por Fabrício Gonçalves em sua página do Facebook, trazendo Blanc e Moacyr Luz em forma de entrevista no Bar da Dona Maria, na Muda (se não me engano). Além disso, o vídeo apresenta filmagens inéditas da Praça Saens Peña nos anos 1950 cuja narração é, em grande parte, a leitura desta crônica.

O Tijucano, por Aldir Blanc 
A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso. 
— Tu mora aonde? 
— Tijuca. 
O autor dessa resposta pode morar no Largo da Segunda-Feira, no Maracanã, no Andaraí, em Vila Isabel, em Aldeia Campista... digamos que entre o Estácio e o Grajaú tudo é Tijuca. 
Se vocês estão pensando que eu vou dizer “o Tijucano é um estado-de-espírito”, aqui ó! 
O Tijucano é um estado-de-sítio. 
Premido pelo sagrado horror da acusação de suburbano e sonhando, secretamente, com as mordomias ipanemenses, o Tijucano adota uma atitude blasé em relação a seu controvertido bairro. Acha a Tijuca “devagar, careta, meio-não-sei-como, sacou? ” 
Saquei, bestalhão. A Tijuca é exatamente isso: meio-não-sei-como. Uma amostra magnífica do nosso querido Brasil. 
O Tijucano não tem salvação. Pode fingir, fugir, mudar, inventar, mas será sempre tijucano. Mesmo que o corpo disfarce, a alma, como o criminoso, como o filho pródigo, voltará sempre à Tijuca.  
Nenhum morador, de nenhum bairro, padece tanto do tal conflito amor-ódio como o Tijucano. Ele fala mal dos bares da Tijuca, mas não sai deles. Detesta os cinemas do bairro, mas raramente vai a outros. Venera as tangas, desde que não seja na mulher dele. É progressista, desde que o progresso não o afete. Esmera-se em sua descontração. Vigia sua esportividade. Obstina-se em sua espontaneidade. Por trás da indiferença, com que trata o bairro, esconde-se o orgulho. O maldito orgulho de ser Tijucano. 
O Tijucano-Padrão é feito aquele amigo meu que pirou em plena Praça Saens Peña, tirou toda a roupa, subiu numa árvore e começou a gritar: 
— A Tijuca é uma merda! Tô farto disso aqui! Num guento mais a Tijuca! É uma merda! Uma verdadeira merda! 
Quando a ambulância chegou e meu amigo leu o que estava escrito nela, o escarcéu aumentou. Do alto da árvore, nu, mas em pose de senador, bravava: 
— Pro Pinel, jamais! Nós, Tijucanos, temos nosso próprio sanatório! 

BLANC, Aldir. Rua dos Artistas e arrredores. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1979. pp. 192-193.


Aldir Blanc e Moacyr Luz - o Rio profundo: Tijuca, zona de fronteira, Saudades da Guanabara, meio suburbano e meio...
Posted by Fabrício Gonçalves on Sábado, 28 de novembro de 2015

18 de set. de 2015

"Saguão na Tijuca", por Clarice Lispector

Na Zona Norte sopra um vento quente, um siroco. No saguão cinco moças sem cor já tomaram o banho da tarde, os cabelos secam ao siroco. Têm olhos pretos, braços redondos e bocas desbotadas. Elas são as filhas. Para que falar? Sentai-vos e tocai vossas guitarras. Não há nada a lhes dizer. Ali não há nada a salvar. Nem tudo simboliza alguma coisa, e isso é tão importante como o oposto. São apenas cinco moças de boca desbotada que deixo no saguão mesmo, e que lá fiquem. E se não quiserem ficar, que saiam. Cinco moças sem cor simbolizam cinco moças sem cor. Eis que estou vendo esse harém de bocas desbotadas, e sem crueldade ou amor à seleção natural, não me politizo, não me poetizo, não acho que está certo ou errado; está é isso mesmo.
Mas o siroco, sim, traz cavalos e areias, vindos do deserto.
Clarice Lispector 
Crônicas para jovens: do Rio de Janeiro e seus personagens. Organização Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011. pp. 107-108. 

25 de jul. de 2015

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses

Rua Conde de Bonfim 186: endereço emblemático que já concentrou diversas ocupações emblemáticas para a Tijuca.

O terreno da Rua Conde de Bonfim entre as ruas Conselheiro Zenha e Visconde de Figueiredo poderia ser considerado como parte de um endereço repleto de metamorfoses. Do século XIX até os dias de hoje, o número 186 da principal artéria tijucana já teve nada menos que sete ocupações distintas, todas muito simbólicas para a cultura local do bairro: de residência aristocrática no século XIX, já foi colégio tradicional, loja de departamentos e atualmente abriga a filial de um supermercado. 

Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Na segunda metade do século XIX, quem vivia no referido terreno da prestigiada Rua Conde de Bonfim era ninguém mais, ninguém menos, que Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, que dá nome ao município da região metropolitana fluminense. O militar morou nesse belo palácio até o dia de sua morte em maio de 1880, cujo funeral, segundo relatos, parece ter sido um grande acontecimento não só para a Tijuca assim como para toda a cidade:

Nove de maio de 1880 - Funerais do duque de Caxias: Às nove horas da manhã regurgitava o solar do duque de Caxias, na rua Conde de Bonfim, confluência das atuais Visconde de Figueiredo e Salgado Zenha. Ia sair o enterro do grande homem que fez jus em vida às homenagens até hoje prestadas pela Pátria: o único duque da nossa aristocracia (...) Tudo simples, para obedecer ao testamento do ilustre morto. Mas o acompanhamento foi sem dúvida o mais numeroso a que a cidade assistira. Ao chegar o coche ao cemitério de São Francisco de Paula, em Catumbi, ainda se enfileiravam carros para o cortejo em Conde de Bonfim. Logo após o coche fúnebre, iam 16 moços de estribeira e outro coche, com a coroa do duque, envolta em crepe e os símbolos militares com que invariavelmente conduziu o Brasil ao caminho da vitória: a espada, as dragonas, o talim, a banda e o chapéu... (trecho de Tijuca, de rua em rua [Editora Rio, 2004], de Lili Rose e Nelson Aguiar, páginas 118-119)

Supõe-se que logo após a morte do Duque de Caxias é que a sua então residência tenha virado sede do Club da Tijuca, no final do século XIX e início do século XX. Infelizmente, não existem muitas informações a respeito desse clube. Pesquisá-lo no Google, por exemplo, é tarefa complicada, já que o sistema de pesquisa acaba remetendo todos os resultados da busca ao Tijuca Tênis Clube por causa da semelhança entre os nomes. No grupo do Facebook Tijuca de todos os tempos, de onde tirei grande parte dessas imagens, ninguém soube me responder a respeito deste enigmático club.

Imagem do departamento feminino do Instituto La-Fayette, na Conde de Bonfim
Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Contudo, foi a partir de 1916 quando a Conde de Bonfim 186 tornou-se endereço de uma das mais emblemáticas instituições educacionais da Tijuca: o extinto Instituto La-Fayette. Com duas filiais na Tijuca e outra em Botafogo (na praia, esquina de Visconde de Ouro Preto), a ala feminina do La-Fayette estudava na Conde de Bonfim, enquanto a ala masculina ficava na Rua Haddock Lobo, no mesmo prédio onde hoje funciona a Fundação Bradesco. Para Felipe Torreira, do blog Pileque, que publicou um post de memórias incríveis do referido colégio em dezembro de 2008 (vale a pena ler também os comentários de leitores), o Instituto La-Fayette era um colégio antológico, histórico, e tijucano. Vive na memória dos moradores até hoje com muito orgulho. Afortunados são os que vestiram aquele uniforme. O prestígio inquestionável do colégio fez com que a charmosa rua que margeia a Pedra da Babilônia e o Colégio Militar, nas imediações da Rua São Francisco Xavier, ganhasse em 1947 o nome do fundador da instituição: Professor Lafayette Côrtes.

Reprodução: O Globo, 26 abril de 1981.

Fachada da Mesbla, na Tijuca
Após um misterioso incêndio nos anos 1970, o prédio do Instituto La-Fayette foi infelizmente demolido para dar lugar, em abril de 1981, à nova filial da também extinta loja de departamentos Mesbla. O novo edifício, modernoso para os anos 1980, em nada lembrava o simpático solar onde residiu o Duque de Caxias. Sinônima de vitrines elegantes e mercadorias para todos os bolsos, a Mesbla funcionou na Rua Conde de Bonfim 186 por quase 19 anos, quando em agosto de 1999 fechou as suas portas após ter tido a falência de toda a rede decretada. Na edição do dia 26 de agosto daquele ano, reportagem do caderno "Tijuca", de O Globo ("Magazine na memória da vizinha", 26 ago. 1999) coletou depoimentos de moradores sobre o fechamento da loja:

O lugar era ideal porque, se uma das duas se atrasava, a outra podia dar uma voltinha pela loja para passar o tempo. Afinal, a diversão preferida das mulheres é olhar vitrine (Maria Aurélia Castro, dona de casa, usava a Mesbla como ponto de encontro com a filha, Luciana)

Não gosto de lojas de departamento. Estão sempre cheias e com pouca variedade. Já na Mesbla era diferente. Eu adorava passear nos corredores e sempre acabava comprando alguma coisa (Luciana Castro, tijucana, filha de Maria Aurélia).

Apesar de a tendência ser o fim dos cinemas de rua, gostaria de ver algo no estilo do Estação, com um espaço moderno, filmes alternativos, café e livraria. É disso que o bairro precisa (Roberto Santos, publicitário).

Eles estão por toda parte. É difícil competir com um mercado que vende de tudo: alimentos, eletrodomésticos, roupas e utensílios para o lar. Lamento o fim da Mesbla, mas só os grandes sobrevivem (Lino Souza Gomes, aposentado, que previu o surgimento de um hipermercado no local).

Reprodução: O Globo, 26 de agosto de 1999.
Hipermercado Bon Marché Magazine, inaugurado na Conde de Bonfim 186 no ano 2000.

Foi a partir do ano 2000 quando o número 186 da Rua Conde de Bonfim entrou para a era dos supermercados. Na mesma época, grandes terrenos e edifícios importantes do bairro passaram por esse mesmo processo, como a antiga Companhia Hanseática, na Rua José Higino, transformada num Hipermercado Extra 24 Horas. Na Conde de Bonfim, o mercado inaugurado por lá foi o igualmente falido Bon Marché, do Grupo Pão de Açúcar, que encerrou suas atividades no local por volta de 2005 para dar lugar à filial da tradicional Casas Sendas, braço também pertencente ao GPA a partir de meados da década passada.

Casas Sendas, na Conde de Bonfim com Visconde de Figueiredo, durou até 2011.


O atual Supermercado Extra, na Conde de Bonfim 186 (imagem de 2015).

Entre 2010 e 2011, a marca Sendas foi trocada gradativamente por Extra e Pão de Açúcar. Havia uma expectativa de que essa filial da Conde de Bonfim fosse transformada em uma loja do Pão de Açúcar, já que a filial da Rua Uruguai havia fechado anos antes, sobrando apenas a loja da Praça Afonso Pena, que continua funcionando normalmente. No entanto, as únicas Sendas transformadas em Pão de Açúcar foram aquelas situadas em bairros turísticos, como Leblon e Copacabana. Assim, desde o início desta década, a Rua Conde de Bonfim 186 vem abrigando uma sucursal do Supermercado Extra.

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses. Depois desta retrospectiva, só nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos; se o endereço fizer jus ao seu perfil de transformações, o Supermercado Extra dará lugar a outro empreendimento muito em breve.

3 de jul. de 2015

Victor Belart, do FAZ NA PRAÇA: "[a Saens Peña] não deveria ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista"

Victor Belart: FAZ NA PRAÇA
As praças da Tijuca têm vivido uma fase de efervescência cultural nunca antes experimentada. Eventos públicos com DJs, arte, debates, cinema, comida entre outras intervenções vêm ocorrendo com cada vez mais frequência na Saens Peña, Praça da Bandeira e Xavier de Brito. Neste último domingo, 28 de junho, por exemplo a inauguração do Cine Xavier exibiu o longa-metragem argentino Medianeras ao ar livre da Praça Xavier de Brito reunindo toda uma geração de jovens e adultos que possivelmente só havia frequentado a praça dos cavalinhos assim, tão integralmente, na infância. Já a Praça Saens Peña comemorou seu 104º aniversário de modo inovador, há cerca de um mês: considerada um lugar de afazeres domésticos e deserto à noite, a praça abrigou um grande concerto público que reuniu no mínimo 500 pessoas de todas as idades que dificilmente estariam por lá em circunstâncias comuns.

Por trás dessas iniciativas que estão incrementando o entretenimento (público) da Tijuca está o coletivo FAZ NA PRAÇA (ou melhor, Fluxo de Articulação de Zona na Praça), formado por um grupo de amigos do bairro engajados em trazer de volta à rotina dos cariocas o hábito de vivenciar as praças como local de interações e desfrute. Nesse grupo, Victor Belart, tijucano, jornalista e produtor cultural de 24 anos, tem se mostrado um notório representante do FAZ NA PRAÇA. Durante a festa da Saens Peña, Belart ganhou aplausos instantâneos após anunciar, no palanque, que a praça “não devia ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista”, evidenciando a proposta e o lema do FAZ NA PRAÇA em tornar esses espaços públicos da região da Tijuca em um grande palco de intervenções coletivas e alternativas ao circuito tradicional de arte e entretenimento.

Aniversário da Praça Saens Peña deste ano: curadoria musical e artística a cargo do FAZ NA PRAÇA.
Créditos: André Valente.

Primeira exibição do Cine Xavier: cinema ao ar livre na Praça dos Cavalinhos.

O passeador tijucano conversou brevemente com Victor sobre a atuação do FAZ NA PRAÇA na Tijuca, além dos planos e novidades para o restante do ano:

De onde surgiu a ideia de fazer o evento em celebração ao 104º aniversário da Praça Saens Peña no último dia 30 de maio, levando em conta que, inicialmente, grande parte dos eventos do FAZ NA PRAÇA estava sendo realizada na Praça dos Cavalinhos?
Victor Belart: Já tínhamos interesse de fazer alguma atividade na Saens Peña, mas o evento do dia 30 não foi iniciativa nossa. A Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) faz todo ano uma atividade na praça comemorando o aniversário dela e esse ano nós fizemos a curadoria musical e divulgação. Mas a iniciativa é originalmente da ACIT e rola ano a ano, agora especificamente para esse último evento, a ACIT teve alguns incentivos da Secretaria de Cultura para pagar certos custos estruturais. Já a Xavier de Brito [Praça dos Cavalinhos] virou uma espécie de laboratório nosso porque tudo começou por lá. Eu e a Tais Barcia fizemos um aniversário na Praça e desse evento a galera que apareceu decidiu se juntar pra fazer mais vezes. Muita gente da Tijuca tem história desde criança com a Xavier de Brito, mas na vida adulta esqueceu o sentido daquele lugar. Aquela praça tem especificamente algumas questões especiais, desde o choque cultural e social das crianças que habitam o espaço ou a própria ideia de já ser uma praça vista como “um fim”. Dificilmente alguém cruza a Xavier de Brito de passagem, todo mundo que está ali vai pra ficar pela própria praça. Esse tipo de Praça, que já tem uma movimentação própria, tem muito a ensinar para todos nós e também por isso pegamos o espaço como “laboratório”.

Qual sua função no FAZ NA PRAÇA? Você é o "líder"?
VB: Na verdade não tem nenhum líder; a ideia do FAZ NA PRAÇA é para ser um movimento orgânico. Na real, no início, era pra ser um movimento tão livre que poderia ocorrer ações do FAZ NA PRAÇA sem que nenhuma das 8 a 10 pessoas que fazem parte desse grupo estivessem envolvidas. Como se o FAZ NA PRAÇA fosse a ideia de fazer indiscriminadamente as coisas em praças, mas acabou que por algumas questões específicas de responsabilidade temos tomado um pouco de cuidado com isso. Se acontecer um FAZ NA PRAÇA sem nós e der algum problema, a responsabilidade recai sobre a gente, então queremos ter um pouco de cautela nesse sentido. Mas em todo caso, o FAZ NA PRAÇA é um grupo não muito rígido quanto à quantidade de pessoas, mas que varia sempre em torno de 8 a 10 e que querem levar atividade e movimento ao ar livre pela nossa cidade.


Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira: moradores mais antigos ainda resistem.
Créditos: Felipe Bauerfeldt (Deu Zebraa).


Vocês pretendem manter uma linha de ocupação de praças apenas na região da Tijuca (vide o Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira), para consolidar a programação cultural do bairro ou a proposta é expandir para outras regiões?
VB: Temos esse carinho especial pela Tijuca porque a maioria de nós é daqui e sabemos da falta de atividades do gênero pela área. Na verdade, o bairro tem melhorado muito nesse sentido também. Surgiram novos espaços de coworking, algumas atividades ao ar livre e até mesmo noturnas, mas o bairro ainda tem essa concepção de ser um “lugar somente para dormir”. A gente acaba vestindo muito essa bandeira tijucana porque crescemos aqui e sentimos a falta de atividades do gênero, mas a ideia do FAZ NA PRAÇA é que por todo o Rio de Janeiro se faça atividade na rua, ou seja, botar propriamente a praça no centro do debate urbano. Sempre falamos que as praças talvez sejam um dos únicos lugares onde a democracia realmente seja levada ao pé da letra.  Além disso, a questão da praça é importante para ampliar nossa ideia de cidade; quando saímos de casa e vivemos somente a nossa própria rotina, tendemos a não ter muita sensibilidade com a realidade do outro. Num evento de rua sempre vai ter um morador de rua e alguém que só frequenta shopping ali naquele mesmo espaço e ambos estarão nesse lugar para estar “além” do seu próprio estereótipo ou da própria rotina. Esse tipo de encontro rola naturalmente é só tende a ser positivo para todos os envolvidos.

Quais os próximos eventos? Novidades? Fiquei sabendo do Cine Xavier. É você quem está coordenando?
VB: Antes de tudo, precisamos terminar de resolver alguns problemas ainda pendentes do aniversário da Saens Peña. Num futuro muito próximo queremos fazer esse cinema na Xavier [a entrevista ocorreu antes da efetivação desse evento, no último dia 28 de junho], mas também nos sugeriram o Grajaú. Também temos a ideia de fazer alguma ocupação na UERJ, que não deixa de ser um espaço público do nosso bairro e que ainda tem uma ideia muito vertical, aquele cinza, aquele prédio gigante. Conhecemos uma galera recentemente que quer tentar fazer com que a UERJ tenha uma ideia mais plana, mais de praça.

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