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21 de dez. de 2015

Rua Conde de Bonfim: o coração da Tijuca

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

11 de nov. de 2014

Ensaio fotográfico: "Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude"

Reprodução da revista E-metrópolis, número 18
É com grande contentamento que compartilho com os leitores de O passeador tijucano o meu ensaio fotográfico "Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude", publicado na última edição (a de número 18) da revista E-metrópolis, voltada à comunidade acadêmica e especializada em tópicos relacionados a planejamento urbano e urbanismo em geral. 

A ideia do ensaio foi retratar o nosso dileto bairro da Tijuca sob o prisma do cotidiano da Praça Saens Peña, mais especificamente no horário entre 8 e 9h30 da manhã de um dia de semana. Enquanto uma quantidade expressiva de tijucanos e outros pedestres caminham afoitos rumo às obrigações do dia-a-dia e a pista da Rua Conde de Bonfim sentido Centro se engarrafa, no mesmo ritmo em que as escadarias do metrô ganham uma alta rotatividade de transeuntes, a Praça vai sendo tomada concomitantemente por um público descansado e sem muita pressa. Esse panorama não é inédito nem tampouco se circunscreve à Tijuca, embora represente com louvor o símbolo da maior praça tijucana, a Saens Peña, como importante subcentro econômico carioca e, ao mesmo tempo, local de lazer público na região.

A maioria das imagens foi registrada em um único dia, embora algumas delas tenham sido tiradas em outras ocasiões sempre na mesma faixa de horário mencionada acima. A quem se interessar, o ensaio completo pode ser acessado neste endereço (http://issuu.com/emetropolis/docs/emetropolis_n18/75?e=2528903/10026372), que vai da página 75 a 78 da edição referente ao mês de setembro de 2014 da revista E-metrópolis. Abaixo, publico o texto de apresentação do ensaio:


Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude
Sendo um dos subcentros mais tradicionais da cidade do Rio de Janeiro, a Praça Saens Peña é uma região pulsante. Logo nas primeiras horas após o despertar da alvorada, quando os raios solares já estão incidindo sobre os seus prédios e calçadas, um amontoado de ônibus e automóveis vai tentando se enfileirar na pista sentido Centro da rua Conde de Bonfim, a principal via comercial da Tijuca, bairro onde se localiza a Praça Saens Peña. Ou melhor dizendo: “a Praça”, como é usualmente referida pelos vaidosos moradores dali, os tijucanos. 
Num dia comum de labuta, em meio a tantos outros transeuntes que circulam por essa região, muitos desses tijucanos rumam afoitos à estação do metrô ou aos pontos de ônibus. Isso acontece ao mesmo tempo em que a faixa de pedestre, no primeiro indício de um sinal vermelho, recebe uma leva de pisadelas que só cessa quando o motorista, alvoroçado ao deparar com seu sinal verde de volta, dá uma buzinada e ameaça invadir aquele espaço de tiras horizontais brancas. Numa fração de segundos, tais tiras já estarão sob aqueles pneus, sem mais pedestre algum para “atrapalhar” o tráfego dos automóveis. 
E quanto a esse pedestre, pode ser que ele abandone a rua e resolva adentrar a Praça. Se o fizer, certamente estará cruzando o limiar entre a urgência e a quietude – do corpo, do espírito, do espaço. Deixa de lado o posto de pedestre para transformar-se num passeador.   
No cenário visto a partir de então, esse passeador avistará pessoas resfolgadas em bancos verdes de madeira com um jornal ou livro sobre os palmos das mãos. Perceberá, ainda, que tais pessoas são imperturbáveis, a não ser pelo ruído da pirueta dum certo peixinho que nada naquele lago artificial ou pelo incômodo causado diante do inconsolável mendigo que roga por esmolas. 
Ali, no interior da Praça Saens Peña, esse passeador descobrirá também que só quem se presta à movimentação contínua dos braços e das pernas, de modo a exercitá-los, são os ginastas da terceira idade. Ou então aquelas poucas crianças que saltam e correm ao longo do playground perante o olhar atento dos seus responsáveis. E, por fim, a alguns metros de altura, o passeador poderá contemplar os pombos que repousam sobre os postes e fiações da Praça – na verdade, singelos espectadores daquele mundo babélico que a ronda, um mundo completamente sem barreiras, absolutamente permeável.
BASTOS, Pedro Paulo. Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude. Revista e-metrópolis, n. 18, p. 75-78, set. 2014. 

12 de mar. de 2014

O Cristo e o Pão de Açúcar

O Cristo + o Pão de Açúcar: a "vista privilegiada" da Zona Sul também está na Tijuca.

Quem disse que da Tijuca não dá para ver o Pão de Açúcar e o Cristo juntos? Sucesso quando publicada na página Tijuca Depressão do Facebook, com 1 425 curtidas e 265 compartilhamentos, essa imagem foi tirada por mim no Natal de 2011 enquanto caminhava pela Praça Afonso Pena.

Eu sempre gostei da Praça Afonso Pena – ou melhor, da Praça Castilhos França! – não só pelo seu belo ajardinado e grandiosidade pública, mas também porque é um dos poucos lugares da zona norte de onde se vê tão de pertinho, assim, o Corcovado com uma das sete maravilhas do mundo no seu topo.

Como a filial do supermercado Pão de Açúcar fica bem ali ao lado da praça, na Rua Doutor Satamini, foi inevitável enquadrar, na câmera, o Cristo com o letreiro do mercado que leva o nome de outro monumento natural carioca . A piada, no caso, aludiu às vistas mais privilegiadas da cidade cujas quais apenas alguns bairros se gabam de tê-las, como Botafogo, Urca e Flamengo, por exemplo.

Pois é, senhores, agora vocês já sabem que da Tijuca nós também vemos o Cristo e o Pão de Açúcar juntos. Mais respeito... (risos).
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