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15 de out. de 2015

Elitização, crescimento demográfico e opções domiciliares: o perfil da Tijuca entre 2000 e 2010

Vista aérea da Tijuca: de acordo com o Observatório das Metrópoles (UFRJ), região, que faz parte do
núcleo da cidade, se elitizou entre 2000 e 2010 (Foto: Guilherme Canhetti).

Entre 2000 e 2010, a região compreendida pela Tijuca, Praça da Bandeira e Alto da Boa Vista apresentou índices de maior elitização. É o que mostra o livro Rio de Janeiro: Transformações na Ordem Urbana, a ser lançado neste mês pelo Observatório das Metrópoles , instituto de ciência e tecnologia vinculado à UFRJ, e pela editora Letra Capital. Com base em dados do IBGE e dos dois últimos Censos Demográficos apresentados na obra, o número de categorias superiores profissionais - isto é, formadas pela classe de dirigentes, profissionais de nível superior e pequenos empregadores - residindo no bairro subiu de 35%, em 2000, para 42% em 2010, impactando na redução de categorias médias e de trabalhadores manuais.

Segundo os professores do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) Luciana Corrêa do Lago e Adauto Lucio Cardoso, autores do capítulo dedicado à análise das classes sociais na ocupação do território carioca, o processo de elitização de uma área é evidenciado sempre que a renda média do chefe de domicílio com imóvel próprio em prestação é maior que a do chefe de domicílio com imóvel já quitado. Em todos os bairros do núcleo metropolitano, composto pelas regiões administrativas da Lagoa, Copacabana, Botafogo, Barra da Tijuca, Vila Isabel e Tijuca, foi evidenciado esse processo. Em 2010, na Tijuca, a renda dos chefes com domicílio quitado era de R$ 8.080,00, ao passo que a dos que ainda estavam pagando prestação era de R$ 10.639.

Fonte: Observatório das Metrópoles.

A Tijuca também foi a terceira região que mais recebeu lançamentos imobiliários (2.198) entre 2001 e 2010, perdendo apenas para Botafogo, que teve 5.435 lançamentos, e a Barra, com 31.921. Além disso, tal número mostra a possível disparidade entre Tijuca e Vila Isabel, que no período mencionado teve apenas 327 lançamentos, reforçando a tradicional valorização da primeira região em relação à última embora se tratem de áreas geográficas contíguas. A taxa anual de crescimento demográfico foi igualmente maior na Tijuca (0,6%) do que na Vila (0,2%), mas ambas abaixo da taxa média correspondente à região metropolitana do Rio de Janeiro, que foi de 0,9%. 

Quanto aos tipos de domicílio, o artigo mostra que quase 80% dos tijucanos moram em apartamento, assinalando a alta concentração de edifícios no bairro, contra 16% vivendo em casas e 14% em favelas. Já quanto à renda per capita, aponta-se que os chefes de família com imóvel alugado na Tijuca, em 2010, têm renda maior (R$ 7.687,00) que a dos chefes de bairros como Botafogo (R$ 7.593,00) e Copacabana (R$ 6.601,00). No entanto, é curioso observar como essas três regiões se inverteram no que se refere à análise das rendas dos chefes com imóvel próprio em prestação. Em 2000, neste quesito, a Tijuca detinha renda maior (R$ 10.300,00) que as de Copacabana (R$ 7.914,00) e Botafogo (R$ 9.409,00), mas ultrapassada por estes em 2010.

Fonte: Observatório das Metrópoles; IBGE - Censo Demográfico, 2010.
Fonte: Observatório das Metrópoles.

Muito além da apresentação de dados quantitativos, não só este artigo como o livro todo em questão analisa os impactos sociais das transformações urbanas ocorridas no Rio de Janeiro de 1980 para cá. Uma das grandes reflexões dos autores é que o caráter de elitização dos bairros listados pode ter consequências nocivas quanto à harmonia das condições sociais na cidade. A “expulsão” de camadas médias profissionais e de trabalhadores desqualificados dos bairros do núcleo para as periferias tende a polarizar ainda mais a ocupação das classes mais altas em uma determinada porção do território – no caso, a Zona Sul, Barra, Tijuca/Vila Isabel e parte de Niterói.

Na perspectiva desta obra, tal cenário acentua as desigualdades entre bairros, esvaziando o poder de reivindicação política daqueles menos privilegiados e/ou periféricos caso houvesse uma concentração mais bem equilibrada de camadas superiores ao longo do território carioca como um todo.

Em tempo: Rio de Janeiro: Transformações na Ordem Urbana (Observatório das Metrópoles/Letra Capital) será lançado no próximo 27 de outubro de 2015, a partir das 18h, no Centro Cultural da Justiça Federal  (Avenida Rio Branco 241, Cinelândia).

18 de set. de 2015

"Saguão na Tijuca", por Clarice Lispector

Na Zona Norte sopra um vento quente, um siroco. No saguão cinco moças sem cor já tomaram o banho da tarde, os cabelos secam ao siroco. Têm olhos pretos, braços redondos e bocas desbotadas. Elas são as filhas. Para que falar? Sentai-vos e tocai vossas guitarras. Não há nada a lhes dizer. Ali não há nada a salvar. Nem tudo simboliza alguma coisa, e isso é tão importante como o oposto. São apenas cinco moças de boca desbotada que deixo no saguão mesmo, e que lá fiquem. E se não quiserem ficar, que saiam. Cinco moças sem cor simbolizam cinco moças sem cor. Eis que estou vendo esse harém de bocas desbotadas, e sem crueldade ou amor à seleção natural, não me politizo, não me poetizo, não acho que está certo ou errado; está é isso mesmo.
Mas o siroco, sim, traz cavalos e areias, vindos do deserto.
Clarice Lispector 
Crônicas para jovens: do Rio de Janeiro e seus personagens. Organização Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011. pp. 107-108. 

17 de jun. de 2014

Tijuca, esse bairro apaixonantemente "parado"

"Salve Tijuca", por Elli, na Rua Almirante Cochrane.

Faço pós-graduação em Planejamento Urbano pela UFRJ e, numa das aulas de Cidade e Sociabilidade, começamos a discutir sobre o jeito de ser da Tijuca. Toda essa querela se deu após a leitura do capítulo “Muda – Quando se Muda”, do livro Prosas Cariocas: uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004), organizado por Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki.

A autora deste texto, a jornalista e atriz Bianca Ramoneda, exaltou sua relação com a Muda, onde residia – sublinhando enfaticamente a fase violenta da Tijuca, nos anos 90 e 2000 -, fazendo uma comparação com o momento em que finalmente deixou a região para morar num quarto-e-sala no Leblon. Pretendo comentar sobre esse texto em outra oportunidade, embora valha a pena destacar, diante do propósito deste post, o seguinte trecho:

"Eu tinha 18 anos, morava na Muda, pequeno bairro dentro da enorme Tijuca, onde era feita a troca de bondes. Lindo bairro pra morar, se a sua ideia for passar os dias e, principalmente, as noites dentro de casa. Como uma legítima cidade do interior, na Muda o transporte acaba antes das 22 horas e é impossível comer um salgadinho onde quer que seja, pois não há nada aberto. A Muda tem um silêncio impressionante durante a madrugada, herança da proximidade com o Alto da Boa Vista, um silêncio que só é rompido pelo latido dos infinitos cães que reagem ao som de cada folha que cai no asfalto (p. 51).”

Apesar do cenário descrito acima ser da Muda – de fato, uma cidadela pra lá de pacata entre a Tijuca e a floresta –, muita gente ainda associa essa ideia de bairro “parado” à Tijuca como um todo. “Ah, não há vida noturna na Tijuca”, apontam alguns. Mas como não, cara pálida? E a boêmia dos arredores da Praça Varnhagen? O que dizer, então, da balbúrdia dos pés-sujos da Haddock Lobo?

No entanto, entendo o que querem dizer com isso, principalmente quando esse argumento vem de um tijucano menos esclarecido: a Tijuca não é o bairro da moda. Logo, o que há de entretenimento por aqui nem se compara à diversão cosmopolita de Botafogo, esse sim o bairro vitrine do Rio, cheio de novidades, bares estilosos que abrem e fecham conforme a demanda de público, shoppings, excelentes livrarias e cinemas badalados. Paraíso do consumo cool, onde volta e meia me abasteço, é claro. Não há disso na Tijuca.

Por vezes não nos damos conta da influência impressionante que a publicidade e a mídia têm no nosso modo de viver. Neste sentido, o estilo de vida da zona sul (ou seja, o lugar que dita a moda) se impõe como padrão e, forçosamente, acabamos acreditando nessa concepção de que a Tijuca não é tão bacana assim. Daí surgem os argumentos mais ultrapassados possíveis contra este nosso vale: “bairro de gente velha e moralista”, “só tem farmácia”, “não tem praia”, “o lazer se resume ao shopping” etc.

Tá, tá, tá, tudo bem. O jeito como alguém gosta de se divertir é muito particular, não há como questionar. Se os encantos do capital são os que te cativam, é para a zona sul ou para a Barra que você, caro tijucano, deve ir mesmo. A Tijuca é prática e sem firulas, mantém a tradição, não se diversifica, com exceção do shopping center. Eu e minha família vamos sempre, há anos, no mesmo braseiro, o arrebatador Lareira, na Rua Major Ávila. Mas há quem prefira comer o mesmo galeto, e pagando talvez até mais caro, lá nesse tal de Braseiro do Baixo Gávea, lugar dos chamados trendsetters (grosso modo, termo em inglês para dizer que alguém lança moda).

A vida cultural do Centro ou de Botafogo são irresistíveis, confesso. Só que também me invade uma sensação muito esquisita quando volto desses lugares, algo que nasce e cresce dentro de mim, sempre que saio do metrô e deparo com o chafariz da Praça Saens Peña ou cada vez que um 415 cruza o viaduto Paulo de Frontin, perpassa a Praça Afonso Pena e segue reto, toda vida, até chegar à Usina. Bate uma emoção em atravessar tantas ruas queridas, tantos monumentos esplendorosos como a Igreja de São Francisco Xavier e o Colégio Marista! O encantamento com a zona sul fica pra trás.

Voltar à Tijuca, após uma noitada na Lapa, por exemplo, é retornar literalmente para casa. A gente se diverte lá e regressa sabendo que na Tijuca encontraremos o descanso e o silêncio. O afastamento necessário à vida mundana exalada pelos bairros notívagos. É como se as nossas ruas respeitassem seus próprios relógios biológicos: durante o dia, vivacidade, à noite, adormecimento. O clima de família, ainda que ultimamente visto como um valor antiquado, tempera o nosso bairro com doses irresistíveis de hospitalidade.

Vendo assim, a Tijuca pode até ser um bairro meio sem nada para fazer mesmo, mas um bairro apaixonantemente "parado".

7 de mar. de 2014

Direto da Rua Professor Lafayette Côrtes, o edifício Cibrasil!

Ilustração do livro de Cynthia Howlett reproduz a monumentalidade do Edifício Cibrasil, na região da Rua Dulce


Foi uma grata surpresa folhear o recém-lançado livro bilíngue de Cynthia Howlett (Alma do Rio/The Soul of Rio, Editora Réptil, R$ 39,50 na Travessa) e me deparar com um capítulo exclusivamente dedicado ao bairro da Tijuca. Para quem é do Rio e costuma folhear os guias turísticos publicados sobre a cidade, sabe bem que a Tijuca é ignorada dada a sua falta de atratividades turísticas comerciais, muito embora seja uma região significativamente histórica da cidade e que abriga, nas suas cercanias, o estádio do Maracanã e a floresta que leva o nome do bairro.

Cynthia Howlett remou contra a maré e dissertou um pouco sobre o bairro, de forma comedida e sem muita intimidade - afinal, a moça é cria da Zona Sul -, mas que valeu a pena pela lembrança. Mesmo que as fotografias da Praça Saens Peña, símbolo-mor do bairro, tenham sido substituídas pelas do estádio do Maracanã como referência tijucana, há uma agradável surpresa no Alma do Rio/The Soul of Rio: um croqui pra lá de simpático do anônimo edifício Cibrasil, da autoria de Juliana Yue, a ilustradora do livro. 

Você, tijucano, o conhece? Pode ser que de nome, não, apesar de já ter ouvido falar nas ruas Dulce e Professor Lafayette Côrtes, certo? O edifício Cibrasil, esse que você pode ver nas imagens, fica na esquina da Lafayette Côrtes com a General Marcelino, bem nos fundos do Colégio Militar, às margens da imponente Pedra da Babilônia. Região da São Francisco Xavier e Almirante Cóchrane. Localizou? É difícil mesmo de situar-se caso você não disponha de um mapa. Os próprios tijucanos se confundem com as suas ruas e tal qual foi a minha surpresa de logo a Cynthia Howlett - mais uma vez, cria da Zona Sul - supostamente conhecer e ainda colocá-las no seu livro.

O Cibrasil é um daqueles edifícios clássicos dos anos 1940 que tanto embelezaram bairros como a Tijuca, Flamengo e Copacabana (sobretudo nos arredores da Praça do Lido) e que hoje sobrevivem a custa de muito interesse por parte dos seus proprietários, que nem sempre estão interessados - ou possibilitados, financeiramente falando - em preservar tais prédios. É uma manutenção, por vezes, langorosa. O Cibrasil faz parte desse rol de joias arquitetônicas da cidade que não recebem o devido cuidado, mas que, por outro lado, continuam adornando as nossas ruas.

A garça feita em chapa de ferro no topo do Cibrasil: joia arquitetônica tijucana

Ele se parece a um castelinho, e sua cor acinzentada, meio pálida, atenua o impacto das pequenas descaracterizações aplicadas à fachada. A entrada possui um elegante portão verde de ferro cujos detalhes dourados, em formato de ondas, se parecem a bigodes muito bem penteados. Os arabescos, preenchidos por azulejos floridos, compõem toda a fachada da torre com um charmoso vitral por onde passa a escadaria do Cibrasil. Os antigos jardins do pátio interno do edifício, no entanto, clamam por melhores cuidados - tornaram-se um amontoado de matos e folhas sem intenção paisagística alguma.

Por último, peço ao leitor (e futuro pedestre da rua!) que observe o topo da torre do Cibrasil: o telhado tradicional, em formato circular, comporta uma garça composta em material ferroso que, além de ser um belíssimo e incólume adorno, também se assemelha a uma rosa-dos-ventos.

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