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5 de jun. de 2017

Tijuca: um bairro tamanho família

Matéria publicada em VEJA RIO, há 20 anos, fala sobre os estereótipos atribuídos ao bairro.

Em outubro de 1996, a VEJA RIO, suplemento da revista homônima, publicou matéria de capa dedicada a explorar o perfil socioeconômico da Tijuca em ocasião da abertura do Shopping Iguatemi Rio, no Andaraí, bairro vizinho. A reportagem tinha como objetivo representar o estilo de vida dos tijucanos na ótica dominante da revista, voltada especialmente aos moradores da Zona Sul. Intitulada "Bairro tamanho família", a repórter Flávia Pinho procurou qualificar o tijucano como um personagem ilustre por ganhar acima da média carioca, razão pela qual o Shopping Iguatemi inauguraria em seus domínios uma filial da matriz paulistana, conhecida pela segmentação de mercado direcionada às classes A e B altas. Segundo pesquisa realizada por uma empreendedora que, na época, era proprietária da marca Iguatemi, afirmava-se que na área a cinco minutos de carro do shopping havia 208 000 domicílios cuja renda alcançava 1,6 bilhão de dólares por ano.

No entanto, os elogios dispensados ao capital econômico dos tijucanos seriam contrabalançados pela ironia do texto em recorrer indiretamente aos estereótipos sociais dominantes atribuídos à Tijuca para descrever o estilo de vida daqui. O perfil "família" do bairro, a devoção às festas de debutantes e ao gosto pelas mesas fartas e por sobremesas são narrados pela repórter como partes indissociáveis de um jocoso ethos que não se veria em lugar algum fora da região entre a Praça da Bandeira e o Alto da Boa Vista. Assim, ao dizer que os tijucanos não ligavam para pechas, VEJA RIO endossava a caricatura associada à Tijuca vista como cafona, provinciana, conservadora e careta, mas também procurando promover a grande Tijuca a um status que tentava fazer jus à chegada do novo centro comercial.

Fenômeno carioca da época, a transferência expressiva dos moradores da Tijuca para a Barra da Tijuca é retratada por VEJA RIO com a história da família Mussalem, dona das prósperas Casas Pedro. Após quinze dias residindo em "apartamentão" na Avenida Sernambetiba, orla da Zona Oeste, a família havia decidido regressar para a cobertura dúplex da Tijuca, por uma questão de apego territorial. Já o caso de um analista de sistemas que havia se mudado para o Leblon, mas que não conseguia largar a Tijuca e o Tijuca Tênis Clube, é tratado como algo inusitado. Por fim, a matéria sentencia a ideia já premente no imaginário carioca de que ser tijucano não seria uma condição geográfica, mas um estado de espírito. Em suma, um autêntico texto estilo "morde-assopra".

A matéria na íntegra - em texto - você lê abaixo das imagens.






VEJA RIO, 2 de outubro, 1996

Bairro tamanho família

Apegados à família e às tradições, os tijucanos não ligam para pechas e, ganhando acima da média carioca, são hoje cortejados pelos shoppings


Flávia Pinho, com colaboração de Telma Alvarenga

Digam o que disserem, o tijucano é feliz. E ainda se diz mesmo muita coisa do outro lado do túnel. Que aqueles pouco mais de 175 000 cariocas são cafonas, provincianos, conservadores, caretas. Se houve um tempo em que essas carapuças serviram para esconder um rubor encabulado ou, pior ainda, doídos ressentimentos, isso já passou. Os tijucanos transpiram bairrismo sem remorso. Adoram a vida em família – em nenhuma outra parte da cidade filhos e netos orbitam como satélites nas vizinhanças muito próximas das casas de patriarcas e matriarcas. Dão importância para festinhas de 15 anos, para a lasanha do La Mole, para a eleição da Garota AGT, o corpinho mais trabalhado da academia de ginástica do Tijuca Tênis Clube, venerada instituição em que legiões deles preferem tostar a pele às margens da piscina do que na lonjura das praias. É assim que vêm atravessando o tempo, aferrados ao lugar e a valores tradicionais. Se carioquismo fosse estatística, eles seriam a mediana entre a fervura a Zona Sul e o mundão do subúrbio. “A Tijuca nunca foi moda”, define o administrador de imóveis Mário Henrique Rodrigues, 36 anos, titular do Xavier, o time de peladas que leva o nome da Praça Xavier de Brito, um lugar onde até hoje há crianças pilotando pacatos pangarés ou charretes puxadas por bodes.

Mesmo imunes a modismos, os tijucanos nunca foram tão cortejados como agora. Alguns números explicam o fenômeno. A renda familiar do bairro gira em torno de 12,4 salários-mínimos (quase 1 400 reais), contra a média de oito salários-mínimos da cidade. Há mais gente com curso superior por lá do que em Copacabana. É, por exemplo, a maior concentração de dentistas do Rio – dos 10 487, 1 821 estão nas redondezas da Praça Saens Peña. O número de telefones celulares per capita bate o da Zona Sul. Dos bairros residenciais é o que tem mais agências bancárias e o que mais paga ICMS, sintoma de poder de fogo de consumidores vistos como gastadores discretos e pontuais. Atrás de tanta afluência, abre as portas nesta segunda-feira o Shopping Iguatemi Rio, que com 228 lojas vai ocupar o terreno que já serviu de campo de futebol para o América, segundo clube de coração de muitos cariocas e primeiro de uma sofrida e teimosa minoria. Os responsáveis pelo investimento de 100 milhões de dólares coroam a Tijuca com superlativos de um paraíso do consumo. Pesquisa feita pela LaFonte, empreendedora que é dona da marca Iguatemi com sede em São Paulo, diz que na área a cinco minutos de carro do shopping (um raio de 1,8 quilômetro) há 208 000 domicílios cuja renda alcança 1,6 bilhão de dólares por ano. Da dinheirama que essa gente não gasta no varejo local, o Iguatemi espera abocanhar 157 milhões de dólares, fortuna que faria a felicidade de uns dez ganhadores solitários daquelas Senas acumuladas. “Temos a expectativa de receber 40 000 pessoas por dia e, pelo menos, 60% delas virão aqui a pé”, não faz por menos José Antônio Grabowski, diretor da área imobiliária do Banco Icatu, outro sócio da empreitada.

Os preconceitos sobrevivem na orla. Por ali, todo mundo, inclusive o shopping, gosta de se ver como tijucano. Explica-se: o Iguatemi na verdade fica no Andaraí, num vértice entre a Tijuca e a Vila Isabel. Mas Andaraí, Aldeia Campista e outras simpáticas adjacências se sentem anexadas à grande Tijuca. A grande Tijuca, é bem verdade, já foi muito maior. Via como dela a brisa fresca do Alto da Boa Vista e todo o marzão da Barra, que levava (e ainda leva) a marca do batismo no sobrenome. Barra, eis aí um sonho de consumo que ainda sobrevive. Said Mussalem, 50 anos, dono da matriz e das cinco filiais da Casa Pedro, loja que vende especiarias da culinária árabe, acreditou nele por quinze dias. Comerciante próspero, há dois anos mudou-se com a mulher, Solange, e os filhos Felipe, 20 anos, Karine, 18, e Diogo, 12, para um apartamentão de quatro quartos, de frente para o mar da Barra. “A namorada do Felipe mora aqui perto, ele e a Karine estudam na Uerj e não quiseram ficar tão longe”, justifica a rápida desilusão Solange, a única que até hoje não se conforma com o fracasso da mudança. “Foi por causa do trânsito”, emenda Said, que em duas semanas estava de volta para a cobertura dúplex da Tijuca com mulher, filhos e o cachorro “Pitoco”. Sem arrependimento. “Tenho amigos aqui”. O que afugentou a família Mussalem continua lá. O trânsito é horrível e o bairro está infestado de camelôs e de hordas de bandidos e pivetes que pontuam o cotidiano com violência.

Na televisão gigante de 52 polegadas, Said e família gostam de rever a crônica tipicamente tijucana da qual orgulhosamente fazem parte. Congelam a imagem de Karine, vestida como uma fada flutuando na nuvem de gelo-seco do cenário de sua festa de 15 anos, em 1993, um acontecimento para os 500 convidados no Clube Sírio e Libanês. Said tinha para gastar. Gilberto e Wilma de Sousa não. A festa de 15 anos da filha Fernanda consumiu todas as energias e economias do casal. O roteiro começou às 8 e meia da noite do último sábado, 28. Os Sousa espremeram 300 pessoas na pequena capela de Bom Jesus do Calvário, na Conde de Bonfim. Depois veio a festança na Associação Atlética Banco do Brasil, AABB, onde Fernanda desembarcou com um vestido cor de vinho, combinando com a decoração das mesas. À meia-noite, fez uma entrada triunfal com um longo branco, dançou a valsa com o pai e arriscou uma coreografia com seu “príncipe”, Hugo, que namora há um mês. Entre uma coisa e outra, o analista de sistemas Gilberto brindou os convidados da festa dedilhando ao violão a canção O Caderno, de Chico Buarque. O aluguel da igreja ficou em 700 reais, o vestido vinho custou 300, o longo, mais 700. Somem-se a isso os presentinhos especiais – flores para avós e tias, canetas gravadas para os jovens, anéis de ouro para a irmã e a prima. Ainda faltam a decoração, os fotógrafos... “Acho que gastamos uns 10 000 reais”, faz as contas Wilma, que é instrumentadora cirúrgica. “Um dinheirão, e acho um absurdo”. Mas era o maior desejo de Fernanda. E pronto.

Os ritos de passagem são apenas mais um traço da coesão familiar tijucana. Homero Icaza Sanchez, que já não é mais bruxo em tempo integral de pesquisas de audiência da Rede Globo, educou o ouvido escutando aspirações do telespectador de novelas. Brasileiros em geral, cariocas em particular, tijucanos nas menores minúcias. Conhece bem a alma dessa gente que colonizou o bairro com grandes casarões, mais tarde trocados na vertigem imobiliária por apartamentos para eles e seus descendentes. “O resultado é que todo mundo mora perto, às vezes no mesmo prédio”, diz Kátia Varela Mello, 29 anos, defensora pública, não consegue cortar o cordão umbilical. “Como eu poderia ficar longe da minha família? ” E da Praça Xavier de Brito, aonde costuma levar os filhos Eduardo, 4 anos, e Felipe, 1. É só um pequeno exemplo dos clãs tijucanos. Em torno de Raymundo Silvino Pereira, 85 anos, e de sua mulher, Helena, 73, gravita uma farta e barulhenta prole de sete filhos e doze netos. Com exceção de uma filha, que migrou para a Barra, todos moram perto do casarão de dois andares da Avenida Maracanã, onde o casal vive há 28 anos, desde que deixou uma enorme chácara na Rua Antônio Basílio. Raymundo chegou de Pernambuco em 1929 e foi direto para a Tijuca, onde conheceu Helena. Os dois se casaram no dia em que a II Guerra Mundial acabou (8 de maio de 1945), numa cerimônia celebrada pelo então padre Helder Câmara, o que é apenas um dos atestados de longevidade do casamento. Há outros. A mãe de Helena, Julieta Contardo, tem 107 anos e ainda vive com o casal. “Só podia acontecer comigo, ter uma sogra que passa dos 100”, brinca Raymundo.

Helena criou os filhos levando a criançada com merenda para as sessões de domingo do cinema Olinda. O cinema injetou ambições hollywoodianas no espírito tijucano, teoriza Homero Sanchez, que vê nos emergentes de hoje os tijucanos de ontem. “Os netos da Zona Sul acreditam na tradição; os da Tijuca, no sucesso”, diz. No sucesso acreditam Sérgio Pereira da Silva, 46 anos, sócio há 21 de uma clínica no bairro que mais tem dentistas na cidade. “A Tijuca tem uma classe média com forte poder aquisitivo”, explica a concentração. Mas, para além do sucesso, os tijucanos acreditam em algumas instituições que elegem como o prolongamento de sua casa. Os netos de dona Helena estão entre os 38 000 dependentes de 12 000 sócios do Tijuca Tênis Clube, imensa província de lazer da Conde de Bonfim. Piscinas são três. Há dois ginásios, campos de futebol, quadras de tênis e squash, salões de festa, teatro, além de três andares de academia de ginástica. É entre as frequentadoras da academia que será escolhida, ainda em outubro, a Garota AGT. Antigamente, os desfiles eram de biquíni, mas as garotas se acham muito expostas. Agora se exibem em uniforme de malhação. A lotação dos salões oscila. “Quando vem uma orquestra de peso como a Tupy, recebemos até 800 pessoas”, conta Hildo Magno da Silva, vice-presidente sociocultural do clube. Não há mais títulos de sócio-proprietário disponíveis. Só num mercado paralelo e custam no mínimo 2 000 reais.

O ambiente do Tijuca foi uma das razões para Gilberto Carneiro da Silva, 43 anos, analista de sistemas da Dataprev, fazer um percurso parecido com o de Said Mussalem. Com o fim do primeiro casamento há seis anos (já tinha dois filhos, Gabriela e Gilberto Jr.), mudou-se de lá. Conheceu Tânia, quem teve Gabriel, e foi morar no Leblon. “Fiquei dormindo lá, mas minha vida continuou aqui”. Não resistiu e voltou. Até hoje bate ponto no Tijuca, onde exerce o cargo de vice-presidente de Jogos Recreativos, e na praia em frente do quiosque Viajandão na Barra, a saída para o mar da Tijuca. A mulher, Tânia, já está tão acostumada que se matriculou na ginástica do Tijuca. “Lá no Leblon acham que eu fiquei maluca ou que o Gilberto fez macumba para mim”, diverte-se. Gilberto é um tijucano na alma e no paladar. O filé aberto no Lareira, na Barão de Mesquita, o chope no Roquinha, na General Roca, e os bolinhos do Rei do Bacalhau, na Praça Xavier de Brito, são para ele tentações permanentes. Não vai mais ao La Mole “por causa do tumulto”. Por tumulto entenda-se 3 000 pessoas disputando 660 vagas em 165 mesas aos domingos à caça dos pratos mais pedidos – lasanhas (saem 200, a 6,50 reais cada uma) e medalhões com arroz à piamontesa (150, por 15,95 reais). “O La Mole é parecido com a casa da mama”, diz José Maria Correia Freitas, gerente de serviços da filial da Tijuca na Marquês de Valença.

O La Mole também é a mesa da classe média em outros bairros. Na verdade, a Tijuca tem outras singularidades gustativas. Adora doces, por exemplo. Quem sabe uma vantagem do descompromisso com a forma de quem mora longe da praia. A Lecadô vende por mês 7 000 tortas, quase o dobro das 3 600 vendidas pela rede Chaika em duas lojas na Zona Sul e uma na Barra. São 49 opções, mas pede-se a mais a Spumoni, à base de creme de leite, chantilly e leite de condensado, tudo em três camadas coloridas artificialmente. Por falar nisso, a Sendas Tijuca vende todo mês 5 520 latas de leite condensado, bem mais do que as 4 560 vendidas na filial do supermercado em Botafogo, que é do mesmo tamanho. Goiabada, então... são 480 latas por mês em Botafogo, contra 936 na Tijuca. Talvez por isso as amigas Cláudia Pereira de Paula Muffi, 34 anos, moradora de Vila Isabel, e Maria Cristina Cunha, 37 anos, tijucanas, estejam tão animadas com as perspectivas da loja Dunkin’ Donuts que estão abrindo no novo Shopping Iguatemi. As duas trabalhavam no Banco do Brasil e se candidataram a uma franquia da americana Donuts, que faz rosquinhas recheadas de doce de leite e creme, com cobertura de chocolate, que já regalam paulistas e só agora chegam aqui. “O público para isso aqui é muito bom”, confia Cláudia.

O gosto por doces qualquer um entende. Mas o que leva tanta gente para noites de picanha, música e farra no Rincão Gaúcho? Em seu livro Os Últimos Dias de Paupéria, o poeta e letrista Torquato Neto sentenciou: “O tijucano se diverte olhando”. Pois no Rincão, onde uma foto gigante de Tom Cruise de smoking decora o banheiro feminino, ele se diverte fazendo. Nos fins de semana segue-se ao banho de sangue do churrasco um show de Fabiano Straube de Souza, 20 anos, ou só Fabiano. De sua voz saem canções românticas: “Meu estilo é o mesmo do Fábio e do Maurício”, cita com intimidade Fábio Junior e Mauricio Mattar. Quando a letra é em inglês, apela para uma genuína embromation e fica uma hora animando casais que dancam agarradinhos. Depois é a vez de Célia Cavalcanti, que esquenta o salão com boleros e axé music. E, finalmente, entra em cena o performático Marcelo Negrão, a atração mais esperada da noite. Ele canta Parabéns pra Você para os aniversariantes, apimenta com piadinhas torpedos e bilhetes que fulana manda para fulano, arrancando uivos e gargalhadas. A apoteose é a dança da boquinha da garrafa. O advogado Armando Marinho Filho, 45 anos, e sua mulher, Isabel Valente, 36, vão muito lá. “Há dez anos frequentamos o Rincão em média duas vezes por semana”, conta Armando. Eles fazem o itinerário inverso. Moram no Jardim Botânico, têm dois telefones celulares e cruzam o túnel na direção norte. O que prova que ser tijucano não é uma condição geográfica. É um estado de espírito.

14 de out. de 2016

A Confeitaria Tijuca

Revista da Semana, 1944.
Os Srs. Batista Godinho & Cia, apresentando aos cariocas e à elite tijucana em particular, as luxuosas e moderníssimas instalações da nova CONFEITARIA TIJUCA - Sorveteria e Casa de Chá - vêm corresponder a uma antiga aspiração dos moradores da Tijuca. Em suntuoso edifício, especialmente construído para esse fim, a Confeitaria Tijuca, dotada de ar condicionado e mobiliário confortabilíssimo, será o ponto predileto para as tradicionais reuniões da elegância da fina sociedade tijucana. 

Para além dos cinemas, os anos dourados da Praça Saenz Peña foram marcados por uma série de estabelecimentos comercias simbólicos que ainda povoam o imaginário que se faz a respeito do bairro. Um dos locais mais lembrados é a Confeitaria Tijuca, da qual, particularmente, se tem pouca informação. Inaugurada em 1943 no número 352 da Rua Conde de Bonfim – na exata localização da atual filial das Lojas Americanas –, a Confeitaria Tijuca foi um marco importante na história da Tijuca como bairro de “gente bem”.


Equiparada à sofisticada Confeitaria Colombo, da Rua Gonçalves Dias – no Centro – por oferecer “serviço completo para banquetes” ao som de uma “orquestra permanente”, a Confeitaria Tijuca foi batizada como “o novo arranha-céu da Praça Saenz Peña”, em anúncio publicado no Jornal O Globo de 21 de janeiro daquele ano. Neste mesmo anúncio, é notório o prestígio do tributo oferecido às firmas que participaram na construção do imóvel: “triunfam a inteligência, a operosidade e a técnica”, apontam os anunciantes sobre a qualidade oferecida pelos senhores L. Mello & Irmão, responsáveis pela instalação da maquinaria de refrigeração elétrica, fazendo da Confeitaria Tijuca um dos locais pioneiros no Rio de Janeiro, fora do Centro, em receber tal tecnologia.

Jornal O Globo, 21 de jan. 1943: veja o anúncio em alta resolução.


Empreitada do sr. Batista Godinho & Cia, dos quais não se tem maiores informações do que esta, a Confeitaria Tijuca tinha como propósito substancializar o grand monde carioca num espaço singular que refletisse o bom gosto dos moradores do “aristocrático bairro” da Tijuca na forma de um “ambiente de requintado conforto”. Decorado inteiramente em estilo marajoara, desde a iluminação dos letreiros em neon às “cadeiras confortáveis” de metal, passando pelas faces polidas e brilhantes dos espelhos (que “reúnem todo o encanto das coisas belas e grandiosas”), a Confeitaria Tijuca se outorgava o título de “A maior organisação da América do Sul” (sic) em serviços de chá, sorvetes, almoços, lanches e jantares.

Em outro anúncio publicado na Revista da Semana, de 1944, e reproduzido no livro “História de Bairros – Tijuca” (João Fortes Engenharia/Index Editora, 1984), vê-se a ilustração do que seriam os interiores da Confeitaria Tijuca: um amplíssimo salão de chá repleto de casais jovens e elegantes servidos por garçons em fraque com gravata borboleta. Do alto do salão, um camarote encena o maestro coordenando sua orquestra. Não há registros de quando a Confeitaria Tijuca encerrou suas atividades, mas a ostentação de seus anúncios e os elogios dispensados aos moradores do bairro não deixam dúvidas sobre a origem do tal orgulho tijucano que permanece vivo até os dias de hoje pelas ruas de todo o bairro. Marcas de um passado “dourado” que se perpetuam nos gostos e nos discursos de muitos conterrâneos.

21 de set. de 2016

A história da Praça Saenz Peña: a formação do primeiro subcentro de elite carioca

Vista aérea da Praça Saenz Peña, em 1940: primeiro subcentro carioca.
Fonte: "O Rio visto pelo alto", de Patrícia Pamplona - encontrado em Alberto de Sampaio.

A declaração é objetiva, clara e com embasamento científico: a Praça Saenz Peña é o primeiro subcentro a surgir no Rio de Janeiro, e o segundo a emergir no Brasil (o primeiro foi o do Brás, em São Paulo). Mais do que isso, a Praça Saenz Peña é o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares. Tais afirmações são do arquiteto e urbanista Flávio Villaça, professor da Universidade de São Paulo (USP), autor do clássico livro Espaço intra-urbano no Brasil (Studio Nobel/FAPESP, 1998). Nesta obra, Villaça discute como se deu a produção do espaço urbano em seis metrópoles brasileiras, mostrando as “forças” capitalistas existentes por trás do mar de prédios, casas, praças, lojas, serviços, funções e usos da solo que faz parte do nosso cotidiano.

Espaço intra-urbano no Brasil (1998)
Neste livro, Villaça dedica importantes considerações à Tijuca por ser um dos bairros cuja urbanização é das mais antigas do Rio e, também, por ter sido um bairro pioneiro de “elites” na cidade. Inclusive, são as referências desse passado nobre – e, portanto, visto como digno de status – o tempero que rege muito dos discursos sobre o “orgulho tijucano”. Além disso, a memória afetiva é também um elemento crucial da representação da Tijuca no imaginário coletivo, especialmente quando falamos da Praça Saenz Peña. Muitos textos, livros e artigos se referem à praça como um lugar de cinemas e glamour nos anos ditos “dourados”, mas sem elucidar as razões sociais, políticas e econômicas que ascenderam a Saenz Peña em lugar com este perfil.

É este aspecto que pretendo dissertar nesta série de publicações sobre a formação, a evolução e a decadência simbólica da Praça Saenz Peña como subcentro de “ricos”, a começar por agora.

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Para Villaça, o subcentro é uma aglomeração diversificada e equilibrada de comércio e serviços. Ele é uma réplica em tamanho menor do centro principal – no caso do Rio de Janeiro, o nosso Centro –, “com o qual concorre em parte sem, entretanto, a ele se igualar”. O subcentro apresenta esses requisitos de comércios e serviços para apenas uma parte da cidade, enquanto o centro principal é referência para toda a metrópole. Os primeiros subcentros cariocas surgiram nos anos 1930 em bairros caracterizados, de modo predominante, pela função residencial. Com o desenvolvimento do subcentro, o cenário de bairros como o da Tijuca, de Copacabana, do Méier e de Madureira foi sendo transformado consoante a chegada de lojas comerciais, consultórios, bancos, cinemas, com o objetivo de atender à população residente/visitante no local e nas proximidades. Segundo Villaça, a partir de tais serviços, esses bairros passaram a representar um papel complementar de “centro de atividades”, tornando-se referência como polos terciários de importância local.

Neste sentido, cabe constatar que a formação dos subcentros também esteve muito associada ao desenvolvimento e à consolidação da expansão urbana da cidade em determinados pontos da Zona Sul e da Zona Norte. Isto porque, até meados do século XX, o Centro era o único local de serviços – lugar, por excelência, para onde se deslocava o grosso da população quando precisava resolver pendências ou realizar determinadas compras. A expressão carioca “ir à cidade”, como sinônimo de ir ao Centro, reflete consideravelmente essa posição do local como antiga zona de convergência, mostrando, retoricamente, a condição predominantemente residencial dos bairros fora dali.

Praça Saenz Peña, em 1960

Entretanto, Flávio Villaça pontua duas questões importantes sobre a apropriação do espaço do Centro e a respeito da produção dos subcentros. A primeira delas é que, na primeira metade do século XX, o Centro era um local majoritariamente ocupado pelas classes de alta renda, tanto para fins de trabalho como de lazer. Como justificativa a essa informação, basta recordarmos a Reforma Pereira Passos, realizada na década de 1910. Como todos sabemos, a Reforma não se tratou de uma intervenção urbanística voltada para abrigar as atividades e lazeres das classes populares no Centro. Muito pelo contrário; os pobres, em seus cortiços, foram expulsos de lá para os subúrbios, justamente porque as elites reivindicaram aquele espaço como de exclusividade delas.

Logo, o centro principal sempre foi, por vocação, um lugar construído pelas elites para as elites, abrindo brechas para a circulação da população mais desfavorecida a partir do inevitável oferecimento de postos de trabalho subalternos para as classes (des)qualificadas como tais. E, com isso, é claro que algumas ruas do Centro foram desvalorizadas, especialmente aquelas próximas à Central do Brasil e ao ponto final dos ônibus oriundos da periferia.

Mas, de um modo geral, o Centro sempre foi, por excelência, o lugar do poder e, portanto, das elites. Devido a essa razão, em muitas metrópoles brasileiras o surgimento dos subcentros veio para atender à demanda de consumo das classes populares reprimidas, pelo “mercado” - em suas diferentes facetas -, de consumir no centro principal. Neste entendimento espacial, estes subcentros viriam a ser tratados, assim, como pequenos centros situados em bairros populares, sobretudo periféricos. Por outro lado, aqui no Rio a lógica de formação dos primeiros subcentros serviu, inicialmente, para atender outro público e, consequentemente, a outros interesses.

Com base nisso, a segunda questão importante apontada pelo autor é o fato de que as classes de alta renda no Brasil (ou seja, a elite) são as maiores responsáveis pela formação das centralidades. Em outras palavras, significa dizer que a população de maior poder aquisitivo exige – e reivindica – estar próxima ao Centro, no sentido de estar próxima, na verdade, do comércio e dos serviços de que todos necessitamos para a nossa reprodução social. Tratando-se de uma metrópole rica como o Rio – então Distrito Federal –, a expansão urbana das elites atingiu raios de distância, em relação ao Centro, bem maiores do que em outras metrópoles.


Mesblinha - "O magazine da Tijuca", anos 1950.


Programação dos cinemas da Saenz Peña.
Fonte: Conrado Leiloeiros. 
O que é importante frisar aqui é que, concomitantemente à expansão espacial das elites, ocorreu, do mesmo modo, a expansão do tipo de comércio e de serviços típicos que só existiam no Centro para esses bairros em que elas se instalaram. Tudo isto graças à força política e ao poder econômico dessa classe em reclamar sua proximidade ao “centro”, enquanto conjunto de comércio e serviços. Um exemplo contemporâneo deste tipo de processo é o da Barra da Tijuca, que, de 1980 para cá, passou de posição de zona-quase-rural para a de importante centralidade na hierarquia socioespacial carioca.

Neste sentido é que Villaça diz ter surgido no Rio de Janeiro o primeiro subcentro das elites, lá nos anos de 1930: a Praça Saenz Peña. Desde o século XIX, a Tijuca já estava consolidada como bairro urbano e nobre. Com o crescimento espacial e econômico da cidade, nas primeiras décadas do século XX, essa sua condição de bairro nobre (e já consolidado em termos urbanos) foi crucial para que se viabilizasse, espontaneamente, a formação do que seria o primeiro subcentro carioca.

Villaça diz que os subcentros de Copacabana, Méier e Madureira se consolidaram na década seguinte, em 1940, mas voltados para atender a fins diferentes. No caso de Copacabana, por exemplo, contribuiu sobremaneira o turismo, visto que muitos serviços implantados por lá desde o início do século passado tinham os turistas como público-alvo. Já o Méier e Madureira se encaixariam na teoria dos subcentros periféricos voltados para responder à demanda de consumo das classes populares nos subúrbios em que residiam. 

Revista da Semana, 1944

Neste entendimento, Villaça afirma que “a Praça Saens Peña foi o primeiro subcentro voltado para as camadas sociais médias e acima da média jamais desenvolvido numa metrópole brasileira” (p. 278), precedente à Copacabana. Ao mesmo tempo, vale destacar novamente a grande distinção entre Tijuca e Copacabana em termos do perfil de seus respectivos subcentros. Ambos estavam voltados para a elite, é verdade, mas o da Praça Saenz Peña visava atender um público local, das cercanias da Tijuca, enquanto que o subcentro de Copacabana visava atender à demanda do turismo. Copacabana só se tornou um subcentro mais “completo”, menos especializado como turístico, pouco tempo depois dos anos 1940, quando o próprio bairro – e a Zona Sul oceânica – consolidaram seu processo de desenvolvimento urbano e, sobretudo, sua hegemonia como o novo espaço das elites no Rio.

Mas, como se deu a percepção da Praça Saenz Peña como subcentro? Villaça aponta que um subcentro só começa a aparecer quando se nota a chegada de determinados perfis de serviços inéditos ao lugar, serviços estes capazes de conglomerar público e fluxos econômicos equivalentes ao do Centro – resguardadas as devidas proporções. 

Casa Granado, na Conde de Bonfim com Almirante Cochrane: loja pioneira na
formação do subcentro tijucano.


Anúncio da Importadora Tijuca. O Globo (1959).
Na Praça Saenz Peña, o estopim de sua ascensão como primeiro subcentro da cidade – e subcentro para “ricos” – se deve à abertura da primeira filial de uma loja do Centro – então, nobre – no centro de um bairro residencial. Neste caso, estamos falando da Casa Granado, perfumaria instalada na Rua Primeiro de Março (antiga Rua Direita) desde 1870. Aqui na Tijuca, a Granado foi inaugurada em 1928 em prédio tombado situado na esquina da Rua Conde de Bonfim com Rua Almirante Cochrane. Nas palavras de Villaça, naquela época, “as perfumarias eram lojas importantes e essa filial era um indicio significativo da importância do centro da Tijuca” (p. 296).

Outros exemplos apontados por Villaça são os das filiais das seguintes lojas: Formosinho, que vendia artigos de vestuário e que contava com dois estabelecimentos no Centro; a loja Drago, que vendia móveis; o Jarro de Cristal, que vendia louças e cristais; a Confeitaria Tijuca (da qual pretendo falar em outra publicação); a Ferreira, que vendia ferragens, além de várias lojas de calçados e tecidos; e a Importadora Tijuca, uma loja que vendia automóveis situado no número 426 da Conde de Bonfim, onde hoje se localiza uma filial da rede de eletrodomésticos Ponto Frio. 

Mas, o principal mesmo eram os cinemas (que também falarei em outra oportunidade). No início de sua vocação como subcentro, a Praça Saenz Peña contou com cinco grandes cinemas: o Olinda, o Tijuquinha, o Metro, o América e o Carioca. Comparando a potência da Saenz Peña com a de Copacabana, Villaça sublinha que, em 1940, Copacabana inteira tinha apenas três cinemas. Se levarmos em conta a quantidade total de cinemas na Tijuca - isto é, incluindo as salas para além da Saenz Peña -, esse número pode alcançar patamares ainda mais elevados.

Foram essas as razões que fizeram emergir o subcentro da Praça Saenz Peña, o qual Villaça assegura como “o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares” (p. 297). A evolução deste subcentro nas décadas consecutivas, incluindo, também, a tão chamada “decadência” da Praça Saenz Peña, será discutida nas próximas publicações.

19 de fev. de 2016

Tijuca: o túnel, a fronteira final

As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Assim era caracterizada uma das tantas facetas da vida adolescente na Tijuca dos anos 1990 pelo repórter Paulo Reis. A reportagem "Tijuca: o túnel, a fronteira final", foi veiculada no fascículo B/Zine, do extinto Jornal do Brasil, no longínquo domingo 1 de agosto de 1993. Voltado para o público jovem, o B/Zine trazia matérias semanais sobre estilo de vida e comportamento numa linguagem claramente direcionada ao jovem leitor da Zona Sul.

Na matéria em questão, a Tijuca é sublinhada pelo repórter como um bairro "além-túnel", mas que mesmo assim é digno de importância. Entre os tantos motivos de "dignidade", fala sobre as bandas de rock do bairro e as músicas que, compostas e saídas daqui, se tornaram conhecidas Brasil afora (assim como seus autores). Aborda-se também a vocação musical do shopping center (hoje considerado uma galeria) localizado no número 229 da Rua Conde de Bonfim, onde funcionou a danceteria Mamute e hoje abriga uma filial da Igreja Maranata. Era lá onde funcionavam estúdios de gravação, lojas de instrumentos musicais, além da locadora Video Center, a "melhor" em aluguéis de vídeos, games e CDs, com as maiores novidades daquela época.

Já no finalzinho do artigo, comenta-se sobre a chegada do Mc Donald's na Tijuca, por volta de meados de 1993. Embora considerada uma lanchonete bacana para os padrões do início daquela década, o Mc Donald's enfrentou resistências do tijucano por sua nada velada preferência pelo Bob's. Isso se confirma na fala de João Emídio, adolescente de 15 anos, quando aponta que "o único defeito do Mc Donald's era não ter milk shake de ovomaltine", carro-chefe do Bob's até os dias atuais.

Embora esta reportagem provavelmente tenha sido escrita por um estagiário ou jornalista iniciante, dado o caráter juvenil do fanzine, há uma menção histórica importante ali: a que fala sobre os adesivos I'm Tijuca distribuídos pelo Mc Donald's no momento de sua inauguração na Barão de Mesquita. O adesivo é, sem sobra de dúvidas, uma peça rara, difícil de achar ou até mesmo comprar. Por outro lado, encontrei o dito cujo há alguns meses colado resistentemente ao vidro da janela de um apartamento na pequenina Rua Piracicaba, entre Visconde de Figueiredo e Conselheiro Zenha. Um verdadeiro exemplar do orgulho tijucano incorporado ao slogan imperialista do Mc Donald's. Raro. Veja esta edição do JB na íntegra aqui: https://news.google.com/newspapers?nid=0qX8s2k1IRwC&dat=19930801&printsec=frontpage&hl=pt-BR.

B/Zine, Jornal do Brasil, p. 10, 01/08/1993. 
Tijuca: o túnel, a fronteira final
Por Paulo Reis
Tem um túnel, o Rebouças. Ele é o elo perdido. De um lado, está a Lagoa, Ipanema, a Chaika, os shoppings e essas coisas que todo mundo conhece. Do outro lado, meu filho, está a Tijuca. Sabes lá o que é isso? Pois vamos explicar. Naquela imensa São Paulo, que começa na saída do Rebouças e sobe pelo Alto da Boa Vista, se esconde uma rapaziada pra lá de boa. Mas eu já sei, você não me engana. Já torceu o nariz e pensou: o máximo que pode sair da Tijuca é o Álvaro Valle. Caro amigo, você está desinformado. Não dá para esquecer que o peso-pesado do soul, Tim Maia, veio daquelas bandas. Que o Benjor inventou o sambalanço com guitarra lá. E que a Festa de Arromba do tremendão Erasmo e do Rei Roberto também foi por ali. Nos anos 80, a Tijuca botou no mundo um peixe pequeno do rock Brasil: Picassos Falsos. E Ed Motta ainda vive naquelas plagas. Acredita agora na importância da Tijuca, papudo? 
Ser tijucano é ser avant garde. É assim com Marcia Gonçalves, 28 anos, editora do fanzine BACKSTAGE. Respeitado no meio editorial, o zine tem all access em todos os grandes shows internacionais. Marcia acha que ser tijucano é muito bom. "Na Tijuca tem a melhor locadora de CDs e vídeos do Rio, a Video Center. Lá tem todas as novidades das lojas de fora. Só não existem lugares para shows de rock", fala Marcia. Ela sempre viveu na Tijuca e acha "muito muito legal não ser da zona sul". 
Se um skatista antes tinha que pegar o 415 para ir à pista do Rio Sul, hoje não precisa mais. O que não falta são picos para fazer manobras. Rodrigo Tavares, 14 anos, acha a Tijuca "muito irada, porque tem muita gente legal". Ele frequenta o point da Praça Xavier de Brito ou embaixo do viaduto do Maracanã. O grito de guerra é: "Maior cabeção. Tijucano até a morte!", avisa. 
Lá tem até estúdio. Os ex-Picassos Gustavo Corsi e Abilio Azambuja se juntaram ao Ivo Ricardo e fundaram o estúdio Pad e a loja Musix. Sabe onde? No shopping da antiga danceteria Mamute. Veja detalhes no texto abaixo. 
Estúdio, hambúrgueres, garotas: e o que você quer mais, amigão? 
Mas não é só de banda de garagem que vive o estúdio Pad. Tony Platão, Tânia Alves, Celso Blues Boy e a turma da Rio Sound Machine também ensaiam por lá. "A gente montou o estúdio porque tem muitas bandas aqui. E criamos a loja de instrumentos para facilidade de quem ensaia. Quando precisar de uma corda, é só atravessar o corredor", diz Gustavo. No futuro, os três músicos vão criar uma escola. "Três em um com garantia de qualidade", avisa Ivo. 
Cruzando pelo bairro, você dá de cara com o melhor sebo de quadrinhos da cidade, o Gibi Center, e também com a melhor loja de aluguel de CDs, a Video Center. Essa loja, que vive lotada, vende vídeos, games e CDs. Ana Elizabeth, uma das sócias, conta: "A loja atende em média 400 adolescentes por dia. São quase dez mil inscritos". Na loja de discos Sub Som, não é diferente. A gerente Inês diz que "o que mais sai são pesados e progressivos". 
As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Rafaela Stern, 10 anos, e Mariana Lang, 11, acham que "a Tijuca tem tudo e que ninguém precisa sair do bairro para se divertir. A não ser para ir à praia da Barra", dizem. 
Mas, então, o que falta na Tijuca? Uma "lanchonete que não seja poeira". Faltava, pois o Mc Donald's abriu há pouco mais de um mês e, para comemorar a data de inauguração, distribuiu um adesivo de carros com os dizeres: I'm Tijuca. Era só o que faltava. O exigente João Emídio, 15 anos, ainda quer mais. "O único defeito do Mc Donald's é não ter milk shake de ovomaltine", lembra, enquanto deixa escorrer a baba do sundae. Tijucano é assim mesmo. Nunca está satisfeito. 

3 de dez. de 2015

"O Tijucano", por Aldir Blanc

Eis um clássico de Aldir Blanc que merece ser compartilhado com os leitores de O PASSEADOR TIJUCANO. A crônica "O Tijucano", escrita por ele nos anos 1970 e que faz parte da antologia Rua dos Artistas e arredores (Editora Codecri, 1979), é uma dessas exemplares literaturas que mais bem refletem o ethos tijucano. Coloco-a aqui como ilustração ao mini-doc inserido no final deste post, divulgado por Fabrício Gonçalves em sua página do Facebook, trazendo Blanc e Moacyr Luz em forma de entrevista no Bar da Dona Maria, na Muda (se não me engano). Além disso, o vídeo apresenta filmagens inéditas da Praça Saens Peña nos anos 1950 cuja narração é, em grande parte, a leitura desta crônica.

O Tijucano, por Aldir Blanc 
A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso. 
— Tu mora aonde? 
— Tijuca. 
O autor dessa resposta pode morar no Largo da Segunda-Feira, no Maracanã, no Andaraí, em Vila Isabel, em Aldeia Campista... digamos que entre o Estácio e o Grajaú tudo é Tijuca. 
Se vocês estão pensando que eu vou dizer “o Tijucano é um estado-de-espírito”, aqui ó! 
O Tijucano é um estado-de-sítio. 
Premido pelo sagrado horror da acusação de suburbano e sonhando, secretamente, com as mordomias ipanemenses, o Tijucano adota uma atitude blasé em relação a seu controvertido bairro. Acha a Tijuca “devagar, careta, meio-não-sei-como, sacou? ” 
Saquei, bestalhão. A Tijuca é exatamente isso: meio-não-sei-como. Uma amostra magnífica do nosso querido Brasil. 
O Tijucano não tem salvação. Pode fingir, fugir, mudar, inventar, mas será sempre tijucano. Mesmo que o corpo disfarce, a alma, como o criminoso, como o filho pródigo, voltará sempre à Tijuca.  
Nenhum morador, de nenhum bairro, padece tanto do tal conflito amor-ódio como o Tijucano. Ele fala mal dos bares da Tijuca, mas não sai deles. Detesta os cinemas do bairro, mas raramente vai a outros. Venera as tangas, desde que não seja na mulher dele. É progressista, desde que o progresso não o afete. Esmera-se em sua descontração. Vigia sua esportividade. Obstina-se em sua espontaneidade. Por trás da indiferença, com que trata o bairro, esconde-se o orgulho. O maldito orgulho de ser Tijucano. 
O Tijucano-Padrão é feito aquele amigo meu que pirou em plena Praça Saens Peña, tirou toda a roupa, subiu numa árvore e começou a gritar: 
— A Tijuca é uma merda! Tô farto disso aqui! Num guento mais a Tijuca! É uma merda! Uma verdadeira merda! 
Quando a ambulância chegou e meu amigo leu o que estava escrito nela, o escarcéu aumentou. Do alto da árvore, nu, mas em pose de senador, bravava: 
— Pro Pinel, jamais! Nós, Tijucanos, temos nosso próprio sanatório! 

BLANC, Aldir. Rua dos Artistas e arrredores. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1979. pp. 192-193.


Aldir Blanc e Moacyr Luz - o Rio profundo: Tijuca, zona de fronteira, Saudades da Guanabara, meio suburbano e meio...
Posted by Fabrício Gonçalves on Sábado, 28 de novembro de 2015

8 de abr. de 2015

Comoção pelo último sanduíche: filial tijucana drive-thru do Bob's vai fechar

Panorama do Bob's Drive Thru, ao lado do Off Shopping: após 27 anos de existência, encerrará suas atividades.

Quem deu a notícia em primeira mão foi a coluna Gente Boa, do Segundo Caderno (Jornal O Globo, 02/04/2015) anunciando “que a Tijuca perderia mais um de seus símbolos”. No caso, a nota se referia como símbolo tijucano ao Bob's Drive Thru do Tijuca Off-Shopping, inaugurado em 1988 sob a alcunha de “maior Bob's do Rio”, cujo fechamento está previsto para o final deste mês de abril. A razão do encerramento das atividades ali seria por causa do alto valor do aluguel estipulado para o local, pois, segundo a matéria, seus rendimentos já não seriam mais sustentáveis com o período atual de crise.

A notícia se espalhou rapidamente pelas redes sociais, gerando comoção e nostalgia: foi criado um evento no Facebook convocando tijucanos e simpatizantes da causa a lanchar pela última vez na referida filial do Bob’s no próximo domingo, 12 de abril, a partir das 17 horas. O sucesso da página foi tanto que, até o fechamento desta publicação, o evento já contava com mais de 13 mil pessoas confirmadas. Embora se saiba que esse número nem sempre se torna real na prática, vale destacar a movimentação do fórum de discussão da página, que, entre relatos saudosos e tons de revolta, há também aqueles poucos que questionam o porquê de tamanha euforia, se o Drive-Thru do Off-Shopping só vive vazio. E é verdade.

Anúncio publicitário de inauguração do Bob's Drive Thru da Tijuca, em 1988

Já faz um bom tempo que esta filial do Bob’s, com capacidade para cerca de 250 pessoas, já não funcionava na íntegra. Os três andares da loja, que em tempos remotos serviram como ponto de encontro de estudantes e cenários de festinhas de aniversário, já vinham sendo interditados por falta de público. Soma-se a isso o fato de que o serviço do Bob’s, de uma forma geral, decaiu bastante ao longo das últimas décadas sem que o preço acompanhasse a queda na qualidade dos produtos. É normal, portanto, que a clientela habitual optasse por lanchar em outros estabelecimentos, mas ninguém esperava que isso um dia pudesse acontecer: eis o motivo de tanta comoção, até mesmo de protesto!

Referências do Bob's: milk shake, cheeseburger e batata
Um detalhe curioso cabível de destaque aqui é sobre a menção ao Bob’s como “símbolo da Tijuca”. Inaugurado em 1958 na esquina da Rua Santo Afonso com General Roca, o Bob’s ganhou sua segunda filial alguns anos mais tarde, em 1976, na Praça Saens Peña, e a terceira (e maior da cidade), no final de 1988, inovando como loja na modalidade drive-through. Muitos não se lembram (outros nem mesmo eram nascidos), mas o império do Bob’s na Tijuca durou até 1993, quando finalmente o McDonald’s conseguiu aportar sua primeira filial por aqui, também em sistema de drive-through, no mesmo endereço: a Rua Barão de Mesquita, na outra extremidade do Off-Shopping.

Segundo o professor Eduardo Halpern, professor adjunto do IBMEC e da UNIRIO na área de Marketing Estratégico, o McDonald’s demorou a chegar à Tijuca precisamente porque o Bob’s, com suas três filiais nos arredores da Praça Saens Peña, funcionava como barreira de entrada a outras lanchonetes do segmento de fast food. E tamanho império – que, a partir dos anos 1990, se espraiou para a Rua Uruguai, o shopping e, mais recentemente, para a Haddock Lobo – fazia parte dos hábitos arraigados de consumo do tijucano. Em reportagem de O Globo, de março de 1990, titulada "Caso de paixão radical", (já reproduzida aqui em O passeador tijucano), a repórter Cláudia Belém apontou: “Quando criança, o tijucano passeia na Praça Saens Peña, adora o sorvete do Palheta e do Pinóquio e os sanduíches do Bob’s, que ele não trai por nenhum McDonald’s”.

Veja mais: Último lanche no Bob's Tijuca - Recordar é viver: 12 de abril de 2015 (domingo), 17 horas.

Cartilha de consumo do Bob's: outro clássico publicitário de 1988.

As divagações sobre o futuro do emblemático prédio do Bob’s no Tijuca Off-Shopping são muitas: alguns comentam que se transformará em mais uma agência bancária, o que seria um retrocesso para o bairro cujo perímetro comercial já conta com dezenas delas – incluindo farmácias e óticas, segmentos que vêm assolando a região da Saens Peña há mais de dez anos.

Resta, então, a nossa torcida para que a Tijuca consiga se reinventar mediante o oferecimento de uma nova opção gastronômica neste prédio. Potencial existe de sobra: o Balada Mix, o Koni Store, o Pizza & Grill, entre outros, são exemplos de sucesso na vizinhança do agonizante Bob’s. Além disso, a Tijuca tem uma demanda reprimida por restaurantes e bares; a vacância do Bob’s pode ser uma ótima oportunidade para tal. De resto, basta marcar na agenda: 12 de abril de 2015, o dia do tijucano se despedir do Bob’s que marcou gerações no seu bairro.
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