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30 de abr. de 2016

Engenho Velho vs. Tijuca: a disputa dos topônimos ao longo do tempo

As freguesias antigas do Rio de Janeiro (capa do livro de Noronha Santos):
Tijuca, um topônimo situado na freguesia da Gávea.

A curiosidade em torno dos topônimos (isto é, nomes próprios geográficos) relacionados à Tijuca e sua região é vasta, mas as informações disponíveis são, por vezes, muito confusas. O qui-pro-quo remonta ao século XVIII, quando Tijuca, Maracanã, Andaraí, Grajaú, Vila Isabel, Rio Comprido, São Cristóvão e partes da região do Grande Méier formavam um único bloco territorial denominado “Sesmaria do Iguaçu”. Administrada pela Companhia de Jesus, essa sesmaria foi parcelada e leiloada em três grandes blocos depois da expulsão dos jesuítas do Brasil. Esses blocos ficaram conhecidos como São Cristóvão, Engenho Velho e Engenho Novo.

Engenho Velho era o nome da freguesia correspondente à atual área da Grande Tijuca. A primeira atividade econômica local foi o cultivo da cana de açúcar, seguida do café, já no início do século XIX. Porém, muitos autores afirmam que as plantações de café estavam mais concentradas nas “matas da Tijuca”, dando a entender que o Engenho Velho correspondia ao local de passagem entre Mata-Porcos (Estácio) e a “Tijuca”. Mas, aí, vem a pergunta: quer dizer que Engenho Velho e Tijuca não eram a mesma coisa?

Não; tornaram-se a mesma coisa. Ou melhor: a Tijuca fagocitou o Engenho Velho.

“Tijuca”, na verdade, era o topônimo original referente à parte alta da nossa região – evidentemente, o que conhecemos hoje por Alto da Boa Vista. Uma olhadela nos mapas das freguesias do Rio antigo permite concluir também que a então “Tijuca” pertencia supostamente à freguesia da Gávea. “Engenho Velho”, por sua vez, era o nome da freguesia cujas terras se espraiavam junto às encostas da Tijuca.

O Engenho Velho, em 1875: veja no canto superior à esquerda o topônimo "Tijuca".
Mapa da Biblioteca Nacional.

A Tijuca daquela época era considerada um dos locais mais agradáveis do Rio de Janeiro oitocentista. Por suas belezas naturais e vegetação opulenta, tratava-se de local predileto para passeios e excursões de nobres (só os ricos conseguiam fazer passeios distantes como este, sem falar no difícil acesso ao bairro por causa dos manguezais da Cidade Nova).

Por sua terra fértil, chamou a atenção de muitos franceses dedicados ao cultivo do café, e que logo se mudaram para o “alto” também atraídos por sua qualidade de vida, livre dos “miasmas” da urbe. A pompa “tijucana” nasceu, portanto, nas imediações da floresta, e por causa de figuras ilustres que passaram a residir por lá, como a Baronesa de Roeun, o Príncipe de Montpeliard, o Conde de Scey, o Conde de Gestas, a Madame de Roquefeuille, o Barão do Bom Retiro, o Visconde de Jequitinhonha, o Barão de Itamaraty, e a família Taunay.

O palacete do Barão de Itamaraty, na Rua Boa Vista: abandono no Alto da Boa Vista.
(Créditos: Pedro Teixeira/Agência O Globo).

Nicolas Antoine Taunay era membro da Missão Artística Francesa e chegou ao Rio de Janeiro em 1816. Seu conjunto de terras foi chamado de “Sítio Boa Vista”, área equivalente aos atuais limites da Floresta da Tijuca. Taunay residia junto à Cascatinha, por isto o nome da queda d’água levar o seu sobrenome. Assim, não é de se estranhar que a notoriedade deste sítio tenha influenciado na maneira como as pessoas se referiam àquele local ao longo dos tempos: “Tijuca”, “Alto da Tijuca”, “Sítio Boa Vista”, “Alto”... “Alto da Boa Vista”.

Mas, voltemos a falar do café.

O cultivo de café favoreceu uma ocupação mais intensiva da Tijuca e do Engenho Velho, que cresceu a uma taxa populacional de 67% entre 1821 e 1838 (a taxa de crescimento do Rio como um todo foi de 22% no mesmo período). No decurso do século XIX, a urbanização foi se alastrando cada vez mais por todo o Engenho Velho à medida que esta freguesia se integrava com a malha urbana existente. O aterramento do mangue da Cidade Nova foi fundamental nesse processo.

A secagem do café em fazenda localizada na Floresta. Gravura do século XIX. 
(Crédito: Louis-Jules-Frédéric Villeneuve e Johan Moritz Rugendas/Biblioteca Nacional do RJ)

A queda na produtividade do café também foi fator decisivo para a urbanização do bairro. O café devastou as matas da Tijuca quase por completo, fato que exigiu o restabelecimento da cobertura vegetal da área nos anos de 1870. Com a transferência sucessiva dos cafezais para o Vale do Paraíba - e também com a extinção de certas atividades agrícolas -, os terrenos foram sendo progressivamente fragmentados. Novas ruas e lotes foram abertos. 

O Engenho Velho se transformou numa “colcha urbana de retalhos” à medida que novas funções e usos do solo também iam emergindo. É importante lembrar que o século XIX foi nosso período de transição para a sociedade capitalista, época em que se fundou a morfologia urbana na qual vivemos até hoje. Logo, mais habitações foram construídas; mais serviços foram chegando por aqui.

Assim sendo, localidades específicas da freguesia do Engenho Velho conquistaram certa importância, sendo posteriormente chamadas ou reconhecidas por nomes à parte. O topônimo “Fábrica das Chitas” correspondia à área formada pela atual Praça Saens Peña e Rua Desembargador Isidro (por causa da fábrica de tecidos existente nas vizinhanças). “Andaraí Pequeno” se referia à Rua Conde de Bonfim, que só passou a ser identificada desta maneira em 1871. “Andaraí Grande” contemplava Andaraí, Vila Isabel (tornada independente em 1873) e Grajaú (partilhado em 1912).

Segundo autores do livro “História dos bairros: Tijuca”, publicado pela João Fortes Engenharia em 1984, Tijuca foi um nome que “desceu”. Isto porque, se antes “Tijuca” era o nome dado à parte alta, no início do século XX já se chamava de Tijuca pelo menos toda a área que vai da Usina até o Largo da Segunda-Feira.

Uma das razões que podemos apontar para que o topônimo fosse apropriado desta forma tem a ver com o prestígio conferido à “Tijuca” original – vide a prosperidade econômica dos cafezais, a distinção dos moradores ilustres, e o status auferido por suas belezas naturais. O núcleo rico da Tijuca cresceu e precisou espalhar-se territorialmente pelas adjacências, “morro abaixo”, especialmente com a criação da reserva florestal que hoje protege o Alto da Boa Vista.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu cunhou o termo “espaço social” para designar aquele espaço imaginário cravado dentro de um espaço físico como local habitado por um grupo de pessoas que comungam uma mesma identidade, gostos e modo de vida (o habitus). Por este ângulo, é lógico pensar que, na segunda metade do século XIX, os novos moradores da freguesia do Engenho Velho – sobretudo aqueles que se instalaram na Usina, Muda e proximidades ao Alto – estivessem ali devido à simbologia da "Tijuca" original como lugar nobre. 

Igreja de São Francisco Xavier, em 1906: marco simbólico do Engenho Velho.

Por mimetismo – mas também porque pertenciam à mesma classe social –, reivindicaram indiretamente a extensão do topônimo “Tijuca” para seu local de ocupação. O espaço social da "Tijuca" estava sendo ampliado com a instalação de famílias daquele perfil nas encostas, já na parte baixa. E, desta forma, a designação “Tijuca” foi se estendendo ao longo da Rua Conde de Bonfim na proporção em que a freguesia do Engenho Velho se posicionava como lugar urbano habitado por uma classe social igualmente detentora dos valores simbólicos daquela “Tijuca”.

Pode-se imaginar que a decadência do uso de paróquias e freguesias como subdivisões administrativas da cidade do Rio tenha acompanhado o crescimento extensivo do topônimo “Tijuca” por este vale em que moramos. O “Engenho Velho”, por sua vez, continuou existindo até meados do século XX, mas não mais como divisão administrativa, e sim como localidade. Um sub-bairro, talvez?

Mesmo assim, sua área de alcance foi reduzida, conformando apenas o conjunto de ruas situado entre o Rio Comprido e a Rua São Francisco Xavier, localidade onde os jesuítas ainda no século XVIII ergueram a Igreja Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho. Uma evidência deste limite moderno entre Engenho Velho e Tijuca está na Praça Carlos Paolera, em frente ao Teatro Ziembinski: um monumento do Rotary Club dá as boas-vindas à Tijuca a partir daquele local. Instalado em 1986, o "totem" permanece até os dias de hoje no mesmo ponto, livre de vandalismos.

Ainda no livro “História dos bairros: Tijuca”, da João Fortes Engenharia, os autores afirmam que a estação de metrô da São Francisco Xavier se chamaria “Engenho Velho”, nos anos 1970. Entretanto, alguns tijucanos influentes protestaram contra a decisão sob o argumento de que este topônimo já estava em desuso “há décadas”. 

Estes podem ter sido sinais de que a Tijuca já havia, portanto, se alastrado rumo ao Estácio, condensando num único território seus valores e simbologias de lugar valorizado, aristocrático, primariamente chique. Vem daí a essência do "chamar-se" tijucano, gentílico surgido nos anos de 1940. Assim como as disputas pelos limites da Tijuca, como a exemplo de ruas do Andaraí, Vila Isabel, Maracanã e Rio Comprido que, volta e meia, se intitulam tijucanas. O próprio epíteto de "Grande Tijuca" já é uma amostra desse debate do querer-ser Tijuca.

Material consultado:
ABREU, Mauricio de Almeida. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPP, 2008.
CARDOSO, Elizabeth Dezouzart. História dos bairros: Tijuca. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia, 1984.
GERSON, Brasil. História das ruas do rio. 6a edição. Rio de Janeiro: Bem-te-vi, 2013.
LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Uma reflexão em busca de auto-estima. Rio de Janeiro: Record, 2005.
ROSE, Lili; AGUIAR, Nelson. Tijuca: de rua em rua. Rio de Janeiro: Editora Rio, 2004.

19 de mar. de 2016

As alamedas da Colina do Matoso e sua joia: o Santuário da Medalha Milagrosa

Santuário da Medalha Milagrosa: patrimônio tijucano situado na Colina do Matoso


Tijuca, do Brasil formosa ninfa... Apesar de pouco conhecidos do grande público, os versos de “Tijuca, Metamorfose I” deveriam ser ecoados por certas localidades do bairro com fins de ilustração à poesia neoclássica de Cruz e Souza. Mesmo tratando-se de uma obra que remete o atento leitor à Tijuca de tempos pretéritos à sua urbanização, caminhar pelas alamedas do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) não deixa de ser uma volta ao passado.

Para alcançá-lo, é preciso percorrer toda a Colina do Matoso, parte elevada da Tijuca bem na divisa com a Praça da Bandeira. O caminho que leva ao hospital, flanqueado de palmeiras entre outras espécies arbóreas, é um daqueles fantásticos recantos capazes de relaxar os ânimos e agraciar a alma. Por ser um hospital de grande referência, o número de atendimentos é elevado, mas poucos são os pacientes e visitantes que chegam ali como pedestres. Devido à ladeira, a maioria opta por carros e táxis para atingir o topo da colina, fazendo desse pequeno percentual de andarilhos uma classe privilegiada. Eu explico.

Vindo pela entrada principal – isto é, pela Rua Doutor Satamini –, o passeador deve seguir o caminho tortuoso de paralelepípedos, que flui o trânsito de automóveis pelo regime de mão-inglesa. A calçada é estreita e o espaço aéreo quase todo tomado por folhagens das altíssimas árvores; quase não se vê o céu. Portanto, há sombra. Muita sombra! Mas, o que chama a atenção mesmo é o lado esquerdo da via, margeado por um jardim impecável base de um paredão de pedras por onde brotam delicadamente pequenos esgalhos e ramas de flores.

Por si só, esse caminho já oferece um breve panorama do que deveria ser o antigo Engenho Velho, região da Tijuca que ia do que é hoje a Avenida Paulo de Frontin até a Igreja de São Francisco Xavier, na rua homônima. Vêm à imaginação os encantos da mata virgem, a Tijuca de Bentinho e Capitu, a ninfa de Cruz e Souza... tudo ali, intocado e materializado, aos pés das ruidosas vias urbanoides da Praça da Bandeira.

Um suave zéfiro até então mal percebido começa a beijar agradavelmente o rosto do passeador à medida que a alameda se curva e se eleva rumo ao pináculo. As copas das árvores farfalham e o platô à esquerda, meio escondido no início da trilha, agora se desvela como a brilhante estrela de um espetáculo teatral. Sustentado pelo paredão de pedras, o pátio que dá acesso à Associação São Vicente de Paulo exibe o seu monumento: vê-se o Santuário da Medalha Milagrosa.

Apesar dos ares medievais (ou seriam góticos?) do santuário, ele foi fundado em 1955 pelas irmãs de caridade vicentinas. Comemorou seu “jubileu de diamante” em 2015, quando completou 60 anos de existência. Por ser relativamente “novato” no bairro, e também por estar localizado numa área que não é de domínio completamente público, o Santuário da Medalha Milagrosa é uma construção muito bem conservada, patrimônio carioca desde 2003. A bem-composta passarela interliga o Santuário ao platô vizinho, de onde se pode alcançar a alameda que dá acesso ao hospital, mas já em um trecho mais elevado. Sob o seu arco, trespassa outra simpática alameda, que liga os fundos da Associação ao caminho que leva à entrada secundária do HSVP, na Rua Gonçalves Crespo quase defronte ao Instituto de Educação.

Mirante da Colina: a Tijuca e sua vista aérea, junto ao Corcovado e o restante do Maciço.

Uma caminhada matinal pelos jardins da Associação São Vicente de Paulo pode ser de um inestimável agrado àqueles que desfrutam dos passeios ao ar livre na Tijuca. E quem mantiver o fôlego e desejar alcançar o alto da Colina do Matoso, se depara com outra surpresa: a vista área da Tijuca, do Rio Comprido e da Cidade Nova fica parcialmente à mostra junto ao contorno do Maciço, enquadrando a extensão que vai do Corcovado ao Pico do Papagaio. Uma paisagem e tanta!

Agora, quem precisar de cuidados médicos, compartilho a notícia: em janeiro deste ano, o Hospital São Vicente de Paulo foi apontado como o melhor do Rio de Janeiro por meio de uma pesquisa anual promovida pela consultoria internacional AméricaEconomía Intelligence. A unidade tijucana foi a única do estado do Rio a ser ranqueada entre as melhores. O primeiro colocado da lista foi o Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.

Visita:
Rua Doutor Satamini 333 | Rua Gonçalves Crespo 430.

Missas:
Aos domingos: 08h30; 10h00; 18h00, com intenções comunitárias.
De segunda-feira a sexta-feira: 06h30.
Toda segunda-feira: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.
Aos sábados e feriados: 07h00.
Todo dia 27 de cada mês: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.
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