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19 de mar. de 2016

As alamedas da Colina do Matoso e sua joia: o Santuário da Medalha Milagrosa

Santuário da Medalha Milagrosa: patrimônio tijucano situado na Colina do Matoso


Tijuca, do Brasil formosa ninfa... Apesar de pouco conhecidos do grande público, os versos de “Tijuca, Metamorfose I” deveriam ser ecoados por certas localidades do bairro com fins de ilustração à poesia neoclássica de Cruz e Souza. Mesmo tratando-se de uma obra que remete o atento leitor à Tijuca de tempos pretéritos à sua urbanização, caminhar pelas alamedas do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) não deixa de ser uma volta ao passado.

Para alcançá-lo, é preciso percorrer toda a Colina do Matoso, parte elevada da Tijuca bem na divisa com a Praça da Bandeira. O caminho que leva ao hospital, flanqueado de palmeiras entre outras espécies arbóreas, é um daqueles fantásticos recantos capazes de relaxar os ânimos e agraciar a alma. Por ser um hospital de grande referência, o número de atendimentos é elevado, mas poucos são os pacientes e visitantes que chegam ali como pedestres. Devido à ladeira, a maioria opta por carros e táxis para atingir o topo da colina, fazendo desse pequeno percentual de andarilhos uma classe privilegiada. Eu explico.

Vindo pela entrada principal – isto é, pela Rua Doutor Satamini –, o passeador deve seguir o caminho tortuoso de paralelepípedos, que flui o trânsito de automóveis pelo regime de mão-inglesa. A calçada é estreita e o espaço aéreo quase todo tomado por folhagens das altíssimas árvores; quase não se vê o céu. Portanto, há sombra. Muita sombra! Mas, o que chama a atenção mesmo é o lado esquerdo da via, margeado por um jardim impecável base de um paredão de pedras por onde brotam delicadamente pequenos esgalhos e ramas de flores.

Por si só, esse caminho já oferece um breve panorama do que deveria ser o antigo Engenho Velho, região da Tijuca que ia do que é hoje a Avenida Paulo de Frontin até a Igreja de São Francisco Xavier, na rua homônima. Vêm à imaginação os encantos da mata virgem, a Tijuca de Bentinho e Capitu, a ninfa de Cruz e Souza... tudo ali, intocado e materializado, aos pés das ruidosas vias urbanoides da Praça da Bandeira.

Um suave zéfiro até então mal percebido começa a beijar agradavelmente o rosto do passeador à medida que a alameda se curva e se eleva rumo ao pináculo. As copas das árvores farfalham e o platô à esquerda, meio escondido no início da trilha, agora se desvela como a brilhante estrela de um espetáculo teatral. Sustentado pelo paredão de pedras, o pátio que dá acesso à Associação São Vicente de Paulo exibe o seu monumento: vê-se o Santuário da Medalha Milagrosa.

Apesar dos ares medievais (ou seriam góticos?) do santuário, ele foi fundado em 1955 pelas irmãs de caridade vicentinas. Comemorou seu “jubileu de diamante” em 2015, quando completou 60 anos de existência. Por ser relativamente “novato” no bairro, e também por estar localizado numa área que não é de domínio completamente público, o Santuário da Medalha Milagrosa é uma construção muito bem conservada, patrimônio carioca desde 2003. A bem-composta passarela interliga o Santuário ao platô vizinho, de onde se pode alcançar a alameda que dá acesso ao hospital, mas já em um trecho mais elevado. Sob o seu arco, trespassa outra simpática alameda, que liga os fundos da Associação ao caminho que leva à entrada secundária do HSVP, na Rua Gonçalves Crespo quase defronte ao Instituto de Educação.

Mirante da Colina: a Tijuca e sua vista aérea, junto ao Corcovado e o restante do Maciço.

Uma caminhada matinal pelos jardins da Associação São Vicente de Paulo pode ser de um inestimável agrado àqueles que desfrutam dos passeios ao ar livre na Tijuca. E quem mantiver o fôlego e desejar alcançar o alto da Colina do Matoso, se depara com outra surpresa: a vista área da Tijuca, do Rio Comprido e da Cidade Nova fica parcialmente à mostra junto ao contorno do Maciço, enquadrando a extensão que vai do Corcovado ao Pico do Papagaio. Uma paisagem e tanta!

Agora, quem precisar de cuidados médicos, compartilho a notícia: em janeiro deste ano, o Hospital São Vicente de Paulo foi apontado como o melhor do Rio de Janeiro por meio de uma pesquisa anual promovida pela consultoria internacional AméricaEconomía Intelligence. A unidade tijucana foi a única do estado do Rio a ser ranqueada entre as melhores. O primeiro colocado da lista foi o Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.

Visita:
Rua Doutor Satamini 333 | Rua Gonçalves Crespo 430.

Missas:
Aos domingos: 08h30; 10h00; 18h00, com intenções comunitárias.
De segunda-feira a sexta-feira: 06h30.
Toda segunda-feira: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.
Aos sábados e feriados: 07h00.
Todo dia 27 de cada mês: 19h30 com a novena perpétua de Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa.

3 de jul. de 2015

Victor Belart, do FAZ NA PRAÇA: "[a Saens Peña] não deveria ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista"

Victor Belart: FAZ NA PRAÇA
As praças da Tijuca têm vivido uma fase de efervescência cultural nunca antes experimentada. Eventos públicos com DJs, arte, debates, cinema, comida entre outras intervenções vêm ocorrendo com cada vez mais frequência na Saens Peña, Praça da Bandeira e Xavier de Brito. Neste último domingo, 28 de junho, por exemplo a inauguração do Cine Xavier exibiu o longa-metragem argentino Medianeras ao ar livre da Praça Xavier de Brito reunindo toda uma geração de jovens e adultos que possivelmente só havia frequentado a praça dos cavalinhos assim, tão integralmente, na infância. Já a Praça Saens Peña comemorou seu 104º aniversário de modo inovador, há cerca de um mês: considerada um lugar de afazeres domésticos e deserto à noite, a praça abrigou um grande concerto público que reuniu no mínimo 500 pessoas de todas as idades que dificilmente estariam por lá em circunstâncias comuns.

Por trás dessas iniciativas que estão incrementando o entretenimento (público) da Tijuca está o coletivo FAZ NA PRAÇA (ou melhor, Fluxo de Articulação de Zona na Praça), formado por um grupo de amigos do bairro engajados em trazer de volta à rotina dos cariocas o hábito de vivenciar as praças como local de interações e desfrute. Nesse grupo, Victor Belart, tijucano, jornalista e produtor cultural de 24 anos, tem se mostrado um notório representante do FAZ NA PRAÇA. Durante a festa da Saens Peña, Belart ganhou aplausos instantâneos após anunciar, no palanque, que a praça “não devia ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista”, evidenciando a proposta e o lema do FAZ NA PRAÇA em tornar esses espaços públicos da região da Tijuca em um grande palco de intervenções coletivas e alternativas ao circuito tradicional de arte e entretenimento.

Aniversário da Praça Saens Peña deste ano: curadoria musical e artística a cargo do FAZ NA PRAÇA.
Créditos: André Valente.

Primeira exibição do Cine Xavier: cinema ao ar livre na Praça dos Cavalinhos.

O passeador tijucano conversou brevemente com Victor sobre a atuação do FAZ NA PRAÇA na Tijuca, além dos planos e novidades para o restante do ano:

De onde surgiu a ideia de fazer o evento em celebração ao 104º aniversário da Praça Saens Peña no último dia 30 de maio, levando em conta que, inicialmente, grande parte dos eventos do FAZ NA PRAÇA estava sendo realizada na Praça dos Cavalinhos?
Victor Belart: Já tínhamos interesse de fazer alguma atividade na Saens Peña, mas o evento do dia 30 não foi iniciativa nossa. A Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) faz todo ano uma atividade na praça comemorando o aniversário dela e esse ano nós fizemos a curadoria musical e divulgação. Mas a iniciativa é originalmente da ACIT e rola ano a ano, agora especificamente para esse último evento, a ACIT teve alguns incentivos da Secretaria de Cultura para pagar certos custos estruturais. Já a Xavier de Brito [Praça dos Cavalinhos] virou uma espécie de laboratório nosso porque tudo começou por lá. Eu e a Tais Barcia fizemos um aniversário na Praça e desse evento a galera que apareceu decidiu se juntar pra fazer mais vezes. Muita gente da Tijuca tem história desde criança com a Xavier de Brito, mas na vida adulta esqueceu o sentido daquele lugar. Aquela praça tem especificamente algumas questões especiais, desde o choque cultural e social das crianças que habitam o espaço ou a própria ideia de já ser uma praça vista como “um fim”. Dificilmente alguém cruza a Xavier de Brito de passagem, todo mundo que está ali vai pra ficar pela própria praça. Esse tipo de Praça, que já tem uma movimentação própria, tem muito a ensinar para todos nós e também por isso pegamos o espaço como “laboratório”.

Qual sua função no FAZ NA PRAÇA? Você é o "líder"?
VB: Na verdade não tem nenhum líder; a ideia do FAZ NA PRAÇA é para ser um movimento orgânico. Na real, no início, era pra ser um movimento tão livre que poderia ocorrer ações do FAZ NA PRAÇA sem que nenhuma das 8 a 10 pessoas que fazem parte desse grupo estivessem envolvidas. Como se o FAZ NA PRAÇA fosse a ideia de fazer indiscriminadamente as coisas em praças, mas acabou que por algumas questões específicas de responsabilidade temos tomado um pouco de cuidado com isso. Se acontecer um FAZ NA PRAÇA sem nós e der algum problema, a responsabilidade recai sobre a gente, então queremos ter um pouco de cautela nesse sentido. Mas em todo caso, o FAZ NA PRAÇA é um grupo não muito rígido quanto à quantidade de pessoas, mas que varia sempre em torno de 8 a 10 e que querem levar atividade e movimento ao ar livre pela nossa cidade.


Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira: moradores mais antigos ainda resistem.
Créditos: Felipe Bauerfeldt (Deu Zebraa).


Vocês pretendem manter uma linha de ocupação de praças apenas na região da Tijuca (vide o Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira), para consolidar a programação cultural do bairro ou a proposta é expandir para outras regiões?
VB: Temos esse carinho especial pela Tijuca porque a maioria de nós é daqui e sabemos da falta de atividades do gênero pela área. Na verdade, o bairro tem melhorado muito nesse sentido também. Surgiram novos espaços de coworking, algumas atividades ao ar livre e até mesmo noturnas, mas o bairro ainda tem essa concepção de ser um “lugar somente para dormir”. A gente acaba vestindo muito essa bandeira tijucana porque crescemos aqui e sentimos a falta de atividades do gênero, mas a ideia do FAZ NA PRAÇA é que por todo o Rio de Janeiro se faça atividade na rua, ou seja, botar propriamente a praça no centro do debate urbano. Sempre falamos que as praças talvez sejam um dos únicos lugares onde a democracia realmente seja levada ao pé da letra.  Além disso, a questão da praça é importante para ampliar nossa ideia de cidade; quando saímos de casa e vivemos somente a nossa própria rotina, tendemos a não ter muita sensibilidade com a realidade do outro. Num evento de rua sempre vai ter um morador de rua e alguém que só frequenta shopping ali naquele mesmo espaço e ambos estarão nesse lugar para estar “além” do seu próprio estereótipo ou da própria rotina. Esse tipo de encontro rola naturalmente é só tende a ser positivo para todos os envolvidos.

Quais os próximos eventos? Novidades? Fiquei sabendo do Cine Xavier. É você quem está coordenando?
VB: Antes de tudo, precisamos terminar de resolver alguns problemas ainda pendentes do aniversário da Saens Peña. Num futuro muito próximo queremos fazer esse cinema na Xavier [a entrevista ocorreu antes da efetivação desse evento, no último dia 28 de junho], mas também nos sugeriram o Grajaú. Também temos a ideia de fazer alguma ocupação na UERJ, que não deixa de ser um espaço público do nosso bairro e que ainda tem uma ideia muito vertical, aquele cinza, aquele prédio gigante. Conhecemos uma galera recentemente que quer tentar fazer com que a UERJ tenha uma ideia mais plana, mais de praça.

3 de abr. de 2015

À beira da mediocridade, Prefeitura inaugura a nova Praça da Bandeira

Imagem aérea da nova Praça da Bandeira, inaugurada em 7 de fevereiro: projeto pobre compromete
a estética local. Fonte: Divulgação Prefeitura do Rio.

Após dois anos interditada para obras contra enchentes, a Praça da Bandeira foi reinaugurada no início de fevereiro deste ano com novo mobiliário urbano e paisagismo. O evento, que reuniu autoridades locais e municipais, contou com a apresentação do concerto da Banda da Guarda Municipal acompanhada da cerimônia de hasteamento da bandeira brasileira, devolvida finalmente à praça carioca que lhe dá o nome.

A interdição fez parte de um conjunto de obras destinado a melhorias urbanísticas na cidade do Rio de Janeiro em virtude dos jogos olímpicos do ano que vem, 2016. Desse modo, a construção de um reservatório subterrâneo na Praça da Bandeira promete acabar com as clássicas enchentes que assolam tal área do município, e, consequentemente, é motivo de comemoração para os moradores e comerciantes de lá que há tantas décadas sofrem com os temporais.

Mesmo diante de tantas perspectivas otimistas sobre a região da Praça da Bandeira, que, a partir deste ano, ao que tudo indica, estará “salva” dos dilúvios cariocas, é cabível destacar a decepção com o resultado final da praça em si. Fruto de um projeto urbanístico que aparentemente tem sido igual para todas as outras praças e espaços públicos revitalizados há pouco tempo no Rio, a remodelação na superfície da praça durou pouco menos de dois meses. Para uma área que ficou interditada por dois anos, o que seriam dois meses? Eficiência ou trabalho mal feito?

As imagens divulgadas nas redes sociais da Prefeitura e da Subprefeitura da Grande Tijuca não deixam mentir: a Praça da Bandeira foi contemplada por um projeto pobre em termos estéticos. Quem passa pela região com frequência e tem um mínimo de senso crítico, também já deve ter percebido este detalhe. A nova praça dispõe de pisos acimentados (ficarão encardidos logo, logo), palmeiras esquálidas sustentadas por pedaços de madeira, gramado e jardim simplórios, que beiram a inexpressão, sem mencionar a sensação de aridez emanada pelo local nos dias de calor.

O panorama não difere em nada do que foi feito recentemente no entorno do estádio do Maracanã, por exemplo, onde a inclusão de elementos de entretenimento, como a academia da terceira da idade e a pista de skate, por outro lado, parecem ser as únicas qualidades. Esses elementos são ressaltados no vídeo abaixo publicado pelo prefeito Eduardo Paes em sua página do Facebook em 13 de março. Na matéria, percebe-se claramente a sobrevalorização da construção do reservatório subterrâneo (vulgo “piscinão”) e da academia da terceira idade como mascaramento à pobreza e à má qualidade do projeto executado.




Para quem não se lembra, a “antiga” Praça da Bandeira dispunha de abricós frondosos e pisos cobertos por simbólicas pedras portuguesas, que fazem parte da identidade do Rio. Muito embora fosse mal conservada, dado o fato de que a praça é pouco acessível a pedestres por estar rodeada de autopistas, opino que a “nova” Praça da Bandeira reproduz uma concepção urbanística de “praça revitalizada”, muito em voga atualmente no Rio, que rompe com a identidade e os símbolos cariocas a favor de atributos como eficiência, agilidade e redução de custos que, claramente, estão comprometendo a estética e a sustentabilidade das nossas áreas públicas. A nova Praça da Bandeira é, portanto, um (infeliz) retrocesso, que preocupa o futuro das praças Varnhagen e Niterói, na Tijuca, que estão sob as mesmas circunstâncias.

12 de ago. de 2014

Obras que não acabam no piscinão da Praça da Bandeira


A Praça da Bandeira, digníssimo (e alagadiço) logradouro tijucano que dá as boas-vindas à Zona Norte e, mais adiante, aos subúrbios, encontra-se assim, nesse estado, como se fosse um areal há mais de dois anos. As obras intermináveis do reservatório (vulgo piscinão), que promete acabar com as enchentes no bairro, exterminaram a arborização da Praça da Bandeira, que dispunha de lindos abricós-de-macaco.

As outras duas vítimas são a Praça Varnhagen e a Praça Niterói, na Tijuca e no Maracanã, respectivamente. Não há previsão de devolução das praças à população. Enquanto isso, partes do nosso bairro continuarão dessa maneira, cinza e sem vida. 
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