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21 de mar. de 2016

Prefeitura resgata grafia original da Praça Saenz Peña em nova sinalização

Na Avenida Maracanã, placas de sinalização provisórias voltaram a adotar a grafia original de Saens Peña.

Não há consenso: a grafia correspondente ao nome da praça mais famosa da Tijuca pode ser escrita de diferentes formas. A mais comum, Saens Peña, diverge do sobrenome original do presidente argentino, Sáenz Peña, com acento agudo e a letra Z ao invés da S. Entretanto, nas placas indicativas de logradouro, a praça, veja só, vem grafada como Saenz Peña, mas sem o acento agudo. Há quem diga que este último modo é o mais correto de se chamar a nossa querida praça. Segundo moradores antigos, a grafia apresentada inicialmente surgiu nos anos 1980, com a instalação do metrô, tendo sido reproduzida em diversos outros meios por mimetismo.

Com a interdição da Avenida Maracanã para finalização das obras do reservatório subterrâneo da Praça Varnhagen, em outubro de 2015, o trânsito no sentido Centro foi desviado para a Rua Barão de Mesquita. Eis que surgem novas placas de sinalização, só que alaranjadas, dessas provisórias, ao longo das vias adjacentes. A surpresa foi esta: o ressurgimento da grafia original, Praça Saenz Peña, no direcionamento das placas. Será que desta vez o nome volta?

20 de mar. de 2016

Rua Adalberto Aranha

Rua Adalberto Aranha: na esquina com a Rua Antônio Salema e o Pico da Tijuca ao fundo.

Imortalizada pelo seu mais ilustre morador – o jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues –, a Aldeia Campista é mais uma daquelas regiões que entrou para o rol de bairros que não constam mais nos mapas oficiais da cidade do Rio. Como exemplos, podem ser citados os bairros Peixoto e o de Fátima, ou a Boca do Mato, no Lins de Vasconcelos. Não sei dissertar tão bem sobre o porquê de estes bairros terem tido a sua representatividade reduzida. Talvez seja pelo território diminuto ou pelo número irrelevante de habitantes, quem sabe. Ou muito provavelmente por causa da especulação imobiliária. Segundo a Revista da Semana de junho de 1958, é bem dizer que se mora na Tijuca e o nome do bairro também serve de chamariz nos anúncios de imóveis para venda ou aluguel, quando na verdade querem se referir ao Andaraí ou a outros bairros vizinhos... A Tijuca conserva sua pontinha de esnobismo (1).

Este é o caso da Aldeia Campista, que, além disso tudo, ninguém sabe ao certo quais são seus limites enquanto “sub-bairro”, muito embora seu conjunto de ruas tenha sido incorporado oficialmente ao território de Vila Isabel. Ou seja, toda aquela região compreendida pelas ruas Barão de Mesquita, Maxwell e Gonzaga Bastos etc., é o que se poderia chamar de Aldeia Campista. A Rua Adalberto Aranha, portanto, está nesse “miolo”.

Nessa ocasião, eu havia iniciado o meu passeio pela Rua Antônio Salema, perpendicular à Adalberto Aranha. Rua muito simpática, diga-se de passagem, com casinhas primorosas, que mostra de forma bastante interessante ao passeador a dinâmica residencial nesta faixa de transição entre a Tijuca e Vila. A Aldeia Campista ainda continua sendo, de certa forma, um local majoritariamente de casas e edifícios baixinhos dos anos 1950, mas cujo boom imobiliário dos anos 1980 e 1990 fez levantar uma série de espigões que paira sozinha nos ares, em sua maior concentração nas ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos. Um bando de casas rodeado por uma ilhazinha de prédios. Eis a herança do bairro pacato tão bem retratado nos contos rodriguianos só que contaminado pela especulação imobiliária do dileto bairro vizinho, a Tijuca, que verticalizou-se a partir dos anos 1960 e 70, principalmente devido à construção do metrô.

O detalhe das fachadas antigas: são muitas na Rua Adalberto Aranha.

Diferente do entorno, como as ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos, a Rua Adalberto Aranha é
bastante arborizada: jardins com ixoras, cachos-dourados e palmeiras.

Azulejos: o charme da herança lusitana.

A Rua Adalberto Aranha é um desses exemplos de como a especulação imobiliária falou mais alto, desconfigurando, assim, muito do que devia ter existido por ali até 30 anos atrás. Mais progressista que a adjacente e mais tradicional Rua Antônio Salema, a Adalberto Aranha é não apenas sombreada pela sua arborização impecável, mas igualmente pelo corredor de edifícios  levantados por ali nos anos 1980. Tornou-se uma rua típica da classe média tijucana contemporânea: a mistura do velho com o novo, dos azulejos hidráulicos meio lusitanos com o vidro das varandas confortáveis no alto dos prédios, dos muros baixinhos de pedra com as grades de ferro dos portões, cujas pontas são espetadas e inibidoras à intrusão. A Paróquia Sangue de Cristo, no número 48, complementa à rua a vocação carola que Tijuca e Vila Isabel emanam na história da urbanização carioca.

Mais adiante, chama a atenção o simpático Edifício Bertioga, no número 16. A porta do edifício é uma singela entrada de madeira, peculiaríssima aos projetos hoje tidos como retrôs, e toda coberta por arabescos e pastilhas. Um mimo, como se diria nos antanhos. Por outro lado, foi entristecedor notar o estado decadente do prédio cuja fachada foi detonada por pichadores e pelo gradeamento irregular das janelas. O próprio espaço do Bertioga com a rua, antes livre, foi cercado por um gradil moderno, que decerto mataria de desgosto o autor do projeto. É muito comum que esses edifícios antigos no Rio como um todo não recebam o cuidado e a atenção merecida. Sendo assim, o panorama lamentável do Edifício Bertioga não é nenhuma novidade, mas apenas a reafirmação de que nossa história e nossa arquitetura tendem a ir para o beleléu em tempos tão pouco apegados à memória como este em que vivemos.

Os arabescos do decadente, mas charmoso, Edifício Bertioga.

Na esquina com a Barão de Mesquita, o estilo dos armazéns de outrora.

Carroça de frutas: atividades comerciais tradicionais se mantêm na região.

Na Rua Barão de Mesquita, em frente à Rua Adalberto Aranha, está o 1º Batalhão da
Polícia do Exército - antigo DOI-CODI, símbolo do indecoroso Regime Militar.

Por outro lado, acho que o infortúnio é coisa apenas do Edifício Bertioga, porque a Rua Adalberto Aranha, de uma maneira geral, é bem cuidada e aprazível. Jardins suspensos recaem sobre a fachada dos prédios enquanto ixoras colorem os canteiros pelas calçadas. Mesmo estando às margens da Rua Barão de Mesquita, importante artéria da região por onde passam muitos ônibus e automóveis, a Rua Adalberto Aranha é bastante silenciosa e com clima familiar. Os transeuntes são moradores e prestadores de serviço do entorno: estudantes uniformizados, senhoras com sacolas de compras, os ciclistas com entregas das farmácias que os empregam. Enquanto caminhava pela rua, era possível até mesmo escutar conversas ecoadas lá do alto dos apartamentos – os dos primeiros e segundos pisos, é claro –, tamanho o silêncio.

A esquina com a Barão de Mesquita é onde está localizada a arquitetura de maior idade, espectadora das grandes mudanças ocorridas ao longo dos anos na Aldeia Campista. Um sobrado centenário no lado ímpar todo coberto por placas cerâmicas nas cores branca e verde, onde funciona uma clínica podológica, e um armazém, também centenário, com pé-direito alto e múltiplas portarias estreitas e arqueadas no seu topo.

Em frente, e intacto, o 1º Batalhão da Polícia do Exército, local das instalações do DOI-CODI, símbolo indecoroso do Regime Militar fincado em nossas terras. Segundo Aldir Blanc, agentes provocadores espalham, em Copacabana, que existem algumas ruas, na Tijuca, em que mora um ex-torturador para cada vinte habitantes (e desses, mais da metade apoiava, ainda que por omissão, o que o monstro fazia na época da ditadura). Não é verdade (2).

Muito além dos contos de Nelson Rodrigues, por suas calçadas estreitas e algumas ruas meio pastoris, essa Aldeia Campista oferece é coisa para ver e história para contar.

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Texto adaptado; publicação original no meu outro blog As Ruas do Rio, em 17 de fevereiro de 2014.

(1) CARDOSO, Elizabeth Dezouzart et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984.
(2) Ver prefácio do livro “Tijuca e Floresta”, da coleção Bairros do Rio, lançado pela Editora Fraiha em 2000.

2 de mai. de 2015

Nas calçadas tijucanas, os resquícios das pedras portuguesas

O chão original da Conde de Bonfim: pedras portuguesas entre a Saenz Peña e a Haddock Lobo.

Tidas como símbolo maior do calçadão da praia de Copacabana, assim como marco do urbanismo de praças e calçadas do século XX, as pedras portuguesas estão ganhando cada vez menos espaço nas áreas públicas da cidade. Seja pelo alto custo de manutenção, seja pelos supostos riscos que comprometem a mobilidade do pedestre, essa belíssima herança lusitana ainda encanta e suspira os cariocas que têm o privilégio de tê-las em seus bairros ou ruas de estimação.

Aqui na Tijuca, as pedras portuguesas estão por todas as partes, mas de forma descontínua. Uma caminhada atenta pelo bairro permite observar como as vias principais da Tijuca dispunham de desenhos próprios de pedras portuguesas, alterados e/ou fragmentados na medida em que intervenções urbanísticas foram sendo realizadas sem que a concepção original das calçadas fosse preservada. O mesmo vale para as construções aparentemente ilegais de prédios e muros que não respeitaram o alinhamento primário das calçadas, criando, desta maneira, curvas e interrupções no passeio.


Na Muda, o mesmo chão de pedras portuguesas foi preservado na esquina da Conde de Bonfim
com Rua Mário de Alencar:

Uma primeira evidência de que a Rua Conde de Bonfim detinha um desenho particular de pedras portuguesas em toda sua extensão pode ser comprovada nos trechos em que o Rio Cidade não interveio. Em 1995, o programa de remodelação estética do ex prefeito César Maia trouxe uma nova identidade urbanística para o trecho da Conde de Bonfim entre a Praça Saens Peña e a Rua Uruguai, substituindo todo o piso da praça e das calçadas por placas de cimento.

O piso original da região da Saenz Peña, antes do Rio Cidade 1995: rua Doutor Pereira dos Santos.

Assim, o piso original aplicado à Conde de Bonfim, que lembra o formato de losangos acompanhados por linhas pretas, se manteve apenas na região da Muda e da Usina e entre a Rua Pareto e o Largo da Segunda-Feira, estendendo-se também para a Rua Haddock Lobo. Além disso, ruas adjacentes a essas vias também eram contempladas pelo piso; até hoje, um passeio pelas ruas Carlos Vasconcelos, Moura Brito, Marechal Trompowsky, Canuto Saraiva, entre outras, deixa à mostra o resquício desse desenho.

No entanto, vale lembrar que o modelo do piso da Praça Saens Peña era diferente do da Rua Conde de Bonfim. Na praça, o chão também tinha um desenho geométrico, mas com um desenho que lembra “pontas”. Os resquícios desse piso podem ser vistos apenas no trecho da Rua Doutor Pereira dos Santos próximo à sua esquina com Rua General Roca; ali, aparentemente, o Rio Cidade não chegou a intervir, o que se por um lado é motivo de contentamento para os nostálgicos, por outro deixa provas de como tais obras nem sempre prezaram a qualidade no seu acabamento.

Na Avenida Maracanã, o piso segue a mesma linha que aquela aplicada ao calçadão de Ipanema.

Na Rua Barão de Mesquita, as pedras portuguesas seguem o mesmo padrão que o da Rua São
Francisco Xavier, mas de maneira precária; veja o mal estado de conservação.

Além da Conde de Bonfim, vias como a Avenida Maracanã e as ruas Almirante Cochrane, São Francisco Xavier e Rua Barão de Mesquita também mantêm até hoje, em muitos dos seus trechos, resquícios não só de pedras portuguesas, mas de todo o projeto particular aplicado a cada um desses logradouros. No canteiro central da Avenida Maracanã, em especial no trecho entre a São Francisco Xavier e a Praça Lamartine Babo, o desenho de pedras portuguesas é idêntico àquele implementado no calçadão da praia de Ipanema. A própria Praça Varnhagen detinha esse piso até pouco tempo atrás, quando foi interditada para a construção de um reservatório subterrâneo. Seguramente, as pedras portuguesas não serão devolvidas – vide o caso da Praça da Bandeira.

O chão de flores da Rua Almirante Cochrane, nas imediações da Rua Marquês de Valença.

As ruas Barão de Mesquita e São Francisco Xavier, por sua vez, também fizeram parte de um mesmo projeto conceitual de piso. Tal qual o caso da Conde de Bonfim, esse conjunto de ruas – que também abarca as vias transversais – passou por uma série de descaracterizações, supostamente com o advento dos edifícios residenciais na Tijuca durante os anos 1970. Panorama similar é o da Rua Almirante Cochrane – seu chão de pedras apresenta um desenho que lembra flores – que foi parcialmente destruída entre 1976 e 1982 para a construção do metrô no bairro.

8 de abr. de 2015

Comoção pelo último sanduíche: filial tijucana drive-thru do Bob's vai fechar

Panorama do Bob's Drive Thru, ao lado do Off Shopping: após 27 anos de existência, encerrará suas atividades.

Quem deu a notícia em primeira mão foi a coluna Gente Boa, do Segundo Caderno (Jornal O Globo, 02/04/2015) anunciando “que a Tijuca perderia mais um de seus símbolos”. No caso, a nota se referia como símbolo tijucano ao Bob's Drive Thru do Tijuca Off-Shopping, inaugurado em 1988 sob a alcunha de “maior Bob's do Rio”, cujo fechamento está previsto para o final deste mês de abril. A razão do encerramento das atividades ali seria por causa do alto valor do aluguel estipulado para o local, pois, segundo a matéria, seus rendimentos já não seriam mais sustentáveis com o período atual de crise.

A notícia se espalhou rapidamente pelas redes sociais, gerando comoção e nostalgia: foi criado um evento no Facebook convocando tijucanos e simpatizantes da causa a lanchar pela última vez na referida filial do Bob’s no próximo domingo, 12 de abril, a partir das 17 horas. O sucesso da página foi tanto que, até o fechamento desta publicação, o evento já contava com mais de 13 mil pessoas confirmadas. Embora se saiba que esse número nem sempre se torna real na prática, vale destacar a movimentação do fórum de discussão da página, que, entre relatos saudosos e tons de revolta, há também aqueles poucos que questionam o porquê de tamanha euforia, se o Drive-Thru do Off-Shopping só vive vazio. E é verdade.

Anúncio publicitário de inauguração do Bob's Drive Thru da Tijuca, em 1988

Já faz um bom tempo que esta filial do Bob’s, com capacidade para cerca de 250 pessoas, já não funcionava na íntegra. Os três andares da loja, que em tempos remotos serviram como ponto de encontro de estudantes e cenários de festinhas de aniversário, já vinham sendo interditados por falta de público. Soma-se a isso o fato de que o serviço do Bob’s, de uma forma geral, decaiu bastante ao longo das últimas décadas sem que o preço acompanhasse a queda na qualidade dos produtos. É normal, portanto, que a clientela habitual optasse por lanchar em outros estabelecimentos, mas ninguém esperava que isso um dia pudesse acontecer: eis o motivo de tanta comoção, até mesmo de protesto!

Referências do Bob's: milk shake, cheeseburger e batata
Um detalhe curioso cabível de destaque aqui é sobre a menção ao Bob’s como “símbolo da Tijuca”. Inaugurado em 1958 na esquina da Rua Santo Afonso com General Roca, o Bob’s ganhou sua segunda filial alguns anos mais tarde, em 1976, na Praça Saens Peña, e a terceira (e maior da cidade), no final de 1988, inovando como loja na modalidade drive-through. Muitos não se lembram (outros nem mesmo eram nascidos), mas o império do Bob’s na Tijuca durou até 1993, quando finalmente o McDonald’s conseguiu aportar sua primeira filial por aqui, também em sistema de drive-through, no mesmo endereço: a Rua Barão de Mesquita, na outra extremidade do Off-Shopping.

Segundo o professor Eduardo Halpern, professor adjunto do IBMEC e da UNIRIO na área de Marketing Estratégico, o McDonald’s demorou a chegar à Tijuca precisamente porque o Bob’s, com suas três filiais nos arredores da Praça Saens Peña, funcionava como barreira de entrada a outras lanchonetes do segmento de fast food. E tamanho império – que, a partir dos anos 1990, se espraiou para a Rua Uruguai, o shopping e, mais recentemente, para a Haddock Lobo – fazia parte dos hábitos arraigados de consumo do tijucano. Em reportagem de O Globo, de março de 1990, titulada "Caso de paixão radical", (já reproduzida aqui em O passeador tijucano), a repórter Cláudia Belém apontou: “Quando criança, o tijucano passeia na Praça Saens Peña, adora o sorvete do Palheta e do Pinóquio e os sanduíches do Bob’s, que ele não trai por nenhum McDonald’s”.

Veja mais: Último lanche no Bob's Tijuca - Recordar é viver: 12 de abril de 2015 (domingo), 17 horas.

Cartilha de consumo do Bob's: outro clássico publicitário de 1988.

As divagações sobre o futuro do emblemático prédio do Bob’s no Tijuca Off-Shopping são muitas: alguns comentam que se transformará em mais uma agência bancária, o que seria um retrocesso para o bairro cujo perímetro comercial já conta com dezenas delas – incluindo farmácias e óticas, segmentos que vêm assolando a região da Saens Peña há mais de dez anos.

Resta, então, a nossa torcida para que a Tijuca consiga se reinventar mediante o oferecimento de uma nova opção gastronômica neste prédio. Potencial existe de sobra: o Balada Mix, o Koni Store, o Pizza & Grill, entre outros, são exemplos de sucesso na vizinhança do agonizante Bob’s. Além disso, a Tijuca tem uma demanda reprimida por restaurantes e bares; a vacância do Bob’s pode ser uma ótima oportunidade para tal. De resto, basta marcar na agenda: 12 de abril de 2015, o dia do tijucano se despedir do Bob’s que marcou gerações no seu bairro.

23 de fev. de 2015

A versão tijucana de I LOVE NY em arte urbana, por Felipe Madeira

O designer Felipe Madeira, graduando em Desenho Industrial (UFRJ), é o autor da obra que
 ressalta, em forma de arte, a devoção dos tijucanos pelo seu bairro

O pedestre atento que circula pela Tijuca já deve ter reparado que, em questão de arte urbana, o bairro é uma verdadeira galeria a céu aberto. Recentemente, o que mais tem chamado a atenção nesta categoria em ruas como a Barão de Mesquita e a Professor Gabizo é a releitura tijucana do emblemático logotipo americano I LOVE NY (I ♥ NY), criação do designer gráfico Milton Glaser nos anos 1970 como parte de uma campanha para difundir o turismo na Big Apple nos anos de 1970. O símbolo, que tornou-se referência mundial e hoje serve de inspiração para diversas outras obras de arte, anúncios publicitários, estampas etc., chegou à Tijuca como I LOVE TJK (I ♥ TJK) em formato de lambe, uma espécie de pôster que vem ganhando cada vez mais espaço no rol da arte urbana carioca.

Um dos exemplares do I ♥ TJK, na Barão de Mesquita
Idealizador da ilustração, feita de jornal e stencil, o designer tijucano Felipe Madeira, de 22 anos, conta que desenvolveu esta ideia a princípio para estampar uma camisa, mas que acabou decidindo por usar a técnica do lambe quando participou de um workshop com o coletivo paulista SHN. O encontro rendeu-lhe não só um know-how, mas também a paixão por esta técnica que vem norteando sua trajetória artística. 

Sobre a arte, em primeiro lugar, cabe destacar que TJK é a abreviatura "internética" para Tijuca, muito difundida nos bate-papos de mensagens instantâneas durante os anos 2000. Daí a adaptação do NY para TJK, correlação igualmente pop ao NY e tributo de Felipe, nascido no Hospital da Ordem Terceira e ex-aluno do Colégio Pedro II, ao bairro onde reside:

— Quis fazer uma brincadeira com a "marra" tijucana, mas acabei percebendo que me apropriei de um ícone tão forte, que trazia consigo um contexto tão poderoso, que acabou caindo como uma luva para o espírito tijucano. Acredito que seja de fácil identificação e compreensão para os demais bairros, afinal, quem não conhece o "I ♥ NY"? – aponta ele.


A versão original, marca registrada de Milton Glaser: inspiração mundial.
Felipe na ativa em região próxima ao Hospital Oscar Clark, no Maracanã,
junto ao mosaico de Elisa Pessoa, sua parceira "de rua"

Reprodução: Instagram.
Felipe explica que seus pôsteres, conhecidos em inglês como wheat-paste posters, são pregados com uma cola especial à base de farinha com água e soda cáustica (prática, segundo ele, mas nociva à saúde se não tomar os devidos cuidados) e que, embora não tenha uma parceria direta na produção dos seus lambes, não dispensa a companhia de amigos na hora de sair pelas ruas:

— Não saio para colar sem amigos, são eles quem me dão ânimo de sair à rua depois de um dia de estudo e trabalho. Geralmente, meus lambes são vistos perto dos da Elisa Pessoa, também tijucana, estudante de design gráfico, que tem um trabalho muito interessante fazendo praticamente um mosaico de estampas feitas por ela. É tudo artesanal, bem manual.

Embora o I ♥ TJK seja uma de suas obras mais especiais, Felipe argumenta que não pretende se limitar à Tijuca como área de colagem, pois "se sentiria enjoado em ver a Tijuca infestada de I ♥ TJK's", atestando que produzir materiais novos é uma de suas necessidades pessoais enquanto artista. Além disso, alega que sua obra, além de prática e barata, dialoga diretamente com outras técnicas artísticas que, vez ou outra, se sobrepõem ao seu trabalho, como os adesivos (stickers).

Numa das imagens enviadas a O passeador tijucano, Felipe exemplifica esta interação entre o lambe e o sticker: ao invés do simbólico coração vermelho, surgiu o adesivo de um coração literal, ou seja, em sua versão biológica. Segundo o próprio, a arte de rua está a exposta a um tipo de efemeridade que proporciona tais interações e ressignificações constantes que, se por um lado, pode ser interpretado como vandalismo, por outro, é uma resposta positiva ao trabalho apresentado, capaz de mobilizar um diálogo direto com seus interlocutores.

Felipe, além de artista propagador do espírito tijucano pelas ruas do bairro, é graduando em Desenho Industrial com foco em Projeto de Produto na UFRJ e também estagia numa empresa focada em visual merchandising em Laranjeiras. Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, ele o expõe neste site (https://www.behance.net/felipemadeira) e no seu Instagram (https://instagram.com/felipe__madeira/).

Saudações tijucanas, Felipe!

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20 de set. de 2014

O novo monumento da Praça Lamartine Babo: o busto de Rubens Paiva

Mãe e filha apreciam busto de Rubens Paiva na Praça Lamartine Babo: o ex-deputado federal foi torturado no Quartel
da Polícia Militar (antigo DOI-Codi) da Barão de Mesquita em 1971

A Praça Lamartine Babo, que fica no entroncamento da Rua Barão de Mesquita com a Avenida Maracanã, foi contemplada no último dia 12 de setembro de 2014 com o busto do ex-deputado federal Rubens Beyrodt Paiva. Ele, cuja morte foi anunciada oficialmente há pouco tempo durante o depoimento do coronel reformado Paulo Malhães à Comissão da Verdade, foi preso e torturado no antigo DOI-Codi da Rua Barão de Mesquita em 1971, onde fica hoje o Quartel da Polícia Militar.

O busto em detalhes: a obra é de Edgar Duvivier
Foi essa a razão da Praça Lamartine Babo ter sido escolhida como local de implantação do busto. Rubens Paiva, em sua versão de bronze produzida pelo escultor Edgar Duvivier, fica de costas para o quartel e rodeado por um pequeno jardim de ixoras ainda embrionárias. A inauguração reuniu cerca de 100 pessoas, incluindo a filha do ex-deputado, Vera Paiva, que representou a família na solenidade.

Segundo a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), Vera alegou que "o busto simboliza um pedaço do pai reencarnado" e que "todos os desaparecidos e mortos no extinto Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) deveriam ganhar monumento na praça".

Além do busto de Rubens Paiva, que tem despertado a curiosidade dos poucos transeuntes (e dos muitos pombos!) que circulam pela Praça Lamartine Babo, é ali onde há também o tributo ao próprio compositor Lamartine Babo - vulgo "Lalá", grande personalidade tijucana -, implantado na praça em junho de 1993 pela Prefeitura em celebração saudosa ao trigésimo aniversário de sua morte.

18 de abr. de 2014

Obras no antigo externato do Colégio Marista São José estão a todo vapor

O Externato do Colégio Marista São José, na Barão de Mesquita: prestes a ser reativado.

A Tijuca, de pouco em pouco, vem resgatando as suas tradições. Após dezessete anos fechado, o antigo externato do Colégio Marista São José, na Rua Barão de Mesquita 164, será finalmente reinaugurado no ano letivo de 2015. As obras estão a todo vapor, cujo fôlego se deu a partir do momento em que os terrenos situados na parte detrás da instituição foram vendidos para uma incorporadora imobiliária, que já levantou dois novos espigões de luxo voltados para a Avenida Maracanã.

O regresso do São José para a Barão de Mesquita fomentará ainda mais a competitividade das escolas neste eixo, como o Colégio Militar, o PH (com filial, além da Rua Professor Gabizo, também na Major Ávila) e o PENSI, assim como o Pedro II e o CEFET, que ficam igualmente nestas vizinhanças.

Fundado em 1902 pelos irmãos Maristas, o Colégio Marista São José é derivado do antigo Colégio Diocesano São José, controlado, até então, pelos padres diocesanos. A primeira sede do Marista ficava no Rio Comprido, chegando à Tijuca apenas alguns anos depois em duas unidades: o Internato, em funcionamento até hoje na Usina, e esse Externato, na Barão de Mesquita, desativado desde 1997.

Dada a tradição do colégio e sua importância para o bairro e para a formação intelectual de muitos cariocas, tramitou um projeto de lei em 1999 (Nº 1067/99) cujo objetivo era o tombamento deste edifício. O decreto, no entanto, só veio a ser homologado no final do ano 2000 (Nº 19.342/2000), sob esta justificativa do deputado Carlos Dias:

As colunas clássicas do Externato em contraste às
varandas modernosas do novo condomínio.
"O Colégio Marista São José é referência cultural deste Estado, tendo contribuído na formação de diversas gerações de brasileiros, assim como o Colégio Militar, o Colégio Pedro II e o Instituto de Educação, educandários que até hoje enobrecem nossa sociedade, tão carente de boas escolas.
Nos bancos do antigo Externato São José, que ora se pretende tombar, a história da educação fluminense foi pautada ao longo deste século, sendo o próprio Colégio testemunha, personagem e palco da vida política, social, cultural e artística do estado, à guisa de exemplos singelos, registre-se que no Colégio discursou Carlos Lacerda momentos antes do atentado da Rua Tonelero; no Colégio reuniram-se bispos e religiosos durante a recente visita do Papa João Paulo II; no Colégio, durante a Segunda Guerra Mundial, foram homenageados os que, ligados àquela comunidade, faleceram nos campos de batalha; no Colégio, até nossos dias, menores carentes são acolhidos à noite, albergados nas dependências dos prédios escolares.
A mídia aventa tristemente a possibilidade de demolição do Colégio, sepultando a memória de muitas gerações de antigos alunos, degradando a já pobre cultura deste Estado, que muito precisa de centros culturais, não podendo dispensar suas histórias referências.
Assim, proponho o tombamento em tela, amparado pelo disposto nos artigos 23, inciso III e IV e artigo 216, caput, inciso IV e §1º, todos da Constituição Federal, bem como também baseado nos preceitos do artigo 322, VIII, e do artigo 324 da Constituição Estadual, cujas regras asseguram a competência da ALERJ para promover tal providência, utilizando como meio de proteção do patrimônio cultural do povo do Estado do Rio de Janeiro". 

O estado do imóvel em 2011, antes da reforma: lixo e degradação.

Houve uma tentativa, entre os anos de 2010 e 2011, de que o Externato fosse alugado para fins comerciais na área da cultura, mas tal estratégia não foi lá bem-sucedida. Àquela altura do campeonato, a sua bela calçada de pedras portuguesas já estava tomada por lixo, entulhos e ratos, sendo utilizada diariamente como ponto final de kombis piratas que faziam o caminho Saens Peña x Avenida Brasil. A retomada das obras, e o consequente retorno do São José para a Barão de Mesquita, é, sem dúvidas, motivo de festejos para os moradores da vizinhança.

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