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14 de out. de 2016

A Confeitaria Tijuca

Revista da Semana, 1944.
Os Srs. Batista Godinho & Cia, apresentando aos cariocas e à elite tijucana em particular, as luxuosas e moderníssimas instalações da nova CONFEITARIA TIJUCA - Sorveteria e Casa de Chá - vêm corresponder a uma antiga aspiração dos moradores da Tijuca. Em suntuoso edifício, especialmente construído para esse fim, a Confeitaria Tijuca, dotada de ar condicionado e mobiliário confortabilíssimo, será o ponto predileto para as tradicionais reuniões da elegância da fina sociedade tijucana. 

Para além dos cinemas, os anos dourados da Praça Saenz Peña foram marcados por uma série de estabelecimentos comercias simbólicos que ainda povoam o imaginário que se faz a respeito do bairro. Um dos locais mais lembrados é a Confeitaria Tijuca, da qual, particularmente, se tem pouca informação. Inaugurada em 1943 no número 352 da Rua Conde de Bonfim – na exata localização da atual filial das Lojas Americanas –, a Confeitaria Tijuca foi um marco importante na história da Tijuca como bairro de “gente bem”.


Equiparada à sofisticada Confeitaria Colombo, da Rua Gonçalves Dias – no Centro – por oferecer “serviço completo para banquetes” ao som de uma “orquestra permanente”, a Confeitaria Tijuca foi batizada como “o novo arranha-céu da Praça Saenz Peña”, em anúncio publicado no Jornal O Globo de 21 de janeiro daquele ano. Neste mesmo anúncio, é notório o prestígio do tributo oferecido às firmas que participaram na construção do imóvel: “triunfam a inteligência, a operosidade e a técnica”, apontam os anunciantes sobre a qualidade oferecida pelos senhores L. Mello & Irmão, responsáveis pela instalação da maquinaria de refrigeração elétrica, fazendo da Confeitaria Tijuca um dos locais pioneiros no Rio de Janeiro, fora do Centro, em receber tal tecnologia.

Jornal O Globo, 21 de jan. 1943: veja o anúncio em alta resolução.


Empreitada do sr. Batista Godinho & Cia, dos quais não se tem maiores informações do que esta, a Confeitaria Tijuca tinha como propósito substancializar o grand monde carioca num espaço singular que refletisse o bom gosto dos moradores do “aristocrático bairro” da Tijuca na forma de um “ambiente de requintado conforto”. Decorado inteiramente em estilo marajoara, desde a iluminação dos letreiros em neon às “cadeiras confortáveis” de metal, passando pelas faces polidas e brilhantes dos espelhos (que “reúnem todo o encanto das coisas belas e grandiosas”), a Confeitaria Tijuca se outorgava o título de “A maior organisação da América do Sul” (sic) em serviços de chá, sorvetes, almoços, lanches e jantares.

Em outro anúncio publicado na Revista da Semana, de 1944, e reproduzido no livro “História de Bairros – Tijuca” (João Fortes Engenharia/Index Editora, 1984), vê-se a ilustração do que seriam os interiores da Confeitaria Tijuca: um amplíssimo salão de chá repleto de casais jovens e elegantes servidos por garçons em fraque com gravata borboleta. Do alto do salão, um camarote encena o maestro coordenando sua orquestra. Não há registros de quando a Confeitaria Tijuca encerrou suas atividades, mas a ostentação de seus anúncios e os elogios dispensados aos moradores do bairro não deixam dúvidas sobre a origem do tal orgulho tijucano que permanece vivo até os dias de hoje pelas ruas de todo o bairro. Marcas de um passado “dourado” que se perpetuam nos gostos e nos discursos de muitos conterrâneos.

8 de abr. de 2015

Comoção pelo último sanduíche: filial tijucana drive-thru do Bob's vai fechar

Panorama do Bob's Drive Thru, ao lado do Off Shopping: após 27 anos de existência, encerrará suas atividades.

Quem deu a notícia em primeira mão foi a coluna Gente Boa, do Segundo Caderno (Jornal O Globo, 02/04/2015) anunciando “que a Tijuca perderia mais um de seus símbolos”. No caso, a nota se referia como símbolo tijucano ao Bob's Drive Thru do Tijuca Off-Shopping, inaugurado em 1988 sob a alcunha de “maior Bob's do Rio”, cujo fechamento está previsto para o final deste mês de abril. A razão do encerramento das atividades ali seria por causa do alto valor do aluguel estipulado para o local, pois, segundo a matéria, seus rendimentos já não seriam mais sustentáveis com o período atual de crise.

A notícia se espalhou rapidamente pelas redes sociais, gerando comoção e nostalgia: foi criado um evento no Facebook convocando tijucanos e simpatizantes da causa a lanchar pela última vez na referida filial do Bob’s no próximo domingo, 12 de abril, a partir das 17 horas. O sucesso da página foi tanto que, até o fechamento desta publicação, o evento já contava com mais de 13 mil pessoas confirmadas. Embora se saiba que esse número nem sempre se torna real na prática, vale destacar a movimentação do fórum de discussão da página, que, entre relatos saudosos e tons de revolta, há também aqueles poucos que questionam o porquê de tamanha euforia, se o Drive-Thru do Off-Shopping só vive vazio. E é verdade.

Anúncio publicitário de inauguração do Bob's Drive Thru da Tijuca, em 1988

Já faz um bom tempo que esta filial do Bob’s, com capacidade para cerca de 250 pessoas, já não funcionava na íntegra. Os três andares da loja, que em tempos remotos serviram como ponto de encontro de estudantes e cenários de festinhas de aniversário, já vinham sendo interditados por falta de público. Soma-se a isso o fato de que o serviço do Bob’s, de uma forma geral, decaiu bastante ao longo das últimas décadas sem que o preço acompanhasse a queda na qualidade dos produtos. É normal, portanto, que a clientela habitual optasse por lanchar em outros estabelecimentos, mas ninguém esperava que isso um dia pudesse acontecer: eis o motivo de tanta comoção, até mesmo de protesto!

Referências do Bob's: milk shake, cheeseburger e batata
Um detalhe curioso cabível de destaque aqui é sobre a menção ao Bob’s como “símbolo da Tijuca”. Inaugurado em 1958 na esquina da Rua Santo Afonso com General Roca, o Bob’s ganhou sua segunda filial alguns anos mais tarde, em 1976, na Praça Saens Peña, e a terceira (e maior da cidade), no final de 1988, inovando como loja na modalidade drive-through. Muitos não se lembram (outros nem mesmo eram nascidos), mas o império do Bob’s na Tijuca durou até 1993, quando finalmente o McDonald’s conseguiu aportar sua primeira filial por aqui, também em sistema de drive-through, no mesmo endereço: a Rua Barão de Mesquita, na outra extremidade do Off-Shopping.

Segundo o professor Eduardo Halpern, professor adjunto do IBMEC e da UNIRIO na área de Marketing Estratégico, o McDonald’s demorou a chegar à Tijuca precisamente porque o Bob’s, com suas três filiais nos arredores da Praça Saens Peña, funcionava como barreira de entrada a outras lanchonetes do segmento de fast food. E tamanho império – que, a partir dos anos 1990, se espraiou para a Rua Uruguai, o shopping e, mais recentemente, para a Haddock Lobo – fazia parte dos hábitos arraigados de consumo do tijucano. Em reportagem de O Globo, de março de 1990, titulada "Caso de paixão radical", (já reproduzida aqui em O passeador tijucano), a repórter Cláudia Belém apontou: “Quando criança, o tijucano passeia na Praça Saens Peña, adora o sorvete do Palheta e do Pinóquio e os sanduíches do Bob’s, que ele não trai por nenhum McDonald’s”.

Veja mais: Último lanche no Bob's Tijuca - Recordar é viver: 12 de abril de 2015 (domingo), 17 horas.

Cartilha de consumo do Bob's: outro clássico publicitário de 1988.

As divagações sobre o futuro do emblemático prédio do Bob’s no Tijuca Off-Shopping são muitas: alguns comentam que se transformará em mais uma agência bancária, o que seria um retrocesso para o bairro cujo perímetro comercial já conta com dezenas delas – incluindo farmácias e óticas, segmentos que vêm assolando a região da Saens Peña há mais de dez anos.

Resta, então, a nossa torcida para que a Tijuca consiga se reinventar mediante o oferecimento de uma nova opção gastronômica neste prédio. Potencial existe de sobra: o Balada Mix, o Koni Store, o Pizza & Grill, entre outros, são exemplos de sucesso na vizinhança do agonizante Bob’s. Além disso, a Tijuca tem uma demanda reprimida por restaurantes e bares; a vacância do Bob’s pode ser uma ótima oportunidade para tal. De resto, basta marcar na agenda: 12 de abril de 2015, o dia do tijucano se despedir do Bob’s que marcou gerações no seu bairro.

27 de jun. de 2014

Mariz e Barros ganha área comercial voltada à gastronomia fast food

Filial da Burger King, na Mariz e Barros com Rua Visconde de Cairu: gastronomia
fast food em peso na área.

Inaugurado há pouco mais de um ano, o novo edifício residencial da Rua Mariz e Barros, em estilo "condomínio avarandado", inovou e tem seguido o mesmo modelo implantado pelo lançamento imobiliário da Rua Nelson Mandela, em Botafogo (zona sul da cidade), que parcelou e destinou o seu térreo à locação de empreendimentos comerciais. Hoje, é um sucesso de público e referência em entretenimento nas bandas de lá, na praça próxima ao metrô.

As dependências da Catarina Doces e Salgados,
braço da Fornalha.
A ala gastronômica da Mariz e Barros, por sua vez, já conta com grandes expoentes das cadeias de fast food, como a gringa Burger King, em processo de expansão pelo Rio, além de franquias nacionais e já bem conhecidas nossas como Spoleto, Koni e a novata Catarina Doces e Salgados, que pertence à mesma rede da Fornalha, sem filial na Tijuca, entretanto. Estão previstos, ainda, a abertura de um pub e uma farmácia (mais uma!) neste complexo comercial, além do salão de beleza Lui's Coiffeur, que também já possui outra unidade no bairro, na Rua Santo Afonso.

A localização é estratégica, uma vez que a Rua Mariz e Barros é um grande pólo estudantil na Tijuca. Nas redondezas, estão o Instituto de Educação, o Instituto Isabel, o Instituto Guanabara, GPI, SENAC, Colégio pH, Colégio Militar, Pedro II, entre outros. Em frente ao empreendimento, há a presença também do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. Nos dias úteis, tanto o Spoleto como o Koni são altamente procurados pelos estudantes da área em busca de um almoço rápido. Perto dali, na esquina com a Campos Sales, já havia um Mc Donald's e um Subway, que, pelo visto, agora estão precisando competir com os novos investidores. Vale destacar igualmente que fora do âmbito fast food, a região da Mariz e Barros já vinha se mostrando como um celeiro de boas opções gastronômicas para um público mais exigente, como o Brasa Goumert, o tradicional Salete e a segunda filial tijucana do Otto, no lugar do antigo Devassa.

Koni e Spoleto: os preferidos dos estudantes e trabalhadores no entorno.

É interessante observar como este modelo de empreendimento é uma releitura do que se praticava no processo de verticalização dos bairros lá anos 1960, sobretudo nas suas artérias principais como a Conde de Bonfim, Dias da Cruz, Nossa Senhora de Copacabana, Voluntários da Pátria etc. Essa maneira de se congregar o uso residencial com o comercial num único terreno deixou de ser usual a partir do crescimento da Barra da Tijuca, na zona oeste, que projetou, em relevância, um novo estilo de vida galgado na separação dos usos, muito embora os condomínios de lá congregassem serviços variados, como padarias, nas suas dependências.

Assim sendo, tal investimento na Mariz e Barros parece refletir uma maior otimização do uso do solo, especialmente em bairros muito adensados como a Tijuca. Essa conjunção, se for propagada em outros locais, promete ser uma alternativa viável à revitalização do espaço público por intermédio do estímulo ao comércio de vizinhança. Tomara que dê certo, pois público, já tem.

21 de mar. de 2014

Sociabilidades no Café Palheta

Balcão "bunda-de-fora" do Café Palheta, hoje, dentro da Drogaria Venâncio, na Praça Saens Peña

Não importa qual seja a hora do dia: compareça ao balcão do Café Palheta e verás que ele continua abarrotado de gente. Tradição tijucana, hoje ele funciona como uma espécie de “bunda-de-fora” dentro da Drogaria Venâncio, na Praça Saens Peña, no mesmo local onde funcionara até o longínquo ano de 2003, quando encerrou suas atividades vendendo, naquele momento de crise, comida a quilo self-service para angariar novos fregueses. No entanto, mesmo que já não conserve a pompa da antiga loja, tampouco ofereça lugares para sentar, continua sendo uma referência e o melhor custo-benefício da praça.

O cafezinho do Palheta não tem mistério, nem sabores gourmet, nem qualquer outro tipo de firulas. É o cafezinho básico e ponto. Custa R$ 1,90 e pode vir pingado também, conforme a vontade do freguês, que geralmente pede a broa de milho como acompanhamento, servida sempre muito quentinha pela bagatela de R$ 3,00. Não é barata, convenhamos, mas tem um bom tamanho e, comparada à concorrência, como já lhes disse, oferece mais vantagens.

A clientela é predominantemente da terceira idade, muito embora seja possível avistar, de vez em quando, algum jovenzinho emburrado acompanhando a avó. Eu, por minha vez, voltei a frequentar o Palheta há pouco tempo, pois, como todo jovem, achava que era um lugar exclusivamente de “velho”. Peralá, não era bem assim. Por recomendação de alguns amigos na faixa dos vinte anos que também deram o braço a torcer, descobri que certos produtos ali podem ser bem mais gostosos do que no Starbucks, por exemplo, reduto-juvenil-cafeteiro-do-Shopping-Tijuca. E muito mais em conta, como o cappuccino ou os cookies do Palheta, que também vêm aquecidos.

Um pingado + uma broa de milho: pedido manjado no Palheta


Quem toma café no Palheta, acompanha, de perto,
o vaivém da Conde de Bonfim
Ainda falando em comida, o balcão do Café Palheta vende, além da broa, pão de queijo, pastéis integrais, tartaletes de morango, mil folhas de chocolate, café com chantilly, mas não tem sorvete, o que era o “carro-chefe” da casa nos tempos áureos. Também, é compreensível: é um lugarzinho bem apertado. Eles apostam em lanches mais liquidáveis e com armazenamento mais prático. Por outro lado, tomar o cafezinho da tarde no Palheta também pode oferecer uma boa experiência antropológica...

Estando lá, sou introduzido às conversas mais variadas que se possa imaginar. Basta apoiar os cotovelos sobre o balcão à espera do pedido e olhar em volta para que o contato visual seja efetuado. Não deu outra: fui “capturado” certa vez por um senhor, marinheiro aposentado septuagenário, que começou a verbalizar sobre as bundas apaixonantes que ele já tinha visto na vida, mais ou menos iguais aquela da moça boazuda que vinha passando pela Conde de Bonfim em trajes apertados de ginástica, ele apontou com o dedo. Sorri, como quem concorda ou está aberto à conversa, mesmo que apenas para insinuar educação. A partir daí, tive de escutar as aventuras e conselhos sexuais de um estranho no balcão do Palheta em pleno horário bancário.

- Não tenha uma namorada, não, meu amigo, tenha pelo menos três, pois se uma delas te der o fora, você vai estar munido, tendeu, não vai ficar carente... – ele me aconselhou.

- Vocês continuam uns cafajestes – balbuciou, com risinhos, uma senhora ao meu lado, que, sem pudores, foi ouvinte, sem querer, da narrativa nada tímida do marinheiro.

Dei meu último gole na xícara pelante do Palheta, acenei e tchau, até a próxima. Nessa “próxima”, aliás, que aconteceu num intervalo de uma semana mais ou menos, também fui capturado pela velha-guarda do Palheta, mas para falar sobre artrose. Essa Tijuca é muito efervescente e eu me divirto com ela.
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