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18 de fev. de 2016

"Zimba", o teatro da Tijuca, é reinaugurado em grande estilo

Fachada do Zimba, na Avenida Heitor Beltrão: teatro foi reformado pela Secretaria Municipal de Cultura.

Após diversas idas e vindas nos seus quase 28 anos de existência, o Teatro Ziembinski foi finalmente reinaugurado ontem, 17 de fevereiro. A noite de gala começou a partir das 19 horas, quando o público convidado foi recebido por um coquetel servido pelos garçons do restaurante Otto. Holofotes discretos incidiam sobre a fachada do teatro, na Avenida Heitor Beltrão, e sobre o painel preenchido por logotipos da Prefeitura colocado no saguão.

A reforma do teatro, que ganhou novos assentos e palco, sistema de refrigeração e um café, nos fundos, virado para a Rua Urbano Duarte, foi toda custeada pela Secretaria Municipal de Cultura. Em 2015, foi divulgado um edital de ocupação do espaço pelo período inicial de dois anos. Licitação ganha, a partir de março, a nova residência artística do "Zimba" ficará a cargo da Opsis Soluções Culturais, gerida pelo casal Robson Sanchez e Monique Carvalho, presentes no evento. Marcelo Calero, jovem ex diplomata que agora ocupa o cargo de secretário, foi figura presente simpática em todo o evento.

Fernanda Torres durante o monólogo (Foto: Divulgação)
Às 20h25, a campainha soou e os convidados se direcionaram às dependências internas do Zimba. Por volta das 20h45, Fernanda Torres surgiu no palco encarnando a arisca senhorinha baiana criada por João Ubaldo Ribeiro na obra "A Casa dos Budas Ditosos" e adaptada para o teatro por Domingos de Oliveira. Em cartaz pela primeira vez na Tijuca, a platéia assistiu com atenção, em meio a risadas, a narrativa genial de peripécias sexuais evocada pela personagem, de 68 anos, notadamente feminista, esclarecida e progressista.

Quase duas horas transcorreram até o encerramento do espetáculo. Calero agradeceu a presença do público, mostrando em linhas gerais o "banho de loja" dado ao Zimba. Além disso, sublinhou a felicidade de estar podendo entregar um teatro como aquele à Tijuca, o bairro onde nasceu e foi criado. O ponto alto dessa conversa foi a reação quase imediata de Fernanda Torres, que também alegou ser tijucana e sócia do Tijuca Tênis Clube. Naturalmente, foi aplaudida com louvor.



A placa de reinauguração foi desvelada por Torres, Calero e Clara Becker, filha da atriz Cacilda Becker (1921-1969) e do ator Walmor Chagas (1930-2013), quem criou e inaugurou o Teatro Ziembinski em 6 de abril de 1988.

Segundo reportagem do Estadão, a cena cultural da Tijuca ficará ainda mais agitada. O Teatro Cesgranrio, cujo endereço não foi divulgado, será inaugurado ainda este ano na região num antigo auditório em reforma.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão, onde se situa o Teatro Ziembinski junto à estação do metrô.

A peça "A Casa dos Budas Ditosos" será reapresentada no Zimba na próxima quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016, às 20h30. Os ingressos serão vendidos de quarta para quinta no local (Rua Urbano Duarte 30, [21] 2254-5399, estação São Francisco Xavier do metrô).

30 de mai. de 2015

Sinalização estilo wayfinding chega à Tijuca

Sinalização turística estilo wayfinding na Pareto com Heitor Beltrão: orientação geográfica ao pedestre.

A Tijuca não é lá um bairro turístico, mas está ganhando sinalização de tal gênero. O projeto de wayfinding, elaborado pela Secretaria Especial de Turismo desta cidade, consiste na implantação de totens bilíngues que orientem o pedestre sobre serviços e pontos turísticos locais, além de mapas dos arredores e a estimativa em minutos do tempo de caminhada entre um ponto e outro.

Aqui no bairro, esses totens estão sendo colocados em vias de grande movimento, sobretudo aquelas no eixo do metrô ou em ruas que se conectem facilmente com o estádio do Maracanã. O painel que ilustra esta publicação está situado no cruzamento da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Pareto, um pouco antes de chegar à Praça Saenz Peña. Em uma breve caminhada pela região, descobri outros totens já instalados na Almirante Cochrane com Conde de Bonfim e na Major Ávila com Barão de Mesquita.

Esse projeto, ja implantado parcialmente na Zona Sul, é executado pelo Consórcio Rio Inteligente, ganhador da licitação, que atua em parceria com outras empresas de design e engenharia. O layout escolhido segue o padrão internacional e tem grande semelhança com projetos de wayfinding de cidades como Londres, Nova York, Cleveland e Brighton, no Reino Unido. Até o fim do ano, a Prefeitura pretende instalar cerca de 500 painéis desses tanto na Zona Sul, como no Centro, na Barra e na Tijuca/Maracanã.

20 de out. de 2014

Avenida Heitor Beltrão (3): o perímetro da decadência

O antigo imóvel da Casa de Cultura Lima Barreto: abandonado desde 2007 na Rua Conselheiro Zenha

Vista como um sinônimo de modernidade e de progresso no seu momento de abertura, a Avenida Heitor Beltrão trouxe impactos negativos a longo prazo à região da Tijuca onde se localiza. Em primeiro lugar, a via jamais recebeu qualquer empreendimento imobiliário que desse algum tipo de feição residencial a seu cenário. Em segundo lugar, como uma consequência da primeira razão, a Avenida Heitor Beltrão, portanto, nunca foi capaz de atrair muitos pedestres para as suas calçadas; pelo contrário: seu aspecto exclusivamente rodoviarista acabou por repeli-los, mesmo com a presença ali do Teatro Municipal Ziembinski, de um centro cultural - fechado em 2007 - e de pequenos parques em suas margens.

Não à toa, o Zimba - como é carinhosamente conhecido o Teatro Ziembinski - foi apropriado pela Prefeitura em 1992. Ao longo dos anos, o número de vezes de fechamento e reabertura do local por falta de verba ou de problemas com infraestrutura é incontável. De todo modo, o Zimba segue lá, na Rua Urbano Duarte junto à Heitor Beltrão, com uma programação não muito badalada, mas ultimamente contínua. Em contrapartida, o Centro Cultural Lima Barreto fechou suas portas por volta do ano de 2007 e hoje seu antigo espaço jaz na esquina da Rua Conselheiro Zenha. Sem dúvidas, uma grande perda para a Tijuca.

Sinalização de 2013 já depredada em 2014
A hipótese de que a Avenida Heitor Beltrão seja uma avenida fracassada também se confirma com a sua mais recente intervenção pública: a implantação de um corredor do Bus Rapid System (BRS). Inaugurado no segundo semestre de 2013, o BRS conferiu à avenida nova sinalização e novos pontos de ônibus que foram rapidamente vandalizados. O Ciep Samuel Wainer, por sua vez, é um outro caso de abandono: mesmo sendo um sucesso em termos escolares, suas dependências físicas são precárias e feias, especialmente o anexo formado pela quadra poliesportiva. 

Em suma, a Heitor Beltrão continuou sendo, desde a sua inauguração, uma avenida de grandes vazios urbanos. As praças construídas nesses locais - demanda, essa, da própria associação de moradores nos anos 1980 - não foram capazes de angariar um público cativo e, na atualidade, são comumente frequentados por usuários de drogas e/ou por cachorros encoleirados. No entanto, a ação de grafiteiros nas muralhas da Heitor Beltrão tem contribuído para melhorar a sua paisagem, assim como o evento de arte urbana Wallpeople, que vem procurando reocupar a Praça Paulo Emílio da Costa pelo menos uma vez por ano com encontros e troca de arte colaborativa.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão: via pouco amigável aos pedestres.

Muralha na Rua Almirante Cochrane: extinto posto de gasolina em frente ao Walmart.

O anexo do Ciep Samuel Wainer que dá forma à quadra poliesportiva: gradil depredado e
risco de assaltos no entorno.

O problema é que o "feitiço maldito" da Avenida Heitor Beltrão não se circunscreve apenas aos seus limites: as ruas vizinhas também foram atingidas pelo impacto negativo da avenida fantasma. Na Rua Pareto, por exemplo, os indícios de decadência são gritantes. Na esquina com a Conde de Bonfim, um antigo casario permanece fechado - e praticamente caindo aos pedaços - após o encerramento das atividades de uma lanchonete no início dos anos 2000. Em outras épocas, abrigava a Sorveteria Molinaro. Já o extinto Colégio MV1 Pareto foi desmembrado em duas partes, onde uma delas tornou-se um prédio inexplicavelmente atroz. A ideia é que ali funcionasse uma loja de nome "Ti Ti Ti", voltada mais ao perfil popular, mas que acabou não saindo do papel. Hoje, trata-se de um imóvel abandonado que, não raramente, é invadido por moradores de rua.

Na Rua Almirante Cochrane, os efeitos são ainda mais perversos. De um lado, um prédio elegante junto à Pedra da Babilônia não dialoga mais em estética com o seu entorno, reconstruído mediocremente em virtude das demolições do metrô. Paredes pichadas estão por todas as partes, assim como um posto de gasolina abandonado na esquina de Visconde de Figueiredo. Em frente, um grande elefante branco, o prédio do antigo Walmart, que está se degradando continuamente graças à deserção repentina de seus proprietários e, é claro, à ação do tempo (em março de 2016, foi inaugurado o Supermercado Guanabara no local). Panorama similar é o da Rua Marquês de Valença, no seu cruzamento com a Rua Pereira de Siqueira: o prenúncio de declínio econômico é muito evidente.

Imóvel centenário na Pareto com Conde de Bonfim à espera de revitalização

Ainda na Rua Pareto, imóvel desmembrado ao antigo Colégio MV1 , não raro, é ocupado por
sem-tetos e usuários de droga

A falta de êxito na ambiência urbana da Avenida Heitor Beltrão, especificamente, se deve ao fato de que os terrenos baldios ali existentes ainda são de propriedade do governo estadual. A privatização do metrô nos anos 1990 não consistiu na entrega desses terrenos ao Metrô Rio, companhia que administra o transporte metroviário atualmente. Entretanto, em 2010 o governo estadual deu início a uma série de leilões de antigas áreas remanescentes do metrô na Zona Sul e na Tijuca. O objetivo era angariar verba para cobrir os gastos da expansão metroviária para a Barra via Linha Quatro.

Ao que tudo indica, não houve tantos interessados na Tijuca, mas em Botafogo está sendo evidenciado um fator positivo nesse processo. O resgate de um quarteirão entre as ruas Voluntários da Pátria e São Clemente, no coração do bairro, permitiu a construção de uma nova rua acompanhada de empreendimentos residenciais e comerciais que alavancaram o dinamismo econômico e de pedestres da área. O quarteirão, por sua vez, foi contemplado por uma bela praça e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ambos elementos públicos muito bem utilizados pela comunidade e visitantes locais.

Talvez fosse essa a solução para a Heitor Beltrão: uma conjugação mais expressiva de usos, funcionalidades e serviços. Em outras palavras, continuamos à espera de um futuro melhor para essa avenida.

18 de out. de 2014

Heitor Beltrão (parte 2): uma avenida que já foi de muitos endereços

Avenida Heitor Beltrão: por muito tempo, foi nome de quatro avenidas diferentes!

Imagine-se na situação de ser convidado por um amigo a visitá-lo em sua residência numa determinada rua X, mas que, no fim de contas, você acaba indo parar em outro lugar completamente diferente que também leva o nome de rua "X". Deu para entender? Confuso, não? Pois é. Por muito tempo, aqui na Tijuca, a Avenida Heitor Beltrão foi nome de quatro trechos de ruas completamente distintos. Segundo o caderno "Tijuca", de O Globo, de 25 de agosto de 1987, a confusão só não era maior porque - talvez pelo zelo das autoridades ou por puro acaso - as numerações das quatro avenidas não se repetiam. As ruas eram:


1 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Professor Gabizo e a Rua São Francisco Xavier;
2 - Avenida Heitor Beltrão: trecho inaugurado em 1982, prolongamento do trecho citado acima, entre a Rua São Francisco Xavier e a Rua Conde de Bonfim, nas proximidades da Pareto;
3 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Conde de Bonfim e a Rua General Roca, passando por trás da Praça Saenz Peña e atual Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro;
4 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Desembargador Isidro e a Rua Conde de Bonfim, ao lado do Tijuca Tênis Clube e atual Rua Abelardo Chacrinha Barbosa.

Segundo o plano de arruamento do bairro, a ideia era que a Heitor Beltrão fosse idealizada como uma longa avenida que conectasse os arredores da Rua Professor Gabizo com a Rua Desembargador Isidro (percurso de quase dois quilômetros) a fim de criar um fluxo de trânsito no sentido Centro-Muda, descarregando assim, a já caótica Conde de Bonfim. Se analisarmos o propósito desse projeto num mapa, percebe-se que essa Heitor Beltrão, para sair do papel, teria de desapropriar imóveis em muitos logradouros, especialmente no eixo Alzira Brandão-Pareto e no eixo General Roca-Barão de Pirassununga-Desembargador Isidro, sendo este último jamais executado.

Deste modo, os quatro trechos que levavam o nome de Heitor Beltrão eram nada mais que o caminho planejado para que uma nova avenida surgisse na Tijuca. Entretanto, apenas o eixo Alzira Brandão-Pareto sofreu intervenções, como foi mostrado na postagem anterior, em virtude da chegada do metrô e do prolongamento da Heitor Beltrão sobre os trilhos subterrâneos da Linha Um. Outros projetos de abertura de ruas, previstos no plano de arruamento da Tijuca, também não tomaram forma, como, por exemplo, a conexão da Rua Barão de Itapagipe com a Rua Carlos Vasconcelos, discutido em O PASSEADOR TIJUCANO em abril de 2014.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão nas redondezas da Marquês de Valença: pico do Grajaú ao fundo.

Além do alto custo das desapropriações, não se sabe bem quais foram os outros entraves que impediram a execução dessa grande "cirurgia urbana" na malha viária tijucana. Minha hipótese é de que as obras do metrô no bairro durante os anos de 1976 a 1982 causaram o caos suficiente para que a comunidade da Tijuca nunca mais aceitasse conviver novamente com intervenções de tal porte. Nessa época, a atuação da associação de moradores era incisiva e dispunha de muita força política, o que decididamente pode ter freado uma atuação mais ousada do governo nessa questão.

Acredito que o primeiro sinal de desistência de unificação desses quatro trechos tenha se dado a partir de 1989, quando a Heitor Beltrão que margeava o Tijuca Tênis Clube teve seu nome modificado para Abelardo Chacrinha Barbosa, em homenagem ao ilustre comunicador da TV brasileira falecido em 1988. Esse trecho, inaugurado durante os anos 1970, curiosamente nunca teve edifício ou qualquer tipo de residência; até hoje se trata de uma área livre com vista para as empenas dos edifícios de ruas vizinhas e local de pontos finais de ônibus, como a 634 (Saenz Peña-Freguesia) e a 636 (Saenz Peña-Gardênia Azul).

Por outro lado, o trecho vizinho correspondente à antiga Heitor Beltrão entre a Conde de Bonfim e a General Roca, sempre foi residencial e já teve outro nome antes mesmo de ter sido "Heitor Beltrão". O jornalista João Máximo, em "Rua, avenida, clube e amendoim" ("Tijuca", O Globo, 24 ago. 1995), afirma que esse trecho era chamado de Rua dos Trapicheiros pelo dela situar-se às margens do Rio Trapicheiros. Apesar disso, Máximo não comenta sobre a partir de que momento esta rua tornou-se, de fato, mais um fragmento da Heitor Beltrão.

Ao mesmo tempo, vale comentar que João Máximo indagava em sua crônica a verdadeira identidade deste Heitor Beltrão, pois afirmava conhecer três pessoas célebres de nome Heitor Beltrão: o ex-presidente do Tijuca Tênis Clube (TTC); o compositor da canção "Amendoim torradinho", interpretado pela cantora Sylvia Telles; e o advogado, jornalista e parlamentar recifense. Sua dúvida era se, por aleatoriedade, cada um desses trechos "perdidos" se referissem a cada uma dessas personalidades que, de maneira supostamente insólita, possuíam nomes idênticos.

Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro:
deixou de ser Heitor Beltrão em 2005
Na verdade, ele estava enganado, pois o ex-presidente do TTC e o advogado, jornalista e parlamentar, no final de contas, eram a mesma pessoa. Lili Rose e Nelson Aguiar, no clássico "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), apontam que Heitor da Nóbrega Beltrão, apesar de ter nascido em Recife, tem sua história intimamente ligada à Tijuca, fato que, inclusive, tornou-o patrono do TTC, além da notória vida política e jornalística. Já o compositor de "Amendoim torradinho", seja dito de passagem, se chamava, na verdade, Henrique Beltrão.

Voltado à antiga Rua dos Trapicheiros e posterior Avenida Heitor Beltrão, em 2002 a Prefeitura resolveu criar mais uma pista ali para facilitar o trânsito dos veículos que vinham da Rua Soares da Costa para a Rua General Roca. No entanto, essa intervenção foi inexpressiva, o que só contribuiu ainda mais para torná-la uma rua sem identidade e ligeiramente mal cheirosa - é neste trecho onde o Rio Trapicheiros é mais poluído!

Por fim, em abril de 2005, dois anos após o assassinato por bala perdida da estudante Gabriela Prado Maia Ribeiro em assalto na estação São Francisco Xavier do metrô, a antiga Rua dos Trapicheiros (e depois Heitor Beltrão) foi renomeada em tributo à Gabriela, moradora do bairro, dando fim ao ao aspecto "fragmentado" da Heitor Beltrão. Isso não tirou-lhe, entretanto, o caráter polêmico e calamitoso, pois como veremos a seguir, é um dos principais logradouros que formam o "perímetro da decadência" no coração da Tijuca.


15 de out. de 2014

Heitor Beltrão, o surgimento de uma polêmica avenida no coração da Tijuca

"Seja benvindo à Tijuca": monumento do Rotary Club inaugura a Avenida Heitor Beltrão, aberta
em 1982. Ao fundo, o Teatro Ziembinski, que chegou à avenida apenas em 1988.

A geração atual de tijucanos e amigos do bairro provavelmente ignora esse fato, mas a Avenida Heitor Beltrão, correspondente ao trecho entre o Largo São Maron e a Rua Pareto, foi inaugurada em 1982 graças à chegada do metrô na Tijuca. Prevista pelo plano de arruamento original do bairro, a Heitor Beltrão foi designada para escoar mais fluidamente o trânsito do Centro para a Praça Saens Peña, servindo, da mesma maneira, como parte do traçado subterrâneo dos trilhos pertencentes à Linha 1 do metrô. Até então, todo o trânsito da Tijuca para o Centro (e vice-versa) se restringia ao eixo Conde de Bonfim-Haddock Lobo, que trafegava em sentido duplo, e à Rua Almirante Cochrane, que trazia o fluxo de veículos advindo da Praça da Bandeira.

Vista do antigo Mercado São Lucas (O Globo, 09 out. 1976)
O projeto da “nova” Heitor Beltrão consistia na construção de uma praça junto à Igreja de São Francisco Xavier acompanhada de uma via para carros que rasgaria transversalmente ruas como Alzira Brandão, Marquês de Valença, Carmela Dutra, Visconde de Figueiredo, Conselheiro Zenha e Pareto, até chegar aos arredores da Saens Peña. Muitos imóveis foram demolidos na época, como grande parte daqueles situados no lado ímpar da Rua Almirante Cochrane (paralela à Heitor Beltrão), além do extinto Mercado São Lucas, cujo espaço abriga atualmente o camelódromo e uma agência dos Correios.

Segundo o livro "Tijuca - História dos Bairros/Memória Urbana", publicado pelo Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR/UFRJ (1984), a abertura da Avenida Heitor Beltrão deixou os moradores do bairro encantados com a vista livre que o pedestre passou a ter do Maciço da Tijuca naquela área. No entanto, a avenida foi inaugurada com grandes vazios ao longo do seu percurso; não havia prédio algum projetado para a Heitor Beltrão, somente a visão das empenas de edifícios situados em ruas vizinhas. Urbanisticamente falando, era uma avenida "moderna", porém feia.

Esse fato foi protestado pelas associações de moradores em atividade na época, como a Amoapra (Associação de Moradores da Praça Saens Peña), que exigia a implantação de áreas de lazer nesses terrenos, que eram antigos canteiros de obra. O deputado federal Chico Alencar, presidente da Amoapra na ocasião, encabeçou o movimento que solicitava a criação do “Parque da Tijuca” às margens da Heitor Beltrão. Tal parque consistiria na colocação de playgrounds, ciclovias, anfiteatros, áreas verdes e quadras desportivas nos moldes do Aterro do Flamengo. Em contrapartida, Jorge Washington Montillo, presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) em 1982, defendia que a melhor opção para a nova via tijucana seria vender seus terrenos à iniciativa privada com a condição de que fossem criados espaços comunitários nos pilotis.

Antes e depois das obras da Avenida Heitor Beltrão, junto à Rua São Francisco Xavier *

Como vocês podem perceber, os próprios tijucanos não chegavam a um consenso sobre essa questão. Mesmo assim, o governador Chagas Freitas ratificou o decreto 5627 em 1983 garantindo para aquela área a criação exclusiva de parques, praças e quadras conforme a pressão e o desejo da maioria das associações de moradores. Entretanto, durante o governo de Leonel Brizola, esse decreto acabou sendo contrariado a favor da construção do Centro Integrado de Educação Pública Samuel Wainer (Ciep) num estreito terreno entre a Heitor Beltrão e a Almirante Cochrane em frente à Rua Conselheiro Zenha. Inaugurado em agosto de 1986, a chegada desse Ciep à referida avenida irou muitos moradores, que definiam tal decisão de Brizola como “autoritária” e desnecessária, pois a Tijuca já dispunha de muitas escolas primárias (vide O Globo-Tijuca, 29 set. 1986, p. 7).

Por outro lado, foi nesse mesmo ano quando a Avenida Heitor Beltrão começou a ganhar suas primeiras feições culturais, pois além da criação de um parque em toda sua extensão, havia a ideia também de se criar um corredor cultural por ali. Neste sentido, o Centro Cultural da Tijuca, sede do Sindicato dos Escritores, foi inaugurado na esquina da Rua Conselheiro Zenha em setembro de 1986. Pouco tempo depois, o local passou a ser chamado oficialmente de Casa de Cultura Lima Barreto. As atividades literárias e culturais desse centro cultural foram bastante efervescentes durante seu primeiro decênio de existência, com muitos cursos, exposições e oficinas. Além disso, havia inclusive um projeto de que fosse criado nas suas dependências um anexo destinado ao Museu da Tijuca, que apresentaria a história, fotografia e objetos referentes à cultura e tradição tijucana.

Em meados de 1988, o Teatro Ziembinski chegou à Heitor Beltrão, nas vizinhanças da estação São Francisco Xavier do metrô. Capitaneado pelo ator e diretor Walmor Chagas, o Ziembinski (vulgo Zimba) tinha a proposta inovadora de abrigar, além do teatro, uma escola para atores. Sem dúvidas, seu grande desafio foi trazer uma programação qualificada à Tijuca que fizesse com que os moradores e frequentadores do bairro não precisassem se deslocar tanto para a zona sul em busca de boas obras teatrais.

E assim a Avenida Heitor Beltrão foi se adaptando à malha viária da cidade e ao cotidiano tijucano. Entretanto, quem acha que as polêmicas envolvendo essa via acabaram por aí, está redondamente enganado. Por décadas, a Heitor Beltrão foi nome de 4 (quatro!) ruas diferentes na Tijuca, graças ao projeto de arruamento do bairro que previa a unificação desses trechos jamais executada. Discorrerei sobre esse tópico na próxima publicação. Por fim, em outra e breve oportunidade, farei uma análise da evolução urbana da Heitor Beltrão até os dias de hoje. Nem preciso adiantar que entre os tijucanos é unânime a opinião de que a Heitor Beltrão é o maior símbolo de decadência do bairro, condição que se estende igualmente a muitas de suas ruas adjacentes.

*Fonte: CARDOSO, Elizabeth Dezouzart; VAZ, Lilian Fessler; ALBERNAZ, Maria Paula; et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984. 
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