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23 de jul. de 2016

A nova Praça Varnhagen: impressões e expectativas

A nova Praça Varnhagen: finalização das obras contra as enchentes devolve o "Baixo Tijuca" aos tijucanos.

A longa espera chegou ao fim há pouco mais de um mês. Símbolo da boemia tijucana, a Praça Varnhagen foi reinaugurada no último 12 de junho, encerrando dessa maneira o grande conjunto de obras contra as enchentes na região. Com orçamento inicial de 188 milhões de reais financiados pela Prefeitura do Rio e o Ministério das Cidades, foram construídos três grandes reservatórios subterrâneos para escoar a água das chuvas. De espaços de lazer a canteiros de obras, as praças da Bandeira, Niterói e Varnhagen viveram pelo menos três anos de sufoco em meio a retroescavadeiras, guindastes e muitos tapumes.

Com isso, a devolução da Praça Varnhagen à comunidade da Tijuca representa não apenas a finalização de todo esse conjunto de obras, mas também a retomada do “Baixo Tijuca” na vida noturna do bairro. Nos últimos anos, percebeu-se a chegada de novos bares e restaurantes ao entorno, principalmente na Rua Almirante João Cândido Brasil, indicando que o polo ainda tem grande força notívaga na Zona Norte. Com a recuperação do espaço anteriormente fechado à população, é possível que os frequentadores locais reencontrem na praça uma alternativa de socialização noturna caso a Secretaria Municipal de Ordem Pública não coíba a venda de bebidas por ambulantes ali.

O desenho da ciclovia, que liga a Barão de Mesquita à Vila: estação do Bike Rio ficou na Avenida Maracanã.

O playground: brinquedos modernos e piso especial anti-queda atrai a molecada do bairro.

Por outro lado, quem achava que a Varnhagen voltaria à sua velha forma, enganou-se. Como tem sido de praxe na gestão do prefeito Eduardo Paes, as praças reinauguradas na Tijuca são idênticas umas às outras do ponto de vista paisagístico. O polêmico piso de pedras portuguesas, por exemplo, símbolo urbanístico da região, foi substituído de vez pelas placas de cimento. O curioso nisto tudo é que embora tenha havido grande empenho de verba pública em obras para controlar as furiosas enchentes que castigavam o bairro, a concepção da praça em si, no fim de contas, parece ter ido na contramão desse plano de controle. Afinal, quanto mais acimentado for o piso, menor será a capacidade de impermeabilização do solo.

Gaiola junto ao centro de controle: Varnhagen era o antigo reduto dos passarinhos, até os anos 1990.

Além disso, a fraca arborização da nova Praça Varnhagen promete ser um problema térmico nos meses mais quentes. O crescimento das palmeiras instaladas às margens da Avenida Maracanã seguramente demorará algumas décadas para alcançar o porte das árvores frondosas. Mesmo depois de crescidas, é preciso reconhecer que as palmeiras são uma espécie arbórea com fins mais ornamentais do que socioambientais. No Rio, essas versões esquálidas e pequeninas das palmeiras não são exclusividade das novas praças da Tijuca: sua adoção se estende até mesmo à badalada Praça Mauá, na Zona Portuária, e na recém-inaugurada Praça Antero de Quental, no Leblon.

Bancos de cimento: novo mobiliário.
Contudo, é durante o dia quando a Praça Varnhagen mais se enche de vida. Antigo reduto da feira de passarinhos (hoje situada junto à estação São Francisco Xavier do metrô), pode-se dizer que atualmente a Varnhagen seja o reduto “da família”. O moderno playground tem atraído crianças de toda a vizinhança, inclusive daquelas mais pequenininhas, que passeiam sonolentas nos carrinhos. Cachorros e outros animais de estimação também são figurinhas fáceis por lá. A poucos metros da criançada - e da cachorrada em coleira - fica a academia da terceira idade. Os novos aparelhos de ginástica chamam a atenção dos idosos, que ali se dedicam ao exercício físico com entusiasmo.

A temperatura amena deste inverno também tem propiciado agradáveis banhos de sol àqueles que se põem a descansar nos bancos da Praça Varnhagen. Feitos de blocos de cimento, os bancos têm cara e forma de mobiliário urbano barato, embora sejam bonitos pela simplicidade. Outras duas atrações da praça são o reservatório subterrâneo e a pista de patinação. No primeiro, pedestres curiosos observam frequentemente a profundidade do tanque pelas frestas do piso em forma de gradil utilizado naquele trecho da praça. No segundo, o antigo espaço do chafariz atrai patinadores sobretudo iniciantes, além de alguns skatistas. O que ficou de fora, entretanto, foi o posto de retirada de bicicletas do Bike Rio, colocado no canteiro central da Avenida Maracanã em agosto de 2014.

Mas, não faz mal: reinicio de praça é sempre assim mesmo, um período de ajustes e reajustes. Os tijucanos e visitantes saberão muito bem como se apropriar desse espaço e desfrutá-lo como merece. Bem-vinda de volta, Varnhagen!

24 de ago. de 2014

Bike Rio chega à Tijuca

A nova estação do Bike Rio, no canteiro central da Avenida Maracanã junto à Varnhagen:
sustentada por energia solar.

Com três anos de atraso, o sistema de bicicletas laranjinhas do Itaú, conhecido como Bike Rio, está finalmente chegando à Tijuca e arredores desde meados deste mês de agosto, quando o tijucano já pôde avistar algumas de suas novas estações sendo implantadas na Praça Varnhagen (180) e no Largo da Segunda-Feira (177) - as únicas estações até agora em operação, ou seja, já disponíveis para uso.

Detalhe da estação 180 (Varnhagen)
O Bike Rio surgiu em meados de 2011 apenas na parte turística da cidade, expandindo-se posteriormente para outras localidades da zona sul até alcançar o Centro - que, há cerca de 3 meses, foi contemplado por um número expressivo de novas estações - e o Parque Madureira, a única área isolada desta grande região atendida pelo sistema. Aqui na Tijuca, a estação mais próxima até então era a de número 174, localizada no Largo do Estácio.

Quando falo que o Bike Rio chegou com atraso à Tijuca e arredores deve-se ao fato de que foi precisamente em meados de 2011 e início de 2012 que ganhamos nossas primeiras ciclofaixas nas ruas Barão de Mesquita e Major Ávila, conectadas ao Estádio do Maracanã, além de outras do mesmo porte em Vila Isabel e no Grajaú. Isto é, na mesma época em que o Bike Rio foi implementado na cidade.

O Bike Rio será uma "mão na roda" para o tijucano se deslocar pelo seu bairro; afinal, a Tijuca, por ser extensa, é quase uma mini-cidade dentro do Rio. Isso sem levar em consideração os bairros contíguos como Vila Isabel, Grajaú e Maracanã, tão populosos e densamente ocupados como a Tijuca. É por essa razão que a Grande Tijuca merece um sistema de transporte alternativo como esse, que facilite a locomoção de seus moradores dentro da própria região; no fim de contas, entre essas vizinhanças, as distâncias são pequenas e seus caminhos têm grande rotatividade por a Tijuca ser um grande centro econômico e de serviços na área. 

Muito embora o mapa da estação 180 na Praça Varnhagen assinale que a Tijuca será contemplada com mais duas estações na Praça Xavier de Brito (188) e no Metrô Uruguai (185) - além da estação Maracanã Norte (197), junto ao estádio -, foram licitadas em 2013 um total de 26 estações do Bike Rio entre Tijuca e Vila Isabel, segundo a página Os Ciclanos:

TIJUCA (16 estações)
175 - Metrô Estácio
176 - Rua Dr. Satamini / Rua do Matoso
177 - Largo da Segunda-Feira
178 - Afonso Pena
179 - Colégio Militar
180 - Praça Varnhagen
181 - Heitor Beltrão
182 - Praça Saenz Peña
183 - Shopping Tijuca
184 - Praça São Charbel / EXTRA Maracanã
185 - Metrô Uruguai
186 - SESC Tijuca
187 - Oi Futuro
188 - Praça Xavier de Brito
189 - Praça Pinheiro Guimarães (Hospital da Ordem Terceira)
190 - Largo São Camilo (Usina)

VILA ISABEL/MARACANÃ (10 Estações)
191 - Shopping Iguatemi - rua Barão de São Francisco
192 - Praça Barão de Drummond
193 - Boulevard 28 de Setembro / Rua Souza Franco
194 - UERJ
195 - Maracanã
196 - Maracanã Sul
197 - Maracanã Norte
198 - Estádio Célio de Barros
199 - Praça Niterói
200 - EXTRA Boulevard

17 de jun. de 2014

Tijuca, esse bairro apaixonantemente "parado"

"Salve Tijuca", por Elli, na Rua Almirante Cochrane.

Faço pós-graduação em Planejamento Urbano pela UFRJ e, numa das aulas de Cidade e Sociabilidade, começamos a discutir sobre o jeito de ser da Tijuca. Toda essa querela se deu após a leitura do capítulo “Muda – Quando se Muda”, do livro Prosas Cariocas: uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004), organizado por Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki.

A autora deste texto, a jornalista e atriz Bianca Ramoneda, exaltou sua relação com a Muda, onde residia – sublinhando enfaticamente a fase violenta da Tijuca, nos anos 90 e 2000 -, fazendo uma comparação com o momento em que finalmente deixou a região para morar num quarto-e-sala no Leblon. Pretendo comentar sobre esse texto em outra oportunidade, embora valha a pena destacar, diante do propósito deste post, o seguinte trecho:

"Eu tinha 18 anos, morava na Muda, pequeno bairro dentro da enorme Tijuca, onde era feita a troca de bondes. Lindo bairro pra morar, se a sua ideia for passar os dias e, principalmente, as noites dentro de casa. Como uma legítima cidade do interior, na Muda o transporte acaba antes das 22 horas e é impossível comer um salgadinho onde quer que seja, pois não há nada aberto. A Muda tem um silêncio impressionante durante a madrugada, herança da proximidade com o Alto da Boa Vista, um silêncio que só é rompido pelo latido dos infinitos cães que reagem ao som de cada folha que cai no asfalto (p. 51).”

Apesar do cenário descrito acima ser da Muda – de fato, uma cidadela pra lá de pacata entre a Tijuca e a floresta –, muita gente ainda associa essa ideia de bairro “parado” à Tijuca como um todo. “Ah, não há vida noturna na Tijuca”, apontam alguns. Mas como não, cara pálida? E a boêmia dos arredores da Praça Varnhagen? O que dizer, então, da balbúrdia dos pés-sujos da Haddock Lobo?

No entanto, entendo o que querem dizer com isso, principalmente quando esse argumento vem de um tijucano menos esclarecido: a Tijuca não é o bairro da moda. Logo, o que há de entretenimento por aqui nem se compara à diversão cosmopolita de Botafogo, esse sim o bairro vitrine do Rio, cheio de novidades, bares estilosos que abrem e fecham conforme a demanda de público, shoppings, excelentes livrarias e cinemas badalados. Paraíso do consumo cool, onde volta e meia me abasteço, é claro. Não há disso na Tijuca.

Por vezes não nos damos conta da influência impressionante que a publicidade e a mídia têm no nosso modo de viver. Neste sentido, o estilo de vida da zona sul (ou seja, o lugar que dita a moda) se impõe como padrão e, forçosamente, acabamos acreditando nessa concepção de que a Tijuca não é tão bacana assim. Daí surgem os argumentos mais ultrapassados possíveis contra este nosso vale: “bairro de gente velha e moralista”, “só tem farmácia”, “não tem praia”, “o lazer se resume ao shopping” etc.

Tá, tá, tá, tudo bem. O jeito como alguém gosta de se divertir é muito particular, não há como questionar. Se os encantos do capital são os que te cativam, é para a zona sul ou para a Barra que você, caro tijucano, deve ir mesmo. A Tijuca é prática e sem firulas, mantém a tradição, não se diversifica, com exceção do shopping center. Eu e minha família vamos sempre, há anos, no mesmo braseiro, o arrebatador Lareira, na Rua Major Ávila. Mas há quem prefira comer o mesmo galeto, e pagando talvez até mais caro, lá nesse tal de Braseiro do Baixo Gávea, lugar dos chamados trendsetters (grosso modo, termo em inglês para dizer que alguém lança moda).

A vida cultural do Centro ou de Botafogo são irresistíveis, confesso. Só que também me invade uma sensação muito esquisita quando volto desses lugares, algo que nasce e cresce dentro de mim, sempre que saio do metrô e deparo com o chafariz da Praça Saens Peña ou cada vez que um 415 cruza o viaduto Paulo de Frontin, perpassa a Praça Afonso Pena e segue reto, toda vida, até chegar à Usina. Bate uma emoção em atravessar tantas ruas queridas, tantos monumentos esplendorosos como a Igreja de São Francisco Xavier e o Colégio Marista! O encantamento com a zona sul fica pra trás.

Voltar à Tijuca, após uma noitada na Lapa, por exemplo, é retornar literalmente para casa. A gente se diverte lá e regressa sabendo que na Tijuca encontraremos o descanso e o silêncio. O afastamento necessário à vida mundana exalada pelos bairros notívagos. É como se as nossas ruas respeitassem seus próprios relógios biológicos: durante o dia, vivacidade, à noite, adormecimento. O clima de família, ainda que ultimamente visto como um valor antiquado, tempera o nosso bairro com doses irresistíveis de hospitalidade.

Vendo assim, a Tijuca pode até ser um bairro meio sem nada para fazer mesmo, mas um bairro apaixonantemente "parado".
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