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22 de jun. de 2017

Letreiros antigos que resistem no comércio de rua da Tijuca

Memória afetiva para uns, abandono para outros. Na Tijuca, muitos letreiros antigos ainda povoam as fachadas do nosso comércio de rua. Alguns deles já se tornaram de estimação tamanha a simpatia (inconsciente) aos quais muitos tijucanos lhes têm. Para identificar o quão antigo pode ser um desses letreiros, há pistas certeiras: é só observar o estilo das letras que destacam o nome do empreendimento, o material utilizado, o modo como é apresentado o número de telefone, o tipo de iluminação. Número de fax, então, já é redenção na certa. Outros se entregam pelo simples anúncio do gênero de serviço prestado: videolocadoras, minutas e vitaminas, calçados e bolsas para senhoras.

O PASSEADOR TIJUCANO recorreu as principais ruas e procurou listar oito letreiros antigos e emblemáticos do nosso bairro. Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.


1. AO TRANSISTOR DA TIJUCA (Rua São Francisco Xavier 2, Loja E)


Rua São Francisco Xavier 2, Loja E, Largo da Segunda-Feira 


"Ao Transistor da Tijuca" é uma das tantas lojas de material elétrico e utilidades do gênero que existem no bairro. O letreiro antigo já é quase patrimônio gráfico do Largo da Segunda-Feira, onde se situa. Observem que o prefixo do telefone só apresenta três dígitos, dando uma amostra do seu longo tempo de existência. Vale destacar que, no Rio, todos os números de telefonia fixa passaram a ter prefixo de quatro dígitos no dia 30 de junho de 2001, há 16 anos.


2. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO STA. CAROLINA (Rua Santa Carolina 8)


Rua Santa Carolina 8, Usina

Outro gênero comercial bastante comum aqui na Tijuca é o varejo especializado em materiais de construção. São bazares à moda de outrora, bem diferentes das grandes cadeias como Leroy Merlin ou Casa Show. Na Usina, temos a loja "Materiais de Construção Sta. Carolina", localizada na rua homônima. O letreiro, coitadinho, mal conserva suas letras. Mesmo assim, ainda se pode identificar o derradeiro slogan: "Tudo Para Construção e Pinturas".


3. GURILANDIA LANCHES (Rua Conde de Bonfim 670)

Rua Conde de Bonfim 670, entre Uruguai e Dona Delfina 

Quem se lembra dos tempos em que ir à Disney também podia ser sinônimo de ir à Disneylândia? No caso da Tijuca, o sufixo "lândia", que cheira à naftalina de tão démodé, é utilizado para designar o território da gurizada na Rua Conde de Bonfim 670. Ou melhor: a "Gurilandia Lanches", sem circunflexo. O letreiro do estabelecimento não deixa mentir a idade: ele oferece (ou oferecia) refeições à minuta, pizzas e vitaminas. Em tempos de hambúrguer gourmetizado, o que são mesmo minutas e vitaminas?! De todo modo, eis mais um patrimônio gráfico do nosso bairro!


4. REQUINTE (Rua Conde de Bonfim 668, Loja B)

Rua Conde de Bonfim 668, Loja B, entre Uruguai e Dona Delfina

Nas vizinhanças da "Gurilandia Lanches", jaz o letreiro da antiga boutique "Requinte", no número 668 da Rua Conde de Bonfim. A loja é dos tempos em que se vendia produtos exclusivos para "senhoras", tais como calçados e bolsas. Diferentemente dos demais estabelecimentos listados aqui, a "Requinte" encerrou suas atividades já há um bom tempo (algum leitor sabe quando?), e o melhor - está fechada com portas pantográficas! Mais vintage, impossível. Nossa Tijuca é tradicional até quando não quer.


5. BRASEIRO (Rua Haddock Lobo 123A)

Rua Haddock Lobo 123, Loja A, próximo à Avenida Paulo de Frontin (Fonte: Google)

Oficialmente conhecida por "O Braseiro Armarinho Limitada", a Braseiro Modas - como é comumente chamada - está fincada na Rua Haddock Lobo desde 1966, já nas bandas do Rio Comprido. Segundo o tijucano Felipe Torreira, do blog Pileque, "as roupas estão expostas em cristaleiras muito bonitas, bem altas, pois o pé-direito da casa deve ter seus seis metros. Camisetas furadinhas, camisas sociais, camisolas, meias sociais, calçolas, cintos elegantes e moda íntima em geral enchem as estantes e mostruários". Tim Maia, o cantor, foi freguês em outras épocas. Inveterado letreiro!


6. ELETRÔNICA ROBRUM (Rua José Higino 290)

Rua José Higino 290

Já se foram os tempos em que hordas de tijucanos consumiam ad nauseam as incontáveis videolocadoras existentes no bairro. Com o fim dos cinemas na Praça Saenz Peña, alugar VHS e DVDs tornou-se uma das poucas opções culturais por aqui. Agora, em tempos digitais, as videolocadoras ficam só na saudade ou impressa nos letreiros, como neste da "Eletrônica Robrum", situada à Rua José Higino 290. A placa também entrega a idade pelo anúncio do número de telefone com prefixo de três dígitos e do número de fax. E os pontinhos luminosos que circundam a moldura? Dignos de cenário dos programas da Xuxa, nos anos 1980.


7. BAZAR CASCATA (Rua Conde de Bonfim 927, Loja D)

Rua Conde de Bonfim 927, Loja D, Muda 

Na esquina da Rua da Cascata, o "Bazar Cascata" faz parte da turma de lojas de ferragens, material elétrico e conserto de eletrodomésticos tão comuns na Tijuca. Após a remoção do tradicional letreiro de "O Queijeiro da Muda", arriscaria dizer ser este um dos mais emblemáticos atualmente deste pedacinho da Tijuca.


8. HOTEL TIJUCA (Rua Pareto 63)

Rua Pareto, 63, arredores da Praça Saenz Peña

O "Hotel Tijuca" dispensa apresentações: é um dos mais famosos motéis do tipo custo-benefício do bairro, muito embora ainda há quem encare o "Paretão" como um hotel - pelo menos, na página do Trip Advisor, onde se tecem críticas sobre o serviço prestado. O prédio chega a ser risível de feio, mas o seu letreiro continue firme e forte na paisagem aérea dos arredores da Praça Saenz Peña justo no seu trecho mais decadente, a Rua Pareto. A placa emana ares de far west movie, mas é um desses letreiros que eu estimo sem saber o porquê.

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Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.

14 de out. de 2016

A Confeitaria Tijuca

Revista da Semana, 1944.
Os Srs. Batista Godinho & Cia, apresentando aos cariocas e à elite tijucana em particular, as luxuosas e moderníssimas instalações da nova CONFEITARIA TIJUCA - Sorveteria e Casa de Chá - vêm corresponder a uma antiga aspiração dos moradores da Tijuca. Em suntuoso edifício, especialmente construído para esse fim, a Confeitaria Tijuca, dotada de ar condicionado e mobiliário confortabilíssimo, será o ponto predileto para as tradicionais reuniões da elegância da fina sociedade tijucana. 

Para além dos cinemas, os anos dourados da Praça Saenz Peña foram marcados por uma série de estabelecimentos comercias simbólicos que ainda povoam o imaginário que se faz a respeito do bairro. Um dos locais mais lembrados é a Confeitaria Tijuca, da qual, particularmente, se tem pouca informação. Inaugurada em 1943 no número 352 da Rua Conde de Bonfim – na exata localização da atual filial das Lojas Americanas –, a Confeitaria Tijuca foi um marco importante na história da Tijuca como bairro de “gente bem”.


Equiparada à sofisticada Confeitaria Colombo, da Rua Gonçalves Dias – no Centro – por oferecer “serviço completo para banquetes” ao som de uma “orquestra permanente”, a Confeitaria Tijuca foi batizada como “o novo arranha-céu da Praça Saenz Peña”, em anúncio publicado no Jornal O Globo de 21 de janeiro daquele ano. Neste mesmo anúncio, é notório o prestígio do tributo oferecido às firmas que participaram na construção do imóvel: “triunfam a inteligência, a operosidade e a técnica”, apontam os anunciantes sobre a qualidade oferecida pelos senhores L. Mello & Irmão, responsáveis pela instalação da maquinaria de refrigeração elétrica, fazendo da Confeitaria Tijuca um dos locais pioneiros no Rio de Janeiro, fora do Centro, em receber tal tecnologia.

Jornal O Globo, 21 de jan. 1943: veja o anúncio em alta resolução.


Empreitada do sr. Batista Godinho & Cia, dos quais não se tem maiores informações do que esta, a Confeitaria Tijuca tinha como propósito substancializar o grand monde carioca num espaço singular que refletisse o bom gosto dos moradores do “aristocrático bairro” da Tijuca na forma de um “ambiente de requintado conforto”. Decorado inteiramente em estilo marajoara, desde a iluminação dos letreiros em neon às “cadeiras confortáveis” de metal, passando pelas faces polidas e brilhantes dos espelhos (que “reúnem todo o encanto das coisas belas e grandiosas”), a Confeitaria Tijuca se outorgava o título de “A maior organisação da América do Sul” (sic) em serviços de chá, sorvetes, almoços, lanches e jantares.

Em outro anúncio publicado na Revista da Semana, de 1944, e reproduzido no livro “História de Bairros – Tijuca” (João Fortes Engenharia/Index Editora, 1984), vê-se a ilustração do que seriam os interiores da Confeitaria Tijuca: um amplíssimo salão de chá repleto de casais jovens e elegantes servidos por garçons em fraque com gravata borboleta. Do alto do salão, um camarote encena o maestro coordenando sua orquestra. Não há registros de quando a Confeitaria Tijuca encerrou suas atividades, mas a ostentação de seus anúncios e os elogios dispensados aos moradores do bairro não deixam dúvidas sobre a origem do tal orgulho tijucano que permanece vivo até os dias de hoje pelas ruas de todo o bairro. Marcas de um passado “dourado” que se perpetuam nos gostos e nos discursos de muitos conterrâneos.

21 de set. de 2016

A história da Praça Saenz Peña: a formação do primeiro subcentro de elite carioca

Vista aérea da Praça Saenz Peña, em 1940: primeiro subcentro carioca.
Fonte: "O Rio visto pelo alto", de Patrícia Pamplona - encontrado em Alberto de Sampaio.

A declaração é objetiva, clara e com embasamento científico: a Praça Saenz Peña é o primeiro subcentro a surgir no Rio de Janeiro, e o segundo a emergir no Brasil (o primeiro foi o do Brás, em São Paulo). Mais do que isso, a Praça Saenz Peña é o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares. Tais afirmações são do arquiteto e urbanista Flávio Villaça, professor da Universidade de São Paulo (USP), autor do clássico livro Espaço intra-urbano no Brasil (Studio Nobel/FAPESP, 1998). Nesta obra, Villaça discute como se deu a produção do espaço urbano em seis metrópoles brasileiras, mostrando as “forças” capitalistas existentes por trás do mar de prédios, casas, praças, lojas, serviços, funções e usos da solo que faz parte do nosso cotidiano.

Espaço intra-urbano no Brasil (1998)
Neste livro, Villaça dedica importantes considerações à Tijuca por ser um dos bairros cuja urbanização é das mais antigas do Rio e, também, por ter sido um bairro pioneiro de “elites” na cidade. Inclusive, são as referências desse passado nobre – e, portanto, visto como digno de status – o tempero que rege muito dos discursos sobre o “orgulho tijucano”. Além disso, a memória afetiva é também um elemento crucial da representação da Tijuca no imaginário coletivo, especialmente quando falamos da Praça Saenz Peña. Muitos textos, livros e artigos se referem à praça como um lugar de cinemas e glamour nos anos ditos “dourados”, mas sem elucidar as razões sociais, políticas e econômicas que ascenderam a Saenz Peña em lugar com este perfil.

É este aspecto que pretendo dissertar nesta série de publicações sobre a formação, a evolução e a decadência simbólica da Praça Saenz Peña como subcentro de “ricos”, a começar por agora.

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Para Villaça, o subcentro é uma aglomeração diversificada e equilibrada de comércio e serviços. Ele é uma réplica em tamanho menor do centro principal – no caso do Rio de Janeiro, o nosso Centro –, “com o qual concorre em parte sem, entretanto, a ele se igualar”. O subcentro apresenta esses requisitos de comércios e serviços para apenas uma parte da cidade, enquanto o centro principal é referência para toda a metrópole. Os primeiros subcentros cariocas surgiram nos anos 1930 em bairros caracterizados, de modo predominante, pela função residencial. Com o desenvolvimento do subcentro, o cenário de bairros como o da Tijuca, de Copacabana, do Méier e de Madureira foi sendo transformado consoante a chegada de lojas comerciais, consultórios, bancos, cinemas, com o objetivo de atender à população residente/visitante no local e nas proximidades. Segundo Villaça, a partir de tais serviços, esses bairros passaram a representar um papel complementar de “centro de atividades”, tornando-se referência como polos terciários de importância local.

Neste sentido, cabe constatar que a formação dos subcentros também esteve muito associada ao desenvolvimento e à consolidação da expansão urbana da cidade em determinados pontos da Zona Sul e da Zona Norte. Isto porque, até meados do século XX, o Centro era o único local de serviços – lugar, por excelência, para onde se deslocava o grosso da população quando precisava resolver pendências ou realizar determinadas compras. A expressão carioca “ir à cidade”, como sinônimo de ir ao Centro, reflete consideravelmente essa posição do local como antiga zona de convergência, mostrando, retoricamente, a condição predominantemente residencial dos bairros fora dali.

Praça Saenz Peña, em 1960

Entretanto, Flávio Villaça pontua duas questões importantes sobre a apropriação do espaço do Centro e a respeito da produção dos subcentros. A primeira delas é que, na primeira metade do século XX, o Centro era um local majoritariamente ocupado pelas classes de alta renda, tanto para fins de trabalho como de lazer. Como justificativa a essa informação, basta recordarmos a Reforma Pereira Passos, realizada na década de 1910. Como todos sabemos, a Reforma não se tratou de uma intervenção urbanística voltada para abrigar as atividades e lazeres das classes populares no Centro. Muito pelo contrário; os pobres, em seus cortiços, foram expulsos de lá para os subúrbios, justamente porque as elites reivindicaram aquele espaço como de exclusividade delas.

Logo, o centro principal sempre foi, por vocação, um lugar construído pelas elites para as elites, abrindo brechas para a circulação da população mais desfavorecida a partir do inevitável oferecimento de postos de trabalho subalternos para as classes (des)qualificadas como tais. E, com isso, é claro que algumas ruas do Centro foram desvalorizadas, especialmente aquelas próximas à Central do Brasil e ao ponto final dos ônibus oriundos da periferia.

Mas, de um modo geral, o Centro sempre foi, por excelência, o lugar do poder e, portanto, das elites. Devido a essa razão, em muitas metrópoles brasileiras o surgimento dos subcentros veio para atender à demanda de consumo das classes populares reprimidas, pelo “mercado” - em suas diferentes facetas -, de consumir no centro principal. Neste entendimento espacial, estes subcentros viriam a ser tratados, assim, como pequenos centros situados em bairros populares, sobretudo periféricos. Por outro lado, aqui no Rio a lógica de formação dos primeiros subcentros serviu, inicialmente, para atender outro público e, consequentemente, a outros interesses.

Com base nisso, a segunda questão importante apontada pelo autor é o fato de que as classes de alta renda no Brasil (ou seja, a elite) são as maiores responsáveis pela formação das centralidades. Em outras palavras, significa dizer que a população de maior poder aquisitivo exige – e reivindica – estar próxima ao Centro, no sentido de estar próxima, na verdade, do comércio e dos serviços de que todos necessitamos para a nossa reprodução social. Tratando-se de uma metrópole rica como o Rio – então Distrito Federal –, a expansão urbana das elites atingiu raios de distância, em relação ao Centro, bem maiores do que em outras metrópoles.


Mesblinha - "O magazine da Tijuca", anos 1950.


Programação dos cinemas da Saenz Peña.
Fonte: Conrado Leiloeiros. 
O que é importante frisar aqui é que, concomitantemente à expansão espacial das elites, ocorreu, do mesmo modo, a expansão do tipo de comércio e de serviços típicos que só existiam no Centro para esses bairros em que elas se instalaram. Tudo isto graças à força política e ao poder econômico dessa classe em reclamar sua proximidade ao “centro”, enquanto conjunto de comércio e serviços. Um exemplo contemporâneo deste tipo de processo é o da Barra da Tijuca, que, de 1980 para cá, passou de posição de zona-quase-rural para a de importante centralidade na hierarquia socioespacial carioca.

Neste sentido é que Villaça diz ter surgido no Rio de Janeiro o primeiro subcentro das elites, lá nos anos de 1930: a Praça Saenz Peña. Desde o século XIX, a Tijuca já estava consolidada como bairro urbano e nobre. Com o crescimento espacial e econômico da cidade, nas primeiras décadas do século XX, essa sua condição de bairro nobre (e já consolidado em termos urbanos) foi crucial para que se viabilizasse, espontaneamente, a formação do que seria o primeiro subcentro carioca.

Villaça diz que os subcentros de Copacabana, Méier e Madureira se consolidaram na década seguinte, em 1940, mas voltados para atender a fins diferentes. No caso de Copacabana, por exemplo, contribuiu sobremaneira o turismo, visto que muitos serviços implantados por lá desde o início do século passado tinham os turistas como público-alvo. Já o Méier e Madureira se encaixariam na teoria dos subcentros periféricos voltados para responder à demanda de consumo das classes populares nos subúrbios em que residiam. 

Revista da Semana, 1944

Neste entendimento, Villaça afirma que “a Praça Saens Peña foi o primeiro subcentro voltado para as camadas sociais médias e acima da média jamais desenvolvido numa metrópole brasileira” (p. 278), precedente à Copacabana. Ao mesmo tempo, vale destacar novamente a grande distinção entre Tijuca e Copacabana em termos do perfil de seus respectivos subcentros. Ambos estavam voltados para a elite, é verdade, mas o da Praça Saenz Peña visava atender um público local, das cercanias da Tijuca, enquanto que o subcentro de Copacabana visava atender à demanda do turismo. Copacabana só se tornou um subcentro mais “completo”, menos especializado como turístico, pouco tempo depois dos anos 1940, quando o próprio bairro – e a Zona Sul oceânica – consolidaram seu processo de desenvolvimento urbano e, sobretudo, sua hegemonia como o novo espaço das elites no Rio.

Mas, como se deu a percepção da Praça Saenz Peña como subcentro? Villaça aponta que um subcentro só começa a aparecer quando se nota a chegada de determinados perfis de serviços inéditos ao lugar, serviços estes capazes de conglomerar público e fluxos econômicos equivalentes ao do Centro – resguardadas as devidas proporções. 

Casa Granado, na Conde de Bonfim com Almirante Cochrane: loja pioneira na
formação do subcentro tijucano.


Anúncio da Importadora Tijuca. O Globo (1959).
Na Praça Saenz Peña, o estopim de sua ascensão como primeiro subcentro da cidade – e subcentro para “ricos” – se deve à abertura da primeira filial de uma loja do Centro – então, nobre – no centro de um bairro residencial. Neste caso, estamos falando da Casa Granado, perfumaria instalada na Rua Primeiro de Março (antiga Rua Direita) desde 1870. Aqui na Tijuca, a Granado foi inaugurada em 1928 em prédio tombado situado na esquina da Rua Conde de Bonfim com Rua Almirante Cochrane. Nas palavras de Villaça, naquela época, “as perfumarias eram lojas importantes e essa filial era um indicio significativo da importância do centro da Tijuca” (p. 296).

Outros exemplos apontados por Villaça são os das filiais das seguintes lojas: Formosinho, que vendia artigos de vestuário e que contava com dois estabelecimentos no Centro; a loja Drago, que vendia móveis; o Jarro de Cristal, que vendia louças e cristais; a Confeitaria Tijuca (da qual pretendo falar em outra publicação); a Ferreira, que vendia ferragens, além de várias lojas de calçados e tecidos; e a Importadora Tijuca, uma loja que vendia automóveis situado no número 426 da Conde de Bonfim, onde hoje se localiza uma filial da rede de eletrodomésticos Ponto Frio. 

Mas, o principal mesmo eram os cinemas (que também falarei em outra oportunidade). No início de sua vocação como subcentro, a Praça Saenz Peña contou com cinco grandes cinemas: o Olinda, o Tijuquinha, o Metro, o América e o Carioca. Comparando a potência da Saenz Peña com a de Copacabana, Villaça sublinha que, em 1940, Copacabana inteira tinha apenas três cinemas. Se levarmos em conta a quantidade total de cinemas na Tijuca - isto é, incluindo as salas para além da Saenz Peña -, esse número pode alcançar patamares ainda mais elevados.

Foram essas as razões que fizeram emergir o subcentro da Praça Saenz Peña, o qual Villaça assegura como “o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares” (p. 297). A evolução deste subcentro nas décadas consecutivas, incluindo, também, a tão chamada “decadência” da Praça Saenz Peña, será discutida nas próximas publicações.

21 de mar. de 2016

Prefeitura resgata grafia original da Praça Saenz Peña em nova sinalização

Na Avenida Maracanã, placas de sinalização provisórias voltaram a adotar a grafia original de Saens Peña.

Não há consenso: a grafia correspondente ao nome da praça mais famosa da Tijuca pode ser escrita de diferentes formas. A mais comum, Saens Peña, diverge do sobrenome original do presidente argentino, Sáenz Peña, com acento agudo e a letra Z ao invés da S. Entretanto, nas placas indicativas de logradouro, a praça, veja só, vem grafada como Saenz Peña, mas sem o acento agudo. Há quem diga que este último modo é o mais correto de se chamar a nossa querida praça. Segundo moradores antigos, a grafia apresentada inicialmente surgiu nos anos 1980, com a instalação do metrô, tendo sido reproduzida em diversos outros meios por mimetismo.

Com a interdição da Avenida Maracanã para finalização das obras do reservatório subterrâneo da Praça Varnhagen, em outubro de 2015, o trânsito no sentido Centro foi desviado para a Rua Barão de Mesquita. Eis que surgem novas placas de sinalização, só que alaranjadas, dessas provisórias, ao longo das vias adjacentes. A surpresa foi esta: o ressurgimento da grafia original, Praça Saenz Peña, no direcionamento das placas. Será que desta vez o nome volta?

14 de jan. de 2016

Com tijucano não se brinca

Artur Xexéo (Reprodução: Internet)
Em 2002, o jornalista Artur Xexéo provocou a discórdia entre os tijucanos ao publicar em sua coluna do Jornal O Globo certa hipérbole quanto à criminalidade que assolava o bairro:

[...] Dizem que vivemos numa guerra civil. Não é bem assim. Numa guerra civil, como em qualquer guerra, sempre há a possibilidade de um armistício. Ou de a guerra acabar. Mas qual é a chance de o conflito que envolve cidadãos do Rio de Janeiro ter um fim? No Rio, só se vai a festas com a garantia de segurança. Ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficante de um dos morros que cercam a Tijuca. 
XEXÉO, Artur. Vivendo numa cidade entregue a Deus. Festa com comboio protegido por seguranças? Está ficando cada vez mais difícil ser carioca. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 28 ago. 2002.

Para quem não se lembra do contexto da época, um refresco:


O Globo, 20 ago. 2002
Naquela época, a Tijuca viveu episódios violentos de grande repercussão por causa da disputa pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Só em agosto de 2002, o comércio do bairro foi fechado duas vezes a mando dos líderes de facções criminosas presentes nas favelas da região. No dia 20, os comerciantes da Praça Saens Peña foram obrigados a paralisar suas atividades em luto forçado por traficante do Morro do Salgueiro morto pela PM. Dez dias antes, foi a vez das lojas da Muda e Usina, entre as ruas Medeiros Pássaro e Uruguai, baixarem suas portas por condolências a outro criminoso morto durante tiroteio com policiais no Morro da Formiga.

Assaltos, arrastões e balas perdidas também fizeram parte do cenário do bairro por pelo menos uma década. No entanto, para os tijucanos, a imprensa era injusta ao noticiar tais fatos de violência como peculiares unicamente à Tijuca, e não à cidade como um todo. Por muitos anos, ficamos estigmatizados como o único "bairro do perigo" na cidade - também chamavam-nos de "bairro decadente" - por culpa da opinião pública. Xexéo não ficou imune às críticas dos tijucanos, que, bairristas, trataram de defender seu torrão. Os depoimentos foram gentilmente publicados na coluna da semana seguinte:

[...] Acho que exagerei. Outro dia escrevi aqui que "ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficantes de um dos morros que cercam a Tijuca". As queixas não tardaram. "Desta vez você falou besteira. A despeito da barbárie que isso significa, aconteceu apenas uma vez", assinala Paulo Roberto Granja. 
"Nós, moradores deste bairro, não temos conhecimento de que uma vez por semana o comércio da Praça Saens Peña fecha. Só se é aos domingos! Fique sabendo que esta foi a primeira vez que isto aconteceu. De outra vez foi na Rua Conde de Bonfim, perto do Borel, e não em toda a Conde de Bonfim como pensa quem lê os jornais. Seria interessante que você viesse ao nosso bairro que é tão violento quanto qualquer outro do Rio ou de outras cidades do Brasil, mesmo acompanhado de seguranças para sua maior tranquilidade, para comprovar que as pessoas aqui levam uma vida normal, andam de ônibus, vão às lojas, aos shoppings e, logicamente, saem menos à noite como em todos os demais bairros. Parece que só aqui existe violência, mas leio diariamente notícias sobre assaltos e outros crimes em vários bairros como Botafogo, Barra, Recreio, Copacabana, embora a imprensa não dá o mesmo destaque", reclama Eugenia Szoor. 
"Como o senhor pode dizer uma coisa dessas? Só porque ouviu nas duas últimas semanas essa notícia, já condenou a Tijuca para o ano inteiro? O senhor sabe muito bem quais são os cariocas mais bairristas do Rio: os moradores da Ilha do Governador, os tijucanos e, apesar de tecnicamente não serem do Rio, os icaraienses. Então, como tijucano, solicito que esclareça em sua coluna que não foi bem isso o que queria dizer", exige Roberto Oliveira. Moral da história: com tijucano não se brinca. Portanto, não foi bem isso o que eu queria dizer.

XEXÉO, Artur. Os excluídos do cabelo duro. Como não dormir de touca e enfrentar tijucanos ofendidos. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 1 set. 2002.

Segundo Caderno, O Globo, 1o set. 2002.

Os e-mails e cartas não pararam, fazendo com que o assunto rendesse por mais de duas semanas. Xexéo reservou parte de sua coluna do dia 8 de setembro de 2002 para publicar, daquela vez, o relato de um tijucano que, diferentemente dos outros, ratificava a perspectiva levantada pelo jornalista no estopim da história. O título dessa coluna era sugestivo, "Entre tijucanos e insulanos", trazendo, ainda, comentários sobre o então recém-lançado filme "Cidade de Deus":

A Tijuca é mesmo uma caixinha de surpresas. Foi só eu voltar atrás e acabar admitindo que o bairro não é tão violento quanto pintam, para aparecerem os tijucanos que não acham nada disso, muito pelo contrário. Fala que eu te escuto, Reynaldo Tavares: 
"Desculpe-me abordá-lo com um tema já comentado, porém, como tijucano, com dois filhos no Colégio Marista São José, praticantes de esportes no Tijuca Tênis Clube e que estudam inglês também no bairro, quero dizer que não posso entender a posição de avestruz tomada por meus vizinhos e citada por você em sua coluna de domingo, pois tudo que você escreveu ainda é pouco para descrever o calvário em que vivemos no bairro. Quando dizem que a vida está normal pois continuam andando de ônibus, eu digo: e sendo assaltados! A Praça Saenz Peña é, sim, uma praça de guerra até o anoitecer, pois no acender das primeiras luzes é tomada por ambulantes agressivos e protegidos por algum tipo de poder paralelo, pois nada os assusta nem lhes causa respeito. Você não aumentou nada. O inferno é aqui e agora". 
Vocês são tijucanos, vocês que se entendam. Eu tô fora. No Bairro Peixoto. 
XEXÉO, Artur. Entre tijucanos e insulanos. Uma galinha no caminho da crítica a 'Cidade de Deus'. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 8 set. 2002.

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Opinião de O PASSEADOR TIJUCANO:

O que vou falar não é novidade para nenhum tijucano, mas apenas a confirmação - somos bairristas e contraditórios. Apesar da violência ter atingido toda a cidade, de 1990 a 2007 a Tijuca foi o bairro de classe média do Rio de Janeiro mais simbolicamente atingido pela falta de segurança pública. O depoimento da primeira leva de leitores reflete a principal faceta do tijucano, a de que só quem tem o direito de falar mal ou de se referir negativamente à Tijuca são seus próprios moradores. Todas as informações que, porventura, firam a imagem do bairro são atenuadas e contra-argumentadas por meio de suas palavras. Isso fica muito claro.

O leitor da última coluna, que corrobora com a perspectiva de Xexéo, aprofundando-a conforme sua experiência enquanto espectador (e participante) desse cenário, já representa o time dos bairristas "lúcidos". Observem que antes de dar o recado, Reynaldo Tavares enumera todas os hábitos que o legitimam como um "verdadeiro tijucano" para aí, sim, criticar aquele território onde está inserido e que o pertence.

De todas as formas, Xexéo estava certo: com tijucano não se brinca.

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Feliz 2016!

21 de dez. de 2015

Rua Conde de Bonfim: o coração da Tijuca

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

3 de dez. de 2015

"O Tijucano", por Aldir Blanc

Eis um clássico de Aldir Blanc que merece ser compartilhado com os leitores de O PASSEADOR TIJUCANO. A crônica "O Tijucano", escrita por ele nos anos 1970 e que faz parte da antologia Rua dos Artistas e arredores (Editora Codecri, 1979), é uma dessas exemplares literaturas que mais bem refletem o ethos tijucano. Coloco-a aqui como ilustração ao mini-doc inserido no final deste post, divulgado por Fabrício Gonçalves em sua página do Facebook, trazendo Blanc e Moacyr Luz em forma de entrevista no Bar da Dona Maria, na Muda (se não me engano). Além disso, o vídeo apresenta filmagens inéditas da Praça Saens Peña nos anos 1950 cuja narração é, em grande parte, a leitura desta crônica.

O Tijucano, por Aldir Blanc 
A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso. 
— Tu mora aonde? 
— Tijuca. 
O autor dessa resposta pode morar no Largo da Segunda-Feira, no Maracanã, no Andaraí, em Vila Isabel, em Aldeia Campista... digamos que entre o Estácio e o Grajaú tudo é Tijuca. 
Se vocês estão pensando que eu vou dizer “o Tijucano é um estado-de-espírito”, aqui ó! 
O Tijucano é um estado-de-sítio. 
Premido pelo sagrado horror da acusação de suburbano e sonhando, secretamente, com as mordomias ipanemenses, o Tijucano adota uma atitude blasé em relação a seu controvertido bairro. Acha a Tijuca “devagar, careta, meio-não-sei-como, sacou? ” 
Saquei, bestalhão. A Tijuca é exatamente isso: meio-não-sei-como. Uma amostra magnífica do nosso querido Brasil. 
O Tijucano não tem salvação. Pode fingir, fugir, mudar, inventar, mas será sempre tijucano. Mesmo que o corpo disfarce, a alma, como o criminoso, como o filho pródigo, voltará sempre à Tijuca.  
Nenhum morador, de nenhum bairro, padece tanto do tal conflito amor-ódio como o Tijucano. Ele fala mal dos bares da Tijuca, mas não sai deles. Detesta os cinemas do bairro, mas raramente vai a outros. Venera as tangas, desde que não seja na mulher dele. É progressista, desde que o progresso não o afete. Esmera-se em sua descontração. Vigia sua esportividade. Obstina-se em sua espontaneidade. Por trás da indiferença, com que trata o bairro, esconde-se o orgulho. O maldito orgulho de ser Tijucano. 
O Tijucano-Padrão é feito aquele amigo meu que pirou em plena Praça Saens Peña, tirou toda a roupa, subiu numa árvore e começou a gritar: 
— A Tijuca é uma merda! Tô farto disso aqui! Num guento mais a Tijuca! É uma merda! Uma verdadeira merda! 
Quando a ambulância chegou e meu amigo leu o que estava escrito nela, o escarcéu aumentou. Do alto da árvore, nu, mas em pose de senador, bravava: 
— Pro Pinel, jamais! Nós, Tijucanos, temos nosso próprio sanatório! 

BLANC, Aldir. Rua dos Artistas e arrredores. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1979. pp. 192-193.


Aldir Blanc e Moacyr Luz - o Rio profundo: Tijuca, zona de fronteira, Saudades da Guanabara, meio suburbano e meio...
Posted by Fabrício Gonçalves on Sábado, 28 de novembro de 2015

3 de out. de 2015

Tijuca anda de metrô, aprova e aplaude o Presidente: impressões do dia 27 de maio de 1982

Estação Saens Peña do metrô, em 1982: inauguração com euforia, festa e aplausos ao Presidente militar.

A euforia e a comoção tomaram conta da Tijuca no remoto dia 27 de maio de 1982, quando o metrô finalmente era inaugurado no bairro após sete anos de obras caóticas. Na época, o Jornal do Brasil fez uma cobertura completíssima contando em detalhes sobre a grande festa que se evidenciou no bairro naquela ocasião. O trecho Estácio-Tijuca, conformado pelas estações Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saens Peña, foi entregue durante a gestão do Governador Chagas Freitas e inaugurado pelo então Presidente João Batista Figueiredo, que veio direto de Brasília para a festa de abertura.

Na Praça Saenz Peña, foi instalado um palanque onde o Presidente, o último do regime militar, discursou emocionado sobre seus tempos de juventude na Tijuca. Embora criado em São Cristóvão, Figueiredo anunciou a todos ter sido aluno do Colégio Militar e frequentador do Cine América, tendo, inclusive, contraído matrimônio com uma tijucana, dona Dulce, falecida em 2011. O Jornal do Brasil publicou o discurso na íntegra, como vocês poderão ler mais abaixo. Na edição do O Globo do mesmo dia, conta-se que após a solenidade, o Presidente Figueiredo aproveitou a estada na Tijuca para visitar um antigo amigo de seu pai em sua residência na Rua Martins Pena.

Um dos pontos altos desta extensa reportagem se refere às impressões dos tijucanos a respeito da chegada do metrô. Reflexo, talvez, do conservadorismo tão peculiar impresso à figura dos moradores da Tijuca, os repórteres relatam que muitos preferiram tomar o ônibus naquela quinta-feira de outono alegando “insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que o metrô não funcionasse tão bem quanto se falava”. Já aqueles que experimentaram andar de metrô logo no seu primeiro dia de funcionamento na Tijuca, foram retratados pelo JB como pessoas nada cosmopolitas – vide o caso de uma mulher que, ao ouvir o apito que antecedia o fechamento das portas, soltou um berro, tropeçando ao entrar no trem e causando rebuliço.

O entusiasmo das “donas de casa” da Tijuca se misturou ao dos estudantes e de outros espectadores do evento, que entoaram gritos de “Mengo, Mengo” e também do America Football Club. A festa contou também com balões, gente trepada no telhado e nas marquises, a presença de toda a classe política da época e do Cardeal Eugênio Sales, que benzeu a estátua de São Francisco Xavier na estação homônima. Na Praça Saenz Peña, cartazes agradeciam pelo término das obras, enquanto os moradores do Andaraí, “sempre esquecido” (segundo a faixa produzida por eles), reivindicava a integração do bairro com o metrô. Enquanto isso, o Governador Chagas Freitas informava que após a conclusão do trecho Inhaúma-Pavuna, da Linha 2, o Estado começaria a pensar "concretamente" sobre a conexão da Tijuca com o Leblon através do anel metroviário.

No meio de toda essa confraternização, o Jornal do Brasil traçava o perfil de Chico Alencar, o jovem presidente da extinta Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra), destacando-o como líder promissor e muito querido na Tijuca. Chico, hoje deputado federal pelo PSOL, afirmava residir na Rua Henrique Fleiuss, e no momento de inauguração do metrô já havia lançado o livro “A História da Sociedade Brasileira” (Editora Ao Livro Técnico). Em depoimento aos repórteres do JB, na contramão do puxa-saquismo dos moradores diante das autoridades políticas presentes na Saenz Peña, Chico alegou que os operários do metrô estavam segregados do público e que deveriam ser mencionados como forma de agradecimento a eles pelo trabalho prestado.

Na estação de Botafogo, antigo terminal da Linha 1, o letreiro indicava a Praça Saenz Peña como destino.

Jornal do Brasil, pp. 4-5, 28/05/1982.
Tijuca anda de metrô e aprova
Por Bruno Thys, Gloria O. Castro, Luiz Fernando Gomes, Paula Motta, Samuel Wainer Filho e Sandra Chaves
- Você viu só? – queixou-se uma senhora bem vestida ao saltar na estação Saens-Peña ontem às 18h05m, voltando do Centro. “Tive de empurrar aquele homem que estava parado na porta, segurando em cima, como se estivesse no trem da Central”, dizia ela para uma amiga. Na hora do rush de volta da cidade, o metro não chegou à Tijuca superlotado. Teve movimento regular para o primeiro dia de operações, que começou às 14h30min.

- Muita gente não deve ter usado o metro com medo de que estivesse supercheio – disse Sueli Farias, tijucana “desde antes de o metro esburacar a Praça Saens-Peña”. Ela e sua colega de trabalho, Lola Henriques, tomaram o metrô na estação Presidente Vargas – trabalham no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, na Presidente Vargas – e voltaram para casa depois do expediente, economizando Cr$ 15. A passagem de ônibus é Cr$ 40, e a volta de metrô custou Cr$ 25.

A economia, porém, Lola acredita que vá diminuir com um possível aumento que ela teme que seja anunciado em breve: “As passagens devem aumentar sim, porque com essas novas estações funcionando, eles vão precisar de mais dinheiro”.

Manuel Eduardo da Silva, que trabalha na Rua México, nem pensou duas vezes para tomar o metrô na Cinelândia na volta à casa. “É bem mais rápido”, disse, “quando decidi voltar de metrô não levei em conta a economia que faria, e sim a comodidade do transporte mais eficiente”.

A comodidade, o conforto, a novidade de um meio de transporte que oferece velocidade, ar condicionado, pontualidade e que já cobre uma extensão que vai da Zona Sul (Botafogo) à Zona Norte (Tijuca) levaram muitas pessoas a utilizar o metrô.

Uma viagem de metrô da estação Botafogo à Saens-Peña demora, em média, 23 minutos. Quando não há paradas mais demoradas, a viagem pode durar 21 minutos, como a feita ontem, saindo às 17h45m de Botafogo e desembarcando na Saens-Peña às 18h06m.

O maior fluxo de passageiros continua sendo da cidade em direção à Estação da Central do Brasil, quando o trem quase se esvazia, permitindo às pessoas que seguem, encontrar lugares vagos nas poucas cadeiras.
Ônibus continua cheio porque o novo assusta

Três motivos principais levam as pessoas a enfrentar um ônibus lotado, tráfego e uma viagem de quase 1 hora, quando poderiam se utilizar do metrô: insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que não funcione tão bem quanto se fala.

Foram estas as razões principais dos viajantes no ônibus da linha 409 (Jardim Botânico-Praça Saenz Peña) que saiu às 18h do ponto próximo à estação do metrô de Botafogo e chegou ao seu ponto final na Praça Gabriel Soares, um pouco depois da estação da Saenz Peña, às 18h50min, com o número de passageiros habitual.

Justificativas

Muito sorridente, enormes brincos de ouro e unhas pintadas de vermelho. Maria Aparecida Gomes, de 37 anos, trabalha como manicure particular na Zona Sul e mora na Conde de Bonfim. Achando muita graça em suas próprias palavras, explica as razões de não ter usado o metrô:

- O Presidente inaugurou hoje né? Eu não peguei o trem porque não estou acostumada e não quero fazer feio. Um dia desses, quando eu não estiver muito apressada, vou dar um pulinho na estação só para ver como funciona. Com coisa nova eu não nego a minha raça. Faço como os matutos do interior. Primeiro dou uma sapeada e depois então eu uso como se andasse sempre.

A maioria dos passageiros não se deu conta de que a inauguração das estações da Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saenz Peña, havia sido ontem. A cobradora do ônibus, Eunice da Conceição Pinto, disse que o movimento se mantinha igual aos dias anteriores.
Alguns, como o auxiliar de filmes e da TV Globo, Antônio Luís Santos, não usam o metrô “por causa da baldeação”. Ele justifica sua opção pelo ônibus alegando que “é o mesmo preço do metrô e assim eu só pego duas conduções. Se eu usasse o trem teria de pegar três conduções”.

Falando com a autoridade “de quem conhece seu ofício”, a cobradora Eunice sentencia: “Depois que o povo se acostumar com o metrô eu vou ter menos trabalho”.

“Um benefício estupendo”

Dona Gioconda Prado Seixas, moradora da Praça da Bandeira, “em cima do Bemge”, assistiu à solenidade de inauguração do metrô na Tijuca; foi em casa almoçou; tomou banho; trocou de roupas e voltou a tempo de pegar o primeiro trem que saiu da estação Saenz Peña. D. Vera Adelaide, que afirmou ter gostado muito “da autobiografia do Presidente”, também fez a mesma coisa. José Gomes Soares, advogado, que mora na Rua Almirante Cochrane, ao contrário das duas senhoras que usaram o metrô para passear, tomou o primeiro trem para a cidade porque trabalha no Centro. A ida do metrô até a Tijuca foi considerada, por todos, “um benefício estupendo”, como disse José Gomes Soares.

O funcionamento comercial das estações Saenz Peña, São Francisco Xavier e Afonso Pena começou às 14h30min. Para impedir o acesso das pessoas antes do horário, foram colocadas cordas de nylon grossas. Funcionários do setor de Operação vigiavam para que ninguém ultrapassasse a barreira. Na hora da liberação, o aviso dos funcionários para que o povo tivesse calma, não corresse. Tudo correu sem problemas.

O primeiro susto

O grupo de garotos do Colégio Municipal Euclides de Figueiredo (em homenagem ao pai do Presidente João Figueiredo) formado por Roberto 11 anos, Rodrigo, 11, Carlos, 13, Marcelo Alves, 12, Marcelo Henriques, 14, Marcelo Siqueira, 11, e Marcelo Queirós, 11, teve um pouco de dificuldade para passar no torniquete (queriam passar todos ao mesmo tempo e o torniquete só gira para uma pessoa de cada vez). Estavam excitados com a primeira viagem que fariam sozinhos no metrô: “Estamos achando um barato”, afirmou Marcelo Siqueira.

O trem partiu. Quando parou na estação São Francisco Xavier, ouviu-se um grito apavorado de mulher. Muita gente correu para fora do trem. Funcionários surgiram. O trem ficou parado alguns minutos. Mas a mulher apenas se assustara com o apito que antecede o fechamento das portas e tropeçou ao entrar no trem, caindo já dentro do vagão. O trem seguiu viagem.

O primeiro dia de funcionamento do metrô na Tijuca teve até palhaço no trem. Se Sacode, que faz promoção de lojas comerciais e alegra festas infantis, aproveitou a primeira viagem para distribuir os folhetos da loja de roupas para bebês que está divulgando atualmente. “Fazer rir é coisa muito séria”, disse, “ser palhaço é muito triste”, completou.
Ligação com o Leblon será o próximo projeto

Até setembro, as linhas do pré-Metrô deverão chegar a Inhaúma e depois à Pavuna. A informação é do Governador Chagas Freitas, que anunciou:

- Aí, poderemos pensar concretamente na ligação Tijuca-Leblon, através da Rua Uruguai, passando pelo maciço da Tijuca.

O presidente do Metrô, Carlos Teóphilo, muito festejado pela mudança de filosofia de arquitetura das estações do Metrô – optou por acabamento simplificado, ao invés do imponente mármore das primeiras estações – informou que o último acesso da Rua General Roca será entregue no próximo mês.

Teóphilo afirmou que para a melhoria de conforto, no Metrô, faltam apenas alguns trens, que deverão começar a ser entregue em setembro. Isso evitará os constantes problemas de superlotação no transporte.

Tijuca recebe metrô com balões e gente nos telhados

Havia gente nas janelas, sobre os telhados e nas marquisas. Alguns com binóculos. Balões coloridos de gás subiram ao céu, libertos das mãos de colegiais que cercavam o palanque com bandeirolas verdes-amarelas. Uma banda tocou Pra Frente Brasil e o Presidente Figueiredo, emocionado, falou de improviso – fora do programa. Estava oficialmente inaugurado o trecho Estácio-Tijuca da linha 1 do metrô.

A festa contou com a presença de políticos do PDS e do PMDB, mas não foi reivindicada por nenhum Partido. “A festa é do povo”, repetiam os deputados, opinião compartilhada pelo Governador Chagas Freitas. Foram sete anos de espera e de muitos transtornos, que modificaram a vida dos moradores. Fato lembrado, com pedidos de desculpas, em todos os discursos. Terminada a solenidade, a nova Praça Saenz Peña voltou a ser dos velhos, crianças, babás, pipoqueiros. Como antigamente.

Expectativa

A Praça Afonso Pena – primeira etapa do programa oficial – desde cedo foi tomada por centenas de populares que disputavam, aos empurrões, o melhor lugar para ver e cumprimentar o Presidente. Um dos donos da festa e anfitrião, o presidente do metrô, Carlos Teóphilo, foi o primeiro a chegar. Na calçada, recebia os convidados e apresentava a praça reurbanizada com árvores e bancos de concreto.

O horário marcado – 9h30min – foi respeitado pela maioria, mas muitos preferiram chegar mais cedo. Foi o caso do Cardeal Eugenio Sales, do Governador Chagas Freitas (acompanhado de vários secretários), do ex-ministro Eliseu Resende e de seu sucessor no Ministério dos Transportes, Cloraldino Severo, do presidente da Caixa Econômica Federal, Gil Macieira, além das autoridades militares da região.

Enquanto aguardavam o Presidente Figueiredo, permaneceram conversando em pequenos grupos, principalmente sobre política partidária. A indefinição da candidatura do PDS ao Governo Estadual foi tema muito abordado. Uma das rodas mais animadas reunia o Governador Chagas Freitas, o presidente da FAMERJ, Jô Resende, e representantes da Associação de Moradores da Tijuca.

O clima foi quebrado pelo nervosismo e ansiedade dos seguranças da Presidência da República, que momentos antes da chegada de Figueiredo afastavam aos empurrões e gritos quem estivesse no caminho a ser percorrido pela comitiva.

O Presidente, ao contrário – sorridente, apesar de uma visível irritação nos olhos –, chegou cumprimentando a todos, e não se furtou a autografar qualquer papel que lhe fosse oferecido. Acompanhado dos Ministros Leitão de Abreu e Danilo Venturini, Figueiredo foi conduzido para o interior da estação, onde ouviu explicações técnicas de Carlos Teóphilo e descerrou uma placa comemorativa.

Uma composição com seis carros – prefixo 100 – levou todos para a estação São Francisco Xavier, onde chegou às 10h30min – um minuto depois do embarque. Em rápida cerimônia (menos de 5 minutos). D. Eugênio Sales benzeu a imagem de São Francisco que ficará exposta na plataforma da estação, onde foi descerrada outra placa. A sirene apitou, novo embarque. Dois minutos depois, a Praça Saenz Peña.

Festa

Houve a determinação, por parte da segurança, de que todos os convidados e a imprensa saíssem da composição antes da comitiva presidencial. Figueiredo permaneceu no trem, conversando animadamente com Adhir Veloso (Secretário Estadual de Transportes), o Governador Chagas Freitas e o Cardeal Eugênio Sales. Depois, saiu pela plataforma direita, apoiando-se no corrimão, ainda com cheiro de tinta fresca.

No palanque armado à saída da estação, um locutor, pomposamente, narrava cada passo do presidente. Houve ligeiro tumulto quando Figueiredo se aproximou dos populares, que queriam abraça-lo e tocar sua mão. Fazia calor, mas o Presidente trajava terno cinza com colete. Colegiais acenavam suas bandeirolas, enquanto moradores aplaudiam das janelas. Uma revoada de balões de gás marcou o início da solenidade.

O primeiro a discursar foi o Ministro Cloraldino Severo, que com sua voz fina e nervosa não conseguiu atrair a atenção dos presentes: enquanto falava, Figueiredo e Chagas conversavam e atendiam aos que se aproximavam. Foi um discurso longo, técnico e abrangendo outras realizações de sua área.

Depois, foi a vez do Governador do Estado. Chagas Freitas recebeu um princípio de vaia, no início do discurso formal, previamente redigido. Só quando resolveu partir para um improviso, agradecendo aos operários e técnicos do Metrô, e desculpando-se pelos transtornos causados pela obra, conseguiu reverter o clima do público, que, neste instante, passou a aplaudir intensamente.

O locutor anunciou o fim da solenidade, quando populares pediram uma palavra do Presidente que já se preparava para deixar o palanque. Foi um discurso de improviso, bem-humorado e com muita emoção. Figueiredo lembrou dos tempos em que viveu na Tijuca, conheceu Dona Dulce, e das sessões vespertinas do cinema América, quando “vinha buscar uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse”.

Foi muito aplaudido e só recebeu vaias quando reafirmou sua condição de tricolor – mesmo contra a vontade do sogro (americano) e da família predominantemente americana. Não chegou a falar no Flamengo, apesar dos gritos “Mengo, Mengo”, vindos do povo. Eram 11h quando Figueiredo saiu em direção à Gávea Pequena.

Figueiredo recorda infância na Tijuca

“Caros tijucanos. Voltar ou estar no Rio de Janeiro, minha terra natal, terra natal de meu pai e de quatro de meus irmãos. Terra onde iniciei minha meninice no bairro de São Cristóvão. E onde a Tijuca me acolheu aos 12 anos, no Colégio Militar, e me protegeu, até 1963, quando o meu pai morreu e deixou de vir à Praça Saens Peña (...). Cada vez que venho ao Rio recordo as passagens da minha meninice, da minha juventude e de meus dois primeiros filhos. Agradeço a Deus, que veio me fazer também carioca.

Ao voltar à Tijuca, são tantas as recordações, sempre boas, da torcida que fazia contra o América, time da minha família. O América que me deu a minha mulher. Que sempre perdia para o Fluminense, que acabou vencendo o meu coração. Recordo também dos passeios pelas praças Afonso Pena e Saens Peña, das batalhas de confete nas ruas do bairro, das peladas de futebol contra o time do Salgueiro. E como era difícil ganhar deles. E das festas juninas, em cada casa, para festejar meu santo padroeiro, São João.

Confesso que ao desembarcar na Praça Afonso Pena e vir até a Saens Peña, passando em São Francisco Xavier (onde o trem maria-fumaça me deixava aos sábados, vindo de Realengo, para poder ver meus pais, meus irmãos e minha namorada), senti a emoção do menino de 18 anos. Senti o calor da torcida do América, reclamando da minha condição de tricolor, e a voz do meu sogro pedindo para que, se eu casasse com a filha dele, eu passasse para o América. E, ao mesmo tempo, a voz do meu pai, para ser Vasco.

São tantas as recordações que tive e tal foi o carinho com que o povo me recebeu, que insisto em não pensar nos dias de amargura que tive ao acompanhar os trabalhos do metrô ao longo de todos estes anos, que tantos sofrimentos trouxeram à gente do bairro. Anos morosos, porque não dispunha o Governo de recursos que possibilitassem um prazo mais curto para esta obra interminável.

A minha palavra, portanto, hoje, para todos vocês, são dois muito obrigado: o primeiro, pela compreensão por estes anos de sofrimento e de rebuliços que o metrô foi obrigado a causar a vocês. O segundo obrigado, pela recepção carinhosa que me deram, fazendo-me voltar novamente aos meus tempos de aluno do Colégio Militar, em eu vinha buscar nas sessões vespertinas do Cine América uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse. Muito obrigado”.


Praça virou festa e comércio deu brinde

Um brinde para cada cliente em qualquer compra. Só hoje, dia 27. Inauguração do metrô. O cartaz, à porta da Drogaria Venâncio, garantia um vidro de modelador de cabelos aos fregueses e retratava o espírito de festa que invadiu a Praça Saenz Peña já nas primeiras horas da manhã. O metrô contribuiu, espalhando bandeiras brancas, bolas coloridas e um imenso balão que anunciava a chegada do transporte subterrâneo e as transformações sofridas pela Saenz Peña.

Foi um dia fora do normal. Até pouco antes da chegada do Presidente, garis e operários davam os últimos retoques no calçamento de pedras portuguesas. Para entregar a estação na hora marcada, os trabalhos viraram a madrugada, mas houve uma recompensa. Segundo o operário Francisco das Chagas, servente de 24 anos, “é bom a gente ver uma coisa feita pela gente, pronta, e inaugurada pelo Presidente”.

Faixas, havia muitas. “Bem-vindo Presidente Figueiredo”, “Os Tijucanos agradecem ao Governador Chagas Freitas” e “Andaraí sempre esquecido reivindicou integração” – um protesto, quase isolado, pela não inclusão do bairro nas linhas de integração. Apesar do rígido esquema de segurança, muita gente conseguiu furar o bloqueio imposto pelos guardas e se aproximar do palanque.

Muitos seguravam bandeirolas também nas janelas dos prédios onde boa parte dos tijucanos assistiu a cerimônia de inauguração do metrô. Nas ruas, os guardas de trânsito, condescendentes, permitiam tráfego na contramão e até mesmo estacionamento em áreas não permitidas.

Em um canto próximo ao palanque, um grupo de alunos e professores da Associação dos Pais e Amigos de Excepcionais (APAE) comparecia para exigir do Presidente Figueiredo o cumprimento da promessa feita na inauguração da Caixa Econômica Federal para ajudar nas despesas de Cr$ 10 milhões (gasto mensal da entidade). Portavam cartazes em que diziam que Excepcional também é brasileiro e cobravam: O Metrô veio de Botafogo para a Tijuca: e a nossa verba?

Durante a solenidade, além da carta com o pedido da APAE, Figueiredo recebeu outros documentos das associações de moradores e da menina Manoela Pinho de Azevedo Souza, que pediu pela proteção da natureza. Manoela, 12 anos, demonstrou bastante organização: levou várias cópias xerox para distribuir à imprensa. Já Maria da Glória Mendes, 58anos, entregou uma carta que preferiu não divulgar. Chorando muito, disse que era assunto particular. “Essa é a quinta vez que faço isso. E ainda não fui atendida”.

“Chico” usa terno escuro

Um dos personagens mais festejados, ontem, foi o presidente da Amoapra (Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña), Francisco Alencar. Por onde passava, era cumprimentado e abraçado pelos moradores do bairro, que agradeciam a luta da associação em favor da transformação dos terrenos remanescentes do Metrô em áreas de lazer. “Fomos a população que mais sofreu com as obras, durante sete anos” – respondia Chico Alencar, como é conhecido.

Foi a primeira vez em que a Federação das Associações de Moradores recebeu convite para uma solenidade oficial de inauguração. Segundo Jô Resende, “é um reconhecimento ao trabalho que desenvolvemos e que hoje representa uma grande parcela de esforço da população no sentido de conquistar soluções para as nossas próprias necessidades”. Apenas a Amoapra conta com cerca de 100 mil pessoas na sua área de atuação.

Francisco de Alencar – vestido com um terno escuro, pouco comum às lideranças de bairro, “mas imposto pelas necessidades” – lembrou que um abaixo-assinado foi entregue há algum tempo ao Governo do Estado, no sentido de uma rápida conclusão das obras do metrô, com a devolução dos terrenos à comunidade.

- Foi uma vitória do povo, sobretudo pelo direito que adquirimos de acompanhar o destino de nossas áreas de lazer. Em São Paulo, por exemplo, isto não foi feito e os terrenos acabaram vendidos.

Chico lembrou ainda que a reurbanização da praça Saens Peña foi uma vitória dos moradores que a reconquistaram como queriam, modificando o projeto original, “uma forma muito árida, semelhante ao calçadão da Cinelândia”. Por sugestão da Amoapra, foram, ao contrário, plantadas mais árvores, colocados bancos com encosto e o lago foi reconstruído.

- Entretanto, a comunidade vai continuar fiscalizando para que tudo funcione bem – concluiu.

Em uma carta aberta ao Presidente Figueiredo, a FAMERJ e 12 associações de moradores afirmaram que “essa inauguração compensa em parte os seis anos de transtornos e a descaracterização urbana dos bairros, mas não elimina os graves problemas da condução coletiva do Grande Rio, já que a linha 1 serve apenas a uma população que não tem tantas dificuldades quanto a de outras regiões mais carentes”.

E acrescenta ainda a carta que “a maior transformação vivida pela Tijuca não está no progresso material que o metrô traz, nem na piora da qualidade de vida, mas num fato novo, positivo e que vai aos poucos, como semente, fecundando toda a sociedade: as associações de bairro que necessitam ser ouvidas para o progresso e desenvolvimento do país”, concluiu.

Embora aparente menos de 25 anos, Francisco de Alencar Filho – O Chico, presidente da Associação de Moradores da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra) – tem 32 anos de vida e de Tijuca, sempre na mesma rua, Henrique Fleiuss. Profissionalmente é tão bem sucedido quanto na presidência de sua associação: é professor da rede pública e particular (colégios São Vicente de Paulo, Santo Inácio e Eliezer Stemberg) e autor do livro A História da Sociedade Brasileira, com Marcus Vinícius e Lucia Carpi, que desde o lançamento em 79 já vendeu mais de 80 mil exemplares. Casado com Ângela, professora de Português, é pai de Emanuel, de seis meses.

Ontem foi um dia muito especial na vida do tijucano e historiador Chico de Alencar, que “acordou” para a participação comunitária em 1966, com a juventude estudantil católica. “Enquanto o palanque estava lotadíssimo de autoridades, no outro extremo da praça os operários assistiam a tudo em cima dos respiradouros. Eles também deveriam ser mencionados”. Neste momento, o historiador é mais forte e ele recorda a abertura de seu livro: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis...” (Bertold Brecht).

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