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27 de mar. de 2016

Rua Pinheiro da Cunha & Rua Cotingo

Panorama da Rua Pinheiro da Cunha: arborização e edifícios baixos, como o simpático Jardelina, no número 62, à direita.

Com desenho análogo ao de uma cauda felina, a Rua Pinheiro da Cunha fica na Usina e é transversal à Conde de Bonfim, na altura do Hospital Venerável da Ordem Terceira da Penitência (atual São Francisco). Dali, sobe uma pequena ladeirinha hoje tomada por simpáticos edifícios baixos e se encurva, onde logo adiante faz esquina com outra rua – a Cotingo, esta sim basicamente formada por casarões. Dali, metros depois se encurva novamente para erguer-se de modo linearmente tortuoso rumo à montanha. Seu final é uma cul-de-sac encravado no Maciço, em que eu e nem mesmo o Google Street View chegamos até lá. O dia estava tão abafado que preferi ficar por ali mesmo, na parte baixa, cujo circuito já dava uma boa amostra do perfil décadence avec élégance da região.

A Usina tem uma das paisagens naturais mais bonitas da Tijuca e de todo o Rio de Janeiro. Não à toa, a arquitetura local soube aproveitar essa estética ao estilo dos prédios e casas, notoriamente aburguesado e nada contemporâneo. O Edifício Geribatu, logo na esquina com a Conde de Bonfim, por exemplo, reproduz o requinte monumental dos prédios de Copacabana dos anos 1950. O gradeamento opressivo das janelas e a falta de conservação da fachada são compensados, por outro lado, pela portaria livre de cercados. Seu acesso se dá diretamente da rua, sem intermediários, tal qual em tempos remotos. Belo e maltratado, o Geribatu é um deleite para os amantes das ruas e de sua arquitetura.

Edifício Geribatu, na esquina de Conde de Bonfim: elegância de tempos passados.
Rua em "curva", cujo desenho forma uma espécie de cauda felina

Vista lateral do Edifício Jardelina, um dos mais bonitos da Pinheiro da Cunha.

Chalé suíço geminado

De mais a mais, a vegetação opulenta do entorno faz da Rua Pinheiro da Cunha uma pequena floresta. Tanto ali como na Rua Cotingo é fácil encantar-se com bananeiras, paus-brasis, ervas-de-passarinho, além de plantas ornamentais e de flores rosas, amarelas e lilases. Canteiros de diferentes tamanhos também ocupam as calçadas, adornando-as mutuamente com a beleza dos edifícios subsequentes. Chamo a atenção para o Edifício Jardelina, no número 62, que é de um mimo inexplicável. Este, aliás, é um dos raros exemplos de edifícios “clássicos” no bairro em que pouco de seus traços foi mudado. O muro baixo, além de charmoso, é sinônimo de alívio: remete-nos à sensação de estarmos livre das claustrofobias urbanas. Ali, vive-se à moda antiga e tradicional, adjetivos mais do que apropriados para a Usina.

No encontro da Pinheiro da Cunha com a Rua Cotingo, um belo casarão descortina o sombreado corredor de prédios instalado anteriormente. Segundo uma amiga que reside logo ali, na “curva”, o imóvel ficou por muitas décadas tomado por um denso matagal. Em função disto, os traços elegantes da casa escondiam-se sob a mata, hoje desvelados aos olhos do pequeno público que transita pela via. A pompa toda, decadente – diga-se de passagem –, refere-se à Tijuca da época dos solares habitados por uma classe aristocrata e influente. Sem mencionar o cenário de fundo, que reforça ainda mais o fascínio causado pelas montanhas às antigas famílias abastadas: é dali de onde são avistados mais de perto ainda os picos da Tijuca e do Papagaio.


Casario elegante na esquina da Pinheiro da Cunha com Contigo: marcas do tempo
Sinalização da Rua Pinheiro da Cunha


Panorama das espécies arbóreas da Rua Cotingo

Estilo dos casarões: linhas clássicas, amplitude, centro de terreno e quintal. 


Rua Cotingo: os "picos" ao fundo
Para além da arborização e da arquitetura, as disputas políticas também estão presentes na Rua Pinheiro da Cunha. Enquanto no adorável chalé suíço hasteia-se a bandeira vermelha referente ao Partido dos Trabalhadores, mais adiante, o posicionamento é outro. Uma divertida caricatura da presidente Dilma Rousseff riscada pelo símbolo de proibição foi pregada junto à entrada da garagem de outra aprazível residência.

Já na Rua Cotingo, as disputas ocorriam entre as aves – pelo menos no momento em que eu por ali passeava. Gaiolas nas janelas, beija-flores libertos. É sinfônico este mundo dos pássaros, permeado por assobios que ecoam por todos os cantos, de diferentes timbres. A tais melodias misturavam-se as do rádio de pilha, um pouco abafadas pelo contato estreito deste com a orelha de certo transeunte. O ruído das motocicletas a mil pela Conde de Bonfim também foi incorporado à composição. Eis o produto musical da conjunção entre a urbe e a natureza.

O estilo clássico da Rua Cotingo é marcado também por certo ar de abandono. As casas amplas e confortáveis pararam dignamente no tempo, mas sem o esmero do jardim bem cuidado ou dos cercados ainda à tinta fresca. A Rua Cotingo cheira à domingo, de manhã preguiçosa em rede de dormir e de almoço em família. Tem aspecto de rua de avó ao estilo Dona Benta, que serve bolinho de chuva com café no final da tarde aos filhos, sogras e genros, netos e netas. Estes se despedem e regressam às suas casas, longe dali ou até mesmo perto, mas certamente em ruas mais modernas. A Rua Cotingo é adorável, mas nostálgica. É levemente melancólica e romântica ao mesmo tempo – igualzinha à Tijuca. Por isto nosso amor.

21 de dez. de 2015

Rua Conde de Bonfim: o coração da Tijuca

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

23 de fev. de 2015

A versão tijucana de I LOVE NY em arte urbana, por Felipe Madeira

O designer Felipe Madeira, graduando em Desenho Industrial (UFRJ), é o autor da obra que
 ressalta, em forma de arte, a devoção dos tijucanos pelo seu bairro

O pedestre atento que circula pela Tijuca já deve ter reparado que, em questão de arte urbana, o bairro é uma verdadeira galeria a céu aberto. Recentemente, o que mais tem chamado a atenção nesta categoria em ruas como a Barão de Mesquita e a Professor Gabizo é a releitura tijucana do emblemático logotipo americano I LOVE NY (I ♥ NY), criação do designer gráfico Milton Glaser nos anos 1970 como parte de uma campanha para difundir o turismo na Big Apple nos anos de 1970. O símbolo, que tornou-se referência mundial e hoje serve de inspiração para diversas outras obras de arte, anúncios publicitários, estampas etc., chegou à Tijuca como I LOVE TJK (I ♥ TJK) em formato de lambe, uma espécie de pôster que vem ganhando cada vez mais espaço no rol da arte urbana carioca.

Um dos exemplares do I ♥ TJK, na Barão de Mesquita
Idealizador da ilustração, feita de jornal e stencil, o designer tijucano Felipe Madeira, de 22 anos, conta que desenvolveu esta ideia a princípio para estampar uma camisa, mas que acabou decidindo por usar a técnica do lambe quando participou de um workshop com o coletivo paulista SHN. O encontro rendeu-lhe não só um know-how, mas também a paixão por esta técnica que vem norteando sua trajetória artística. 

Sobre a arte, em primeiro lugar, cabe destacar que TJK é a abreviatura "internética" para Tijuca, muito difundida nos bate-papos de mensagens instantâneas durante os anos 2000. Daí a adaptação do NY para TJK, correlação igualmente pop ao NY e tributo de Felipe, nascido no Hospital da Ordem Terceira e ex-aluno do Colégio Pedro II, ao bairro onde reside:

— Quis fazer uma brincadeira com a "marra" tijucana, mas acabei percebendo que me apropriei de um ícone tão forte, que trazia consigo um contexto tão poderoso, que acabou caindo como uma luva para o espírito tijucano. Acredito que seja de fácil identificação e compreensão para os demais bairros, afinal, quem não conhece o "I ♥ NY"? – aponta ele.


A versão original, marca registrada de Milton Glaser: inspiração mundial.
Felipe na ativa em região próxima ao Hospital Oscar Clark, no Maracanã,
junto ao mosaico de Elisa Pessoa, sua parceira "de rua"

Reprodução: Instagram.
Felipe explica que seus pôsteres, conhecidos em inglês como wheat-paste posters, são pregados com uma cola especial à base de farinha com água e soda cáustica (prática, segundo ele, mas nociva à saúde se não tomar os devidos cuidados) e que, embora não tenha uma parceria direta na produção dos seus lambes, não dispensa a companhia de amigos na hora de sair pelas ruas:

— Não saio para colar sem amigos, são eles quem me dão ânimo de sair à rua depois de um dia de estudo e trabalho. Geralmente, meus lambes são vistos perto dos da Elisa Pessoa, também tijucana, estudante de design gráfico, que tem um trabalho muito interessante fazendo praticamente um mosaico de estampas feitas por ela. É tudo artesanal, bem manual.

Embora o I ♥ TJK seja uma de suas obras mais especiais, Felipe argumenta que não pretende se limitar à Tijuca como área de colagem, pois "se sentiria enjoado em ver a Tijuca infestada de I ♥ TJK's", atestando que produzir materiais novos é uma de suas necessidades pessoais enquanto artista. Além disso, alega que sua obra, além de prática e barata, dialoga diretamente com outras técnicas artísticas que, vez ou outra, se sobrepõem ao seu trabalho, como os adesivos (stickers).

Numa das imagens enviadas a O passeador tijucano, Felipe exemplifica esta interação entre o lambe e o sticker: ao invés do simbólico coração vermelho, surgiu o adesivo de um coração literal, ou seja, em sua versão biológica. Segundo o próprio, a arte de rua está a exposta a um tipo de efemeridade que proporciona tais interações e ressignificações constantes que, se por um lado, pode ser interpretado como vandalismo, por outro, é uma resposta positiva ao trabalho apresentado, capaz de mobilizar um diálogo direto com seus interlocutores.

Felipe, além de artista propagador do espírito tijucano pelas ruas do bairro, é graduando em Desenho Industrial com foco em Projeto de Produto na UFRJ e também estagia numa empresa focada em visual merchandising em Laranjeiras. Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, ele o expõe neste site (https://www.behance.net/felipemadeira) e no seu Instagram (https://instagram.com/felipe__madeira/).

Saudações tijucanas, Felipe!

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20 de out. de 2014

Avenida Heitor Beltrão (3): o perímetro da decadência

O antigo imóvel da Casa de Cultura Lima Barreto: abandonado desde 2007 na Rua Conselheiro Zenha

Vista como um sinônimo de modernidade e de progresso no seu momento de abertura, a Avenida Heitor Beltrão trouxe impactos negativos a longo prazo à região da Tijuca onde se localiza. Em primeiro lugar, a via jamais recebeu qualquer empreendimento imobiliário que desse algum tipo de feição residencial a seu cenário. Em segundo lugar, como uma consequência da primeira razão, a Avenida Heitor Beltrão, portanto, nunca foi capaz de atrair muitos pedestres para as suas calçadas; pelo contrário: seu aspecto exclusivamente rodoviarista acabou por repeli-los, mesmo com a presença ali do Teatro Municipal Ziembinski, de um centro cultural - fechado em 2007 - e de pequenos parques em suas margens.

Não à toa, o Zimba - como é carinhosamente conhecido o Teatro Ziembinski - foi apropriado pela Prefeitura em 1992. Ao longo dos anos, o número de vezes de fechamento e reabertura do local por falta de verba ou de problemas com infraestrutura é incontável. De todo modo, o Zimba segue lá, na Rua Urbano Duarte junto à Heitor Beltrão, com uma programação não muito badalada, mas ultimamente contínua. Em contrapartida, o Centro Cultural Lima Barreto fechou suas portas por volta do ano de 2007 e hoje seu antigo espaço jaz na esquina da Rua Conselheiro Zenha. Sem dúvidas, uma grande perda para a Tijuca.

Sinalização de 2013 já depredada em 2014
A hipótese de que a Avenida Heitor Beltrão seja uma avenida fracassada também se confirma com a sua mais recente intervenção pública: a implantação de um corredor do Bus Rapid System (BRS). Inaugurado no segundo semestre de 2013, o BRS conferiu à avenida nova sinalização e novos pontos de ônibus que foram rapidamente vandalizados. O Ciep Samuel Wainer, por sua vez, é um outro caso de abandono: mesmo sendo um sucesso em termos escolares, suas dependências físicas são precárias e feias, especialmente o anexo formado pela quadra poliesportiva. 

Em suma, a Heitor Beltrão continuou sendo, desde a sua inauguração, uma avenida de grandes vazios urbanos. As praças construídas nesses locais - demanda, essa, da própria associação de moradores nos anos 1980 - não foram capazes de angariar um público cativo e, na atualidade, são comumente frequentados por usuários de drogas e/ou por cachorros encoleirados. No entanto, a ação de grafiteiros nas muralhas da Heitor Beltrão tem contribuído para melhorar a sua paisagem, assim como o evento de arte urbana Wallpeople, que vem procurando reocupar a Praça Paulo Emílio da Costa pelo menos uma vez por ano com encontros e troca de arte colaborativa.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão: via pouco amigável aos pedestres.

Muralha na Rua Almirante Cochrane: extinto posto de gasolina em frente ao Walmart.

O anexo do Ciep Samuel Wainer que dá forma à quadra poliesportiva: gradil depredado e
risco de assaltos no entorno.

O problema é que o "feitiço maldito" da Avenida Heitor Beltrão não se circunscreve apenas aos seus limites: as ruas vizinhas também foram atingidas pelo impacto negativo da avenida fantasma. Na Rua Pareto, por exemplo, os indícios de decadência são gritantes. Na esquina com a Conde de Bonfim, um antigo casario permanece fechado - e praticamente caindo aos pedaços - após o encerramento das atividades de uma lanchonete no início dos anos 2000. Em outras épocas, abrigava a Sorveteria Molinaro. Já o extinto Colégio MV1 Pareto foi desmembrado em duas partes, onde uma delas tornou-se um prédio inexplicavelmente atroz. A ideia é que ali funcionasse uma loja de nome "Ti Ti Ti", voltada mais ao perfil popular, mas que acabou não saindo do papel. Hoje, trata-se de um imóvel abandonado que, não raramente, é invadido por moradores de rua.

Na Rua Almirante Cochrane, os efeitos são ainda mais perversos. De um lado, um prédio elegante junto à Pedra da Babilônia não dialoga mais em estética com o seu entorno, reconstruído mediocremente em virtude das demolições do metrô. Paredes pichadas estão por todas as partes, assim como um posto de gasolina abandonado na esquina de Visconde de Figueiredo. Em frente, um grande elefante branco, o prédio do antigo Walmart, que está se degradando continuamente graças à deserção repentina de seus proprietários e, é claro, à ação do tempo (em março de 2016, foi inaugurado o Supermercado Guanabara no local). Panorama similar é o da Rua Marquês de Valença, no seu cruzamento com a Rua Pereira de Siqueira: o prenúncio de declínio econômico é muito evidente.

Imóvel centenário na Pareto com Conde de Bonfim à espera de revitalização

Ainda na Rua Pareto, imóvel desmembrado ao antigo Colégio MV1 , não raro, é ocupado por
sem-tetos e usuários de droga

A falta de êxito na ambiência urbana da Avenida Heitor Beltrão, especificamente, se deve ao fato de que os terrenos baldios ali existentes ainda são de propriedade do governo estadual. A privatização do metrô nos anos 1990 não consistiu na entrega desses terrenos ao Metrô Rio, companhia que administra o transporte metroviário atualmente. Entretanto, em 2010 o governo estadual deu início a uma série de leilões de antigas áreas remanescentes do metrô na Zona Sul e na Tijuca. O objetivo era angariar verba para cobrir os gastos da expansão metroviária para a Barra via Linha Quatro.

Ao que tudo indica, não houve tantos interessados na Tijuca, mas em Botafogo está sendo evidenciado um fator positivo nesse processo. O resgate de um quarteirão entre as ruas Voluntários da Pátria e São Clemente, no coração do bairro, permitiu a construção de uma nova rua acompanhada de empreendimentos residenciais e comerciais que alavancaram o dinamismo econômico e de pedestres da área. O quarteirão, por sua vez, foi contemplado por uma bela praça e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ambos elementos públicos muito bem utilizados pela comunidade e visitantes locais.

Talvez fosse essa a solução para a Heitor Beltrão: uma conjugação mais expressiva de usos, funcionalidades e serviços. Em outras palavras, continuamos à espera de um futuro melhor para essa avenida.

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