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17 de jun. de 2017

Rua Dulce, Rua General Marcelino & Rua Professor Lafayette Côrtes

Praça Babilônia, no entroncamento da Rua Dulce e Rua General Marcelino

A Tijuca é reconhecidamente um bairro urbano e caótico, mas que tem o privilégio de ainda resguardar verdadeiros oásis. Quem costuma passar pela Rua Almirante Cochrane e está pouco familiarizado com a cartografia da região, por exemplo, dificilmente poderia imaginar que bem ali se descortina um desses paraísos. O palpite duvidoso se deve à imagem meio esquisita que se tem do acesso para a Rua Dulce, pouco antes do atual Supermercado Guanabara (extinto Walmart). Isto porque se trata de uma rua com cara de viela malcuidada e meio sombria o portal de entrada para uma espécie de cidadela à parte, charmosa e muito, mas muito bucólica.

Esse pequeno paraíso de que lhes falo compreende as ruas Dulce, General Marcelino e Professor Lafayette Côrtes, incrustadas nos fundos do Colégio Militar e coladas à belíssima Pedra da Babilônia. A proximidade desta grande rocha com as residências que loteiam a vizinhança faz deste cantinho da Tijuca uma espécie de Urca na Zona Norte. Principalmente porque toda a arquitetura dali inspira o glamour decadente dos anos dourados que também perfila as edificações daquele bairro da Zona Sul. Os prédios de pouco pavimentos sem elevadores e os muros baixinhos das casas resistem como se os tempos ainda fossem outros. Tudo cheira à vida, temperada por uma explícita ambiência familiar que tanto particulariza as ruas residenciais da Tijuca.

Para começar, só há uma entrada e uma saída: a primeira se dá pela Almirante Cochrane e a última pela Rua São Francisco Xavier. Logo, quem entra pelo sentido do tráfego de veículos, após o trecho horripilante de aproximadamente 100 metros confrontado por duas grandes fachadas inativas, depara com a primeira surpresa: a Praça Babilônia. Inaugurada nos anos 1980 com dinheiro arrecadado em festas juninas realizadas pelos próprios moradores, a Praça Babilônia se situa no entroncamento das ruas Dulce e General Marcelino. Bem conservada, cumpre a missão de ser o ponto de encontro para a diversão de toda a molecada que reside na vizinhança. Mas, há quem também aproveite os bancos para tomar um pouco de sol, com vista indevassável para a Pedra da Babilônia, “xará” da praça.

Rua General Marcelino, esquina de Dulce.

Muros baixos caracterizam a Rua Dulce

Uma amostra do estilo dos imóveis à Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua General Marcelino: um belíssimo edifício com detalhes em verde-chá.

A Rua Dulce é sem saída e combina tanto edifícios de três a quatro pavimentos como algumas poucas casas no lado par da via. Placas e adesivos de “vende” e “aluga-se” fixados às janelas são bastante recorrentes na Rua Dulce, enquanto na Rua General Marcelino a disputa por um imóvel parece ser mais concorrida. Há quem diga na vizinhança que os apartamentos por ali, principalmente na Rua Professor Lafayette Côrtes, chegam a pertencer a uma mesma família por gerações. O clima de tranquilidade que impera no local associado ao estilo antiguinho e aburguesado das edificações pode aparentemente ser um fator de permanência. Mesmo com a violência – assaltos e ações criminosas certamente não devem passar longe desse oásis –, ruas como estas continuam valorizadas na Tijuca e em toda a cidade do Rio de Janeiro.

RESIDÊNCIAS TOMBADAS E O EDIFÍCIO CIBRASIL

É de pouco conhecimento público, mesmo entre os tijucanos mais fervorosos, que no encontro da Rua Professor Lafayette Côrtes com a Rua General Marcelino se situa uma das mais joias raras arquitetônicas desta cidade: O Edifício Cibrasil, localizado no número 156 daquela. Apelidado de “Castelinho”, é um daqueles prédios de deixar qualquer um babando pela beleza, garbo e imponência. A fusão entre um estilo neoclássico e outro eclético impresso à edificação remete aos anos de 1940, mas segundo dados do livro "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), ele só foi finalizado mesmo na década de 1950. Foi, portanto, um dos primeiros prédios da Rua General Marcelino, aberta por decreto de 11 de setembro de 1947 quando ainda era um imenso matagal.

Os "bigodes bem penteados" do Edifício Cibrasil, vulgo Castelinho

O Edifício Cibrasil dispensaria descrições se não fosse a missão de O PASSEADOR TIJUCANO apresentar e reapresentá-lo a todo o público leitor deste blog que se interessa pela Tijuca, sua história e evolução urbana. Neste sentido, é interessante destacar que não apenas o Edifício Cibrasil – vulgo “Castelinho” –, mas todos os outros edifícios existentes nessas ruas representam um marco importante da evolução social da Tijuca. O estilo aburguesado dos imóveis, tal como qualifiquei algumas linhas acima, alude a um período de transição lenta e gradual em que a Tijuca vinha modificando seu perfil social mais dominante.

O intervalo que vai de 1930-1950 é bastante característico da fase em que a Tijuca consolida sua imagem vinculada ao imaginário de uma classe média abastada para um bairro fora da orla. O capital simbólico dos tempos aristocráticos, entretanto, se perpetuou nos hábitos e nos padrões de moradia dessa então novata classe social, que procurava reeditar um estilo de vida inspirado na Tijuca “chique” dos tempos da nobreza imperial. E o Edifício Cibrasil é uma prova, no presente, de como estes gostos foram moldados e materializados na arquitetura dali. Segundo informação de uma moradora do prédio, o edifício foi levantado por um próspero construtor para moradia própria, revendendo os outros apartamentos como retorno do investimento. Na Rua General Marcelino, foram erguidos outros dois edifícios pelo mesmo dono e nomeados de Cibrasil II (49) e Cibrasil III (61). Contudo, não são tão bonitos quanto o original.

Os azulejos em sintonia com arabescos: toque lusitano à Tijuca (2013).

O hall de entrada do Edifício Cibrasil: detalhe do corrimão.

É difícil não se embasbacar com a beleza do Cibrasil. A entrada é ornamentada por um portão elegante, de ferro, com detalhes dourados que lembram o formato de bigodes bem penteados. Essa parte da entrada se assemelha a uma torre, com arabescos na fachada sobre o portão, além de um vitral que se estende até o seu topo. Os espaços dentro dos arabescos são preenchidos por azulejos floridos, dando um aspecto bem lusitano ao conjunto. Para completar, lá em cima, no telhado circular, resplandece um galo moldado em chapa de ferro com bico apontado para o céu, como se estivesse cantando ao amanhecer.

Tanto por dentro como por fora, predominam tons de um matiz acinzentado, meio pálido, que atenuam o impacto visual das pequenas descaracterizações aplicadas à fachada – como, por exemplo, a colocação de grades e aparelhos de ar condicionado. Fazendo jus ao charme que lhe é indiscutivelmente peculiar, o sóbrio hall de entrada do Cibrasil possui um quadro estampando uma fotografia do prédio e escadas cujo corrimão é todo trabalhado em formas que remetem aos próprios arabescos da fachada.

O Edifício Cibrasil é preservado graças ao decreto de número 12.864, de 29 de abril de 1994, que instituiu a região como Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC) do entorno do Colégio Militar. Esse decreto também tombou a Pedra da Babilônia e preservou alguns outros imóveis, protegendo o ambiente urbano tanto dali como de ruas situadas no outro "lado" da Pedra, a exemplo das ruas Pareto e Deputado Soares Filho.

Panorama da Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua Professor Lafayette Côrtes 89: preservado pelo decreto da APAC do Colégio Militar.

Pedra da Babilônia e a Rua General Marcelino

Rua Professor Lafayette Côrtes (2011)

Rua General Marcelino (2011)


Imóveis preservados pelo Decreto número 12.864, de 29 de abril de 1994:

Rua Dulce
Lado ímpar: 175, 191, 207, 225, 243
Lado par: 40, 70, 128, 138

Rua Professor Lafayette Côrtes
Lado ímpar: 89, 105, 127, 155, 181, 241, 271
Lado par: 34, 46, 58, 70, 84, 98, 100, 120, 134, 156


RELATOS DE MORADORES: A MEMÓRIA AFETIVA DE QUEM VIVEU O ESPAÇO

Esta não é a primeira vez que escrevo sobre este conjunto de ruas na Tijuca. A primeira vez foi em 2011, quando ainda publicava textos no blog AS RUAS DO RIO, que, mesmo inativo, ainda está disponível para leitura no website da revista Veja Rio. Na segunda ocasião, já para O PASSEADOR TIJUCANO, comentei sobre o inusitado fato de o Edifício Cibrasil ter sido reproduzido em um croqui no livro “A Alma do Rio”, de Cynthia Howlett, lançado no final de 2013. Nesse ínterim, muitos foram os e-mails e comentários que recebi com depoimentos públicos sobre as memórias da vizinhança. Selecionei alguns deles:

Tive a felicidade de, em 1980, conhecer três rapazes que moravam na Lafayette Côrtes e eu morando em São José dos Campos. Em 1981 fui parar na Tijuca de tanto que eu fui passear nas casas deles e adorava aquele bairro! Eles moravam num prédio, o de número 127, construído pelo avô de um deles, que tem a imagem de Santo Ivo, feita com azulejos portugueses logo na entrada do prédio, que tem quatro andares e não tem elevador. Ai, ai, ai... voltei lá esse ano e a idade pesou dessa vez! (risos). 
Um dos meninos ainda mora lá, com os pais, a esposa e a filha, todos no mesmo apartamento, uma coisa bem peculiar desde aquela época, quando os jovens, mesmo já tendo seu emprego, seu estudo, não saíam da casa dos pais. E mesmo depois de tantos anos, muitos parentes dos meus amigos ainda moram naquele prédio, como o filho de uma amiga, o irmão do outro etc. O apartamento é da família, não foi vendido e foi passado para a geração futura, sem se preocupar em fazer reformas, mudar a "cara" do prédio (aliás, todos estão iguaizinhos desde quando estive lá pela última vez!). 
Não tínhamos problemas com segurança, íamos para as noitadas e voltávamos de madrugada, sem a preocupação de encontrar alguma surpresa pelo caminho ou em casa. Tinha festa junina na rua, onde todos os moradores colaboravam com algum acepipe, tinha quadrilha e até cadeia, além do correio elegante, é claro! Mesmo sendo adolescentes, gostávamos desse convívio com os vizinhos, que conhecíamos todos pelo nome, nos cumprimentávamos na rua. Bom, você sabe que a Tijuca é o único bairro que tem a sua naturalidade, ou seja, o carioca que nasceu na Tijuca não é apenas carioca... ele é tijucano!

Joana Darc de Oliveira, 11 out. 2013 (por e-mail)

Caro Pedro Paulo, 
Morei na Lafayette por mais de três décadas e ainda tenho relação com aquele recôncavo até hoje, pois minha mãe e muitos amigos ainda moram lá. 
Seu pedido, ao mesmo tempo que é fácil, também é difícil de retratar face à enorme quantidade de histórias e das particularidades que vivemos naquele período. Só para você ter uma ideia, éramos mais de 150 jovens convivendo diariamente e de quatro gerações diferentes. Imagine o que não há para se dizer de tudo isso. 
Naquele pedaço tinha campeonato de futebol, de jogo de botão, de futebol totó, festa junina (considerada por muitos a melhor da Tijuca!), jogo de cartas, xadrez, taco, vôlei e o que mais você possa imaginar.
Antonio Jorge Faria, 11 out. 2013 (por e-mail)

Nasci e fui criada na Rua Dulce, onde morei até os 13 anos, quando mudei para MG. Minha família ainda possui o apartamento no fim da rua e todo ano vou visitar. Quando entro no beco da Rua Dulce, meu coração até dispara, muitas lembranças boas. Valeu pela reportagem, inclusive li comentários de amigos da infância tão feliz!!!
Maria Inez Pedrosa Machado, 24 nov. 2015 (seção de comentários – AS RUAS DO RIO)

30 de mai. de 2015

Sinalização estilo wayfinding chega à Tijuca

Sinalização turística estilo wayfinding na Pareto com Heitor Beltrão: orientação geográfica ao pedestre.

A Tijuca não é lá um bairro turístico, mas está ganhando sinalização de tal gênero. O projeto de wayfinding, elaborado pela Secretaria Especial de Turismo desta cidade, consiste na implantação de totens bilíngues que orientem o pedestre sobre serviços e pontos turísticos locais, além de mapas dos arredores e a estimativa em minutos do tempo de caminhada entre um ponto e outro.

Aqui no bairro, esses totens estão sendo colocados em vias de grande movimento, sobretudo aquelas no eixo do metrô ou em ruas que se conectem facilmente com o estádio do Maracanã. O painel que ilustra esta publicação está situado no cruzamento da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Pareto, um pouco antes de chegar à Praça Saenz Peña. Em uma breve caminhada pela região, descobri outros totens já instalados na Almirante Cochrane com Conde de Bonfim e na Major Ávila com Barão de Mesquita.

Esse projeto, ja implantado parcialmente na Zona Sul, é executado pelo Consórcio Rio Inteligente, ganhador da licitação, que atua em parceria com outras empresas de design e engenharia. O layout escolhido segue o padrão internacional e tem grande semelhança com projetos de wayfinding de cidades como Londres, Nova York, Cleveland e Brighton, no Reino Unido. Até o fim do ano, a Prefeitura pretende instalar cerca de 500 painéis desses tanto na Zona Sul, como no Centro, na Barra e na Tijuca/Maracanã.

2 de mai. de 2015

Nas calçadas tijucanas, os resquícios das pedras portuguesas

O chão original da Conde de Bonfim: pedras portuguesas entre a Saenz Peña e a Haddock Lobo.

Tidas como símbolo maior do calçadão da praia de Copacabana, assim como marco do urbanismo de praças e calçadas do século XX, as pedras portuguesas estão ganhando cada vez menos espaço nas áreas públicas da cidade. Seja pelo alto custo de manutenção, seja pelos supostos riscos que comprometem a mobilidade do pedestre, essa belíssima herança lusitana ainda encanta e suspira os cariocas que têm o privilégio de tê-las em seus bairros ou ruas de estimação.

Aqui na Tijuca, as pedras portuguesas estão por todas as partes, mas de forma descontínua. Uma caminhada atenta pelo bairro permite observar como as vias principais da Tijuca dispunham de desenhos próprios de pedras portuguesas, alterados e/ou fragmentados na medida em que intervenções urbanísticas foram sendo realizadas sem que a concepção original das calçadas fosse preservada. O mesmo vale para as construções aparentemente ilegais de prédios e muros que não respeitaram o alinhamento primário das calçadas, criando, desta maneira, curvas e interrupções no passeio.


Na Muda, o mesmo chão de pedras portuguesas foi preservado na esquina da Conde de Bonfim
com Rua Mário de Alencar:

Uma primeira evidência de que a Rua Conde de Bonfim detinha um desenho particular de pedras portuguesas em toda sua extensão pode ser comprovada nos trechos em que o Rio Cidade não interveio. Em 1995, o programa de remodelação estética do ex prefeito César Maia trouxe uma nova identidade urbanística para o trecho da Conde de Bonfim entre a Praça Saens Peña e a Rua Uruguai, substituindo todo o piso da praça e das calçadas por placas de cimento.

O piso original da região da Saenz Peña, antes do Rio Cidade 1995: rua Doutor Pereira dos Santos.

Assim, o piso original aplicado à Conde de Bonfim, que lembra o formato de losangos acompanhados por linhas pretas, se manteve apenas na região da Muda e da Usina e entre a Rua Pareto e o Largo da Segunda-Feira, estendendo-se também para a Rua Haddock Lobo. Além disso, ruas adjacentes a essas vias também eram contempladas pelo piso; até hoje, um passeio pelas ruas Carlos Vasconcelos, Moura Brito, Marechal Trompowsky, Canuto Saraiva, entre outras, deixa à mostra o resquício desse desenho.

No entanto, vale lembrar que o modelo do piso da Praça Saens Peña era diferente do da Rua Conde de Bonfim. Na praça, o chão também tinha um desenho geométrico, mas com um desenho que lembra “pontas”. Os resquícios desse piso podem ser vistos apenas no trecho da Rua Doutor Pereira dos Santos próximo à sua esquina com Rua General Roca; ali, aparentemente, o Rio Cidade não chegou a intervir, o que se por um lado é motivo de contentamento para os nostálgicos, por outro deixa provas de como tais obras nem sempre prezaram a qualidade no seu acabamento.

Na Avenida Maracanã, o piso segue a mesma linha que aquela aplicada ao calçadão de Ipanema.

Na Rua Barão de Mesquita, as pedras portuguesas seguem o mesmo padrão que o da Rua São
Francisco Xavier, mas de maneira precária; veja o mal estado de conservação.

Além da Conde de Bonfim, vias como a Avenida Maracanã e as ruas Almirante Cochrane, São Francisco Xavier e Rua Barão de Mesquita também mantêm até hoje, em muitos dos seus trechos, resquícios não só de pedras portuguesas, mas de todo o projeto particular aplicado a cada um desses logradouros. No canteiro central da Avenida Maracanã, em especial no trecho entre a São Francisco Xavier e a Praça Lamartine Babo, o desenho de pedras portuguesas é idêntico àquele implementado no calçadão da praia de Ipanema. A própria Praça Varnhagen detinha esse piso até pouco tempo atrás, quando foi interditada para a construção de um reservatório subterrâneo. Seguramente, as pedras portuguesas não serão devolvidas – vide o caso da Praça da Bandeira.

O chão de flores da Rua Almirante Cochrane, nas imediações da Rua Marquês de Valença.

As ruas Barão de Mesquita e São Francisco Xavier, por sua vez, também fizeram parte de um mesmo projeto conceitual de piso. Tal qual o caso da Conde de Bonfim, esse conjunto de ruas – que também abarca as vias transversais – passou por uma série de descaracterizações, supostamente com o advento dos edifícios residenciais na Tijuca durante os anos 1970. Panorama similar é o da Rua Almirante Cochrane – seu chão de pedras apresenta um desenho que lembra flores – que foi parcialmente destruída entre 1976 e 1982 para a construção do metrô no bairro.

20 de out. de 2014

Avenida Heitor Beltrão (3): o perímetro da decadência

O antigo imóvel da Casa de Cultura Lima Barreto: abandonado desde 2007 na Rua Conselheiro Zenha

Vista como um sinônimo de modernidade e de progresso no seu momento de abertura, a Avenida Heitor Beltrão trouxe impactos negativos a longo prazo à região da Tijuca onde se localiza. Em primeiro lugar, a via jamais recebeu qualquer empreendimento imobiliário que desse algum tipo de feição residencial a seu cenário. Em segundo lugar, como uma consequência da primeira razão, a Avenida Heitor Beltrão, portanto, nunca foi capaz de atrair muitos pedestres para as suas calçadas; pelo contrário: seu aspecto exclusivamente rodoviarista acabou por repeli-los, mesmo com a presença ali do Teatro Municipal Ziembinski, de um centro cultural - fechado em 2007 - e de pequenos parques em suas margens.

Não à toa, o Zimba - como é carinhosamente conhecido o Teatro Ziembinski - foi apropriado pela Prefeitura em 1992. Ao longo dos anos, o número de vezes de fechamento e reabertura do local por falta de verba ou de problemas com infraestrutura é incontável. De todo modo, o Zimba segue lá, na Rua Urbano Duarte junto à Heitor Beltrão, com uma programação não muito badalada, mas ultimamente contínua. Em contrapartida, o Centro Cultural Lima Barreto fechou suas portas por volta do ano de 2007 e hoje seu antigo espaço jaz na esquina da Rua Conselheiro Zenha. Sem dúvidas, uma grande perda para a Tijuca.

Sinalização de 2013 já depredada em 2014
A hipótese de que a Avenida Heitor Beltrão seja uma avenida fracassada também se confirma com a sua mais recente intervenção pública: a implantação de um corredor do Bus Rapid System (BRS). Inaugurado no segundo semestre de 2013, o BRS conferiu à avenida nova sinalização e novos pontos de ônibus que foram rapidamente vandalizados. O Ciep Samuel Wainer, por sua vez, é um outro caso de abandono: mesmo sendo um sucesso em termos escolares, suas dependências físicas são precárias e feias, especialmente o anexo formado pela quadra poliesportiva. 

Em suma, a Heitor Beltrão continuou sendo, desde a sua inauguração, uma avenida de grandes vazios urbanos. As praças construídas nesses locais - demanda, essa, da própria associação de moradores nos anos 1980 - não foram capazes de angariar um público cativo e, na atualidade, são comumente frequentados por usuários de drogas e/ou por cachorros encoleirados. No entanto, a ação de grafiteiros nas muralhas da Heitor Beltrão tem contribuído para melhorar a sua paisagem, assim como o evento de arte urbana Wallpeople, que vem procurando reocupar a Praça Paulo Emílio da Costa pelo menos uma vez por ano com encontros e troca de arte colaborativa.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão: via pouco amigável aos pedestres.

Muralha na Rua Almirante Cochrane: extinto posto de gasolina em frente ao Walmart.

O anexo do Ciep Samuel Wainer que dá forma à quadra poliesportiva: gradil depredado e
risco de assaltos no entorno.

O problema é que o "feitiço maldito" da Avenida Heitor Beltrão não se circunscreve apenas aos seus limites: as ruas vizinhas também foram atingidas pelo impacto negativo da avenida fantasma. Na Rua Pareto, por exemplo, os indícios de decadência são gritantes. Na esquina com a Conde de Bonfim, um antigo casario permanece fechado - e praticamente caindo aos pedaços - após o encerramento das atividades de uma lanchonete no início dos anos 2000. Em outras épocas, abrigava a Sorveteria Molinaro. Já o extinto Colégio MV1 Pareto foi desmembrado em duas partes, onde uma delas tornou-se um prédio inexplicavelmente atroz. A ideia é que ali funcionasse uma loja de nome "Ti Ti Ti", voltada mais ao perfil popular, mas que acabou não saindo do papel. Hoje, trata-se de um imóvel abandonado que, não raramente, é invadido por moradores de rua.

Na Rua Almirante Cochrane, os efeitos são ainda mais perversos. De um lado, um prédio elegante junto à Pedra da Babilônia não dialoga mais em estética com o seu entorno, reconstruído mediocremente em virtude das demolições do metrô. Paredes pichadas estão por todas as partes, assim como um posto de gasolina abandonado na esquina de Visconde de Figueiredo. Em frente, um grande elefante branco, o prédio do antigo Walmart, que está se degradando continuamente graças à deserção repentina de seus proprietários e, é claro, à ação do tempo (em março de 2016, foi inaugurado o Supermercado Guanabara no local). Panorama similar é o da Rua Marquês de Valença, no seu cruzamento com a Rua Pereira de Siqueira: o prenúncio de declínio econômico é muito evidente.

Imóvel centenário na Pareto com Conde de Bonfim à espera de revitalização

Ainda na Rua Pareto, imóvel desmembrado ao antigo Colégio MV1 , não raro, é ocupado por
sem-tetos e usuários de droga

A falta de êxito na ambiência urbana da Avenida Heitor Beltrão, especificamente, se deve ao fato de que os terrenos baldios ali existentes ainda são de propriedade do governo estadual. A privatização do metrô nos anos 1990 não consistiu na entrega desses terrenos ao Metrô Rio, companhia que administra o transporte metroviário atualmente. Entretanto, em 2010 o governo estadual deu início a uma série de leilões de antigas áreas remanescentes do metrô na Zona Sul e na Tijuca. O objetivo era angariar verba para cobrir os gastos da expansão metroviária para a Barra via Linha Quatro.

Ao que tudo indica, não houve tantos interessados na Tijuca, mas em Botafogo está sendo evidenciado um fator positivo nesse processo. O resgate de um quarteirão entre as ruas Voluntários da Pátria e São Clemente, no coração do bairro, permitiu a construção de uma nova rua acompanhada de empreendimentos residenciais e comerciais que alavancaram o dinamismo econômico e de pedestres da área. O quarteirão, por sua vez, foi contemplado por uma bela praça e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ambos elementos públicos muito bem utilizados pela comunidade e visitantes locais.

Talvez fosse essa a solução para a Heitor Beltrão: uma conjugação mais expressiva de usos, funcionalidades e serviços. Em outras palavras, continuamos à espera de um futuro melhor para essa avenida.

8 de mar. de 2014

Tributo tijucano ao Almirante Cochrane

Monumento ao Lord Cochrane situado no Largo Atumã, entre as ruas Santo Afonso e Almirante Cochrane

Centenas de veículos passam diariamente pelo Largo Atumã, uma bifurcação na Rua Almirante Cochrane que direciona o motorista tanto para a Praça Saens Peña como para a Rua Santo Afonso, rua contígua ao largo. Como bom passeador - e, sobretudo, pedestre -, eu diria que esse é um dos trechos mais caóticos da Tijuca hoje em dia. O espaço é pouco humanizado (não há árvores nem sombras, tampouco faixas de travessia), sem mencionar a desordem urbana em torno das kombis que fazem uso do Largo Atumã como embarque e desembarque de passageiros.

Por outro lado, poucos sabem que é nesse, hoje, desvalorizado Largo Atumã onde se encontra um dos muitos bustos e monumentos pouco célebres da Tijuca: o tributo ao Sir. Thomas Alexander Cochrane, o Almirante Cochrane, militar inglês que prestou muitos serviços à Marinha Imperial brasileira. Também conhecido como o Conde de Dundonald e Marquês do Maranhão, o lorde contribuiu expressivamente com o movimento de independência no norte do país.

O monumento foi feito através de uma base retangular de pedra cujo centro abriga uma placa de bronze circular, muito similar a uma moeda, com o desenho do almirante e os dizeres "Lord Cochrane". Logo abaixo da "moeda", outra placa informativa acerca da figura ilustre, que, como foi citado anteriormente, também dá nome à rua onde se situa o Largo Atumã.

Uma curiosidade é que esse tributo foi inaugurado em julho de 1970 pelo então governador Negrão de Lima durante a "Semana da Tijuca", um evento promovido por diversas associações tijucanas, como a ACIT e os clubes, objetivando o enaltecimento do bairro da Tijuca através de descontos nas lojas da região, concertos e concursos musicais no Tijuca Tênis Clube, desfiles de moda na tradicional Socila Tijuca (que ainda existe ali na Rua Padre Elias Gorayeb) e encontro de autoridades da época com tijucanos. Num desses encontros, um grupo de mães protestava contra o fato de que a Escola Municipal Laudímia Trota, na Rua Antônio Basílio, seria transformada em uma espécie de "centro experimental", o que possivelmente confrontaria o método tradicional de ensino ao qual seus filhos estavam acostumados.

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