Mostrando postagens com marcador Comércio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Comércio. Mostrar todas as postagens

22 de jun. de 2017

Letreiros antigos que resistem no comércio de rua da Tijuca

Memória afetiva para uns, abandono para outros. Na Tijuca, muitos letreiros antigos ainda povoam as fachadas do nosso comércio de rua. Alguns deles já se tornaram de estimação tamanha a simpatia (inconsciente) aos quais muitos tijucanos lhes têm. Para identificar o quão antigo pode ser um desses letreiros, há pistas certeiras: é só observar o estilo das letras que destacam o nome do empreendimento, o material utilizado, o modo como é apresentado o número de telefone, o tipo de iluminação. Número de fax, então, já é redenção na certa. Outros se entregam pelo simples anúncio do gênero de serviço prestado: videolocadoras, minutas e vitaminas, calçados e bolsas para senhoras.

O PASSEADOR TIJUCANO recorreu as principais ruas e procurou listar oito letreiros antigos e emblemáticos do nosso bairro. Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.


1. AO TRANSISTOR DA TIJUCA (Rua São Francisco Xavier 2, Loja E)


Rua São Francisco Xavier 2, Loja E, Largo da Segunda-Feira 


"Ao Transistor da Tijuca" é uma das tantas lojas de material elétrico e utilidades do gênero que existem no bairro. O letreiro antigo já é quase patrimônio gráfico do Largo da Segunda-Feira, onde se situa. Observem que o prefixo do telefone só apresenta três dígitos, dando uma amostra do seu longo tempo de existência. Vale destacar que, no Rio, todos os números de telefonia fixa passaram a ter prefixo de quatro dígitos no dia 30 de junho de 2001, há 16 anos.


2. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO STA. CAROLINA (Rua Santa Carolina 8)


Rua Santa Carolina 8, Usina

Outro gênero comercial bastante comum aqui na Tijuca é o varejo especializado em materiais de construção. São bazares à moda de outrora, bem diferentes das grandes cadeias como Leroy Merlin ou Casa Show. Na Usina, temos a loja "Materiais de Construção Sta. Carolina", localizada na rua homônima. O letreiro, coitadinho, mal conserva suas letras. Mesmo assim, ainda se pode identificar o derradeiro slogan: "Tudo Para Construção e Pinturas".


3. GURILANDIA LANCHES (Rua Conde de Bonfim 670)

Rua Conde de Bonfim 670, entre Uruguai e Dona Delfina 

Quem se lembra dos tempos em que ir à Disney também podia ser sinônimo de ir à Disneylândia? No caso da Tijuca, o sufixo "lândia", que cheira à naftalina de tão démodé, é utilizado para designar o território da gurizada na Rua Conde de Bonfim 670. Ou melhor: a "Gurilandia Lanches", sem circunflexo. O letreiro do estabelecimento não deixa mentir a idade: ele oferece (ou oferecia) refeições à minuta, pizzas e vitaminas. Em tempos de hambúrguer gourmetizado, o que são mesmo minutas e vitaminas?! De todo modo, eis mais um patrimônio gráfico do nosso bairro!


4. REQUINTE (Rua Conde de Bonfim 668, Loja B)

Rua Conde de Bonfim 668, Loja B, entre Uruguai e Dona Delfina

Nas vizinhanças da "Gurilandia Lanches", jaz o letreiro da antiga boutique "Requinte", no número 668 da Rua Conde de Bonfim. A loja é dos tempos em que se vendia produtos exclusivos para "senhoras", tais como calçados e bolsas. Diferentemente dos demais estabelecimentos listados aqui, a "Requinte" encerrou suas atividades já há um bom tempo (algum leitor sabe quando?), e o melhor - está fechada com portas pantográficas! Mais vintage, impossível. Nossa Tijuca é tradicional até quando não quer.


5. BRASEIRO (Rua Haddock Lobo 123A)

Rua Haddock Lobo 123, Loja A, próximo à Avenida Paulo de Frontin (Fonte: Google)

Oficialmente conhecida por "O Braseiro Armarinho Limitada", a Braseiro Modas - como é comumente chamada - está fincada na Rua Haddock Lobo desde 1966, já nas bandas do Rio Comprido. Segundo o tijucano Felipe Torreira, do blog Pileque, "as roupas estão expostas em cristaleiras muito bonitas, bem altas, pois o pé-direito da casa deve ter seus seis metros. Camisetas furadinhas, camisas sociais, camisolas, meias sociais, calçolas, cintos elegantes e moda íntima em geral enchem as estantes e mostruários". Tim Maia, o cantor, foi freguês em outras épocas. Inveterado letreiro!


6. ELETRÔNICA ROBRUM (Rua José Higino 290)

Rua José Higino 290

Já se foram os tempos em que hordas de tijucanos consumiam ad nauseam as incontáveis videolocadoras existentes no bairro. Com o fim dos cinemas na Praça Saenz Peña, alugar VHS e DVDs tornou-se uma das poucas opções culturais por aqui. Agora, em tempos digitais, as videolocadoras ficam só na saudade ou impressa nos letreiros, como neste da "Eletrônica Robrum", situada à Rua José Higino 290. A placa também entrega a idade pelo anúncio do número de telefone com prefixo de três dígitos e do número de fax. E os pontinhos luminosos que circundam a moldura? Dignos de cenário dos programas da Xuxa, nos anos 1980.


7. BAZAR CASCATA (Rua Conde de Bonfim 927, Loja D)

Rua Conde de Bonfim 927, Loja D, Muda 

Na esquina da Rua da Cascata, o "Bazar Cascata" faz parte da turma de lojas de ferragens, material elétrico e conserto de eletrodomésticos tão comuns na Tijuca. Após a remoção do tradicional letreiro de "O Queijeiro da Muda", arriscaria dizer ser este um dos mais emblemáticos atualmente deste pedacinho da Tijuca.


8. HOTEL TIJUCA (Rua Pareto 63)

Rua Pareto, 63, arredores da Praça Saenz Peña

O "Hotel Tijuca" dispensa apresentações: é um dos mais famosos motéis do tipo custo-benefício do bairro, muito embora ainda há quem encare o "Paretão" como um hotel - pelo menos, na página do Trip Advisor, onde se tecem críticas sobre o serviço prestado. O prédio chega a ser risível de feio, mas o seu letreiro continue firme e forte na paisagem aérea dos arredores da Praça Saenz Peña justo no seu trecho mais decadente, a Rua Pareto. A placa emana ares de far west movie, mas é um desses letreiros que eu estimo sem saber o porquê.

-----------

Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.

14 de out. de 2016

A Confeitaria Tijuca

Revista da Semana, 1944.
Os Srs. Batista Godinho & Cia, apresentando aos cariocas e à elite tijucana em particular, as luxuosas e moderníssimas instalações da nova CONFEITARIA TIJUCA - Sorveteria e Casa de Chá - vêm corresponder a uma antiga aspiração dos moradores da Tijuca. Em suntuoso edifício, especialmente construído para esse fim, a Confeitaria Tijuca, dotada de ar condicionado e mobiliário confortabilíssimo, será o ponto predileto para as tradicionais reuniões da elegância da fina sociedade tijucana. 

Para além dos cinemas, os anos dourados da Praça Saenz Peña foram marcados por uma série de estabelecimentos comercias simbólicos que ainda povoam o imaginário que se faz a respeito do bairro. Um dos locais mais lembrados é a Confeitaria Tijuca, da qual, particularmente, se tem pouca informação. Inaugurada em 1943 no número 352 da Rua Conde de Bonfim – na exata localização da atual filial das Lojas Americanas –, a Confeitaria Tijuca foi um marco importante na história da Tijuca como bairro de “gente bem”.


Equiparada à sofisticada Confeitaria Colombo, da Rua Gonçalves Dias – no Centro – por oferecer “serviço completo para banquetes” ao som de uma “orquestra permanente”, a Confeitaria Tijuca foi batizada como “o novo arranha-céu da Praça Saenz Peña”, em anúncio publicado no Jornal O Globo de 21 de janeiro daquele ano. Neste mesmo anúncio, é notório o prestígio do tributo oferecido às firmas que participaram na construção do imóvel: “triunfam a inteligência, a operosidade e a técnica”, apontam os anunciantes sobre a qualidade oferecida pelos senhores L. Mello & Irmão, responsáveis pela instalação da maquinaria de refrigeração elétrica, fazendo da Confeitaria Tijuca um dos locais pioneiros no Rio de Janeiro, fora do Centro, em receber tal tecnologia.

Jornal O Globo, 21 de jan. 1943: veja o anúncio em alta resolução.


Empreitada do sr. Batista Godinho & Cia, dos quais não se tem maiores informações do que esta, a Confeitaria Tijuca tinha como propósito substancializar o grand monde carioca num espaço singular que refletisse o bom gosto dos moradores do “aristocrático bairro” da Tijuca na forma de um “ambiente de requintado conforto”. Decorado inteiramente em estilo marajoara, desde a iluminação dos letreiros em neon às “cadeiras confortáveis” de metal, passando pelas faces polidas e brilhantes dos espelhos (que “reúnem todo o encanto das coisas belas e grandiosas”), a Confeitaria Tijuca se outorgava o título de “A maior organisação da América do Sul” (sic) em serviços de chá, sorvetes, almoços, lanches e jantares.

Em outro anúncio publicado na Revista da Semana, de 1944, e reproduzido no livro “História de Bairros – Tijuca” (João Fortes Engenharia/Index Editora, 1984), vê-se a ilustração do que seriam os interiores da Confeitaria Tijuca: um amplíssimo salão de chá repleto de casais jovens e elegantes servidos por garçons em fraque com gravata borboleta. Do alto do salão, um camarote encena o maestro coordenando sua orquestra. Não há registros de quando a Confeitaria Tijuca encerrou suas atividades, mas a ostentação de seus anúncios e os elogios dispensados aos moradores do bairro não deixam dúvidas sobre a origem do tal orgulho tijucano que permanece vivo até os dias de hoje pelas ruas de todo o bairro. Marcas de um passado “dourado” que se perpetuam nos gostos e nos discursos de muitos conterrâneos.

21 de set. de 2016

A história da Praça Saenz Peña: a formação do primeiro subcentro de elite carioca

Vista aérea da Praça Saenz Peña, em 1940: primeiro subcentro carioca.
Fonte: "O Rio visto pelo alto", de Patrícia Pamplona - encontrado em Alberto de Sampaio.

A declaração é objetiva, clara e com embasamento científico: a Praça Saenz Peña é o primeiro subcentro a surgir no Rio de Janeiro, e o segundo a emergir no Brasil (o primeiro foi o do Brás, em São Paulo). Mais do que isso, a Praça Saenz Peña é o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares. Tais afirmações são do arquiteto e urbanista Flávio Villaça, professor da Universidade de São Paulo (USP), autor do clássico livro Espaço intra-urbano no Brasil (Studio Nobel/FAPESP, 1998). Nesta obra, Villaça discute como se deu a produção do espaço urbano em seis metrópoles brasileiras, mostrando as “forças” capitalistas existentes por trás do mar de prédios, casas, praças, lojas, serviços, funções e usos da solo que faz parte do nosso cotidiano.

Espaço intra-urbano no Brasil (1998)
Neste livro, Villaça dedica importantes considerações à Tijuca por ser um dos bairros cuja urbanização é das mais antigas do Rio e, também, por ter sido um bairro pioneiro de “elites” na cidade. Inclusive, são as referências desse passado nobre – e, portanto, visto como digno de status – o tempero que rege muito dos discursos sobre o “orgulho tijucano”. Além disso, a memória afetiva é também um elemento crucial da representação da Tijuca no imaginário coletivo, especialmente quando falamos da Praça Saenz Peña. Muitos textos, livros e artigos se referem à praça como um lugar de cinemas e glamour nos anos ditos “dourados”, mas sem elucidar as razões sociais, políticas e econômicas que ascenderam a Saenz Peña em lugar com este perfil.

É este aspecto que pretendo dissertar nesta série de publicações sobre a formação, a evolução e a decadência simbólica da Praça Saenz Peña como subcentro de “ricos”, a começar por agora.

-------


Para Villaça, o subcentro é uma aglomeração diversificada e equilibrada de comércio e serviços. Ele é uma réplica em tamanho menor do centro principal – no caso do Rio de Janeiro, o nosso Centro –, “com o qual concorre em parte sem, entretanto, a ele se igualar”. O subcentro apresenta esses requisitos de comércios e serviços para apenas uma parte da cidade, enquanto o centro principal é referência para toda a metrópole. Os primeiros subcentros cariocas surgiram nos anos 1930 em bairros caracterizados, de modo predominante, pela função residencial. Com o desenvolvimento do subcentro, o cenário de bairros como o da Tijuca, de Copacabana, do Méier e de Madureira foi sendo transformado consoante a chegada de lojas comerciais, consultórios, bancos, cinemas, com o objetivo de atender à população residente/visitante no local e nas proximidades. Segundo Villaça, a partir de tais serviços, esses bairros passaram a representar um papel complementar de “centro de atividades”, tornando-se referência como polos terciários de importância local.

Neste sentido, cabe constatar que a formação dos subcentros também esteve muito associada ao desenvolvimento e à consolidação da expansão urbana da cidade em determinados pontos da Zona Sul e da Zona Norte. Isto porque, até meados do século XX, o Centro era o único local de serviços – lugar, por excelência, para onde se deslocava o grosso da população quando precisava resolver pendências ou realizar determinadas compras. A expressão carioca “ir à cidade”, como sinônimo de ir ao Centro, reflete consideravelmente essa posição do local como antiga zona de convergência, mostrando, retoricamente, a condição predominantemente residencial dos bairros fora dali.

Praça Saenz Peña, em 1960

Entretanto, Flávio Villaça pontua duas questões importantes sobre a apropriação do espaço do Centro e a respeito da produção dos subcentros. A primeira delas é que, na primeira metade do século XX, o Centro era um local majoritariamente ocupado pelas classes de alta renda, tanto para fins de trabalho como de lazer. Como justificativa a essa informação, basta recordarmos a Reforma Pereira Passos, realizada na década de 1910. Como todos sabemos, a Reforma não se tratou de uma intervenção urbanística voltada para abrigar as atividades e lazeres das classes populares no Centro. Muito pelo contrário; os pobres, em seus cortiços, foram expulsos de lá para os subúrbios, justamente porque as elites reivindicaram aquele espaço como de exclusividade delas.

Logo, o centro principal sempre foi, por vocação, um lugar construído pelas elites para as elites, abrindo brechas para a circulação da população mais desfavorecida a partir do inevitável oferecimento de postos de trabalho subalternos para as classes (des)qualificadas como tais. E, com isso, é claro que algumas ruas do Centro foram desvalorizadas, especialmente aquelas próximas à Central do Brasil e ao ponto final dos ônibus oriundos da periferia.

Mas, de um modo geral, o Centro sempre foi, por excelência, o lugar do poder e, portanto, das elites. Devido a essa razão, em muitas metrópoles brasileiras o surgimento dos subcentros veio para atender à demanda de consumo das classes populares reprimidas, pelo “mercado” - em suas diferentes facetas -, de consumir no centro principal. Neste entendimento espacial, estes subcentros viriam a ser tratados, assim, como pequenos centros situados em bairros populares, sobretudo periféricos. Por outro lado, aqui no Rio a lógica de formação dos primeiros subcentros serviu, inicialmente, para atender outro público e, consequentemente, a outros interesses.

Com base nisso, a segunda questão importante apontada pelo autor é o fato de que as classes de alta renda no Brasil (ou seja, a elite) são as maiores responsáveis pela formação das centralidades. Em outras palavras, significa dizer que a população de maior poder aquisitivo exige – e reivindica – estar próxima ao Centro, no sentido de estar próxima, na verdade, do comércio e dos serviços de que todos necessitamos para a nossa reprodução social. Tratando-se de uma metrópole rica como o Rio – então Distrito Federal –, a expansão urbana das elites atingiu raios de distância, em relação ao Centro, bem maiores do que em outras metrópoles.


Mesblinha - "O magazine da Tijuca", anos 1950.


Programação dos cinemas da Saenz Peña.
Fonte: Conrado Leiloeiros. 
O que é importante frisar aqui é que, concomitantemente à expansão espacial das elites, ocorreu, do mesmo modo, a expansão do tipo de comércio e de serviços típicos que só existiam no Centro para esses bairros em que elas se instalaram. Tudo isto graças à força política e ao poder econômico dessa classe em reclamar sua proximidade ao “centro”, enquanto conjunto de comércio e serviços. Um exemplo contemporâneo deste tipo de processo é o da Barra da Tijuca, que, de 1980 para cá, passou de posição de zona-quase-rural para a de importante centralidade na hierarquia socioespacial carioca.

Neste sentido é que Villaça diz ter surgido no Rio de Janeiro o primeiro subcentro das elites, lá nos anos de 1930: a Praça Saenz Peña. Desde o século XIX, a Tijuca já estava consolidada como bairro urbano e nobre. Com o crescimento espacial e econômico da cidade, nas primeiras décadas do século XX, essa sua condição de bairro nobre (e já consolidado em termos urbanos) foi crucial para que se viabilizasse, espontaneamente, a formação do que seria o primeiro subcentro carioca.

Villaça diz que os subcentros de Copacabana, Méier e Madureira se consolidaram na década seguinte, em 1940, mas voltados para atender a fins diferentes. No caso de Copacabana, por exemplo, contribuiu sobremaneira o turismo, visto que muitos serviços implantados por lá desde o início do século passado tinham os turistas como público-alvo. Já o Méier e Madureira se encaixariam na teoria dos subcentros periféricos voltados para responder à demanda de consumo das classes populares nos subúrbios em que residiam. 

Revista da Semana, 1944

Neste entendimento, Villaça afirma que “a Praça Saens Peña foi o primeiro subcentro voltado para as camadas sociais médias e acima da média jamais desenvolvido numa metrópole brasileira” (p. 278), precedente à Copacabana. Ao mesmo tempo, vale destacar novamente a grande distinção entre Tijuca e Copacabana em termos do perfil de seus respectivos subcentros. Ambos estavam voltados para a elite, é verdade, mas o da Praça Saenz Peña visava atender um público local, das cercanias da Tijuca, enquanto que o subcentro de Copacabana visava atender à demanda do turismo. Copacabana só se tornou um subcentro mais “completo”, menos especializado como turístico, pouco tempo depois dos anos 1940, quando o próprio bairro – e a Zona Sul oceânica – consolidaram seu processo de desenvolvimento urbano e, sobretudo, sua hegemonia como o novo espaço das elites no Rio.

Mas, como se deu a percepção da Praça Saenz Peña como subcentro? Villaça aponta que um subcentro só começa a aparecer quando se nota a chegada de determinados perfis de serviços inéditos ao lugar, serviços estes capazes de conglomerar público e fluxos econômicos equivalentes ao do Centro – resguardadas as devidas proporções. 

Casa Granado, na Conde de Bonfim com Almirante Cochrane: loja pioneira na
formação do subcentro tijucano.


Anúncio da Importadora Tijuca. O Globo (1959).
Na Praça Saenz Peña, o estopim de sua ascensão como primeiro subcentro da cidade – e subcentro para “ricos” – se deve à abertura da primeira filial de uma loja do Centro – então, nobre – no centro de um bairro residencial. Neste caso, estamos falando da Casa Granado, perfumaria instalada na Rua Primeiro de Março (antiga Rua Direita) desde 1870. Aqui na Tijuca, a Granado foi inaugurada em 1928 em prédio tombado situado na esquina da Rua Conde de Bonfim com Rua Almirante Cochrane. Nas palavras de Villaça, naquela época, “as perfumarias eram lojas importantes e essa filial era um indicio significativo da importância do centro da Tijuca” (p. 296).

Outros exemplos apontados por Villaça são os das filiais das seguintes lojas: Formosinho, que vendia artigos de vestuário e que contava com dois estabelecimentos no Centro; a loja Drago, que vendia móveis; o Jarro de Cristal, que vendia louças e cristais; a Confeitaria Tijuca (da qual pretendo falar em outra publicação); a Ferreira, que vendia ferragens, além de várias lojas de calçados e tecidos; e a Importadora Tijuca, uma loja que vendia automóveis situado no número 426 da Conde de Bonfim, onde hoje se localiza uma filial da rede de eletrodomésticos Ponto Frio. 

Mas, o principal mesmo eram os cinemas (que também falarei em outra oportunidade). No início de sua vocação como subcentro, a Praça Saenz Peña contou com cinco grandes cinemas: o Olinda, o Tijuquinha, o Metro, o América e o Carioca. Comparando a potência da Saenz Peña com a de Copacabana, Villaça sublinha que, em 1940, Copacabana inteira tinha apenas três cinemas. Se levarmos em conta a quantidade total de cinemas na Tijuca - isto é, incluindo as salas para além da Saenz Peña -, esse número pode alcançar patamares ainda mais elevados.

Foram essas as razões que fizeram emergir o subcentro da Praça Saenz Peña, o qual Villaça assegura como “o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares” (p. 297). A evolução deste subcentro nas décadas consecutivas, incluindo, também, a tão chamada “decadência” da Praça Saenz Peña, será discutida nas próximas publicações.

2 de abr. de 2016

O adeus da Papelaria Lord: mais uma tradição tijucana que se despede

Encerramento das atividades da Papelaria Lord, na Conde de Bonfim: menos uma tradição tijucana.


Após 54 anos funcionando à Rua Conde de Bonfim 176, esquina de Visconde de Figueiredo, a Papelaria Lord decidiu encerrar suas atividades "por motivos diversos", segundo aviso institucional dos proprietários. Os avisos de "passo o ponto" já estampavam as vitrines do tradicional estabelecimento desde o final de janeiro de 2016. Contudo, a despedida oficial ocorreu no dia 2 de abril, com a liquidação dos produtos que restaram.

Assim como a Casa Sian, fechada em 2008 na Praça Saenz Peña, a Papelaria Lord é um dos derradeiros estabelecimentos comerciais tijucanos que vinham resistindo aos tempos "modernos". Mesmo não tendo sido divulgada a verdadeira razão do seu fechamentp, não seria estranho atribuir tal motivação à concorrência desleal das grandes papelarias, como a Casa Cruz e a Kalunga, que mantêm filiais na Conde de Bonfim. Sem mencionar o perfil de consumo da era atual, muito voltado às tecnologias digitais. Já não se compra artigos de papelaria e brinquedos (senão video games) com tanto entusiasmo (e necessidade) como antigamente.

Grande parte do carinho atribuído à Papelaria Lord se deve aos antigos proprietários: os portugueses Antônia Rosa Garcia da Cruz e Domingos José Gonçalves, mais conhecidos como dona Rosinha e seu Domingos. O ator e humorista Carvalhinho, morto em 2007, morava na Rua Conde de Bonfim entre Araújos e Moura Brito quando deu o seguinte depoimento ao caderno "Tijuca", de O Globo, em 14 de julho de 1994: "Adoro conversar com os portugueses Rosa e Domingos, donos da Papelaria Lord. Falamos sobre a 'terrinha'. O bate-papo vale mais do que qualquer sessão de análise".

"Tijuca", O Globo, 27 jul. 1993


Na página de O PASSEADOR TIJUCANO, no Facebook, nossos leitores do blog também demonstraram seu apreço à Papelaria Lord:

"Como conversava com D. Rosa! Sempre uma palavra amiga" (Ana Lúcia Raed).  
"Triste fim! Saía da Mesbla criança e sempre ficava desejando os jogos expostos na vitrine dessa papelaria" (Torvi M Hr).
"Dona Rosa era uma pessoa especial... Essa papelaria era um ponto de referência para quem sempre viveu na Tijuca" (Maria Carolina Ribeiro) 
"Aqui em casa somos fregueses habituais da Lord. Ali compramos artigos de papelaria, não necessariamente para nossos filhos. Vamos sentir saudades, assim como jamais nos esqueceremos da Dona Rosa" (Elpidio Coutinho).
"Inacreditável. Mais um comércio tradicional da Tijuca indo embora... Provavelmente no lugar da Lord, onde eu sempre comprei meus materiais de papelaria, virá uma drogaria ou uma loja 1,99. Muito triste!!" (Isabela Ledo).

Publico aqui, na íntegra, o emocionante aviso institucional da Papelaria Lord sobre o seu fechamento.

AOS CLIENTES E AMIGOS DA PAPELARIA LORD
Por mais de 50 anos, a Papelaria Lord faz parte da vida dos tijucanos.
Aqui, papai (Domingos) e mamãe (Rosa) fizeram de seus clientes grandes amigos.
Aqui nossos pais trabalharam por mais de 50 anos, e graças a este trabalho, conseguiram formar 4 filhos - 2 médicos (Aurora e Manuel), 1 atuária (Lucia) e 1 professora (Rosa).
Aqui também muitos tijucanos compraram, durante anos, material para seus filhos, e por aqui mamãe e papai viram passar crianças que começaram comprando seus primeiros lápis e borrachas - hoje médicos, engenheiros, bancários e tantas outras profissões e, ainda hoje, vêm matar as saudades olhando a papelaria.
Aqui, durante todos esses anos, nossos pais ajudaram a comunidade carente do Salgueiro com lápis, borracha, cadernos.
Aqui iniciamos nessas crianças o estímulo a atividades lúdicas e datas importantes, com a criação de painéis para seus trabalhos.
Aqui tivemos momentos de alegria, manifestações de fraternidade, solidariedade e cooperação.
Aqui mamãe se tornou conselheira e psicóloga de milhares de clientes amigos.
Aqui se criou uma relação de amizade, amor e honradez.
Hoje estamos encerrando nossas atividades, por motivos diversos, mas com certeza levamos conosco as lembranças de todos que nos são muito queridos.
Em nome de nossos pais, nosso muito obrigado, e não se esqueçam nunca da dona Rosinha e do seu Domingos.

Vai deixar saudades. No local, funciona desde dezembro de 2016 o Galeto Tijuca (publicação atualizada em 05 jul. 2017).

19 de fev. de 2016

Tijuca: o túnel, a fronteira final

As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Assim era caracterizada uma das tantas facetas da vida adolescente na Tijuca dos anos 1990 pelo repórter Paulo Reis. A reportagem "Tijuca: o túnel, a fronteira final", foi veiculada no fascículo B/Zine, do extinto Jornal do Brasil, no longínquo domingo 1 de agosto de 1993. Voltado para o público jovem, o B/Zine trazia matérias semanais sobre estilo de vida e comportamento numa linguagem claramente direcionada ao jovem leitor da Zona Sul.

Na matéria em questão, a Tijuca é sublinhada pelo repórter como um bairro "além-túnel", mas que mesmo assim é digno de importância. Entre os tantos motivos de "dignidade", fala sobre as bandas de rock do bairro e as músicas que, compostas e saídas daqui, se tornaram conhecidas Brasil afora (assim como seus autores). Aborda-se também a vocação musical do shopping center (hoje considerado uma galeria) localizado no número 229 da Rua Conde de Bonfim, onde funcionou a danceteria Mamute e hoje abriga uma filial da Igreja Maranata. Era lá onde funcionavam estúdios de gravação, lojas de instrumentos musicais, além da locadora Video Center, a "melhor" em aluguéis de vídeos, games e CDs, com as maiores novidades daquela época.

Já no finalzinho do artigo, comenta-se sobre a chegada do Mc Donald's na Tijuca, por volta de meados de 1993. Embora considerada uma lanchonete bacana para os padrões do início daquela década, o Mc Donald's enfrentou resistências do tijucano por sua nada velada preferência pelo Bob's. Isso se confirma na fala de João Emídio, adolescente de 15 anos, quando aponta que "o único defeito do Mc Donald's era não ter milk shake de ovomaltine", carro-chefe do Bob's até os dias atuais.

Embora esta reportagem provavelmente tenha sido escrita por um estagiário ou jornalista iniciante, dado o caráter juvenil do fanzine, há uma menção histórica importante ali: a que fala sobre os adesivos I'm Tijuca distribuídos pelo Mc Donald's no momento de sua inauguração na Barão de Mesquita. O adesivo é, sem sobra de dúvidas, uma peça rara, difícil de achar ou até mesmo comprar. Por outro lado, encontrei o dito cujo há alguns meses colado resistentemente ao vidro da janela de um apartamento na pequenina Rua Piracicaba, entre Visconde de Figueiredo e Conselheiro Zenha. Um verdadeiro exemplar do orgulho tijucano incorporado ao slogan imperialista do Mc Donald's. Raro. Veja esta edição do JB na íntegra aqui: https://news.google.com/newspapers?nid=0qX8s2k1IRwC&dat=19930801&printsec=frontpage&hl=pt-BR.

B/Zine, Jornal do Brasil, p. 10, 01/08/1993. 
Tijuca: o túnel, a fronteira final
Por Paulo Reis
Tem um túnel, o Rebouças. Ele é o elo perdido. De um lado, está a Lagoa, Ipanema, a Chaika, os shoppings e essas coisas que todo mundo conhece. Do outro lado, meu filho, está a Tijuca. Sabes lá o que é isso? Pois vamos explicar. Naquela imensa São Paulo, que começa na saída do Rebouças e sobe pelo Alto da Boa Vista, se esconde uma rapaziada pra lá de boa. Mas eu já sei, você não me engana. Já torceu o nariz e pensou: o máximo que pode sair da Tijuca é o Álvaro Valle. Caro amigo, você está desinformado. Não dá para esquecer que o peso-pesado do soul, Tim Maia, veio daquelas bandas. Que o Benjor inventou o sambalanço com guitarra lá. E que a Festa de Arromba do tremendão Erasmo e do Rei Roberto também foi por ali. Nos anos 80, a Tijuca botou no mundo um peixe pequeno do rock Brasil: Picassos Falsos. E Ed Motta ainda vive naquelas plagas. Acredita agora na importância da Tijuca, papudo? 
Ser tijucano é ser avant garde. É assim com Marcia Gonçalves, 28 anos, editora do fanzine BACKSTAGE. Respeitado no meio editorial, o zine tem all access em todos os grandes shows internacionais. Marcia acha que ser tijucano é muito bom. "Na Tijuca tem a melhor locadora de CDs e vídeos do Rio, a Video Center. Lá tem todas as novidades das lojas de fora. Só não existem lugares para shows de rock", fala Marcia. Ela sempre viveu na Tijuca e acha "muito muito legal não ser da zona sul". 
Se um skatista antes tinha que pegar o 415 para ir à pista do Rio Sul, hoje não precisa mais. O que não falta são picos para fazer manobras. Rodrigo Tavares, 14 anos, acha a Tijuca "muito irada, porque tem muita gente legal". Ele frequenta o point da Praça Xavier de Brito ou embaixo do viaduto do Maracanã. O grito de guerra é: "Maior cabeção. Tijucano até a morte!", avisa. 
Lá tem até estúdio. Os ex-Picassos Gustavo Corsi e Abilio Azambuja se juntaram ao Ivo Ricardo e fundaram o estúdio Pad e a loja Musix. Sabe onde? No shopping da antiga danceteria Mamute. Veja detalhes no texto abaixo. 
Estúdio, hambúrgueres, garotas: e o que você quer mais, amigão? 
Mas não é só de banda de garagem que vive o estúdio Pad. Tony Platão, Tânia Alves, Celso Blues Boy e a turma da Rio Sound Machine também ensaiam por lá. "A gente montou o estúdio porque tem muitas bandas aqui. E criamos a loja de instrumentos para facilidade de quem ensaia. Quando precisar de uma corda, é só atravessar o corredor", diz Gustavo. No futuro, os três músicos vão criar uma escola. "Três em um com garantia de qualidade", avisa Ivo. 
Cruzando pelo bairro, você dá de cara com o melhor sebo de quadrinhos da cidade, o Gibi Center, e também com a melhor loja de aluguel de CDs, a Video Center. Essa loja, que vive lotada, vende vídeos, games e CDs. Ana Elizabeth, uma das sócias, conta: "A loja atende em média 400 adolescentes por dia. São quase dez mil inscritos". Na loja de discos Sub Som, não é diferente. A gerente Inês diz que "o que mais sai são pesados e progressivos". 
As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Rafaela Stern, 10 anos, e Mariana Lang, 11, acham que "a Tijuca tem tudo e que ninguém precisa sair do bairro para se divertir. A não ser para ir à praia da Barra", dizem. 
Mas, então, o que falta na Tijuca? Uma "lanchonete que não seja poeira". Faltava, pois o Mc Donald's abriu há pouco mais de um mês e, para comemorar a data de inauguração, distribuiu um adesivo de carros com os dizeres: I'm Tijuca. Era só o que faltava. O exigente João Emídio, 15 anos, ainda quer mais. "O único defeito do Mc Donald's é não ter milk shake de ovomaltine", lembra, enquanto deixa escorrer a baba do sundae. Tijucano é assim mesmo. Nunca está satisfeito. 

25 de jul. de 2015

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses

Rua Conde de Bonfim 186: endereço emblemático que já concentrou diversas ocupações emblemáticas para a Tijuca.

O terreno da Rua Conde de Bonfim entre as ruas Conselheiro Zenha e Visconde de Figueiredo poderia ser considerado como parte de um endereço repleto de metamorfoses. Do século XIX até os dias de hoje, o número 186 da principal artéria tijucana já teve nada menos que sete ocupações distintas, todas muito simbólicas para a cultura local do bairro: de residência aristocrática no século XIX, já foi colégio tradicional, loja de departamentos e atualmente abriga a filial de um supermercado. 

Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Na segunda metade do século XIX, quem vivia no referido terreno da prestigiada Rua Conde de Bonfim era ninguém mais, ninguém menos, que Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, que dá nome ao município da região metropolitana fluminense. O militar morou nesse belo palácio até o dia de sua morte em maio de 1880, cujo funeral, segundo relatos, parece ter sido um grande acontecimento não só para a Tijuca assim como para toda a cidade:

Nove de maio de 1880 - Funerais do duque de Caxias: Às nove horas da manhã regurgitava o solar do duque de Caxias, na rua Conde de Bonfim, confluência das atuais Visconde de Figueiredo e Salgado Zenha. Ia sair o enterro do grande homem que fez jus em vida às homenagens até hoje prestadas pela Pátria: o único duque da nossa aristocracia (...) Tudo simples, para obedecer ao testamento do ilustre morto. Mas o acompanhamento foi sem dúvida o mais numeroso a que a cidade assistira. Ao chegar o coche ao cemitério de São Francisco de Paula, em Catumbi, ainda se enfileiravam carros para o cortejo em Conde de Bonfim. Logo após o coche fúnebre, iam 16 moços de estribeira e outro coche, com a coroa do duque, envolta em crepe e os símbolos militares com que invariavelmente conduziu o Brasil ao caminho da vitória: a espada, as dragonas, o talim, a banda e o chapéu... (trecho de Tijuca, de rua em rua [Editora Rio, 2004], de Lili Rose e Nelson Aguiar, páginas 118-119)

Supõe-se que logo após a morte do Duque de Caxias é que a sua então residência tenha virado sede do Club da Tijuca, no final do século XIX e início do século XX. Infelizmente, não existem muitas informações a respeito desse clube. Pesquisá-lo no Google, por exemplo, é tarefa complicada, já que o sistema de pesquisa acaba remetendo todos os resultados da busca ao Tijuca Tênis Clube por causa da semelhança entre os nomes. No grupo do Facebook Tijuca de todos os tempos, de onde tirei grande parte dessas imagens, ninguém soube me responder a respeito deste enigmático club.

Imagem do departamento feminino do Instituto La-Fayette, na Conde de Bonfim
Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Contudo, foi a partir de 1916 quando a Conde de Bonfim 186 tornou-se endereço de uma das mais emblemáticas instituições educacionais da Tijuca: o extinto Instituto La-Fayette. Com duas filiais na Tijuca e outra em Botafogo (na praia, esquina de Visconde de Ouro Preto), a ala feminina do La-Fayette estudava na Conde de Bonfim, enquanto a ala masculina ficava na Rua Haddock Lobo, no mesmo prédio onde hoje funciona a Fundação Bradesco. Para Felipe Torreira, do blog Pileque, que publicou um post de memórias incríveis do referido colégio em dezembro de 2008 (vale a pena ler também os comentários de leitores), o Instituto La-Fayette era um colégio antológico, histórico, e tijucano. Vive na memória dos moradores até hoje com muito orgulho. Afortunados são os que vestiram aquele uniforme. O prestígio inquestionável do colégio fez com que a charmosa rua que margeia a Pedra da Babilônia e o Colégio Militar, nas imediações da Rua São Francisco Xavier, ganhasse em 1947 o nome do fundador da instituição: Professor Lafayette Côrtes.

Reprodução: O Globo, 26 abril de 1981.

Fachada da Mesbla, na Tijuca
Após um misterioso incêndio nos anos 1970, o prédio do Instituto La-Fayette foi infelizmente demolido para dar lugar, em abril de 1981, à nova filial da também extinta loja de departamentos Mesbla. O novo edifício, modernoso para os anos 1980, em nada lembrava o simpático solar onde residiu o Duque de Caxias. Sinônima de vitrines elegantes e mercadorias para todos os bolsos, a Mesbla funcionou na Rua Conde de Bonfim 186 por quase 19 anos, quando em agosto de 1999 fechou as suas portas após ter tido a falência de toda a rede decretada. Na edição do dia 26 de agosto daquele ano, reportagem do caderno "Tijuca", de O Globo ("Magazine na memória da vizinha", 26 ago. 1999) coletou depoimentos de moradores sobre o fechamento da loja:

O lugar era ideal porque, se uma das duas se atrasava, a outra podia dar uma voltinha pela loja para passar o tempo. Afinal, a diversão preferida das mulheres é olhar vitrine (Maria Aurélia Castro, dona de casa, usava a Mesbla como ponto de encontro com a filha, Luciana)

Não gosto de lojas de departamento. Estão sempre cheias e com pouca variedade. Já na Mesbla era diferente. Eu adorava passear nos corredores e sempre acabava comprando alguma coisa (Luciana Castro, tijucana, filha de Maria Aurélia).

Apesar de a tendência ser o fim dos cinemas de rua, gostaria de ver algo no estilo do Estação, com um espaço moderno, filmes alternativos, café e livraria. É disso que o bairro precisa (Roberto Santos, publicitário).

Eles estão por toda parte. É difícil competir com um mercado que vende de tudo: alimentos, eletrodomésticos, roupas e utensílios para o lar. Lamento o fim da Mesbla, mas só os grandes sobrevivem (Lino Souza Gomes, aposentado, que previu o surgimento de um hipermercado no local).

Reprodução: O Globo, 26 de agosto de 1999.
Hipermercado Bon Marché Magazine, inaugurado na Conde de Bonfim 186 no ano 2000.

Foi a partir do ano 2000 quando o número 186 da Rua Conde de Bonfim entrou para a era dos supermercados. Na mesma época, grandes terrenos e edifícios importantes do bairro passaram por esse mesmo processo, como a antiga Companhia Hanseática, na Rua José Higino, transformada num Hipermercado Extra 24 Horas. Na Conde de Bonfim, o mercado inaugurado por lá foi o igualmente falido Bon Marché, do Grupo Pão de Açúcar, que encerrou suas atividades no local por volta de 2005 para dar lugar à filial da tradicional Casas Sendas, braço também pertencente ao GPA a partir de meados da década passada.

Casas Sendas, na Conde de Bonfim com Visconde de Figueiredo, durou até 2011.


O atual Supermercado Extra, na Conde de Bonfim 186 (imagem de 2015).

Entre 2010 e 2011, a marca Sendas foi trocada gradativamente por Extra e Pão de Açúcar. Havia uma expectativa de que essa filial da Conde de Bonfim fosse transformada em uma loja do Pão de Açúcar, já que a filial da Rua Uruguai havia fechado anos antes, sobrando apenas a loja da Praça Afonso Pena, que continua funcionando normalmente. No entanto, as únicas Sendas transformadas em Pão de Açúcar foram aquelas situadas em bairros turísticos, como Leblon e Copacabana. Assim, desde o início desta década, a Rua Conde de Bonfim 186 vem abrigando uma sucursal do Supermercado Extra.

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses. Depois desta retrospectiva, só nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos; se o endereço fizer jus ao seu perfil de transformações, o Supermercado Extra dará lugar a outro empreendimento muito em breve.

14 de jul. de 2015

O dia a dia da Tijuca: boteco, família, escola e pedestres

No Rio de Janeiro dos espetáculos e dos megaeventos, a Tijuca mantém a tradição e se destaca como uma região cuja rotina é basicamente aquela de um bairro na acepção da palavra: famílias frequentando as praças e calçadas, estudantes uniformizados saindo das escolas, os botecos de sempre, que congregam desde beberrões a comensais, o vaivém daqueles que utilizam os transportes de massa, a caminhada matinal sob a luz do sol carioca. Neste ensaio fotográfico, é um pouco do dia a dia tijucano que entra em foco.

Bar na Rua Conde de Bonfim, entre as ruas Dona Delfina e Uruguai (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Bebês se entretêm no parquinho da Praça Xavier de Brito (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Avó e neta, de patinete, na Praça Xavier de Brito (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Não há praia na Tijuca, mas a Saenz Peña quebra um galho (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Rua Campos Sales com Haddock Lobo (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Pausa para as notícias do dia, no Largo da Segunda-Feira (Créditos: Pedro Paulo Bastos)

Alunas do Pedro II passeiam pela Rua Oto de Alencar (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Caminhada matinal pelo alto da Rua Sabóia Lima (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Tijuca, bairro residencial de uma grande metrópole (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

4 de mai. de 2015

Usina, oásis e tradição na Tijuca

A Conde de Bonfim, na Usina: mais perto da Floresta.
A Usina sofre de uma espécie de rejeição calamitosa: suas ruas são desertas, aparentemente relegadas pelos pedestres, que, com exceção dos poucos moradores dali, circulam somente a bordo de seus carros rumo ao Alto da Boa Vista ou à Praça Saenz Peña. Grande pecado: além de ser uma das regiões mais bucólicas e agradáveis do nosso bairro, a Usina é também o local onde a Tijuca mostra com rigor a sua tradição e simbolismo histórico no contexto da cidade do Rio de Janeiro. Explico-me.

Uns desses primeiros indícios estão na Rua São Rafael, ruazinha pequena entre as ruas São Miguel e Conde de Bonfim. Chama a atenção por ali o conjunto de resistentes casas centenárias, bem de frente para a Avenida Maracanã. Os janelões frontais e os emblemas no topo da fachada estão preservados e remetem o pedestre a uma Tijuca pacata e aristocrática, mais conhecida por suas “benesses” serranas do que por sua intensa urbanidade como é hoje observada. O estilo da arquitetura e a ambiência local favorecem a imaginação: que famílias terão vivido lá? No lado de dentro, o que se preservou?

Um passo adiante, ainda na Rua São Rafael, é possível deparar-se com o córrego do Rio Maracanã perpassando, a alguns metros de profundidade, uma série de casas deterioradas. Nesse panorama, cabe destacar o estado límpido da água, que transcorre entre pedras e pequenas vegetações. Como essa região é um aclive – afinal, é a subida para a Floresta –, a água do Rio Maracanã ganha força e, em alguns trechos observáveis, tem um aspecto de riacho que ecoa um relaxante barulhinho por toda a bucólica Rua São Rafael.

Rua São Rafael: janelas frontais e emblemas no topo da fachada remetem ao século XIX.


O muro mais do que centenário da Rua São Rafael: placa remete ao ano de 1895.

No entanto, não era apenas este detalhe que eu queria lhes comentar. A vista para o Rio Maracanã é protegida por uma mureta de pedra que existe em ambos os lados da rua. Até aí, nada de demais – eu estaria falando apenas de um muro qualquer se não fosse o que há preso a este muro, algo que lhe dá uma importância extraordinária: uma placa aparafusada com o ano de “1895”. É bem capaz de que até os próprios moradores da região sequer tenham notado de que se trata de um muro centenário cuja placa – desde já, patrimônio nobilíssimo desta cidade – jaz sem nenhum tipo de aclamação.


Armazém do Loureiro: mercearia desde os anos 1930 na São Rafael com Conde de Bonfim.

Na esquina da Rua São Rafael com a Rua Conde de Bonfim, outra perseverante joia arquitetônica: o Armazém do Loureiro. Negócio familiar, inaugurado nos anos de 1930 pelo português “Seu” Loureiro, o armazém é uma espécie de mercearia que, até pouco tempo, era bastante resistente e alternativo frente à hegemonia dos supermercados. Segundo O Globo, de 22 de dezembro de 1987, o Armazém Loureiro era o local de compras preferido dos moradores da Usina por causa da qualidade dos produtos vendidos, como arroz, feijão, bacalhau, sardinhas portuguesas, vinho alemão e do Porto, uísque escocês, champanhe francesa, entre outros. A tradição do local é tanta que por muitos anos foram adeptos da venda a fiado, com caderninho e tudo para anotar as despesas de cada freguês.

Resquício dos trilhos dos bondes no Largo da Usina

Rua Rocha Miranda, na divisa com o Alto: residências espaçosas em local aprazível.
Outro casario remanescente de outrora, na Conde de Bonfim: à esquerda, a Herbert Ritchers.

Edifício Jequitibá: modernismo na Conde de Bonfim.
No Largo da Usina, os trilhos dos bondes ainda permanecem à mostra, como se pudessem voltar a ser utilizados a qualquer momento tal qual antigamente, quando a Usina, na verdade, era uma usina termoelétrica que gerava energia para esse meio de transporte. O Largo continua sendo um marco da região, na divisa entre a Tijuca e o Alto da Boa Vista, cujas ruas transversais ainda resguardam os signos de nobreza e sofisticação do bairro, como a Rua Rocha Miranda, ao passo que outras, mesmo assoladas pela decadência, ainda preservam o aspecto familiar e de calmaria, como o das ruas próximas ao Hospital da Ordem Terceira da Penitência.

Outro trecho interessante da Usina está na Rua Conde de Bonfim entre os números 1325 e 1337. No primeiro número, temos o Edifício Jequitibá, um belíssimo residencial modernista que se destaca na paisagem da rua com seus azulejos que remetem à obra de Athos Bulcão e as janelas venezianas que deslizam pela fachada. Ao lado desse edifício, outro marco da Usina: o imóvel onde funcionava a Herbert Ritchers, um dos estúdios de dublagem mais famosos do Brasil, falido em 2009. Abandonado, há uma vegetação crescente pela fachada, que há tempos já não deixa mais à vista o letreiro do derradeiro estúdio. E, por fim, nos números 1335 e 1337, vê-se mais um conjunto de casas centenárias intactas, que continuam preservando a história da Usina assim como as vizinhas na Rua São Rafael.

O que mostrei se trata apenas de um resumo das surpresas e detalhes que a Usina resguarda, esse pedacinho da Tijuca, por vezes, tão maltratado e pouco desfrutado pelos tijucanos. As fotos dão um destaque à beleza local: entende, agora, caro leitor, por que a Usina merece ser “passeada”?

8 de abr. de 2015

Comoção pelo último sanduíche: filial tijucana drive-thru do Bob's vai fechar

Panorama do Bob's Drive Thru, ao lado do Off Shopping: após 27 anos de existência, encerrará suas atividades.

Quem deu a notícia em primeira mão foi a coluna Gente Boa, do Segundo Caderno (Jornal O Globo, 02/04/2015) anunciando “que a Tijuca perderia mais um de seus símbolos”. No caso, a nota se referia como símbolo tijucano ao Bob's Drive Thru do Tijuca Off-Shopping, inaugurado em 1988 sob a alcunha de “maior Bob's do Rio”, cujo fechamento está previsto para o final deste mês de abril. A razão do encerramento das atividades ali seria por causa do alto valor do aluguel estipulado para o local, pois, segundo a matéria, seus rendimentos já não seriam mais sustentáveis com o período atual de crise.

A notícia se espalhou rapidamente pelas redes sociais, gerando comoção e nostalgia: foi criado um evento no Facebook convocando tijucanos e simpatizantes da causa a lanchar pela última vez na referida filial do Bob’s no próximo domingo, 12 de abril, a partir das 17 horas. O sucesso da página foi tanto que, até o fechamento desta publicação, o evento já contava com mais de 13 mil pessoas confirmadas. Embora se saiba que esse número nem sempre se torna real na prática, vale destacar a movimentação do fórum de discussão da página, que, entre relatos saudosos e tons de revolta, há também aqueles poucos que questionam o porquê de tamanha euforia, se o Drive-Thru do Off-Shopping só vive vazio. E é verdade.

Anúncio publicitário de inauguração do Bob's Drive Thru da Tijuca, em 1988

Já faz um bom tempo que esta filial do Bob’s, com capacidade para cerca de 250 pessoas, já não funcionava na íntegra. Os três andares da loja, que em tempos remotos serviram como ponto de encontro de estudantes e cenários de festinhas de aniversário, já vinham sendo interditados por falta de público. Soma-se a isso o fato de que o serviço do Bob’s, de uma forma geral, decaiu bastante ao longo das últimas décadas sem que o preço acompanhasse a queda na qualidade dos produtos. É normal, portanto, que a clientela habitual optasse por lanchar em outros estabelecimentos, mas ninguém esperava que isso um dia pudesse acontecer: eis o motivo de tanta comoção, até mesmo de protesto!

Referências do Bob's: milk shake, cheeseburger e batata
Um detalhe curioso cabível de destaque aqui é sobre a menção ao Bob’s como “símbolo da Tijuca”. Inaugurado em 1958 na esquina da Rua Santo Afonso com General Roca, o Bob’s ganhou sua segunda filial alguns anos mais tarde, em 1976, na Praça Saens Peña, e a terceira (e maior da cidade), no final de 1988, inovando como loja na modalidade drive-through. Muitos não se lembram (outros nem mesmo eram nascidos), mas o império do Bob’s na Tijuca durou até 1993, quando finalmente o McDonald’s conseguiu aportar sua primeira filial por aqui, também em sistema de drive-through, no mesmo endereço: a Rua Barão de Mesquita, na outra extremidade do Off-Shopping.

Segundo o professor Eduardo Halpern, professor adjunto do IBMEC e da UNIRIO na área de Marketing Estratégico, o McDonald’s demorou a chegar à Tijuca precisamente porque o Bob’s, com suas três filiais nos arredores da Praça Saens Peña, funcionava como barreira de entrada a outras lanchonetes do segmento de fast food. E tamanho império – que, a partir dos anos 1990, se espraiou para a Rua Uruguai, o shopping e, mais recentemente, para a Haddock Lobo – fazia parte dos hábitos arraigados de consumo do tijucano. Em reportagem de O Globo, de março de 1990, titulada "Caso de paixão radical", (já reproduzida aqui em O passeador tijucano), a repórter Cláudia Belém apontou: “Quando criança, o tijucano passeia na Praça Saens Peña, adora o sorvete do Palheta e do Pinóquio e os sanduíches do Bob’s, que ele não trai por nenhum McDonald’s”.

Veja mais: Último lanche no Bob's Tijuca - Recordar é viver: 12 de abril de 2015 (domingo), 17 horas.

Cartilha de consumo do Bob's: outro clássico publicitário de 1988.

As divagações sobre o futuro do emblemático prédio do Bob’s no Tijuca Off-Shopping são muitas: alguns comentam que se transformará em mais uma agência bancária, o que seria um retrocesso para o bairro cujo perímetro comercial já conta com dezenas delas – incluindo farmácias e óticas, segmentos que vêm assolando a região da Saens Peña há mais de dez anos.

Resta, então, a nossa torcida para que a Tijuca consiga se reinventar mediante o oferecimento de uma nova opção gastronômica neste prédio. Potencial existe de sobra: o Balada Mix, o Koni Store, o Pizza & Grill, entre outros, são exemplos de sucesso na vizinhança do agonizante Bob’s. Além disso, a Tijuca tem uma demanda reprimida por restaurantes e bares; a vacância do Bob’s pode ser uma ótima oportunidade para tal. De resto, basta marcar na agenda: 12 de abril de 2015, o dia do tijucano se despedir do Bob’s que marcou gerações no seu bairro.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...