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5 de jun. de 2017

Tijuca: um bairro tamanho família

Matéria publicada em VEJA RIO, há 20 anos, fala sobre os estereótipos atribuídos ao bairro.

Em outubro de 1996, a VEJA RIO, suplemento da revista homônima, publicou matéria de capa dedicada a explorar o perfil socioeconômico da Tijuca em ocasião da abertura do Shopping Iguatemi Rio, no Andaraí, bairro vizinho. A reportagem tinha como objetivo representar o estilo de vida dos tijucanos na ótica dominante da revista, voltada especialmente aos moradores da Zona Sul. Intitulada "Bairro tamanho família", a repórter Flávia Pinho procurou qualificar o tijucano como um personagem ilustre por ganhar acima da média carioca, razão pela qual o Shopping Iguatemi inauguraria em seus domínios uma filial da matriz paulistana, conhecida pela segmentação de mercado direcionada às classes A e B altas. Segundo pesquisa realizada por uma empreendedora que, na época, era proprietária da marca Iguatemi, afirmava-se que na área a cinco minutos de carro do shopping havia 208 000 domicílios cuja renda alcançava 1,6 bilhão de dólares por ano.

No entanto, os elogios dispensados ao capital econômico dos tijucanos seriam contrabalançados pela ironia do texto em recorrer indiretamente aos estereótipos sociais dominantes atribuídos à Tijuca para descrever o estilo de vida daqui. O perfil "família" do bairro, a devoção às festas de debutantes e ao gosto pelas mesas fartas e por sobremesas são narrados pela repórter como partes indissociáveis de um jocoso ethos que não se veria em lugar algum fora da região entre a Praça da Bandeira e o Alto da Boa Vista. Assim, ao dizer que os tijucanos não ligavam para pechas, VEJA RIO endossava a caricatura associada à Tijuca vista como cafona, provinciana, conservadora e careta, mas também procurando promover a grande Tijuca a um status que tentava fazer jus à chegada do novo centro comercial.

Fenômeno carioca da época, a transferência expressiva dos moradores da Tijuca para a Barra da Tijuca é retratada por VEJA RIO com a história da família Mussalem, dona das prósperas Casas Pedro. Após quinze dias residindo em "apartamentão" na Avenida Sernambetiba, orla da Zona Oeste, a família havia decidido regressar para a cobertura dúplex da Tijuca, por uma questão de apego territorial. Já o caso de um analista de sistemas que havia se mudado para o Leblon, mas que não conseguia largar a Tijuca e o Tijuca Tênis Clube, é tratado como algo inusitado. Por fim, a matéria sentencia a ideia já premente no imaginário carioca de que ser tijucano não seria uma condição geográfica, mas um estado de espírito. Em suma, um autêntico texto estilo "morde-assopra".

A matéria na íntegra - em texto - você lê abaixo das imagens.






VEJA RIO, 2 de outubro, 1996

Bairro tamanho família

Apegados à família e às tradições, os tijucanos não ligam para pechas e, ganhando acima da média carioca, são hoje cortejados pelos shoppings


Flávia Pinho, com colaboração de Telma Alvarenga

Digam o que disserem, o tijucano é feliz. E ainda se diz mesmo muita coisa do outro lado do túnel. Que aqueles pouco mais de 175 000 cariocas são cafonas, provincianos, conservadores, caretas. Se houve um tempo em que essas carapuças serviram para esconder um rubor encabulado ou, pior ainda, doídos ressentimentos, isso já passou. Os tijucanos transpiram bairrismo sem remorso. Adoram a vida em família – em nenhuma outra parte da cidade filhos e netos orbitam como satélites nas vizinhanças muito próximas das casas de patriarcas e matriarcas. Dão importância para festinhas de 15 anos, para a lasanha do La Mole, para a eleição da Garota AGT, o corpinho mais trabalhado da academia de ginástica do Tijuca Tênis Clube, venerada instituição em que legiões deles preferem tostar a pele às margens da piscina do que na lonjura das praias. É assim que vêm atravessando o tempo, aferrados ao lugar e a valores tradicionais. Se carioquismo fosse estatística, eles seriam a mediana entre a fervura a Zona Sul e o mundão do subúrbio. “A Tijuca nunca foi moda”, define o administrador de imóveis Mário Henrique Rodrigues, 36 anos, titular do Xavier, o time de peladas que leva o nome da Praça Xavier de Brito, um lugar onde até hoje há crianças pilotando pacatos pangarés ou charretes puxadas por bodes.

Mesmo imunes a modismos, os tijucanos nunca foram tão cortejados como agora. Alguns números explicam o fenômeno. A renda familiar do bairro gira em torno de 12,4 salários-mínimos (quase 1 400 reais), contra a média de oito salários-mínimos da cidade. Há mais gente com curso superior por lá do que em Copacabana. É, por exemplo, a maior concentração de dentistas do Rio – dos 10 487, 1 821 estão nas redondezas da Praça Saens Peña. O número de telefones celulares per capita bate o da Zona Sul. Dos bairros residenciais é o que tem mais agências bancárias e o que mais paga ICMS, sintoma de poder de fogo de consumidores vistos como gastadores discretos e pontuais. Atrás de tanta afluência, abre as portas nesta segunda-feira o Shopping Iguatemi Rio, que com 228 lojas vai ocupar o terreno que já serviu de campo de futebol para o América, segundo clube de coração de muitos cariocas e primeiro de uma sofrida e teimosa minoria. Os responsáveis pelo investimento de 100 milhões de dólares coroam a Tijuca com superlativos de um paraíso do consumo. Pesquisa feita pela LaFonte, empreendedora que é dona da marca Iguatemi com sede em São Paulo, diz que na área a cinco minutos de carro do shopping (um raio de 1,8 quilômetro) há 208 000 domicílios cuja renda alcança 1,6 bilhão de dólares por ano. Da dinheirama que essa gente não gasta no varejo local, o Iguatemi espera abocanhar 157 milhões de dólares, fortuna que faria a felicidade de uns dez ganhadores solitários daquelas Senas acumuladas. “Temos a expectativa de receber 40 000 pessoas por dia e, pelo menos, 60% delas virão aqui a pé”, não faz por menos José Antônio Grabowski, diretor da área imobiliária do Banco Icatu, outro sócio da empreitada.

Os preconceitos sobrevivem na orla. Por ali, todo mundo, inclusive o shopping, gosta de se ver como tijucano. Explica-se: o Iguatemi na verdade fica no Andaraí, num vértice entre a Tijuca e a Vila Isabel. Mas Andaraí, Aldeia Campista e outras simpáticas adjacências se sentem anexadas à grande Tijuca. A grande Tijuca, é bem verdade, já foi muito maior. Via como dela a brisa fresca do Alto da Boa Vista e todo o marzão da Barra, que levava (e ainda leva) a marca do batismo no sobrenome. Barra, eis aí um sonho de consumo que ainda sobrevive. Said Mussalem, 50 anos, dono da matriz e das cinco filiais da Casa Pedro, loja que vende especiarias da culinária árabe, acreditou nele por quinze dias. Comerciante próspero, há dois anos mudou-se com a mulher, Solange, e os filhos Felipe, 20 anos, Karine, 18, e Diogo, 12, para um apartamentão de quatro quartos, de frente para o mar da Barra. “A namorada do Felipe mora aqui perto, ele e a Karine estudam na Uerj e não quiseram ficar tão longe”, justifica a rápida desilusão Solange, a única que até hoje não se conforma com o fracasso da mudança. “Foi por causa do trânsito”, emenda Said, que em duas semanas estava de volta para a cobertura dúplex da Tijuca com mulher, filhos e o cachorro “Pitoco”. Sem arrependimento. “Tenho amigos aqui”. O que afugentou a família Mussalem continua lá. O trânsito é horrível e o bairro está infestado de camelôs e de hordas de bandidos e pivetes que pontuam o cotidiano com violência.

Na televisão gigante de 52 polegadas, Said e família gostam de rever a crônica tipicamente tijucana da qual orgulhosamente fazem parte. Congelam a imagem de Karine, vestida como uma fada flutuando na nuvem de gelo-seco do cenário de sua festa de 15 anos, em 1993, um acontecimento para os 500 convidados no Clube Sírio e Libanês. Said tinha para gastar. Gilberto e Wilma de Sousa não. A festa de 15 anos da filha Fernanda consumiu todas as energias e economias do casal. O roteiro começou às 8 e meia da noite do último sábado, 28. Os Sousa espremeram 300 pessoas na pequena capela de Bom Jesus do Calvário, na Conde de Bonfim. Depois veio a festança na Associação Atlética Banco do Brasil, AABB, onde Fernanda desembarcou com um vestido cor de vinho, combinando com a decoração das mesas. À meia-noite, fez uma entrada triunfal com um longo branco, dançou a valsa com o pai e arriscou uma coreografia com seu “príncipe”, Hugo, que namora há um mês. Entre uma coisa e outra, o analista de sistemas Gilberto brindou os convidados da festa dedilhando ao violão a canção O Caderno, de Chico Buarque. O aluguel da igreja ficou em 700 reais, o vestido vinho custou 300, o longo, mais 700. Somem-se a isso os presentinhos especiais – flores para avós e tias, canetas gravadas para os jovens, anéis de ouro para a irmã e a prima. Ainda faltam a decoração, os fotógrafos... “Acho que gastamos uns 10 000 reais”, faz as contas Wilma, que é instrumentadora cirúrgica. “Um dinheirão, e acho um absurdo”. Mas era o maior desejo de Fernanda. E pronto.

Os ritos de passagem são apenas mais um traço da coesão familiar tijucana. Homero Icaza Sanchez, que já não é mais bruxo em tempo integral de pesquisas de audiência da Rede Globo, educou o ouvido escutando aspirações do telespectador de novelas. Brasileiros em geral, cariocas em particular, tijucanos nas menores minúcias. Conhece bem a alma dessa gente que colonizou o bairro com grandes casarões, mais tarde trocados na vertigem imobiliária por apartamentos para eles e seus descendentes. “O resultado é que todo mundo mora perto, às vezes no mesmo prédio”, diz Kátia Varela Mello, 29 anos, defensora pública, não consegue cortar o cordão umbilical. “Como eu poderia ficar longe da minha família? ” E da Praça Xavier de Brito, aonde costuma levar os filhos Eduardo, 4 anos, e Felipe, 1. É só um pequeno exemplo dos clãs tijucanos. Em torno de Raymundo Silvino Pereira, 85 anos, e de sua mulher, Helena, 73, gravita uma farta e barulhenta prole de sete filhos e doze netos. Com exceção de uma filha, que migrou para a Barra, todos moram perto do casarão de dois andares da Avenida Maracanã, onde o casal vive há 28 anos, desde que deixou uma enorme chácara na Rua Antônio Basílio. Raymundo chegou de Pernambuco em 1929 e foi direto para a Tijuca, onde conheceu Helena. Os dois se casaram no dia em que a II Guerra Mundial acabou (8 de maio de 1945), numa cerimônia celebrada pelo então padre Helder Câmara, o que é apenas um dos atestados de longevidade do casamento. Há outros. A mãe de Helena, Julieta Contardo, tem 107 anos e ainda vive com o casal. “Só podia acontecer comigo, ter uma sogra que passa dos 100”, brinca Raymundo.

Helena criou os filhos levando a criançada com merenda para as sessões de domingo do cinema Olinda. O cinema injetou ambições hollywoodianas no espírito tijucano, teoriza Homero Sanchez, que vê nos emergentes de hoje os tijucanos de ontem. “Os netos da Zona Sul acreditam na tradição; os da Tijuca, no sucesso”, diz. No sucesso acreditam Sérgio Pereira da Silva, 46 anos, sócio há 21 de uma clínica no bairro que mais tem dentistas na cidade. “A Tijuca tem uma classe média com forte poder aquisitivo”, explica a concentração. Mas, para além do sucesso, os tijucanos acreditam em algumas instituições que elegem como o prolongamento de sua casa. Os netos de dona Helena estão entre os 38 000 dependentes de 12 000 sócios do Tijuca Tênis Clube, imensa província de lazer da Conde de Bonfim. Piscinas são três. Há dois ginásios, campos de futebol, quadras de tênis e squash, salões de festa, teatro, além de três andares de academia de ginástica. É entre as frequentadoras da academia que será escolhida, ainda em outubro, a Garota AGT. Antigamente, os desfiles eram de biquíni, mas as garotas se acham muito expostas. Agora se exibem em uniforme de malhação. A lotação dos salões oscila. “Quando vem uma orquestra de peso como a Tupy, recebemos até 800 pessoas”, conta Hildo Magno da Silva, vice-presidente sociocultural do clube. Não há mais títulos de sócio-proprietário disponíveis. Só num mercado paralelo e custam no mínimo 2 000 reais.

O ambiente do Tijuca foi uma das razões para Gilberto Carneiro da Silva, 43 anos, analista de sistemas da Dataprev, fazer um percurso parecido com o de Said Mussalem. Com o fim do primeiro casamento há seis anos (já tinha dois filhos, Gabriela e Gilberto Jr.), mudou-se de lá. Conheceu Tânia, quem teve Gabriel, e foi morar no Leblon. “Fiquei dormindo lá, mas minha vida continuou aqui”. Não resistiu e voltou. Até hoje bate ponto no Tijuca, onde exerce o cargo de vice-presidente de Jogos Recreativos, e na praia em frente do quiosque Viajandão na Barra, a saída para o mar da Tijuca. A mulher, Tânia, já está tão acostumada que se matriculou na ginástica do Tijuca. “Lá no Leblon acham que eu fiquei maluca ou que o Gilberto fez macumba para mim”, diverte-se. Gilberto é um tijucano na alma e no paladar. O filé aberto no Lareira, na Barão de Mesquita, o chope no Roquinha, na General Roca, e os bolinhos do Rei do Bacalhau, na Praça Xavier de Brito, são para ele tentações permanentes. Não vai mais ao La Mole “por causa do tumulto”. Por tumulto entenda-se 3 000 pessoas disputando 660 vagas em 165 mesas aos domingos à caça dos pratos mais pedidos – lasanhas (saem 200, a 6,50 reais cada uma) e medalhões com arroz à piamontesa (150, por 15,95 reais). “O La Mole é parecido com a casa da mama”, diz José Maria Correia Freitas, gerente de serviços da filial da Tijuca na Marquês de Valença.

O La Mole também é a mesa da classe média em outros bairros. Na verdade, a Tijuca tem outras singularidades gustativas. Adora doces, por exemplo. Quem sabe uma vantagem do descompromisso com a forma de quem mora longe da praia. A Lecadô vende por mês 7 000 tortas, quase o dobro das 3 600 vendidas pela rede Chaika em duas lojas na Zona Sul e uma na Barra. São 49 opções, mas pede-se a mais a Spumoni, à base de creme de leite, chantilly e leite de condensado, tudo em três camadas coloridas artificialmente. Por falar nisso, a Sendas Tijuca vende todo mês 5 520 latas de leite condensado, bem mais do que as 4 560 vendidas na filial do supermercado em Botafogo, que é do mesmo tamanho. Goiabada, então... são 480 latas por mês em Botafogo, contra 936 na Tijuca. Talvez por isso as amigas Cláudia Pereira de Paula Muffi, 34 anos, moradora de Vila Isabel, e Maria Cristina Cunha, 37 anos, tijucanas, estejam tão animadas com as perspectivas da loja Dunkin’ Donuts que estão abrindo no novo Shopping Iguatemi. As duas trabalhavam no Banco do Brasil e se candidataram a uma franquia da americana Donuts, que faz rosquinhas recheadas de doce de leite e creme, com cobertura de chocolate, que já regalam paulistas e só agora chegam aqui. “O público para isso aqui é muito bom”, confia Cláudia.

O gosto por doces qualquer um entende. Mas o que leva tanta gente para noites de picanha, música e farra no Rincão Gaúcho? Em seu livro Os Últimos Dias de Paupéria, o poeta e letrista Torquato Neto sentenciou: “O tijucano se diverte olhando”. Pois no Rincão, onde uma foto gigante de Tom Cruise de smoking decora o banheiro feminino, ele se diverte fazendo. Nos fins de semana segue-se ao banho de sangue do churrasco um show de Fabiano Straube de Souza, 20 anos, ou só Fabiano. De sua voz saem canções românticas: “Meu estilo é o mesmo do Fábio e do Maurício”, cita com intimidade Fábio Junior e Mauricio Mattar. Quando a letra é em inglês, apela para uma genuína embromation e fica uma hora animando casais que dancam agarradinhos. Depois é a vez de Célia Cavalcanti, que esquenta o salão com boleros e axé music. E, finalmente, entra em cena o performático Marcelo Negrão, a atração mais esperada da noite. Ele canta Parabéns pra Você para os aniversariantes, apimenta com piadinhas torpedos e bilhetes que fulana manda para fulano, arrancando uivos e gargalhadas. A apoteose é a dança da boquinha da garrafa. O advogado Armando Marinho Filho, 45 anos, e sua mulher, Isabel Valente, 36, vão muito lá. “Há dez anos frequentamos o Rincão em média duas vezes por semana”, conta Armando. Eles fazem o itinerário inverso. Moram no Jardim Botânico, têm dois telefones celulares e cruzam o túnel na direção norte. O que prova que ser tijucano não é uma condição geográfica. É um estado de espírito.

19 de fev. de 2016

Tijuca: o túnel, a fronteira final

As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Assim era caracterizada uma das tantas facetas da vida adolescente na Tijuca dos anos 1990 pelo repórter Paulo Reis. A reportagem "Tijuca: o túnel, a fronteira final", foi veiculada no fascículo B/Zine, do extinto Jornal do Brasil, no longínquo domingo 1 de agosto de 1993. Voltado para o público jovem, o B/Zine trazia matérias semanais sobre estilo de vida e comportamento numa linguagem claramente direcionada ao jovem leitor da Zona Sul.

Na matéria em questão, a Tijuca é sublinhada pelo repórter como um bairro "além-túnel", mas que mesmo assim é digno de importância. Entre os tantos motivos de "dignidade", fala sobre as bandas de rock do bairro e as músicas que, compostas e saídas daqui, se tornaram conhecidas Brasil afora (assim como seus autores). Aborda-se também a vocação musical do shopping center (hoje considerado uma galeria) localizado no número 229 da Rua Conde de Bonfim, onde funcionou a danceteria Mamute e hoje abriga uma filial da Igreja Maranata. Era lá onde funcionavam estúdios de gravação, lojas de instrumentos musicais, além da locadora Video Center, a "melhor" em aluguéis de vídeos, games e CDs, com as maiores novidades daquela época.

Já no finalzinho do artigo, comenta-se sobre a chegada do Mc Donald's na Tijuca, por volta de meados de 1993. Embora considerada uma lanchonete bacana para os padrões do início daquela década, o Mc Donald's enfrentou resistências do tijucano por sua nada velada preferência pelo Bob's. Isso se confirma na fala de João Emídio, adolescente de 15 anos, quando aponta que "o único defeito do Mc Donald's era não ter milk shake de ovomaltine", carro-chefe do Bob's até os dias atuais.

Embora esta reportagem provavelmente tenha sido escrita por um estagiário ou jornalista iniciante, dado o caráter juvenil do fanzine, há uma menção histórica importante ali: a que fala sobre os adesivos I'm Tijuca distribuídos pelo Mc Donald's no momento de sua inauguração na Barão de Mesquita. O adesivo é, sem sobra de dúvidas, uma peça rara, difícil de achar ou até mesmo comprar. Por outro lado, encontrei o dito cujo há alguns meses colado resistentemente ao vidro da janela de um apartamento na pequenina Rua Piracicaba, entre Visconde de Figueiredo e Conselheiro Zenha. Um verdadeiro exemplar do orgulho tijucano incorporado ao slogan imperialista do Mc Donald's. Raro. Veja esta edição do JB na íntegra aqui: https://news.google.com/newspapers?nid=0qX8s2k1IRwC&dat=19930801&printsec=frontpage&hl=pt-BR.

B/Zine, Jornal do Brasil, p. 10, 01/08/1993. 
Tijuca: o túnel, a fronteira final
Por Paulo Reis
Tem um túnel, o Rebouças. Ele é o elo perdido. De um lado, está a Lagoa, Ipanema, a Chaika, os shoppings e essas coisas que todo mundo conhece. Do outro lado, meu filho, está a Tijuca. Sabes lá o que é isso? Pois vamos explicar. Naquela imensa São Paulo, que começa na saída do Rebouças e sobe pelo Alto da Boa Vista, se esconde uma rapaziada pra lá de boa. Mas eu já sei, você não me engana. Já torceu o nariz e pensou: o máximo que pode sair da Tijuca é o Álvaro Valle. Caro amigo, você está desinformado. Não dá para esquecer que o peso-pesado do soul, Tim Maia, veio daquelas bandas. Que o Benjor inventou o sambalanço com guitarra lá. E que a Festa de Arromba do tremendão Erasmo e do Rei Roberto também foi por ali. Nos anos 80, a Tijuca botou no mundo um peixe pequeno do rock Brasil: Picassos Falsos. E Ed Motta ainda vive naquelas plagas. Acredita agora na importância da Tijuca, papudo? 
Ser tijucano é ser avant garde. É assim com Marcia Gonçalves, 28 anos, editora do fanzine BACKSTAGE. Respeitado no meio editorial, o zine tem all access em todos os grandes shows internacionais. Marcia acha que ser tijucano é muito bom. "Na Tijuca tem a melhor locadora de CDs e vídeos do Rio, a Video Center. Lá tem todas as novidades das lojas de fora. Só não existem lugares para shows de rock", fala Marcia. Ela sempre viveu na Tijuca e acha "muito muito legal não ser da zona sul". 
Se um skatista antes tinha que pegar o 415 para ir à pista do Rio Sul, hoje não precisa mais. O que não falta são picos para fazer manobras. Rodrigo Tavares, 14 anos, acha a Tijuca "muito irada, porque tem muita gente legal". Ele frequenta o point da Praça Xavier de Brito ou embaixo do viaduto do Maracanã. O grito de guerra é: "Maior cabeção. Tijucano até a morte!", avisa. 
Lá tem até estúdio. Os ex-Picassos Gustavo Corsi e Abilio Azambuja se juntaram ao Ivo Ricardo e fundaram o estúdio Pad e a loja Musix. Sabe onde? No shopping da antiga danceteria Mamute. Veja detalhes no texto abaixo. 
Estúdio, hambúrgueres, garotas: e o que você quer mais, amigão? 
Mas não é só de banda de garagem que vive o estúdio Pad. Tony Platão, Tânia Alves, Celso Blues Boy e a turma da Rio Sound Machine também ensaiam por lá. "A gente montou o estúdio porque tem muitas bandas aqui. E criamos a loja de instrumentos para facilidade de quem ensaia. Quando precisar de uma corda, é só atravessar o corredor", diz Gustavo. No futuro, os três músicos vão criar uma escola. "Três em um com garantia de qualidade", avisa Ivo. 
Cruzando pelo bairro, você dá de cara com o melhor sebo de quadrinhos da cidade, o Gibi Center, e também com a melhor loja de aluguel de CDs, a Video Center. Essa loja, que vive lotada, vende vídeos, games e CDs. Ana Elizabeth, uma das sócias, conta: "A loja atende em média 400 adolescentes por dia. São quase dez mil inscritos". Na loja de discos Sub Som, não é diferente. A gerente Inês diz que "o que mais sai são pesados e progressivos". 
As menininhas tijucanas passeiam pelo calçadão da Saenz Peña num doce balanço a caminho da C&A. Rafaela Stern, 10 anos, e Mariana Lang, 11, acham que "a Tijuca tem tudo e que ninguém precisa sair do bairro para se divertir. A não ser para ir à praia da Barra", dizem. 
Mas, então, o que falta na Tijuca? Uma "lanchonete que não seja poeira". Faltava, pois o Mc Donald's abriu há pouco mais de um mês e, para comemorar a data de inauguração, distribuiu um adesivo de carros com os dizeres: I'm Tijuca. Era só o que faltava. O exigente João Emídio, 15 anos, ainda quer mais. "O único defeito do Mc Donald's é não ter milk shake de ovomaltine", lembra, enquanto deixa escorrer a baba do sundae. Tijucano é assim mesmo. Nunca está satisfeito. 

14 de jan. de 2016

Com tijucano não se brinca

Artur Xexéo (Reprodução: Internet)
Em 2002, o jornalista Artur Xexéo provocou a discórdia entre os tijucanos ao publicar em sua coluna do Jornal O Globo certa hipérbole quanto à criminalidade que assolava o bairro:

[...] Dizem que vivemos numa guerra civil. Não é bem assim. Numa guerra civil, como em qualquer guerra, sempre há a possibilidade de um armistício. Ou de a guerra acabar. Mas qual é a chance de o conflito que envolve cidadãos do Rio de Janeiro ter um fim? No Rio, só se vai a festas com a garantia de segurança. Ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficante de um dos morros que cercam a Tijuca. 
XEXÉO, Artur. Vivendo numa cidade entregue a Deus. Festa com comboio protegido por seguranças? Está ficando cada vez mais difícil ser carioca. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 28 ago. 2002.

Para quem não se lembra do contexto da época, um refresco:


O Globo, 20 ago. 2002
Naquela época, a Tijuca viveu episódios violentos de grande repercussão por causa da disputa pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Só em agosto de 2002, o comércio do bairro foi fechado duas vezes a mando dos líderes de facções criminosas presentes nas favelas da região. No dia 20, os comerciantes da Praça Saens Peña foram obrigados a paralisar suas atividades em luto forçado por traficante do Morro do Salgueiro morto pela PM. Dez dias antes, foi a vez das lojas da Muda e Usina, entre as ruas Medeiros Pássaro e Uruguai, baixarem suas portas por condolências a outro criminoso morto durante tiroteio com policiais no Morro da Formiga.

Assaltos, arrastões e balas perdidas também fizeram parte do cenário do bairro por pelo menos uma década. No entanto, para os tijucanos, a imprensa era injusta ao noticiar tais fatos de violência como peculiares unicamente à Tijuca, e não à cidade como um todo. Por muitos anos, ficamos estigmatizados como o único "bairro do perigo" na cidade - também chamavam-nos de "bairro decadente" - por culpa da opinião pública. Xexéo não ficou imune às críticas dos tijucanos, que, bairristas, trataram de defender seu torrão. Os depoimentos foram gentilmente publicados na coluna da semana seguinte:

[...] Acho que exagerei. Outro dia escrevi aqui que "ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficantes de um dos morros que cercam a Tijuca". As queixas não tardaram. "Desta vez você falou besteira. A despeito da barbárie que isso significa, aconteceu apenas uma vez", assinala Paulo Roberto Granja. 
"Nós, moradores deste bairro, não temos conhecimento de que uma vez por semana o comércio da Praça Saens Peña fecha. Só se é aos domingos! Fique sabendo que esta foi a primeira vez que isto aconteceu. De outra vez foi na Rua Conde de Bonfim, perto do Borel, e não em toda a Conde de Bonfim como pensa quem lê os jornais. Seria interessante que você viesse ao nosso bairro que é tão violento quanto qualquer outro do Rio ou de outras cidades do Brasil, mesmo acompanhado de seguranças para sua maior tranquilidade, para comprovar que as pessoas aqui levam uma vida normal, andam de ônibus, vão às lojas, aos shoppings e, logicamente, saem menos à noite como em todos os demais bairros. Parece que só aqui existe violência, mas leio diariamente notícias sobre assaltos e outros crimes em vários bairros como Botafogo, Barra, Recreio, Copacabana, embora a imprensa não dá o mesmo destaque", reclama Eugenia Szoor. 
"Como o senhor pode dizer uma coisa dessas? Só porque ouviu nas duas últimas semanas essa notícia, já condenou a Tijuca para o ano inteiro? O senhor sabe muito bem quais são os cariocas mais bairristas do Rio: os moradores da Ilha do Governador, os tijucanos e, apesar de tecnicamente não serem do Rio, os icaraienses. Então, como tijucano, solicito que esclareça em sua coluna que não foi bem isso o que queria dizer", exige Roberto Oliveira. Moral da história: com tijucano não se brinca. Portanto, não foi bem isso o que eu queria dizer.

XEXÉO, Artur. Os excluídos do cabelo duro. Como não dormir de touca e enfrentar tijucanos ofendidos. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 1 set. 2002.

Segundo Caderno, O Globo, 1o set. 2002.

Os e-mails e cartas não pararam, fazendo com que o assunto rendesse por mais de duas semanas. Xexéo reservou parte de sua coluna do dia 8 de setembro de 2002 para publicar, daquela vez, o relato de um tijucano que, diferentemente dos outros, ratificava a perspectiva levantada pelo jornalista no estopim da história. O título dessa coluna era sugestivo, "Entre tijucanos e insulanos", trazendo, ainda, comentários sobre o então recém-lançado filme "Cidade de Deus":

A Tijuca é mesmo uma caixinha de surpresas. Foi só eu voltar atrás e acabar admitindo que o bairro não é tão violento quanto pintam, para aparecerem os tijucanos que não acham nada disso, muito pelo contrário. Fala que eu te escuto, Reynaldo Tavares: 
"Desculpe-me abordá-lo com um tema já comentado, porém, como tijucano, com dois filhos no Colégio Marista São José, praticantes de esportes no Tijuca Tênis Clube e que estudam inglês também no bairro, quero dizer que não posso entender a posição de avestruz tomada por meus vizinhos e citada por você em sua coluna de domingo, pois tudo que você escreveu ainda é pouco para descrever o calvário em que vivemos no bairro. Quando dizem que a vida está normal pois continuam andando de ônibus, eu digo: e sendo assaltados! A Praça Saenz Peña é, sim, uma praça de guerra até o anoitecer, pois no acender das primeiras luzes é tomada por ambulantes agressivos e protegidos por algum tipo de poder paralelo, pois nada os assusta nem lhes causa respeito. Você não aumentou nada. O inferno é aqui e agora". 
Vocês são tijucanos, vocês que se entendam. Eu tô fora. No Bairro Peixoto. 
XEXÉO, Artur. Entre tijucanos e insulanos. Uma galinha no caminho da crítica a 'Cidade de Deus'. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 8 set. 2002.

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Opinião de O PASSEADOR TIJUCANO:

O que vou falar não é novidade para nenhum tijucano, mas apenas a confirmação - somos bairristas e contraditórios. Apesar da violência ter atingido toda a cidade, de 1990 a 2007 a Tijuca foi o bairro de classe média do Rio de Janeiro mais simbolicamente atingido pela falta de segurança pública. O depoimento da primeira leva de leitores reflete a principal faceta do tijucano, a de que só quem tem o direito de falar mal ou de se referir negativamente à Tijuca são seus próprios moradores. Todas as informações que, porventura, firam a imagem do bairro são atenuadas e contra-argumentadas por meio de suas palavras. Isso fica muito claro.

O leitor da última coluna, que corrobora com a perspectiva de Xexéo, aprofundando-a conforme sua experiência enquanto espectador (e participante) desse cenário, já representa o time dos bairristas "lúcidos". Observem que antes de dar o recado, Reynaldo Tavares enumera todas os hábitos que o legitimam como um "verdadeiro tijucano" para aí, sim, criticar aquele território onde está inserido e que o pertence.

De todas as formas, Xexéo estava certo: com tijucano não se brinca.

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Feliz 2016!

3 de out. de 2015

Tijuca anda de metrô, aprova e aplaude o Presidente: impressões do dia 27 de maio de 1982

Estação Saens Peña do metrô, em 1982: inauguração com euforia, festa e aplausos ao Presidente militar.

A euforia e a comoção tomaram conta da Tijuca no remoto dia 27 de maio de 1982, quando o metrô finalmente era inaugurado no bairro após sete anos de obras caóticas. Na época, o Jornal do Brasil fez uma cobertura completíssima contando em detalhes sobre a grande festa que se evidenciou no bairro naquela ocasião. O trecho Estácio-Tijuca, conformado pelas estações Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saens Peña, foi entregue durante a gestão do Governador Chagas Freitas e inaugurado pelo então Presidente João Batista Figueiredo, que veio direto de Brasília para a festa de abertura.

Na Praça Saenz Peña, foi instalado um palanque onde o Presidente, o último do regime militar, discursou emocionado sobre seus tempos de juventude na Tijuca. Embora criado em São Cristóvão, Figueiredo anunciou a todos ter sido aluno do Colégio Militar e frequentador do Cine América, tendo, inclusive, contraído matrimônio com uma tijucana, dona Dulce, falecida em 2011. O Jornal do Brasil publicou o discurso na íntegra, como vocês poderão ler mais abaixo. Na edição do O Globo do mesmo dia, conta-se que após a solenidade, o Presidente Figueiredo aproveitou a estada na Tijuca para visitar um antigo amigo de seu pai em sua residência na Rua Martins Pena.

Um dos pontos altos desta extensa reportagem se refere às impressões dos tijucanos a respeito da chegada do metrô. Reflexo, talvez, do conservadorismo tão peculiar impresso à figura dos moradores da Tijuca, os repórteres relatam que muitos preferiram tomar o ônibus naquela quinta-feira de outono alegando “insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que o metrô não funcionasse tão bem quanto se falava”. Já aqueles que experimentaram andar de metrô logo no seu primeiro dia de funcionamento na Tijuca, foram retratados pelo JB como pessoas nada cosmopolitas – vide o caso de uma mulher que, ao ouvir o apito que antecedia o fechamento das portas, soltou um berro, tropeçando ao entrar no trem e causando rebuliço.

O entusiasmo das “donas de casa” da Tijuca se misturou ao dos estudantes e de outros espectadores do evento, que entoaram gritos de “Mengo, Mengo” e também do America Football Club. A festa contou também com balões, gente trepada no telhado e nas marquises, a presença de toda a classe política da época e do Cardeal Eugênio Sales, que benzeu a estátua de São Francisco Xavier na estação homônima. Na Praça Saenz Peña, cartazes agradeciam pelo término das obras, enquanto os moradores do Andaraí, “sempre esquecido” (segundo a faixa produzida por eles), reivindicava a integração do bairro com o metrô. Enquanto isso, o Governador Chagas Freitas informava que após a conclusão do trecho Inhaúma-Pavuna, da Linha 2, o Estado começaria a pensar "concretamente" sobre a conexão da Tijuca com o Leblon através do anel metroviário.

No meio de toda essa confraternização, o Jornal do Brasil traçava o perfil de Chico Alencar, o jovem presidente da extinta Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra), destacando-o como líder promissor e muito querido na Tijuca. Chico, hoje deputado federal pelo PSOL, afirmava residir na Rua Henrique Fleiuss, e no momento de inauguração do metrô já havia lançado o livro “A História da Sociedade Brasileira” (Editora Ao Livro Técnico). Em depoimento aos repórteres do JB, na contramão do puxa-saquismo dos moradores diante das autoridades políticas presentes na Saenz Peña, Chico alegou que os operários do metrô estavam segregados do público e que deveriam ser mencionados como forma de agradecimento a eles pelo trabalho prestado.

Na estação de Botafogo, antigo terminal da Linha 1, o letreiro indicava a Praça Saenz Peña como destino.

Jornal do Brasil, pp. 4-5, 28/05/1982.
Tijuca anda de metrô e aprova
Por Bruno Thys, Gloria O. Castro, Luiz Fernando Gomes, Paula Motta, Samuel Wainer Filho e Sandra Chaves
- Você viu só? – queixou-se uma senhora bem vestida ao saltar na estação Saens-Peña ontem às 18h05m, voltando do Centro. “Tive de empurrar aquele homem que estava parado na porta, segurando em cima, como se estivesse no trem da Central”, dizia ela para uma amiga. Na hora do rush de volta da cidade, o metro não chegou à Tijuca superlotado. Teve movimento regular para o primeiro dia de operações, que começou às 14h30min.

- Muita gente não deve ter usado o metro com medo de que estivesse supercheio – disse Sueli Farias, tijucana “desde antes de o metro esburacar a Praça Saens-Peña”. Ela e sua colega de trabalho, Lola Henriques, tomaram o metrô na estação Presidente Vargas – trabalham no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, na Presidente Vargas – e voltaram para casa depois do expediente, economizando Cr$ 15. A passagem de ônibus é Cr$ 40, e a volta de metrô custou Cr$ 25.

A economia, porém, Lola acredita que vá diminuir com um possível aumento que ela teme que seja anunciado em breve: “As passagens devem aumentar sim, porque com essas novas estações funcionando, eles vão precisar de mais dinheiro”.

Manuel Eduardo da Silva, que trabalha na Rua México, nem pensou duas vezes para tomar o metrô na Cinelândia na volta à casa. “É bem mais rápido”, disse, “quando decidi voltar de metrô não levei em conta a economia que faria, e sim a comodidade do transporte mais eficiente”.

A comodidade, o conforto, a novidade de um meio de transporte que oferece velocidade, ar condicionado, pontualidade e que já cobre uma extensão que vai da Zona Sul (Botafogo) à Zona Norte (Tijuca) levaram muitas pessoas a utilizar o metrô.

Uma viagem de metrô da estação Botafogo à Saens-Peña demora, em média, 23 minutos. Quando não há paradas mais demoradas, a viagem pode durar 21 minutos, como a feita ontem, saindo às 17h45m de Botafogo e desembarcando na Saens-Peña às 18h06m.

O maior fluxo de passageiros continua sendo da cidade em direção à Estação da Central do Brasil, quando o trem quase se esvazia, permitindo às pessoas que seguem, encontrar lugares vagos nas poucas cadeiras.
Ônibus continua cheio porque o novo assusta

Três motivos principais levam as pessoas a enfrentar um ônibus lotado, tráfego e uma viagem de quase 1 hora, quando poderiam se utilizar do metrô: insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que não funcione tão bem quanto se fala.

Foram estas as razões principais dos viajantes no ônibus da linha 409 (Jardim Botânico-Praça Saenz Peña) que saiu às 18h do ponto próximo à estação do metrô de Botafogo e chegou ao seu ponto final na Praça Gabriel Soares, um pouco depois da estação da Saenz Peña, às 18h50min, com o número de passageiros habitual.

Justificativas

Muito sorridente, enormes brincos de ouro e unhas pintadas de vermelho. Maria Aparecida Gomes, de 37 anos, trabalha como manicure particular na Zona Sul e mora na Conde de Bonfim. Achando muita graça em suas próprias palavras, explica as razões de não ter usado o metrô:

- O Presidente inaugurou hoje né? Eu não peguei o trem porque não estou acostumada e não quero fazer feio. Um dia desses, quando eu não estiver muito apressada, vou dar um pulinho na estação só para ver como funciona. Com coisa nova eu não nego a minha raça. Faço como os matutos do interior. Primeiro dou uma sapeada e depois então eu uso como se andasse sempre.

A maioria dos passageiros não se deu conta de que a inauguração das estações da Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saenz Peña, havia sido ontem. A cobradora do ônibus, Eunice da Conceição Pinto, disse que o movimento se mantinha igual aos dias anteriores.
Alguns, como o auxiliar de filmes e da TV Globo, Antônio Luís Santos, não usam o metrô “por causa da baldeação”. Ele justifica sua opção pelo ônibus alegando que “é o mesmo preço do metrô e assim eu só pego duas conduções. Se eu usasse o trem teria de pegar três conduções”.

Falando com a autoridade “de quem conhece seu ofício”, a cobradora Eunice sentencia: “Depois que o povo se acostumar com o metrô eu vou ter menos trabalho”.

“Um benefício estupendo”

Dona Gioconda Prado Seixas, moradora da Praça da Bandeira, “em cima do Bemge”, assistiu à solenidade de inauguração do metrô na Tijuca; foi em casa almoçou; tomou banho; trocou de roupas e voltou a tempo de pegar o primeiro trem que saiu da estação Saenz Peña. D. Vera Adelaide, que afirmou ter gostado muito “da autobiografia do Presidente”, também fez a mesma coisa. José Gomes Soares, advogado, que mora na Rua Almirante Cochrane, ao contrário das duas senhoras que usaram o metrô para passear, tomou o primeiro trem para a cidade porque trabalha no Centro. A ida do metrô até a Tijuca foi considerada, por todos, “um benefício estupendo”, como disse José Gomes Soares.

O funcionamento comercial das estações Saenz Peña, São Francisco Xavier e Afonso Pena começou às 14h30min. Para impedir o acesso das pessoas antes do horário, foram colocadas cordas de nylon grossas. Funcionários do setor de Operação vigiavam para que ninguém ultrapassasse a barreira. Na hora da liberação, o aviso dos funcionários para que o povo tivesse calma, não corresse. Tudo correu sem problemas.

O primeiro susto

O grupo de garotos do Colégio Municipal Euclides de Figueiredo (em homenagem ao pai do Presidente João Figueiredo) formado por Roberto 11 anos, Rodrigo, 11, Carlos, 13, Marcelo Alves, 12, Marcelo Henriques, 14, Marcelo Siqueira, 11, e Marcelo Queirós, 11, teve um pouco de dificuldade para passar no torniquete (queriam passar todos ao mesmo tempo e o torniquete só gira para uma pessoa de cada vez). Estavam excitados com a primeira viagem que fariam sozinhos no metrô: “Estamos achando um barato”, afirmou Marcelo Siqueira.

O trem partiu. Quando parou na estação São Francisco Xavier, ouviu-se um grito apavorado de mulher. Muita gente correu para fora do trem. Funcionários surgiram. O trem ficou parado alguns minutos. Mas a mulher apenas se assustara com o apito que antecede o fechamento das portas e tropeçou ao entrar no trem, caindo já dentro do vagão. O trem seguiu viagem.

O primeiro dia de funcionamento do metrô na Tijuca teve até palhaço no trem. Se Sacode, que faz promoção de lojas comerciais e alegra festas infantis, aproveitou a primeira viagem para distribuir os folhetos da loja de roupas para bebês que está divulgando atualmente. “Fazer rir é coisa muito séria”, disse, “ser palhaço é muito triste”, completou.
Ligação com o Leblon será o próximo projeto

Até setembro, as linhas do pré-Metrô deverão chegar a Inhaúma e depois à Pavuna. A informação é do Governador Chagas Freitas, que anunciou:

- Aí, poderemos pensar concretamente na ligação Tijuca-Leblon, através da Rua Uruguai, passando pelo maciço da Tijuca.

O presidente do Metrô, Carlos Teóphilo, muito festejado pela mudança de filosofia de arquitetura das estações do Metrô – optou por acabamento simplificado, ao invés do imponente mármore das primeiras estações – informou que o último acesso da Rua General Roca será entregue no próximo mês.

Teóphilo afirmou que para a melhoria de conforto, no Metrô, faltam apenas alguns trens, que deverão começar a ser entregue em setembro. Isso evitará os constantes problemas de superlotação no transporte.

Tijuca recebe metrô com balões e gente nos telhados

Havia gente nas janelas, sobre os telhados e nas marquisas. Alguns com binóculos. Balões coloridos de gás subiram ao céu, libertos das mãos de colegiais que cercavam o palanque com bandeirolas verdes-amarelas. Uma banda tocou Pra Frente Brasil e o Presidente Figueiredo, emocionado, falou de improviso – fora do programa. Estava oficialmente inaugurado o trecho Estácio-Tijuca da linha 1 do metrô.

A festa contou com a presença de políticos do PDS e do PMDB, mas não foi reivindicada por nenhum Partido. “A festa é do povo”, repetiam os deputados, opinião compartilhada pelo Governador Chagas Freitas. Foram sete anos de espera e de muitos transtornos, que modificaram a vida dos moradores. Fato lembrado, com pedidos de desculpas, em todos os discursos. Terminada a solenidade, a nova Praça Saenz Peña voltou a ser dos velhos, crianças, babás, pipoqueiros. Como antigamente.

Expectativa

A Praça Afonso Pena – primeira etapa do programa oficial – desde cedo foi tomada por centenas de populares que disputavam, aos empurrões, o melhor lugar para ver e cumprimentar o Presidente. Um dos donos da festa e anfitrião, o presidente do metrô, Carlos Teóphilo, foi o primeiro a chegar. Na calçada, recebia os convidados e apresentava a praça reurbanizada com árvores e bancos de concreto.

O horário marcado – 9h30min – foi respeitado pela maioria, mas muitos preferiram chegar mais cedo. Foi o caso do Cardeal Eugenio Sales, do Governador Chagas Freitas (acompanhado de vários secretários), do ex-ministro Eliseu Resende e de seu sucessor no Ministério dos Transportes, Cloraldino Severo, do presidente da Caixa Econômica Federal, Gil Macieira, além das autoridades militares da região.

Enquanto aguardavam o Presidente Figueiredo, permaneceram conversando em pequenos grupos, principalmente sobre política partidária. A indefinição da candidatura do PDS ao Governo Estadual foi tema muito abordado. Uma das rodas mais animadas reunia o Governador Chagas Freitas, o presidente da FAMERJ, Jô Resende, e representantes da Associação de Moradores da Tijuca.

O clima foi quebrado pelo nervosismo e ansiedade dos seguranças da Presidência da República, que momentos antes da chegada de Figueiredo afastavam aos empurrões e gritos quem estivesse no caminho a ser percorrido pela comitiva.

O Presidente, ao contrário – sorridente, apesar de uma visível irritação nos olhos –, chegou cumprimentando a todos, e não se furtou a autografar qualquer papel que lhe fosse oferecido. Acompanhado dos Ministros Leitão de Abreu e Danilo Venturini, Figueiredo foi conduzido para o interior da estação, onde ouviu explicações técnicas de Carlos Teóphilo e descerrou uma placa comemorativa.

Uma composição com seis carros – prefixo 100 – levou todos para a estação São Francisco Xavier, onde chegou às 10h30min – um minuto depois do embarque. Em rápida cerimônia (menos de 5 minutos). D. Eugênio Sales benzeu a imagem de São Francisco que ficará exposta na plataforma da estação, onde foi descerrada outra placa. A sirene apitou, novo embarque. Dois minutos depois, a Praça Saenz Peña.

Festa

Houve a determinação, por parte da segurança, de que todos os convidados e a imprensa saíssem da composição antes da comitiva presidencial. Figueiredo permaneceu no trem, conversando animadamente com Adhir Veloso (Secretário Estadual de Transportes), o Governador Chagas Freitas e o Cardeal Eugênio Sales. Depois, saiu pela plataforma direita, apoiando-se no corrimão, ainda com cheiro de tinta fresca.

No palanque armado à saída da estação, um locutor, pomposamente, narrava cada passo do presidente. Houve ligeiro tumulto quando Figueiredo se aproximou dos populares, que queriam abraça-lo e tocar sua mão. Fazia calor, mas o Presidente trajava terno cinza com colete. Colegiais acenavam suas bandeirolas, enquanto moradores aplaudiam das janelas. Uma revoada de balões de gás marcou o início da solenidade.

O primeiro a discursar foi o Ministro Cloraldino Severo, que com sua voz fina e nervosa não conseguiu atrair a atenção dos presentes: enquanto falava, Figueiredo e Chagas conversavam e atendiam aos que se aproximavam. Foi um discurso longo, técnico e abrangendo outras realizações de sua área.

Depois, foi a vez do Governador do Estado. Chagas Freitas recebeu um princípio de vaia, no início do discurso formal, previamente redigido. Só quando resolveu partir para um improviso, agradecendo aos operários e técnicos do Metrô, e desculpando-se pelos transtornos causados pela obra, conseguiu reverter o clima do público, que, neste instante, passou a aplaudir intensamente.

O locutor anunciou o fim da solenidade, quando populares pediram uma palavra do Presidente que já se preparava para deixar o palanque. Foi um discurso de improviso, bem-humorado e com muita emoção. Figueiredo lembrou dos tempos em que viveu na Tijuca, conheceu Dona Dulce, e das sessões vespertinas do cinema América, quando “vinha buscar uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse”.

Foi muito aplaudido e só recebeu vaias quando reafirmou sua condição de tricolor – mesmo contra a vontade do sogro (americano) e da família predominantemente americana. Não chegou a falar no Flamengo, apesar dos gritos “Mengo, Mengo”, vindos do povo. Eram 11h quando Figueiredo saiu em direção à Gávea Pequena.

Figueiredo recorda infância na Tijuca

“Caros tijucanos. Voltar ou estar no Rio de Janeiro, minha terra natal, terra natal de meu pai e de quatro de meus irmãos. Terra onde iniciei minha meninice no bairro de São Cristóvão. E onde a Tijuca me acolheu aos 12 anos, no Colégio Militar, e me protegeu, até 1963, quando o meu pai morreu e deixou de vir à Praça Saens Peña (...). Cada vez que venho ao Rio recordo as passagens da minha meninice, da minha juventude e de meus dois primeiros filhos. Agradeço a Deus, que veio me fazer também carioca.

Ao voltar à Tijuca, são tantas as recordações, sempre boas, da torcida que fazia contra o América, time da minha família. O América que me deu a minha mulher. Que sempre perdia para o Fluminense, que acabou vencendo o meu coração. Recordo também dos passeios pelas praças Afonso Pena e Saens Peña, das batalhas de confete nas ruas do bairro, das peladas de futebol contra o time do Salgueiro. E como era difícil ganhar deles. E das festas juninas, em cada casa, para festejar meu santo padroeiro, São João.

Confesso que ao desembarcar na Praça Afonso Pena e vir até a Saens Peña, passando em São Francisco Xavier (onde o trem maria-fumaça me deixava aos sábados, vindo de Realengo, para poder ver meus pais, meus irmãos e minha namorada), senti a emoção do menino de 18 anos. Senti o calor da torcida do América, reclamando da minha condição de tricolor, e a voz do meu sogro pedindo para que, se eu casasse com a filha dele, eu passasse para o América. E, ao mesmo tempo, a voz do meu pai, para ser Vasco.

São tantas as recordações que tive e tal foi o carinho com que o povo me recebeu, que insisto em não pensar nos dias de amargura que tive ao acompanhar os trabalhos do metrô ao longo de todos estes anos, que tantos sofrimentos trouxeram à gente do bairro. Anos morosos, porque não dispunha o Governo de recursos que possibilitassem um prazo mais curto para esta obra interminável.

A minha palavra, portanto, hoje, para todos vocês, são dois muito obrigado: o primeiro, pela compreensão por estes anos de sofrimento e de rebuliços que o metrô foi obrigado a causar a vocês. O segundo obrigado, pela recepção carinhosa que me deram, fazendo-me voltar novamente aos meus tempos de aluno do Colégio Militar, em eu vinha buscar nas sessões vespertinas do Cine América uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse. Muito obrigado”.


Praça virou festa e comércio deu brinde

Um brinde para cada cliente em qualquer compra. Só hoje, dia 27. Inauguração do metrô. O cartaz, à porta da Drogaria Venâncio, garantia um vidro de modelador de cabelos aos fregueses e retratava o espírito de festa que invadiu a Praça Saenz Peña já nas primeiras horas da manhã. O metrô contribuiu, espalhando bandeiras brancas, bolas coloridas e um imenso balão que anunciava a chegada do transporte subterrâneo e as transformações sofridas pela Saenz Peña.

Foi um dia fora do normal. Até pouco antes da chegada do Presidente, garis e operários davam os últimos retoques no calçamento de pedras portuguesas. Para entregar a estação na hora marcada, os trabalhos viraram a madrugada, mas houve uma recompensa. Segundo o operário Francisco das Chagas, servente de 24 anos, “é bom a gente ver uma coisa feita pela gente, pronta, e inaugurada pelo Presidente”.

Faixas, havia muitas. “Bem-vindo Presidente Figueiredo”, “Os Tijucanos agradecem ao Governador Chagas Freitas” e “Andaraí sempre esquecido reivindicou integração” – um protesto, quase isolado, pela não inclusão do bairro nas linhas de integração. Apesar do rígido esquema de segurança, muita gente conseguiu furar o bloqueio imposto pelos guardas e se aproximar do palanque.

Muitos seguravam bandeirolas também nas janelas dos prédios onde boa parte dos tijucanos assistiu a cerimônia de inauguração do metrô. Nas ruas, os guardas de trânsito, condescendentes, permitiam tráfego na contramão e até mesmo estacionamento em áreas não permitidas.

Em um canto próximo ao palanque, um grupo de alunos e professores da Associação dos Pais e Amigos de Excepcionais (APAE) comparecia para exigir do Presidente Figueiredo o cumprimento da promessa feita na inauguração da Caixa Econômica Federal para ajudar nas despesas de Cr$ 10 milhões (gasto mensal da entidade). Portavam cartazes em que diziam que Excepcional também é brasileiro e cobravam: O Metrô veio de Botafogo para a Tijuca: e a nossa verba?

Durante a solenidade, além da carta com o pedido da APAE, Figueiredo recebeu outros documentos das associações de moradores e da menina Manoela Pinho de Azevedo Souza, que pediu pela proteção da natureza. Manoela, 12 anos, demonstrou bastante organização: levou várias cópias xerox para distribuir à imprensa. Já Maria da Glória Mendes, 58anos, entregou uma carta que preferiu não divulgar. Chorando muito, disse que era assunto particular. “Essa é a quinta vez que faço isso. E ainda não fui atendida”.

“Chico” usa terno escuro

Um dos personagens mais festejados, ontem, foi o presidente da Amoapra (Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña), Francisco Alencar. Por onde passava, era cumprimentado e abraçado pelos moradores do bairro, que agradeciam a luta da associação em favor da transformação dos terrenos remanescentes do Metrô em áreas de lazer. “Fomos a população que mais sofreu com as obras, durante sete anos” – respondia Chico Alencar, como é conhecido.

Foi a primeira vez em que a Federação das Associações de Moradores recebeu convite para uma solenidade oficial de inauguração. Segundo Jô Resende, “é um reconhecimento ao trabalho que desenvolvemos e que hoje representa uma grande parcela de esforço da população no sentido de conquistar soluções para as nossas próprias necessidades”. Apenas a Amoapra conta com cerca de 100 mil pessoas na sua área de atuação.

Francisco de Alencar – vestido com um terno escuro, pouco comum às lideranças de bairro, “mas imposto pelas necessidades” – lembrou que um abaixo-assinado foi entregue há algum tempo ao Governo do Estado, no sentido de uma rápida conclusão das obras do metrô, com a devolução dos terrenos à comunidade.

- Foi uma vitória do povo, sobretudo pelo direito que adquirimos de acompanhar o destino de nossas áreas de lazer. Em São Paulo, por exemplo, isto não foi feito e os terrenos acabaram vendidos.

Chico lembrou ainda que a reurbanização da praça Saens Peña foi uma vitória dos moradores que a reconquistaram como queriam, modificando o projeto original, “uma forma muito árida, semelhante ao calçadão da Cinelândia”. Por sugestão da Amoapra, foram, ao contrário, plantadas mais árvores, colocados bancos com encosto e o lago foi reconstruído.

- Entretanto, a comunidade vai continuar fiscalizando para que tudo funcione bem – concluiu.

Em uma carta aberta ao Presidente Figueiredo, a FAMERJ e 12 associações de moradores afirmaram que “essa inauguração compensa em parte os seis anos de transtornos e a descaracterização urbana dos bairros, mas não elimina os graves problemas da condução coletiva do Grande Rio, já que a linha 1 serve apenas a uma população que não tem tantas dificuldades quanto a de outras regiões mais carentes”.

E acrescenta ainda a carta que “a maior transformação vivida pela Tijuca não está no progresso material que o metrô traz, nem na piora da qualidade de vida, mas num fato novo, positivo e que vai aos poucos, como semente, fecundando toda a sociedade: as associações de bairro que necessitam ser ouvidas para o progresso e desenvolvimento do país”, concluiu.

Embora aparente menos de 25 anos, Francisco de Alencar Filho – O Chico, presidente da Associação de Moradores da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra) – tem 32 anos de vida e de Tijuca, sempre na mesma rua, Henrique Fleiuss. Profissionalmente é tão bem sucedido quanto na presidência de sua associação: é professor da rede pública e particular (colégios São Vicente de Paulo, Santo Inácio e Eliezer Stemberg) e autor do livro A História da Sociedade Brasileira, com Marcus Vinícius e Lucia Carpi, que desde o lançamento em 79 já vendeu mais de 80 mil exemplares. Casado com Ângela, professora de Português, é pai de Emanuel, de seis meses.

Ontem foi um dia muito especial na vida do tijucano e historiador Chico de Alencar, que “acordou” para a participação comunitária em 1966, com a juventude estudantil católica. “Enquanto o palanque estava lotadíssimo de autoridades, no outro extremo da praça os operários assistiam a tudo em cima dos respiradouros. Eles também deveriam ser mencionados”. Neste momento, o historiador é mais forte e ele recorda a abertura de seu livro: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis...” (Bertold Brecht).

19 de jul. de 2015

Tijuca: subúrbio ou simplesmente Zona Norte?

Praça Saenz Peña: cinemas de rua em funcionamento conferiram à região a alcunha de "Cinelândia da Tijuca".
Créditos: Ignacio Ferreira (1989).

Em edição comemorativa pelo aniversário de 256 anos do bairro, o repórter Mauricio Peixoto do caderno “Tijuca”, que saiu nessa última quinta-feira (16 jul. 2015) no Jornal O Globo, afirmou que os tijucanos gostam de exaltar o passado da região ao relembrarem orgulhosamente “dos cinemas na Praça Saens Peña, a ‘Cinelândia do subúrbio’”. De imediato, o termo “Cinelândia do subúrbio” chamou a atenção dos mais atentos leitores pelo simples fato de que a Saenz Peña, nos tempos áureos do cinema de rua, sempre foi conhecida apenas como a "Cinelândia da Tijuca", ou, mais recentemente, como a "Segunda Cinelândia Carioca" (graças ao livro da ótima Thalita Ferraz), embora nunca como "Cinelândia do subúrbio".

Matéria do O Globo Tijuca, de 16 jul. 2015
A questão é que existe uma ideia equivocada de que toda a Zona Norte carioca seja sinônimo de subúrbio, senso comum que motivou o repórter de O Globo a adjetivar a extinta cinelândia do bairro como "suburbana". Eis, então, a "polêmica", porque a Tijuca não é considerada oficialmente um bairro do subúrbio. E antes de defender esse argumento, é preciso reconhecer de cara que se trata de uma polêmica digna de qualquer tijucano que a defenda ser xingado de separatista, metido, arrogante, elitista etc. pelo restante da Zona Norte. Mas há fundamentos científicos que embasam essa afirmação, sustentados pela própria Prefeitura do Rio de Janeiro.

Grosso modo, todo subúrbio carioca é necessariamente parte da Zona Norte, mas há bairros da Zona Norte que não são tidos como subúrbios – como, por exemplo, Tijuca, Vila Isabel, São Cristóvão, entre outros bairros vizinhos. Por outro lado, esse entendimento, além de específico, também deveria ser visto como ultrapassado. Isso porque, no dicionário, subúrbio significa “arrabalde ou vizinhança da cidade ou de qualquer povoação”, o “território extramuros da cidade”. Porém, hoje em dia, os bairros “suburbanos” do Rio dispõem de uma conotação muito mais pejorativa e ideológica do que geográfica, já que, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) de 2010, o Rio de Janeiro e sua região metropolitana tem grau de urbanização que já alcança valores percentuais na faixa de 99%. Ou seja, não existem mais subúrbios na acepção da palavra: são todos bairros urbanizados e integrados com a cidade.

Para o caso da Tijuca - e retomando um pouco a história urbana carioca -, o apelido inventado pelo repórter, de “Cinelândia do subúrbio”, é inconsistente porque a região nunca chegou a se consolidar propriamente como um subúrbio da cidade dada a sua contiguidade espacial ao Centro do Rio. O processo de urbanização se expandiu rapidamente da região central, a partir do século XIX, para a Tijuca (na época, Engenho Velho), São Cristóvão e Botafogo, conformando, desse modo, uma única mancha urbana desde o início do século XX. Todos esses bairros citados fazem parte do rol dos mais antigos da cidade em relação àqueles de ocupação residencial, melhorias urbanísticas e integração viária na circunvizinhança do Centro.

As lojas e cinemas da Praça Saens Peña, nos anos 1950 (reprodução de livro).

O CONCEITO CARIOCA DE SUBÚRBIO

Subúrbio, no Rio: conceito ideológico
O livro “O rapto ideológico da categoria subúrbio” (Editora Apicuri, 2011), do professor de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Nelson da Nóbrega Fernandes, mostra um apanhado histórico dos antigos subúrbios cariocas a partir do ano de 1858 indicando que, em mapas oficiais da cidade e em outras documentações consultadas, subúrbio, poderia ser tanto o Méier, Madureira e Inhaúma, como os bairros de Copacabana, Ipanema e Gávea, hoje considerados nobres, da Zona Sul. Isto é, se tratavam de regiões adjacentes à zona previamente urbanizada, como o Centro e os bairros ao seu redor citados anteriormente, caracterizando-se, portanto, como regiões suburbanas no sentido literal.

Nos Estados Unidos e na Europa, onde o processo de urbanização das cidades foi pioneiro, o subúrbio, em geral, foi e continua sendo o espaço destinado às elites e classes médias – que para lá se refugiaram contra os aglomerados urbanos insalubres e perigosos da época das indústrias. São lugares bucólicos, ajardinados e de casas confortáveis. Até o início do século XX, essa acepção de subúrbio também se aplicava ao Rio de Janeiro. Segundo Fernandes, o subúrbio era o local de nobreza – não tão chic como Botafogo ou o Engenho Velho, bairros da aristocracia, como ele próprio sentencia –, mas com serviços voltados a essa classe, que também se dirigiam para lá com fins de descanso.

Segundo o autor, teria sido a partir da reforma urbana do prefeito Pereira Passos, em 1903, quando o conceito de subúrbio ganhou contornos mais ideológicos e pejorativos no contexto do Rio de Janeiro. Com a implantação de uma nova ordem urbana no Centro da futura metrópole, associada também à expansão do mercado imobiliário para as classes altas à beira-mar, o proletariado do Centro foi “expulso” para os subúrbios, passando a ser vistos como locais estratégicos de escoamento dessa população marginalizada para bem longe do Centro “civilizado”. Para Fernandes, não houve uma política de moralização da classe trabalhadora nesse processo, o que favoreceu a emergência do caráter pejorativo que o termo “subúrbio” emana no cenário carioca. Em outras palavras, o lugar “sem classe”, desvalorizado, de mau gosto.

TIJUCA, UM BAIRRO GENUINAMENTE NOBRE 


O bailado (e vestimenta) dos tijucanos,
por Olavo Bilac, em 1906
É com base no conceito carioca de subúrbio como remetente à ideia de locais habitados originalmente por classes socioeconômicas menos privilegiadas onde podemos constatar que a Tijuca e sua região, em termos históricos, geográficos e especialmente ideológicos, não pode ser considerada um subúrbio da cidade, mesmo fazendo parte da Zona Norte, onde se localiza grande parte dos originais subúrbios na atualmente. Primitivamente aristocrática, a Tijuca, nos seus primórdios, foi um bairro bastante valorizado, berço de famílias tradicionais e de uma classe média com bom poder aquisitivo que, mesmo com o êxodo dos anos 1990, continua caracterizando o perfil social da região mesmo nos dias de hoje.

Na obra clássica “A evolução urbana do Rio de Janeiro” (IPP, 2008), do também geógrafo Mauricio de Almeida Abreu, diz-se que entre 1870 e 1902 só morava fora da área central “quem podia se dar ao luxo” de arcar com os custos dos terrenos da Glória, Botafogo e Tijuca. Abreu cita também o papel dos bondes no desenvolvimento de bairros da Zona Sul e da Zona Norte, ou, em suas palavras, “os ricos bairros de chácaras da zona norte, como Tijuca e Andaraí” (p. 45).

Gilberto Velho, no estudo antropológico “A utopia urbana” (Editora Zahar, 1989), dos anos 1960, faz uma análise da estrutura social do bairro de Copacabana mostrando que considerável parte dos moradores que se mudaram para lá eram originalmente tijucanos. Em outras palavras, a construção de um bairro voltado para a elite, como foi o caso de Copacabana no início do século passado, favoreceu a migração de elites de outras partes da cidade, como a Tijuca, para esse novo “paraíso” imobiliário, cheio de signos e estilo de vida vistos como superiores.

Em “A invenção de Copacabana” (Editora Zahar, 2013), de Julia O’Donnell, é comentado que os jornais de bairro que circulavam em Copacabana por volta dos anos 1920 tinham grande articulação com os congêneres que circulavam entre a comunidade tijucana, mais especificamente a do Tijuca Tênis Clube, e a de Icaraí, em Niterói, por concentrarem uma elite com interesses comuns aos da de Copacabana. Nesse mesmo livro, O’Donnell fala que a “invenção de Copacabana” não só como local de residência burguesa, mas também lugar de passeio, sociabilidades e comensalidades, colocou aquele bairro lado a lado com a Tijuca em termos de lazer; segundo ela, a Tijuca era “um dos destinos privilegiados para os piqueniques na capital” nos anos 1920.

Em livro de Cynthia Campos Rangel derivado de sua dissertação de mestrado defendida no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ), “As Copacabanas no tempo e no espaço” (Observatório das Metrópoles, 2003), a região da Tijuca é categorizada como “Zona Norte nobre” na pesquisa em diferenciação socioespacial e hierarquia urbana da autora:

A Zona Norte nobre inclui os bairros da Tijuca, Vila Isabel, Andaraí, Grajaú, Alto da Boa Vista e Maracanã. Trata-se de uma área tradicional da cidade, onde ainda residem membros das classes superiores de nossa sociedade. Apesar da ausência de praia, importante símbolo de status carioca, os seus moradores e os que para lá pretendem se mudar, provenientes de outros bairros da Zona Norte ou do subúrbio carioca, apresentam um perfil elitizado (p. 57).

Destaca-se, nesse trecho, a diferenciação apontada pela autora entre Zona Norte e subúrbio, pontuando que os dois termos podem constituir noções distintas de localidades geográficas, detalhe que muitos cariocas ignoram, como o repórter de O Globo.


ZONA NORTE, ZONA SUL, SUBÚRBIO: HIERARQUIAS URBANAS

Para Gilberto Velho, a “divisão de zona sul, central, norte e suburbana tem forte conteúdo ideológico e subjetivo, formando um mapa social onde as pessoas se definem pelo lugar em que moram” (trecho citado na obra de Nelson Fernandes, p. 38).

Um bom exemplo que ilustra esse mapa social e a adoção cautelosa (senão temerosa) de denominações geográficas sobre os bairros é o caso da Barra da Tijuca. Considerada um subúrbio da cidade na acepção da palavra, no cenário carioca, entretanto, a Barra é vista como uma “periferia de alto status” por não dispor de feições morfológicas tampouco índices socioeconômicos semelhantes aos bairros tidos como “suburbanos”, como afirma Nelson da Nóbrega Fernandes em sua obra. Além disso, a ideia de "subúrbio", como já foi mostrado, infelizmente carrega um grande teor depreciativo, concepção que seria pouco atraente para os negócios e anúncios do aquecido mercado imobiliário da Barra e Recreio dos Bandeirantes caso estes fossem difundidos cotidianamente como bairros suburbanos pela população e, sobretudo, pelos empresários do ramo.

O mapa do Rio de Janeiro, da esquerda para a direita: periferia distante, periferia imediata (subúrbios) e o núcleo. Reprodução: ABREU, Mauricio. A Evolução Urbana do Rio de Janeiro (IPP, 2008).

Áreas de Planejamento do Rio de Janeiro, segundo o Plano Diretor: Tijuca e Vila Isabel pertencem à área
de planejamento 2, junto com bairros da Zona Sul, por afinidades socioeconômicas e perfil semelhante
da ocupação do solo. (Reprodução: Blog Mapa Ambiental)

Mauricio de Abreu, em “A evolução urbana do Rio de Janeiro” (IPP, 2008), assinala diversas vezes os limites entre núcleo e periferia incluindo sempre, por todas as questões já levantadas nesta publicação, a região da Tijuca no “centro”, ou seja, dentro do núcleo econômico. Em livro a ser lançado em agosto de 2015 pelo instituto de ciência e pesquisa Observatório das Metrópoles, da UFRJ, sobre as transformações na ordem urbana do Rio de Janeiro entre 1980 e 2010, vê-se que, em relação à organização social do território, as regiões administrativas da Tijuca e de Vila Isabel são categorizadas como de perfil superior no mercado imobiliário da cidade e que, tal qual Abreu apontou no estudo da evolução urbana do Rio, ambas continuam pertencendo ao núcleo econômico da cidade, conforme dados do último Censo Demográfico. 

De uma forma geral, o que todos esses autores indicam é que, muito embora a denominação da cidade por zonas seja uma construção social, existem questões históricas e geográficas que precisam ser levadas em conta na hora de se chamar um lugar ou outro de subúrbio. Por esse motivo que a região da Tijuca não pode ser denominada como suburbana, apesar de, incontáveis vezes, pontuar essa diferenciação – isto é, entre ser Zona Norte ou subúrbio – acabe necessariamente resvalando em questões muito mais de se querer expor uma divisão de classes sociais do que em questões histórico-geográficas do Rio de Janeiro.

Os cientistas sociais utilizam essa diferenciação entre Zona Norte e subúrbio como categorias para se analisar as desigualdades sociais no território, embora existam outros contextos e agentes que podem acabar reproduzindo tais designações geográficas com fins de pormenorização das hierarquias sociais entre os bairros, e, em muitas ocasiões, de maneira pedante. Como atualmente a grande mídia tende a massificar tudo que está para "além" do Túnel Rebouças, há uma tendência de se chamar, eventualmente, a Zona Norte inteira de subúrbio, principalmente porque grande porção do núcleo econômico da cidade está situado à beira-mar, diferentemente da Tijuca, que se trata de um bairro continental. 

22 de mai. de 2015

Praça Xavier de Brito: "Casa-Grande & Senzala"?

Reproduções patriarcais na Praça Xavier de Brito: casa grande e senzala? (Foto: Emerson Guimarães)

Na manhã de hoje, recebi de um amigo o link para o texto "Severino, me ajuda", de autoria da jornalista Pollyanna Brêtas, que escreve para a Le Monde Diplomatique Brasil. No seu relato, em forma de crônica, Pollyana utiliza como pano de fundo a Praça Xavier de Brito, na Muda, para compor a crítica central da sua observação: a reprodução de comportamentos sociais, naquela praça, que aludem à imagem de casa grande e senzala filosofada pelo sociólogo Gilberto Freyre em seu livro homônimo de 1933. Segundo a autora, à sombra de flamboyants, os meninos, todos negros ou mulatos, puxam cavalos para deleite do ‘senhozinho’. A sociedade patriarcal brasileira está ali sintetizada sem que ninguém se dê conta. As crianças dos dois lados são exploradas.
Nesse artigo, a autora elucida os bastidores do fantástico e pueril parque de diversões da Tijuca, que, diante de tantas belezas e atrações tradicionais, como o passeio de charrete, por vezes tende a velar o árduo trabalho de crianças negras e mulatas – em geral, pobres e moradoras de favelas – que, num domingo de sol, quando deveriam estar se divertindo tais quais às crianças “brancas” da classe média na pracinha, por outra perspectiva, também estão lá, mas para servir a estas e a seus pais que contratam o serviço dos corcéis.

Leia o artigo de Pollyanna Brêtas na íntegra: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1878

A sensibilidade de Pollyanna Brêtas não foi única. Em julho de 2013, o internauta Emerson Guimarães publicou uma foto da Praça Xavier de Brito, de sua autoria, na página Lente Tijucana do Facebook com a seguinte legenda: “Xavier de Brito... Alegria e tristeza andam juntos”. Tal imagem, que ilustra a portada deste post, mostra dois adolescentes negros puxando outros dois cavalinhos que transportam, aparentemente, irmãs gêmeas, bem pequenas, e “brancas”. A foto, bastante contemplativa, abre margem para reflexões sobre nossas questões sociais que conjugam consideravelmente com a imagem de casa grande e senzala apontada por Brêtas, na Le Monde Diplomatique Brasil deste mês.

Quem é leitor de O PASSEADOR TIJUCANO sabe bem que a Praça Xavier de Brito é a minha predileta na Tijuca. O lugar, bucólico, cheira à nostalgia, é lindo e ultimamente tem sido ponto de encontro para diferentes lazeres e serviços, como o Faz na Praça e a feirinha orgânica, que acontece todos os sábados. No entanto, a reflexão de Brêtas chega em hora boa como uma inestimável contribuição para todos os frequentadores e moradores dessa belíssima praça: uma vez que não depende exclusivamente de nós mesmos modificar determinadas estruturas sociais, no entanto, pelo menos devemos estar mais atentos à forma como esses meninos são tratados nos dias em que há passeios de cavalo por lá. Mais gentileza e mais educação a eles não são suficientes para “aliviar” suas condições, embora representem o ponto de partida para o estabelecimento de uma relação menos desarmoniosa e menos socialmente hierarquizada.

28 de mai. de 2014

"Eu, tijucano", por Tutty Vasques

Crônica publicada, originalmente, na
Veja Rio (1º/06/2005), por Tutty Vasques
O orgulho de ser carioca da Zona Norte, recentemente celebrizado por Fernanda Montenegro em anúncio de shopping center de Del Castilho, não significa necessariamente que a atriz não esteja bem lembrada do lugar onde nasceu. Nós é que não conhecemos a aprazível Campinho dos anos 1930. A Tijuca que me pôs no mundo em 1954 também já não existe, o que não me impede de ter boas lembranças dos quintais da minha infância querida, que os anos não trazem mais. Precisaria o Rebouças ser um túnel do tempo para reencontrar esse passado. A Zona Norte de hoje, acreditem, não tem nada a ver com a Vila Isabel de América. Ninguém, que eu saiba, jamais teve orgulho de nascer na Rua Leopoldo, mesmo depois que Gilberto Braga recriou o Andaraí em Celebridade. Mais perto da verdade, cá pra nós, está o colega de Veja Rio Manoel Carlos, que modestamente se contenta em glamourizar o Leblon.

Por mais que a novela das 8 e os comerciais de TV insistam em associar a Zona Norte ao bom malandro, ao sambinha da esquina e àquela gente humilde em casas simples com cadeiras na calçada, na fachada escrito em cima que é um lar, nada disso existe mais por lá. Restam o abandono, sinais de empobrecimento, o medo das balas perdidas, as grades e o mau gosto. Sejamos francos: a Zona Norte é horrível, eu sou de lá, eu sei. O caos arquitetônico avançou sobre a paisagem humana que a violência baniu das ruas. Sou do tempo dos cines América, Carioca, Olinda, quando a Praça Saenz Peña era um Multiplex a céu aberto. Só vendo o que aquilo lá virou! Sempre que visito meus pais – como bom tijucano, visito muito meus pais – passo pelo lugar que me fez moleque e, olhando a muralha de prédios erguida ao redor, não sei dizer a meus filhos exatamente onde era a minha casa. Nem a dos meus amigos ou a daquela velha chata que furava as bolas que caíam no seu jardim. Dessa época, sobrou por lá o nome da rua na placa da esquina: Maria Amália.

Migrei há 27 anos. Do outro lado do túnel, Humaitá, Bairro Peixoto, Jardim Botânico, Lagoa, Botafogo, Leblon, Urca, Gávea, já morei em tantas casas que nem me lembro mais, nada que me faça esquecer de onde eu vim. Quem é tijucano sabe que, embora seja possível escapar da Tijuca, jamais a Tijuca sairá de você. Por mais que o sujeito disfarce, a gente sempre nota o que há sob as roupas Richards de um ex-tijucano. De repente um gesto inseguro, uma indecisão no olhar, uma preocupação desnecessária com o cabelo, o trepidar da perna na ponta dos pés, aquela agonia de não saber o que fazer com as mãos e, pronto, o cara se entrega. O medo de errar, de ousar, de arriscar, de mudar, de falhar, dessas coisas que atormentaram minha juventude ninguém se livra assim, de uma hora para outra.

O poeta Torquato Neto, um raro vizinho malcomportado que só descobri no livro póstumo Os Últimos Dias de Paupéria – ele se matou quando eu tinha apenas 17 anos –, usava uma frase doce para definir o que azedava minha relação com o bairro: "O tijucano se diverte olhando". Gente que não precisa beber, comer, dançar, conquistar, comprar, tocar, experimentar, participar, agir, transgredir, nada. Olhar a vida – eis o mistério da satisfação tijucana naquela época em que havia muita coisa para olhar em volta, morávamos então numa espécie de calçadão da Zona Norte. Uns miravam os outros, comiam uma pizza no Palheta e, hoje percebo, não há nada de errado em se dar por satisfeito com isso.

A Tijuca já foi para mim muitas coisas, mas acho que nunca consegui vê-la como ela exatamente é ou foi. Era sinônimo de vida no paraíso quando eu andava de pés no chão pulando de um quintal para outro, subindo em árvores, soltando pipa, moendo vidro para cerol em trilho de bonde, jogando pião, amarelinha, carniça, pique, queimado, marimba, bicicleta, botão de galalite, carrinho de rolimã, bola de gude, marraio feridô sou rei. Perdeu a graça quando me vestiram uma calça comprida e disseram "agora cresce". Ficou insuportável quando percebi que queria mais, muito mais do que ver a banda passar. A vida não é lugar para estar à toa.

Quando o amor me chamou pela primeira vez e eu atravessei o túnel para casar, não demorei muito a perceber que levava a Tijuca dentro de mim. Longe dos tijucanos, eu era o próprio. Passei vinte anos tentando me livrar desse sotaque que nos denuncia mesmo calados. Sou resultado dessa batalha diária contra a caretice programada como destino. Deu nisso: uma espécie de maluco responsável, encabulado, engraçadinho, medroso e atrevido, não necessariamente nessa ordem ou ao mesmo tempo. Parei de brigar com a Tijuca quando passei a usá-la em legítima defesa dos meus instintos. É ela que me faz decidir "não vou" quando Xangô manda dizer "vai, vai, vai, vai..." De vez em quando eu vou, e volto.

Virei um tijucano de ocasião. Evoco minhas raízes toda vez que sou flagrado avançando o sinal do bom comportamento. "Eu? Claro que não, gente! Sou tijucano, caramba!" O argumento é inapelável. Como ninguém – acho que isso ficou claro nesse texto – sabe exatamente o que é a Tijuca, posso inventar o que quiser a respeito do lugar onde nasci. Nessas horas, do mesmo jeito que a Fernandona, morro de orgulho de ser da Zona Norte.
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