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27 de dez. de 2015

Praça Hans Klussman


A imaginação das crianças é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com base nessa concepção que o professor Paulo de Tarso, morador da Rua Sabóia Lima, recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann um verdadeiro recanto de fantasias. Aliás, mais do que um professor, Paulo de Tarso é um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro assim como do reino animal.

Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos de 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos no bairro de como urbe e natureza se conectam e, portanto, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam o local (um bom repelente já resolve esta questão), o alto da Rua Sabóia Lima oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde podem ser observadas as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa; do outro, um jacaré.

Foi neste momento em que tive a percepção de não estar vendo tudo o que de fato existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, além de uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde: os animais, cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade.



Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klussmann ganhou um colorido todo especial, mas que, paralelamente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou de qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças pensam da ilusão ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são "interagíves", no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e, dessa maneira, fantasiar um passeio pelo deserto - por exemplo.



Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, contribuindo para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda forma um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, que fica no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar diante do espaço em que estamos inseridos.

Num mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade - gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho.


Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados em suas leituras. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós, e, em outro rincão, um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klussmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul – e, à noite, estrelado – da nossa natureza. A nossa real natureza.

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Texto publicado em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 10 de agosto de 2013.

3 de dez. de 2015

"O Tijucano", por Aldir Blanc

Eis um clássico de Aldir Blanc que merece ser compartilhado com os leitores de O PASSEADOR TIJUCANO. A crônica "O Tijucano", escrita por ele nos anos 1970 e que faz parte da antologia Rua dos Artistas e arredores (Editora Codecri, 1979), é uma dessas exemplares literaturas que mais bem refletem o ethos tijucano. Coloco-a aqui como ilustração ao mini-doc inserido no final deste post, divulgado por Fabrício Gonçalves em sua página do Facebook, trazendo Blanc e Moacyr Luz em forma de entrevista no Bar da Dona Maria, na Muda (se não me engano). Além disso, o vídeo apresenta filmagens inéditas da Praça Saens Peña nos anos 1950 cuja narração é, em grande parte, a leitura desta crônica.

O Tijucano, por Aldir Blanc 
A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso. 
— Tu mora aonde? 
— Tijuca. 
O autor dessa resposta pode morar no Largo da Segunda-Feira, no Maracanã, no Andaraí, em Vila Isabel, em Aldeia Campista... digamos que entre o Estácio e o Grajaú tudo é Tijuca. 
Se vocês estão pensando que eu vou dizer “o Tijucano é um estado-de-espírito”, aqui ó! 
O Tijucano é um estado-de-sítio. 
Premido pelo sagrado horror da acusação de suburbano e sonhando, secretamente, com as mordomias ipanemenses, o Tijucano adota uma atitude blasé em relação a seu controvertido bairro. Acha a Tijuca “devagar, careta, meio-não-sei-como, sacou? ” 
Saquei, bestalhão. A Tijuca é exatamente isso: meio-não-sei-como. Uma amostra magnífica do nosso querido Brasil. 
O Tijucano não tem salvação. Pode fingir, fugir, mudar, inventar, mas será sempre tijucano. Mesmo que o corpo disfarce, a alma, como o criminoso, como o filho pródigo, voltará sempre à Tijuca.  
Nenhum morador, de nenhum bairro, padece tanto do tal conflito amor-ódio como o Tijucano. Ele fala mal dos bares da Tijuca, mas não sai deles. Detesta os cinemas do bairro, mas raramente vai a outros. Venera as tangas, desde que não seja na mulher dele. É progressista, desde que o progresso não o afete. Esmera-se em sua descontração. Vigia sua esportividade. Obstina-se em sua espontaneidade. Por trás da indiferença, com que trata o bairro, esconde-se o orgulho. O maldito orgulho de ser Tijucano. 
O Tijucano-Padrão é feito aquele amigo meu que pirou em plena Praça Saens Peña, tirou toda a roupa, subiu numa árvore e começou a gritar: 
— A Tijuca é uma merda! Tô farto disso aqui! Num guento mais a Tijuca! É uma merda! Uma verdadeira merda! 
Quando a ambulância chegou e meu amigo leu o que estava escrito nela, o escarcéu aumentou. Do alto da árvore, nu, mas em pose de senador, bravava: 
— Pro Pinel, jamais! Nós, Tijucanos, temos nosso próprio sanatório! 

BLANC, Aldir. Rua dos Artistas e arrredores. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1979. pp. 192-193.


Aldir Blanc e Moacyr Luz - o Rio profundo: Tijuca, zona de fronteira, Saudades da Guanabara, meio suburbano e meio...
Posted by Fabrício Gonçalves on Sábado, 28 de novembro de 2015

18 de set. de 2015

"Saguão na Tijuca", por Clarice Lispector

Na Zona Norte sopra um vento quente, um siroco. No saguão cinco moças sem cor já tomaram o banho da tarde, os cabelos secam ao siroco. Têm olhos pretos, braços redondos e bocas desbotadas. Elas são as filhas. Para que falar? Sentai-vos e tocai vossas guitarras. Não há nada a lhes dizer. Ali não há nada a salvar. Nem tudo simboliza alguma coisa, e isso é tão importante como o oposto. São apenas cinco moças de boca desbotada que deixo no saguão mesmo, e que lá fiquem. E se não quiserem ficar, que saiam. Cinco moças sem cor simbolizam cinco moças sem cor. Eis que estou vendo esse harém de bocas desbotadas, e sem crueldade ou amor à seleção natural, não me politizo, não me poetizo, não acho que está certo ou errado; está é isso mesmo.
Mas o siroco, sim, traz cavalos e areias, vindos do deserto.
Clarice Lispector 
Crônicas para jovens: do Rio de Janeiro e seus personagens. Organização Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011. pp. 107-108. 

7 de set. de 2015

Em vídeo, o triste fim do estúdio Herbert Richers, na Usina

Imóvel da Herbert Richers S.A., na Usina, em imagem dos anos 2000: nostalgia no mercado brasileiro de dublagens

Na Conde de Bonfim, a extensa muralha vegetada com o letreiro HERBERT RICHERS S.A. 1331 brincou com o imaginário de muita criança que cresceu assistindo a produções estrangeiras dubladas da TV. Marca registrada do estúdio de dublagem homônimo situado na Usina, a expressão "Versão Brasileira, Herbert Richers" entoava a cada início de episódio de Capitão Planeta, Alf - O Eteimoso, A Família Dinossauros etc., além de filmes e telenovelas mexicanas como Um tirada pesada e A Usurpadora. 

Criada nos anos 1950 pelo empresário e produtor de cinema Herbert Richers, parceiro de Walt Disney, o estúdio conseguiu se tornar uma referência nacional na dublagem brasileira. Chegou a dominar 80% do mercado desse mercado no Brasil por várias décadas, empregando, em determinada época, mais atores e atrizes do que a própria Rede Globo. Era nos estúdios da Herbert Richers, aliás, onde a Globo filmava parte de suas novelas e minisséries antes de construir o Projac, principalmente nos anos de 1970 e 80.

Com a morte do seu fundador em novembro de 2009, dívidas surgiram e as atividades no local foram encerradas, dando início ao processo de deterioração do imóvel. Em 2012, logo após ser leiloada a uma instituição religiosa japonesa, a casa passou por um incêndio misterioso que prejudicou as instalações e, especialmente, o seu acervo. 

Marcio Seixas de Volta à Herbert Richers.


Dos tempos de ouro, restaram apenas a memória e a nostalgia. É o que mostrou, em vídeo exclusivo, o ator e dublador Marcio Seixas, dono da voz emblemática da Herbert Richers. Em visita ao imóvel neste mês de setembro, vimos um Seixas emocionado em regressar à empresa onde trabalhou por 24 anos:

"Cheguei neste endereço com o recorte de jornal onde estava escrito "Herbert Richers oferece chance para quem tem boa voz e leitura em voz alta; comparecer à Rua Conde de Bonfim 1331 para seleção". Cheguei aqui antes das 8 horas da manhã, com o coração aos pulos. Parei diante deste portão e fiz assim: "Meu Deus, o quê me espera aqui dentro?" Pedi a Deus que me encaminhasse, que guiasse a minha voz, que me abrisse a porta desta empresa para trabalhar", relatou ele, que durante muitos anos morou no edifício ao lado do estúdio.


O clima de melancolia atinge não só os antigos artistas que fizeram parte do time da Herbert Richers, como também os tijucanos. O número 1331 da Conde de Bonfim, tal qual o vídeo de Seixas ratifica, se trata hoje de um imóvel coberto por plantas em todo o seu terreno. Segundo informações do jornal O Dia, insetos e morcegos ocupam os corredores do extinto estúdio, além do cheiro de material incendiado ainda permear grande parte das salas.

Para o cineasta Gustavo de Brito Colombo, morador e ativista pela volta dos cinemas de rua do bairro, a Herbert Richers representa mais um tipo de ruína do audiovisual tijucano:

"Além das salas de cinema desconfiguradas na forma de shoppings, farmácias ou igrejas, a Herbert Richers representa outro tipo de ruína do circuito audiovisual do bairro. Ouvindo "versão brasileira Herbert Richers" é como acredito que a maioria dos estudantes que realmente se apaixonaram por cinema e TV quiseram em suas casas e, ainda crianças, tentar reproduzir ou emular as mesmas narrativas pela primeira vez".

Colombo sugere ainda que o local seja preservado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade com algum tipo de sinalização ou destinação de uso de atividades dedicadas exclusivamente ao ramo audiovisual. Seria uma medida minimamente coerente com a importância da Herbert Richers para o entretenimento brasileiro e para a Tijuca, bairro-sede da empresa. 

3 de jul. de 2015

Victor Belart, do FAZ NA PRAÇA: "[a Saens Peña] não deveria ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista"

Victor Belart: FAZ NA PRAÇA
As praças da Tijuca têm vivido uma fase de efervescência cultural nunca antes experimentada. Eventos públicos com DJs, arte, debates, cinema, comida entre outras intervenções vêm ocorrendo com cada vez mais frequência na Saens Peña, Praça da Bandeira e Xavier de Brito. Neste último domingo, 28 de junho, por exemplo a inauguração do Cine Xavier exibiu o longa-metragem argentino Medianeras ao ar livre da Praça Xavier de Brito reunindo toda uma geração de jovens e adultos que possivelmente só havia frequentado a praça dos cavalinhos assim, tão integralmente, na infância. Já a Praça Saens Peña comemorou seu 104º aniversário de modo inovador, há cerca de um mês: considerada um lugar de afazeres domésticos e deserto à noite, a praça abrigou um grande concerto público que reuniu no mínimo 500 pessoas de todas as idades que dificilmente estariam por lá em circunstâncias comuns.

Por trás dessas iniciativas que estão incrementando o entretenimento (público) da Tijuca está o coletivo FAZ NA PRAÇA (ou melhor, Fluxo de Articulação de Zona na Praça), formado por um grupo de amigos do bairro engajados em trazer de volta à rotina dos cariocas o hábito de vivenciar as praças como local de interações e desfrute. Nesse grupo, Victor Belart, tijucano, jornalista e produtor cultural de 24 anos, tem se mostrado um notório representante do FAZ NA PRAÇA. Durante a festa da Saens Peña, Belart ganhou aplausos instantâneos após anunciar, no palanque, que a praça “não devia ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista”, evidenciando a proposta e o lema do FAZ NA PRAÇA em tornar esses espaços públicos da região da Tijuca em um grande palco de intervenções coletivas e alternativas ao circuito tradicional de arte e entretenimento.

Aniversário da Praça Saens Peña deste ano: curadoria musical e artística a cargo do FAZ NA PRAÇA.
Créditos: André Valente.

Primeira exibição do Cine Xavier: cinema ao ar livre na Praça dos Cavalinhos.

O passeador tijucano conversou brevemente com Victor sobre a atuação do FAZ NA PRAÇA na Tijuca, além dos planos e novidades para o restante do ano:

De onde surgiu a ideia de fazer o evento em celebração ao 104º aniversário da Praça Saens Peña no último dia 30 de maio, levando em conta que, inicialmente, grande parte dos eventos do FAZ NA PRAÇA estava sendo realizada na Praça dos Cavalinhos?
Victor Belart: Já tínhamos interesse de fazer alguma atividade na Saens Peña, mas o evento do dia 30 não foi iniciativa nossa. A Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) faz todo ano uma atividade na praça comemorando o aniversário dela e esse ano nós fizemos a curadoria musical e divulgação. Mas a iniciativa é originalmente da ACIT e rola ano a ano, agora especificamente para esse último evento, a ACIT teve alguns incentivos da Secretaria de Cultura para pagar certos custos estruturais. Já a Xavier de Brito [Praça dos Cavalinhos] virou uma espécie de laboratório nosso porque tudo começou por lá. Eu e a Tais Barcia fizemos um aniversário na Praça e desse evento a galera que apareceu decidiu se juntar pra fazer mais vezes. Muita gente da Tijuca tem história desde criança com a Xavier de Brito, mas na vida adulta esqueceu o sentido daquele lugar. Aquela praça tem especificamente algumas questões especiais, desde o choque cultural e social das crianças que habitam o espaço ou a própria ideia de já ser uma praça vista como “um fim”. Dificilmente alguém cruza a Xavier de Brito de passagem, todo mundo que está ali vai pra ficar pela própria praça. Esse tipo de Praça, que já tem uma movimentação própria, tem muito a ensinar para todos nós e também por isso pegamos o espaço como “laboratório”.

Qual sua função no FAZ NA PRAÇA? Você é o "líder"?
VB: Na verdade não tem nenhum líder; a ideia do FAZ NA PRAÇA é para ser um movimento orgânico. Na real, no início, era pra ser um movimento tão livre que poderia ocorrer ações do FAZ NA PRAÇA sem que nenhuma das 8 a 10 pessoas que fazem parte desse grupo estivessem envolvidas. Como se o FAZ NA PRAÇA fosse a ideia de fazer indiscriminadamente as coisas em praças, mas acabou que por algumas questões específicas de responsabilidade temos tomado um pouco de cuidado com isso. Se acontecer um FAZ NA PRAÇA sem nós e der algum problema, a responsabilidade recai sobre a gente, então queremos ter um pouco de cautela nesse sentido. Mas em todo caso, o FAZ NA PRAÇA é um grupo não muito rígido quanto à quantidade de pessoas, mas que varia sempre em torno de 8 a 10 e que querem levar atividade e movimento ao ar livre pela nossa cidade.


Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira: moradores mais antigos ainda resistem.
Créditos: Felipe Bauerfeldt (Deu Zebraa).


Vocês pretendem manter uma linha de ocupação de praças apenas na região da Tijuca (vide o Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira), para consolidar a programação cultural do bairro ou a proposta é expandir para outras regiões?
VB: Temos esse carinho especial pela Tijuca porque a maioria de nós é daqui e sabemos da falta de atividades do gênero pela área. Na verdade, o bairro tem melhorado muito nesse sentido também. Surgiram novos espaços de coworking, algumas atividades ao ar livre e até mesmo noturnas, mas o bairro ainda tem essa concepção de ser um “lugar somente para dormir”. A gente acaba vestindo muito essa bandeira tijucana porque crescemos aqui e sentimos a falta de atividades do gênero, mas a ideia do FAZ NA PRAÇA é que por todo o Rio de Janeiro se faça atividade na rua, ou seja, botar propriamente a praça no centro do debate urbano. Sempre falamos que as praças talvez sejam um dos únicos lugares onde a democracia realmente seja levada ao pé da letra.  Além disso, a questão da praça é importante para ampliar nossa ideia de cidade; quando saímos de casa e vivemos somente a nossa própria rotina, tendemos a não ter muita sensibilidade com a realidade do outro. Num evento de rua sempre vai ter um morador de rua e alguém que só frequenta shopping ali naquele mesmo espaço e ambos estarão nesse lugar para estar “além” do seu próprio estereótipo ou da própria rotina. Esse tipo de encontro rola naturalmente é só tende a ser positivo para todos os envolvidos.

Quais os próximos eventos? Novidades? Fiquei sabendo do Cine Xavier. É você quem está coordenando?
VB: Antes de tudo, precisamos terminar de resolver alguns problemas ainda pendentes do aniversário da Saens Peña. Num futuro muito próximo queremos fazer esse cinema na Xavier [a entrevista ocorreu antes da efetivação desse evento, no último dia 28 de junho], mas também nos sugeriram o Grajaú. Também temos a ideia de fazer alguma ocupação na UERJ, que não deixa de ser um espaço público do nosso bairro e que ainda tem uma ideia muito vertical, aquele cinza, aquele prédio gigante. Conhecemos uma galera recentemente que quer tentar fazer com que a UERJ tenha uma ideia mais plana, mais de praça.

23 de fev. de 2015

A versão tijucana de I LOVE NY em arte urbana, por Felipe Madeira

O designer Felipe Madeira, graduando em Desenho Industrial (UFRJ), é o autor da obra que
 ressalta, em forma de arte, a devoção dos tijucanos pelo seu bairro

O pedestre atento que circula pela Tijuca já deve ter reparado que, em questão de arte urbana, o bairro é uma verdadeira galeria a céu aberto. Recentemente, o que mais tem chamado a atenção nesta categoria em ruas como a Barão de Mesquita e a Professor Gabizo é a releitura tijucana do emblemático logotipo americano I LOVE NY (I ♥ NY), criação do designer gráfico Milton Glaser nos anos 1970 como parte de uma campanha para difundir o turismo na Big Apple nos anos de 1970. O símbolo, que tornou-se referência mundial e hoje serve de inspiração para diversas outras obras de arte, anúncios publicitários, estampas etc., chegou à Tijuca como I LOVE TJK (I ♥ TJK) em formato de lambe, uma espécie de pôster que vem ganhando cada vez mais espaço no rol da arte urbana carioca.

Um dos exemplares do I ♥ TJK, na Barão de Mesquita
Idealizador da ilustração, feita de jornal e stencil, o designer tijucano Felipe Madeira, de 22 anos, conta que desenvolveu esta ideia a princípio para estampar uma camisa, mas que acabou decidindo por usar a técnica do lambe quando participou de um workshop com o coletivo paulista SHN. O encontro rendeu-lhe não só um know-how, mas também a paixão por esta técnica que vem norteando sua trajetória artística. 

Sobre a arte, em primeiro lugar, cabe destacar que TJK é a abreviatura "internética" para Tijuca, muito difundida nos bate-papos de mensagens instantâneas durante os anos 2000. Daí a adaptação do NY para TJK, correlação igualmente pop ao NY e tributo de Felipe, nascido no Hospital da Ordem Terceira e ex-aluno do Colégio Pedro II, ao bairro onde reside:

— Quis fazer uma brincadeira com a "marra" tijucana, mas acabei percebendo que me apropriei de um ícone tão forte, que trazia consigo um contexto tão poderoso, que acabou caindo como uma luva para o espírito tijucano. Acredito que seja de fácil identificação e compreensão para os demais bairros, afinal, quem não conhece o "I ♥ NY"? – aponta ele.


A versão original, marca registrada de Milton Glaser: inspiração mundial.
Felipe na ativa em região próxima ao Hospital Oscar Clark, no Maracanã,
junto ao mosaico de Elisa Pessoa, sua parceira "de rua"

Reprodução: Instagram.
Felipe explica que seus pôsteres, conhecidos em inglês como wheat-paste posters, são pregados com uma cola especial à base de farinha com água e soda cáustica (prática, segundo ele, mas nociva à saúde se não tomar os devidos cuidados) e que, embora não tenha uma parceria direta na produção dos seus lambes, não dispensa a companhia de amigos na hora de sair pelas ruas:

— Não saio para colar sem amigos, são eles quem me dão ânimo de sair à rua depois de um dia de estudo e trabalho. Geralmente, meus lambes são vistos perto dos da Elisa Pessoa, também tijucana, estudante de design gráfico, que tem um trabalho muito interessante fazendo praticamente um mosaico de estampas feitas por ela. É tudo artesanal, bem manual.

Embora o I ♥ TJK seja uma de suas obras mais especiais, Felipe argumenta que não pretende se limitar à Tijuca como área de colagem, pois "se sentiria enjoado em ver a Tijuca infestada de I ♥ TJK's", atestando que produzir materiais novos é uma de suas necessidades pessoais enquanto artista. Além disso, alega que sua obra, além de prática e barata, dialoga diretamente com outras técnicas artísticas que, vez ou outra, se sobrepõem ao seu trabalho, como os adesivos (stickers).

Numa das imagens enviadas a O passeador tijucano, Felipe exemplifica esta interação entre o lambe e o sticker: ao invés do simbólico coração vermelho, surgiu o adesivo de um coração literal, ou seja, em sua versão biológica. Segundo o próprio, a arte de rua está a exposta a um tipo de efemeridade que proporciona tais interações e ressignificações constantes que, se por um lado, pode ser interpretado como vandalismo, por outro, é uma resposta positiva ao trabalho apresentado, capaz de mobilizar um diálogo direto com seus interlocutores.

Felipe, além de artista propagador do espírito tijucano pelas ruas do bairro, é graduando em Desenho Industrial com foco em Projeto de Produto na UFRJ e também estagia numa empresa focada em visual merchandising em Laranjeiras. Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, ele o expõe neste site (https://www.behance.net/felipemadeira) e no seu Instagram (https://instagram.com/felipe__madeira/).

Saudações tijucanas, Felipe!

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5 de jan. de 2015

A Tijuca nas telenovelas brasileiras

Personagens tijucanos retratados na minissérie Anos Dourados, de 1986: a normalista (Malu Mader)
e o aluno do Colégio Militar (Felipe Camargo). (Foto: CEDOC/TV Globo)

Telenovelas cujas histórias sejam ambientadas no Rio de Janeiro costumam ter sempre um mesmo cenário e um mesmo núcleo de personagens: a Zona Sul da cidade habitada por personagens abastados. Bairros da Zona Norte carioca, quando aparecem nos folhetins, em geral são retratados como locais caricatos e de personagens notadamente afetados, que ora tendem para o humor, ora para dramas galgados na rotina das classes sociais mais baixas. No entanto, esse paradigma vem sofrendo uma ruptura ultimamente com a inclusão das favelas e dos subúrbios como protagonistas-territoriais em oposição à Zona Sul - vide o sucesso de "Avenida Brasil", exibida pela TV Globo em 2012 -, sobretudo após a ascensão da chamada "Nova Classe Média", conhecidamente aquela que reside em locais até então banidos como background dessas produções.

O tema musical, composto e interpretado
por Tom Jobim e Chico Buarque, virou clássico
Quem mora no Rio, sabe que a Tijuca está no limbo da geografia carioca: não é Zona Sul, nem Subúrbio. Um meio termo? Aldir Blanc já comentou sobre isso certa vez: "A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso". Numa cultura onde as telenovelas retratam extremos e caricaturas, ainda que travestidos de simulacros da realidade, incluir a Tijuca e sua gente nessas histórias é uma tarefa delicada dependendo da trama que se queira contar.

Com base nisso que o autor Gilberto Braga inovou ao escrever a minissérie "Anos Dourados", exibida pela TV Globo em maio de 1986. Ambientada na Tijuca, a história explora a rotina de uma típica família de classe média tijucana do final dos anos 1950. Os protagonistas, vividos por Malu Mader (Lurdinha) e Felipe Camargo (Marcos) - ela normalista do Instituto de Educação, ele, aluno do Colégio Militar -, moram nos arredores da Praça Afonso Pena (o personagem de Felipe Camargo residia em apartamento à Rua Pardal Mallet) e são apaixonados um pelo outro. Assistem a filmes de mãos dadas no Cinema Carioca, na Praça Saenz Peña, e circulam pelas ruas, clubes e sorveterias do bairro tal qual os jovens daquela época "dourada". A minissérie ainda retrata a forte presença de militares na Tijuca, como o Major Dornelles (José de Abreu) e o Brigadeiro Campos (José Lewgoy).

Glória (Betty Faria) era uma mulher desquitada residente à Rua Pardal Mallet e que trabalhava como caixa
de uma boate em Copacabana. Teve um relacionamento amoroso extraconjugal com o
Major Dornelles (José de Abreu).

A tensão de "Anos Dourados" consiste no amor proibido do casal principal: Marcos é filho de uma mulher desquitada (Glória, encarnada por Betty Faria), algo mal visto pelos pais da moça, os conservadores Doutor Carneiro e Celeste, vividos pelos falecidos atores Cláudio Côrrea Castro (tijucano na vida real; residia na Rua Silva Guimarães até poucos anos antes de sua morte) e Iara Amaral. O conservadorismo impresso à figura do bairro é o ponto alto da história para retratar uma época de valores ambíguos: o drama vivido por uma sociedade altamente tradicional em meio ao boom econômico e modernista de um agitado panorama político baseado na queda de Getúlio Vargas e na posse do visionário ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Em 17 de março de 1986, o "Segundo Caderno" do Jornal O Globo falou pela primeira vez sobre a mudança de cenário da então novata telenovela:
"Entre 1956 e 1958. Esses são 'Os anos dourados', minissérie que Gilberto Braga está escrevendo e que estréia no dia 28 de abril, às 22 horas, na TV Globo. Não se iludam, porém, telespectadores: em vez da lista das dez mais elegantes ou do charme da burguesia da época, o autor optou por uma família da classe média da Tijuca, moralista, lacerdista e reprimida. Cadê o glamour, perguntarão os fãs de Gilberto Braga: ele está nas festas de formatura com grandes orquestras, festinhas de fim de semana com pentras, casamento com espadas cruzadas e carro de noiva, bolinação em cinema e a eterna discussão entre lacerdistas e juscelinistas".
Na mesma reportagem, Gilberto Braga explicou que viveu de perto os preconceitos e moralismos da época, pois nasceu e viveu na Tijuca durante a infância. Segundo ele, quem vivia nas redondezas da Praça Saenz Peña, os tijucanos tinham "verdadeiro pavor da Zona Sul, vista como sinônimo de transviados, curras e moças na praia com maiô de duas peças":
"Quando minha mãe se mudou para Copacabana, meu avô disse: Você vai levar seus filhos para a boca do lobo?"
O tema musical da minissérie, composto e interpretado por Tom Jobim e Chico Buarque, virou um clássico, assim como a produção audiovisual que lhe deu o nome. Reprisada diversas vezes pela TV Globo e, recentemente, pelo Canal Viva (em 2013), o DVD de "Anos Dourados", com aproximadamente 430 minutos de duração, foi lançado há pouco mais de dez anos e até hoje é encontrado à venda no mercado. Desde então, a Tijuca se consolidou de vez como o bairro mais bem representante dos anos dourados, do mesmo modo que a minissérie se tornou referência para entender a história e os costumes de um bairro que, apesar de visto como moralista, também destilava a sua ingenuidade. Cabe mencionar, como destaque, a abertura da novela, filmada no Instituto de Educação.

 

No Leblon de Manoel Carlos, a Tijuca também teve vez

O bairro xodó de Manoel Carlos, autor de telenovelas clássicas como "Por Amor" (1997-1998) e "Laços de Família" (2000), sem dúvidas é o Leblon, na Zona Sul do Rio. Suas protagonistas, as heroínas Helenas, em geral são moradoras do badalado bairro, têm vidas financeiramente estáveis e amorosamente conturbadas, algo que enche os telespectadores de suspiros e, em outro extremo, de antipatias. O que muitos não sabem é que duas de suas Helenas são ex-tijucanas, detalhe comentado nos diálogos destas próprias produções.

Maria Eduarda (Gabriela Duarte) e Helena (Regina Duarte), de Por Amor, moravam no Leblon, mas eram tijucanas

A Helena vivida por Regina Duarte, em "Por Amor" (1997-1998), vivia na Tijuca até se divorciar do primeiro marido, o alcoólatra Orestes (Paulo José), com quem teve a filha Maria Eduarda (Gabriela Duarte). A vida deles na Tijuca não é mostrada na história, pois no momento em que é ambientada o casal já havia se separado e Helena, portanto, residia no Leblon com a filha, tal como é de praxe nas tramas de Maneco. Mesmo assim, a personagem mantinha laços afetivos estreitos com os ex-vizinhos da Tijuca, Mafalda (Beatriz Lyra) e Antenor (Umberto Magnani), pais de César (Marcelo Serrado), amigo de infância de Eduarda e apaixonado por ela.

Vale a pena citar a cena em que César encontra Eduarda no restaurante japonês, logo nos primeiros capítulos. A moça, já casada com um ricaço, se mostra constrangida com sua origem "classe média" ao reencontrá-lo na presença da sogra Branca, encarnada por Susana Vieira. César se apresenta como o "amigo" de Maria Eduarda que crescera com ela na Tijuca. Abalada, a moça procura uma contrapartida e "diz que morou só um tempinho na Tijuca", anunciando que "seu avô era dono de praticamente toda a Tijuca".


César, médico obstetra, parece ter sido um personagem construído para ser essencialmente tijucano. Ou, pelo menos, conforme aquele tipo de tijucano descrito nas crônicas do Tutty Vasques: apegado à família, bom moço, tímido, que hesita ao falar, é cavalheiro e nada malicioso.

Além de "Por Amor" (1997), a Helena vivida por Christiane Torloni em "Mulheres Apaixonadas" (2003) também afirmava ser originalmente tijucana. Em um dos capítulos, ela conversa com as irmãs Hilda e Heloísa sobre a juventude vivida na Tijuca, em tom nostálgico. Além disso, a primeira Helena de Manoel Carlos, encarnada por Lilian Lemmertz em "Baila Comigo" (1981), não só era tijucana como grande parte da história se passava na Tijuca, conforme declaração do próprio Manoel Carlos ao caderno "Revista da TV" do jornal O Globo de 12 de janeiro de 2014.

A última referência da Tijuca nas novelas do autor foi em "Viver a Vida" (2009), com as personagens Renata (Bárbara Paz) e Regina (Cris Nicollotti), que viviam em um confortável apartamento no bairro. Regina, na profissão de astróloga, mantinha uma clientela formada pelo núcleo Zona Sul da novela, cuja filha, bulímica e alcoólatra, namorava um dos mocinhos, Miguel (Mateus Solano).


Em certo capítulo, Miguel leva Renata para a casa e pergunta se ela sempre havia morado na Tijuca. "Desde que nasci", responde a moça, emburrada, meio blasé. Miguel, por sua vez, diz que "tem vontade de sair daquele caos da Zona Sul e ir morar no caos da Zona Norte", em tom jocoso. Estacionam numa rua arborizada e sofisticada, que parece ser a Rua Homem de Melo, e a sogra os recebe de um jeito extrovertido, beirando o popularesco e a caricatura. Regina oferece um pedaço de queijo ao genro, que, segundo ela, estava bem fresquinho e comprado pouco antes na Feira de São Cristóvão naquela manhã. Neste diálogo, o autor dá pistas sobre um possível olhar distanciado de quem não vivencia o bairro, reafirmando a posição territorial da Tijuca fora do circuito principal da novela ao associar seu cotidiano e estilo de vida a quaisquer referências que remetam à Zona Norte da cidade no imaginário dominante.

Outras curiosidades:
  • Nas novelas de Manoel Carlos, a Tijuca é tratada como um bairro sem estigma de Zona Norte. Não só as Helenas foram ex-tijucanas, assim como muitos personagens de "História de Amor" (1995), "Por Amor" (1997) e "Laços de Família" (2000) se referiram à Tijuca como um bairro no qual os personagens circulavam eventualmente.
  • Gilberto Braga, em suas outras produções, no entanto, deu caracteres pejorativos ao seu bairro de origem. Em "Paraíso Tropical" (2007), a socialite Marion (Vera Holtz) diz, em determinado capítulo, que tem horror "às terras além da Praça da Bandeira". Já a Alice de Guilhermina Guinle caçoa do jeito retrógrado e recatado de uma das personagens, chamando-a de  "normalista tijucana".

3 de abr. de 2014

Orquestra Voadora "aterrisa" na noite da Saens Peña

Apresentação da Orquestra na Praça Saens Peña: surpresa

Há gente que reclama, e com toda razão, de que bate seis, sete, oito horas da noite e a Praça Saens Peña adormece. As lojas fecham e só se vê o movimento dos ônibus e da boemia tímida de alguns poucos bares ao redor do Shopping 45, além, é claro, dos tijucanos que desembarcam na estação do metrô após mais um dia de trabalho. Tijucanos estes, aliás, que tiveram uma grata surpresa na noite desta quinta-feira 3 de abril: a apresentação da prestigiada Orquestra Voadora em plena praça. Sim, aqui na Tijuca!

A apresentação fez parte do que eles têm chamado de Ataque Musical, iniciativa dos próprios integrantes para recolher fundos para a compra de dois novos instrumentos roubados da Orquestra Voadora durante o carnaval. Entre os itens perdidos, um saxofone e um trombone de vara, tendo este último desaparecido misteriosamente após um encontro de orquestras na Praça Tiradentes. O Ataque Musical já aconteceu no Largo do Machado e, hoje, para a nossa sorte, aterrisou na Praça Saens Peña chamando a atenção de muitos pedestres que por lá passavam, contribuindo, de quebra, financeiramente com a Orquestra.


O concerto estava previsto para começar às 18 horas, precisamente no horário mais movimentado não só da praça, mas também das saídas do metrô da Saens Peña. No entanto, a chuvinha fina que caiu na cidade acabou atrapalhando os planos da Orquestra, que só começou a ressoar seus instrumentos de sopro e percussão por volta das 19h30. Muitos não sabiam que haveria apresentação da Orquestra Voadora na praça hoje.

Eu, por exemplo, só fiquei sabendo por uma amiga que viu a notícia através do blog de moda Rio Etc, que costuma avisar sobre eventos culturais – geralmente gratuitos – rolando pela cidade em sua agenda virtual. 

Além da diversão propiciada pela Orquestra a todo mundo que passava pela praça nesta noite, foi a reflexão de que é possível, sim, renovar a vida noturna da Saens Peña com coletivos de arte e música e até mesmo, de forma mais ambiciosa, com investimentos empresariais voltados ao lazer. Basta o empresariado "sacar" esse panorama. Há fôlego e público para isso.

— Eu moro na Tijuca desde 1973. Mais eventos como esse têm que acontecer por aqui. A Tijuca é um bairro mortinho — confidenciou-me uma moradora, enquanto dançava em meio à balbúrdia aprontada pelo grupo.

Mesmo após os avisos de que tocariam a “saideira”, isso por volta de 21h, quase às 22h, quando fui embora, a Orquestra continuava na Praça, animadamente, resgatando uma das poucas coisas que a Tijuca possui: vitalidade notívaga.

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