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29 de jun. de 2017

À Rua Conde de Bonfim 31, uma clínica que "honrava" o bairro da Tijuca

A Tijuca, um dos mais elegantes e populosos bairros do Rio de Janeiro, é quase uma cidade dentro da cidade. Comércio intenso, divertimentos, vida noturna, nada lhe falta. No importante setor médico, pode orgulhar-se de possuir a "Clínica do Dr. Gesteira", a mais bem aparelhada do bairro e uma das melhores de tôda a cidade.

Revista Vida Doméstica, edição 450, setembro 1955

Em setembro de 1955, na edição de número de 450 da extinta Revista Vida Doméstica, um anúncio publicitário inusitado promociona as moderníssimas instalações da Clínica do Doutor G. Gesteira. Situada à Rua Conde de Bonfim 31, junto ao Largo da Segunda-Feira, o referido centro médico tinha como foco "servir à população do bairro da Tijuca", "um dos mais elegantes e populosos bairros do Rio de Janeiro". Para o Doutor Gesteira, a Tijuca, naquela longínqua década de 1950, já podia ser considerada "quase uma cidade dentro da cidade".

Aos nossos olhos deste princípio de século XXI, as imagens do Dr. Gesteira e de suas enfermeiras prestando atendimento aos seus pacientes parecem curiosamente caricatas. Especialmente pelas vestimentas, todas muito associadas ao estereótipo das figuras do médico e da enfermeira. A descrição da moderna aparelhagem de "Raios-X", "Onda-curta", "Ultra-som", "Ultra-violeta", entre outros, endossa a avant-garde dos serviços existentes na Tijuca, um dos bairros mais proeminentes da cidade naquela época.

A localização da Clínica do Dr. Gesteira, em 2017: casa demolida.

É interessante observar o imóvel onde funcionava a clínica. Tratava-se de uma casa tipicamente tijucana instalada em centro de terreno, destas que não se vê mais em seu endereço original. Hoje, a Conde de Bonfim, na altura do Largo da Segunda-Feira, é tomada por prédios em ambos os lados, combinada a uma profusão comercial que decerto multiplicou o número de clínicas e de outros serviços médicos no bairro desde 1955.

Vale destacar, ainda, que o número 31 da Rua Conde de Bonfim aparentemente não existe mais. Originalmente, a Clínica do Dr. Gesteira estaria localizada no terreno dos prédios erguidos sobre a Padaria Santa Marta (número 25) e a tradicional Casa D'Queijos e Frios (número 35, Loja A).

22 de jun. de 2017

Letreiros antigos que resistem no comércio de rua da Tijuca

Memória afetiva para uns, abandono para outros. Na Tijuca, muitos letreiros antigos ainda povoam as fachadas do nosso comércio de rua. Alguns deles já se tornaram de estimação tamanha a simpatia (inconsciente) aos quais muitos tijucanos lhes têm. Para identificar o quão antigo pode ser um desses letreiros, há pistas certeiras: é só observar o estilo das letras que destacam o nome do empreendimento, o material utilizado, o modo como é apresentado o número de telefone, o tipo de iluminação. Número de fax, então, já é redenção na certa. Outros se entregam pelo simples anúncio do gênero de serviço prestado: videolocadoras, minutas e vitaminas, calçados e bolsas para senhoras.

O PASSEADOR TIJUCANO recorreu as principais ruas e procurou listar oito letreiros antigos e emblemáticos do nosso bairro. Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.


1. AO TRANSISTOR DA TIJUCA (Rua São Francisco Xavier 2, Loja E)


Rua São Francisco Xavier 2, Loja E, Largo da Segunda-Feira 


"Ao Transistor da Tijuca" é uma das tantas lojas de material elétrico e utilidades do gênero que existem no bairro. O letreiro antigo já é quase patrimônio gráfico do Largo da Segunda-Feira, onde se situa. Observem que o prefixo do telefone só apresenta três dígitos, dando uma amostra do seu longo tempo de existência. Vale destacar que, no Rio, todos os números de telefonia fixa passaram a ter prefixo de quatro dígitos no dia 30 de junho de 2001, há 16 anos.


2. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO STA. CAROLINA (Rua Santa Carolina 8)


Rua Santa Carolina 8, Usina

Outro gênero comercial bastante comum aqui na Tijuca é o varejo especializado em materiais de construção. São bazares à moda de outrora, bem diferentes das grandes cadeias como Leroy Merlin ou Casa Show. Na Usina, temos a loja "Materiais de Construção Sta. Carolina", localizada na rua homônima. O letreiro, coitadinho, mal conserva suas letras. Mesmo assim, ainda se pode identificar o derradeiro slogan: "Tudo Para Construção e Pinturas".


3. GURILANDIA LANCHES (Rua Conde de Bonfim 670)

Rua Conde de Bonfim 670, entre Uruguai e Dona Delfina 

Quem se lembra dos tempos em que ir à Disney também podia ser sinônimo de ir à Disneylândia? No caso da Tijuca, o sufixo "lândia", que cheira à naftalina de tão démodé, é utilizado para designar o território da gurizada na Rua Conde de Bonfim 670. Ou melhor: a "Gurilandia Lanches", sem circunflexo. O letreiro do estabelecimento não deixa mentir a idade: ele oferece (ou oferecia) refeições à minuta, pizzas e vitaminas. Em tempos de hambúrguer gourmetizado, o que são mesmo minutas e vitaminas?! De todo modo, eis mais um patrimônio gráfico do nosso bairro!


4. REQUINTE (Rua Conde de Bonfim 668, Loja B)

Rua Conde de Bonfim 668, Loja B, entre Uruguai e Dona Delfina

Nas vizinhanças da "Gurilandia Lanches", jaz o letreiro da antiga boutique "Requinte", no número 668 da Rua Conde de Bonfim. A loja é dos tempos em que se vendia produtos exclusivos para "senhoras", tais como calçados e bolsas. Diferentemente dos demais estabelecimentos listados aqui, a "Requinte" encerrou suas atividades já há um bom tempo (algum leitor sabe quando?), e o melhor - está fechada com portas pantográficas! Mais vintage, impossível. Nossa Tijuca é tradicional até quando não quer.


5. BRASEIRO (Rua Haddock Lobo 123A)

Rua Haddock Lobo 123, Loja A, próximo à Avenida Paulo de Frontin (Fonte: Google)

Oficialmente conhecida por "O Braseiro Armarinho Limitada", a Braseiro Modas - como é comumente chamada - está fincada na Rua Haddock Lobo desde 1966, já nas bandas do Rio Comprido. Segundo o tijucano Felipe Torreira, do blog Pileque, "as roupas estão expostas em cristaleiras muito bonitas, bem altas, pois o pé-direito da casa deve ter seus seis metros. Camisetas furadinhas, camisas sociais, camisolas, meias sociais, calçolas, cintos elegantes e moda íntima em geral enchem as estantes e mostruários". Tim Maia, o cantor, foi freguês em outras épocas. Inveterado letreiro!


6. ELETRÔNICA ROBRUM (Rua José Higino 290)

Rua José Higino 290

Já se foram os tempos em que hordas de tijucanos consumiam ad nauseam as incontáveis videolocadoras existentes no bairro. Com o fim dos cinemas na Praça Saenz Peña, alugar VHS e DVDs tornou-se uma das poucas opções culturais por aqui. Agora, em tempos digitais, as videolocadoras ficam só na saudade ou impressa nos letreiros, como neste da "Eletrônica Robrum", situada à Rua José Higino 290. A placa também entrega a idade pelo anúncio do número de telefone com prefixo de três dígitos e do número de fax. E os pontinhos luminosos que circundam a moldura? Dignos de cenário dos programas da Xuxa, nos anos 1980.


7. BAZAR CASCATA (Rua Conde de Bonfim 927, Loja D)

Rua Conde de Bonfim 927, Loja D, Muda 

Na esquina da Rua da Cascata, o "Bazar Cascata" faz parte da turma de lojas de ferragens, material elétrico e conserto de eletrodomésticos tão comuns na Tijuca. Após a remoção do tradicional letreiro de "O Queijeiro da Muda", arriscaria dizer ser este um dos mais emblemáticos atualmente deste pedacinho da Tijuca.


8. HOTEL TIJUCA (Rua Pareto 63)

Rua Pareto, 63, arredores da Praça Saenz Peña

O "Hotel Tijuca" dispensa apresentações: é um dos mais famosos motéis do tipo custo-benefício do bairro, muito embora ainda há quem encare o "Paretão" como um hotel - pelo menos, na página do Trip Advisor, onde se tecem críticas sobre o serviço prestado. O prédio chega a ser risível de feio, mas o seu letreiro continue firme e forte na paisagem aérea dos arredores da Praça Saenz Peña justo no seu trecho mais decadente, a Rua Pareto. A placa emana ares de far west movie, mas é um desses letreiros que eu estimo sem saber o porquê.

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Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.

30 de abr. de 2016

Engenho Velho vs. Tijuca: a disputa dos topônimos ao longo do tempo

As freguesias antigas do Rio de Janeiro (capa do livro de Noronha Santos):
Tijuca, um topônimo situado na freguesia da Gávea.

A curiosidade em torno dos topônimos (isto é, nomes próprios geográficos) relacionados à Tijuca e sua região é vasta, mas as informações disponíveis são, por vezes, muito confusas. O qui-pro-quo remonta ao século XVIII, quando Tijuca, Maracanã, Andaraí, Grajaú, Vila Isabel, Rio Comprido, São Cristóvão e partes da região do Grande Méier formavam um único bloco territorial denominado “Sesmaria do Iguaçu”. Administrada pela Companhia de Jesus, essa sesmaria foi parcelada e leiloada em três grandes blocos depois da expulsão dos jesuítas do Brasil. Esses blocos ficaram conhecidos como São Cristóvão, Engenho Velho e Engenho Novo.

Engenho Velho era o nome da freguesia correspondente à atual área da Grande Tijuca. A primeira atividade econômica local foi o cultivo da cana de açúcar, seguida do café, já no início do século XIX. Porém, muitos autores afirmam que as plantações de café estavam mais concentradas nas “matas da Tijuca”, dando a entender que o Engenho Velho correspondia ao local de passagem entre Mata-Porcos (Estácio) e a “Tijuca”. Mas, aí, vem a pergunta: quer dizer que Engenho Velho e Tijuca não eram a mesma coisa?

Não; tornaram-se a mesma coisa. Ou melhor: a Tijuca fagocitou o Engenho Velho.

“Tijuca”, na verdade, era o topônimo original referente à parte alta da nossa região – evidentemente, o que conhecemos hoje por Alto da Boa Vista. Uma olhadela nos mapas das freguesias do Rio antigo permite concluir também que a então “Tijuca” pertencia supostamente à freguesia da Gávea. “Engenho Velho”, por sua vez, era o nome da freguesia cujas terras se espraiavam junto às encostas da Tijuca.

O Engenho Velho, em 1875: veja no canto superior à esquerda o topônimo "Tijuca".
Mapa da Biblioteca Nacional.

A Tijuca daquela época era considerada um dos locais mais agradáveis do Rio de Janeiro oitocentista. Por suas belezas naturais e vegetação opulenta, tratava-se de local predileto para passeios e excursões de nobres (só os ricos conseguiam fazer passeios distantes como este, sem falar no difícil acesso ao bairro por causa dos manguezais da Cidade Nova).

Por sua terra fértil, chamou a atenção de muitos franceses dedicados ao cultivo do café, e que logo se mudaram para o “alto” também atraídos por sua qualidade de vida, livre dos “miasmas” da urbe. A pompa “tijucana” nasceu, portanto, nas imediações da floresta, e por causa de figuras ilustres que passaram a residir por lá, como a Baronesa de Roeun, o Príncipe de Montpeliard, o Conde de Scey, o Conde de Gestas, a Madame de Roquefeuille, o Barão do Bom Retiro, o Visconde de Jequitinhonha, o Barão de Itamaraty, e a família Taunay.

O palacete do Barão de Itamaraty, na Rua Boa Vista: abandono no Alto da Boa Vista.
(Créditos: Pedro Teixeira/Agência O Globo).

Nicolas Antoine Taunay era membro da Missão Artística Francesa e chegou ao Rio de Janeiro em 1816. Seu conjunto de terras foi chamado de “Sítio Boa Vista”, área equivalente aos atuais limites da Floresta da Tijuca. Taunay residia junto à Cascatinha, por isto o nome da queda d’água levar o seu sobrenome. Assim, não é de se estranhar que a notoriedade deste sítio tenha influenciado na maneira como as pessoas se referiam àquele local ao longo dos tempos: “Tijuca”, “Alto da Tijuca”, “Sítio Boa Vista”, “Alto”... “Alto da Boa Vista”.

Mas, voltemos a falar do café.

O cultivo de café favoreceu uma ocupação mais intensiva da Tijuca e do Engenho Velho, que cresceu a uma taxa populacional de 67% entre 1821 e 1838 (a taxa de crescimento do Rio como um todo foi de 22% no mesmo período). No decurso do século XIX, a urbanização foi se alastrando cada vez mais por todo o Engenho Velho à medida que esta freguesia se integrava com a malha urbana existente. O aterramento do mangue da Cidade Nova foi fundamental nesse processo.

A secagem do café em fazenda localizada na Floresta. Gravura do século XIX. 
(Crédito: Louis-Jules-Frédéric Villeneuve e Johan Moritz Rugendas/Biblioteca Nacional do RJ)

A queda na produtividade do café também foi fator decisivo para a urbanização do bairro. O café devastou as matas da Tijuca quase por completo, fato que exigiu o restabelecimento da cobertura vegetal da área nos anos de 1870. Com a transferência sucessiva dos cafezais para o Vale do Paraíba - e também com a extinção de certas atividades agrícolas -, os terrenos foram sendo progressivamente fragmentados. Novas ruas e lotes foram abertos. 

O Engenho Velho se transformou numa “colcha urbana de retalhos” à medida que novas funções e usos do solo também iam emergindo. É importante lembrar que o século XIX foi nosso período de transição para a sociedade capitalista, época em que se fundou a morfologia urbana na qual vivemos até hoje. Logo, mais habitações foram construídas; mais serviços foram chegando por aqui.

Assim sendo, localidades específicas da freguesia do Engenho Velho conquistaram certa importância, sendo posteriormente chamadas ou reconhecidas por nomes à parte. O topônimo “Fábrica das Chitas” correspondia à área formada pela atual Praça Saens Peña e Rua Desembargador Isidro (por causa da fábrica de tecidos existente nas vizinhanças). “Andaraí Pequeno” se referia à Rua Conde de Bonfim, que só passou a ser identificada desta maneira em 1871. “Andaraí Grande” contemplava Andaraí, Vila Isabel (tornada independente em 1873) e Grajaú (partilhado em 1912).

Segundo autores do livro “História dos bairros: Tijuca”, publicado pela João Fortes Engenharia em 1984, Tijuca foi um nome que “desceu”. Isto porque, se antes “Tijuca” era o nome dado à parte alta, no início do século XX já se chamava de Tijuca pelo menos toda a área que vai da Usina até o Largo da Segunda-Feira.

Uma das razões que podemos apontar para que o topônimo fosse apropriado desta forma tem a ver com o prestígio conferido à “Tijuca” original – vide a prosperidade econômica dos cafezais, a distinção dos moradores ilustres, e o status auferido por suas belezas naturais. O núcleo rico da Tijuca cresceu e precisou espalhar-se territorialmente pelas adjacências, “morro abaixo”, especialmente com a criação da reserva florestal que hoje protege o Alto da Boa Vista.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu cunhou o termo “espaço social” para designar aquele espaço imaginário cravado dentro de um espaço físico como local habitado por um grupo de pessoas que comungam uma mesma identidade, gostos e modo de vida (o habitus). Por este ângulo, é lógico pensar que, na segunda metade do século XIX, os novos moradores da freguesia do Engenho Velho – sobretudo aqueles que se instalaram na Usina, Muda e proximidades ao Alto – estivessem ali devido à simbologia da "Tijuca" original como lugar nobre. 

Igreja de São Francisco Xavier, em 1906: marco simbólico do Engenho Velho.

Por mimetismo – mas também porque pertenciam à mesma classe social –, reivindicaram indiretamente a extensão do topônimo “Tijuca” para seu local de ocupação. O espaço social da "Tijuca" estava sendo ampliado com a instalação de famílias daquele perfil nas encostas, já na parte baixa. E, desta forma, a designação “Tijuca” foi se estendendo ao longo da Rua Conde de Bonfim na proporção em que a freguesia do Engenho Velho se posicionava como lugar urbano habitado por uma classe social igualmente detentora dos valores simbólicos daquela “Tijuca”.

Pode-se imaginar que a decadência do uso de paróquias e freguesias como subdivisões administrativas da cidade do Rio tenha acompanhado o crescimento extensivo do topônimo “Tijuca” por este vale em que moramos. O “Engenho Velho”, por sua vez, continuou existindo até meados do século XX, mas não mais como divisão administrativa, e sim como localidade. Um sub-bairro, talvez?

Mesmo assim, sua área de alcance foi reduzida, conformando apenas o conjunto de ruas situado entre o Rio Comprido e a Rua São Francisco Xavier, localidade onde os jesuítas ainda no século XVIII ergueram a Igreja Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho. Uma evidência deste limite moderno entre Engenho Velho e Tijuca está na Praça Carlos Paolera, em frente ao Teatro Ziembinski: um monumento do Rotary Club dá as boas-vindas à Tijuca a partir daquele local. Instalado em 1986, o "totem" permanece até os dias de hoje no mesmo ponto, livre de vandalismos.

Ainda no livro “História dos bairros: Tijuca”, da João Fortes Engenharia, os autores afirmam que a estação de metrô da São Francisco Xavier se chamaria “Engenho Velho”, nos anos 1970. Entretanto, alguns tijucanos influentes protestaram contra a decisão sob o argumento de que este topônimo já estava em desuso “há décadas”. 

Estes podem ter sido sinais de que a Tijuca já havia, portanto, se alastrado rumo ao Estácio, condensando num único território seus valores e simbologias de lugar valorizado, aristocrático, primariamente chique. Vem daí a essência do "chamar-se" tijucano, gentílico surgido nos anos de 1940. Assim como as disputas pelos limites da Tijuca, como a exemplo de ruas do Andaraí, Vila Isabel, Maracanã e Rio Comprido que, volta e meia, se intitulam tijucanas. O próprio epíteto de "Grande Tijuca" já é uma amostra desse debate do querer-ser Tijuca.

Material consultado:
ABREU, Mauricio de Almeida. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPP, 2008.
CARDOSO, Elizabeth Dezouzart. História dos bairros: Tijuca. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia, 1984.
GERSON, Brasil. História das ruas do rio. 6a edição. Rio de Janeiro: Bem-te-vi, 2013.
LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Uma reflexão em busca de auto-estima. Rio de Janeiro: Record, 2005.
ROSE, Lili; AGUIAR, Nelson. Tijuca: de rua em rua. Rio de Janeiro: Editora Rio, 2004.

2 de abr. de 2016

O adeus da Papelaria Lord: mais uma tradição tijucana que se despede

Encerramento das atividades da Papelaria Lord, na Conde de Bonfim: menos uma tradição tijucana.


Após 54 anos funcionando à Rua Conde de Bonfim 176, esquina de Visconde de Figueiredo, a Papelaria Lord decidiu encerrar suas atividades "por motivos diversos", segundo aviso institucional dos proprietários. Os avisos de "passo o ponto" já estampavam as vitrines do tradicional estabelecimento desde o final de janeiro de 2016. Contudo, a despedida oficial ocorreu no dia 2 de abril, com a liquidação dos produtos que restaram.

Assim como a Casa Sian, fechada em 2008 na Praça Saenz Peña, a Papelaria Lord é um dos derradeiros estabelecimentos comerciais tijucanos que vinham resistindo aos tempos "modernos". Mesmo não tendo sido divulgada a verdadeira razão do seu fechamentp, não seria estranho atribuir tal motivação à concorrência desleal das grandes papelarias, como a Casa Cruz e a Kalunga, que mantêm filiais na Conde de Bonfim. Sem mencionar o perfil de consumo da era atual, muito voltado às tecnologias digitais. Já não se compra artigos de papelaria e brinquedos (senão video games) com tanto entusiasmo (e necessidade) como antigamente.

Grande parte do carinho atribuído à Papelaria Lord se deve aos antigos proprietários: os portugueses Antônia Rosa Garcia da Cruz e Domingos José Gonçalves, mais conhecidos como dona Rosinha e seu Domingos. O ator e humorista Carvalhinho, morto em 2007, morava na Rua Conde de Bonfim entre Araújos e Moura Brito quando deu o seguinte depoimento ao caderno "Tijuca", de O Globo, em 14 de julho de 1994: "Adoro conversar com os portugueses Rosa e Domingos, donos da Papelaria Lord. Falamos sobre a 'terrinha'. O bate-papo vale mais do que qualquer sessão de análise".

"Tijuca", O Globo, 27 jul. 1993


Na página de O PASSEADOR TIJUCANO, no Facebook, nossos leitores do blog também demonstraram seu apreço à Papelaria Lord:

"Como conversava com D. Rosa! Sempre uma palavra amiga" (Ana Lúcia Raed).  
"Triste fim! Saía da Mesbla criança e sempre ficava desejando os jogos expostos na vitrine dessa papelaria" (Torvi M Hr).
"Dona Rosa era uma pessoa especial... Essa papelaria era um ponto de referência para quem sempre viveu na Tijuca" (Maria Carolina Ribeiro) 
"Aqui em casa somos fregueses habituais da Lord. Ali compramos artigos de papelaria, não necessariamente para nossos filhos. Vamos sentir saudades, assim como jamais nos esqueceremos da Dona Rosa" (Elpidio Coutinho).
"Inacreditável. Mais um comércio tradicional da Tijuca indo embora... Provavelmente no lugar da Lord, onde eu sempre comprei meus materiais de papelaria, virá uma drogaria ou uma loja 1,99. Muito triste!!" (Isabela Ledo).

Publico aqui, na íntegra, o emocionante aviso institucional da Papelaria Lord sobre o seu fechamento.

AOS CLIENTES E AMIGOS DA PAPELARIA LORD
Por mais de 50 anos, a Papelaria Lord faz parte da vida dos tijucanos.
Aqui, papai (Domingos) e mamãe (Rosa) fizeram de seus clientes grandes amigos.
Aqui nossos pais trabalharam por mais de 50 anos, e graças a este trabalho, conseguiram formar 4 filhos - 2 médicos (Aurora e Manuel), 1 atuária (Lucia) e 1 professora (Rosa).
Aqui também muitos tijucanos compraram, durante anos, material para seus filhos, e por aqui mamãe e papai viram passar crianças que começaram comprando seus primeiros lápis e borrachas - hoje médicos, engenheiros, bancários e tantas outras profissões e, ainda hoje, vêm matar as saudades olhando a papelaria.
Aqui, durante todos esses anos, nossos pais ajudaram a comunidade carente do Salgueiro com lápis, borracha, cadernos.
Aqui iniciamos nessas crianças o estímulo a atividades lúdicas e datas importantes, com a criação de painéis para seus trabalhos.
Aqui tivemos momentos de alegria, manifestações de fraternidade, solidariedade e cooperação.
Aqui mamãe se tornou conselheira e psicóloga de milhares de clientes amigos.
Aqui se criou uma relação de amizade, amor e honradez.
Hoje estamos encerrando nossas atividades, por motivos diversos, mas com certeza levamos conosco as lembranças de todos que nos são muito queridos.
Em nome de nossos pais, nosso muito obrigado, e não se esqueçam nunca da dona Rosinha e do seu Domingos.

Vai deixar saudades. No local, funciona desde dezembro de 2016 o Galeto Tijuca (publicação atualizada em 05 jul. 2017).

28 de mar. de 2016

Rua Conde de Bonfim 841: e lá se vai mais um casarão da Tijuca!

Na Muda, casario dos anos 1910 será posto abaixo: patrimônio em baixa.

A notícia de que o imóvel centenário da Rua Conde de Bonfim 841, na Muda, seria demolido foi dada semana passada no grupo “Tijuca de todos os tempos”, no Facebook. Na ocasião, as fotos publicadas por Ney Carmelita mostravam as janelas da casa ainda intactas. Porém, nesta última sexta-feira, 25 de março, indícios de que o “põe-se abaixo” estava confirmado refletiam na própria aparência do imóvel, já parcialmente afetado. Até aquele dia, o telhado já havia sido removido, assim como algumas vigas internas.

Construído em 1905, este casario é mais uma das vítimas do abandono e do descaso com o patrimônio da cidade. A falta de interesse – somada à falta de recursos – dos proprietários acaba por dar fim à nossa história. Sem mencionar a especulação imobiliária, que, em repetidas ocasiões, influencia consideravelmente na dinâmica de reprodução da cidade. Resta-nos, por fim, e com muito pesar, guardar essas imagens para a posteridade.

21 de jan. de 2016

Linha 413 vira 213 ao ser limada das ruas da Zona Sul

Linha 413: lataria dos anos 1990 é recordada com nostalgia

Na segunda etapa da operação que reorganizou os ônibus que circulam na Zona Sul do Rio, acabou sobrando para a nossa linha 413 (Muda-Jardim de Alah). Com a implantação das “troncais”, como estão sendo chamadas as novas linhas que ligam a Zona Sul ao Centro, a Prefeitura seccionou o itinerário de três linhas que saíam da Zona Norte. O objetivo foi conferir maior "racionalização" ao sistema de ônibus carioca.

Desde o início de janeiro de 2016, a linha 413, uma das afetadas, circula apenas entre a Muda e o Castelo, no Centro, onde o passageiro é obrigado a fazer baldeação caso deseje seguir até o Jardim de Alah. A mudança impactou até mesmo na numeração da linha, que passa a ser atendida de agora em diante por 213.

Operada pela Auto Viação Alpha, a linha 413 era uma das mais tradicionais da Tijuca. Originalmente, circulava apenas entre a Muda e Copacabana, tendo seu itinerário estendido até a entrada do Leblon por volta de 2010. Com a reorganização do sistema, a Linha 413, ao invés de seguir a Avenida Rio Branco rumo ao Aterro, passa a fazer o retorno na Avenida Presidente Antônio Carlos de volta à região da Muda.


Conde de Bonfim continua sem opções de ônibus via Rebouças

Muito embora o plano de racionalização das linhas de ônibus tenha mantido as linhas 415 (Leblon-Usina) e 426 (Jardim de Alah-Usina), é consenso entre os estudiosos de mobilidade urbana que se perdeu uma grande oportunidade de rever a eficiência dos itinerários afetados ao invés de simplesmente seccioná-los. Um bom exemplo disto é esta linha, a 413, cujo itinerário poderia ter sido transferido para o Túnel Rebouças.

Essa rota alternativa conseguiria oferecer uma opção inédita de coletivo que percorresse grande parte da Rua Conde de Bonfim rumo à Zona Sul via Rebouças, distância mais curta e mais eficiente do que a antiga, via Centro e Aterro do Flamengo. Atualmente, não existem ônibus que façam tal trajeto, com exceção da Linha 416, que circula apenas nos dias de semana em horário comercial, tendo como destino final o Horto do Jardim Botânico.

Além disso, é válido destacar que, aqui na Tijuca, já existem diversas linhas de ônibus que vão para o Centro, sem mencionar as quatro estações do metrô. Neste sentido, a criação da Linha 213 é redundante, sem trazer benefícios mais efetivos ao nosso bairro.

21 de dez. de 2015

Rua Conde de Bonfim: o coração da Tijuca

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

7 de set. de 2015

Em vídeo, o triste fim do estúdio Herbert Richers, na Usina

Imóvel da Herbert Richers S.A., na Usina, em imagem dos anos 2000: nostalgia no mercado brasileiro de dublagens

Na Conde de Bonfim, a extensa muralha vegetada com o letreiro HERBERT RICHERS S.A. 1331 brincou com o imaginário de muita criança que cresceu assistindo a produções estrangeiras dubladas da TV. Marca registrada do estúdio de dublagem homônimo situado na Usina, a expressão "Versão Brasileira, Herbert Richers" entoava a cada início de episódio de Capitão Planeta, Alf - O Eteimoso, A Família Dinossauros etc., além de filmes e telenovelas mexicanas como Um tirada pesada e A Usurpadora. 

Criada nos anos 1950 pelo empresário e produtor de cinema Herbert Richers, parceiro de Walt Disney, o estúdio conseguiu se tornar uma referência nacional na dublagem brasileira. Chegou a dominar 80% do mercado desse mercado no Brasil por várias décadas, empregando, em determinada época, mais atores e atrizes do que a própria Rede Globo. Era nos estúdios da Herbert Richers, aliás, onde a Globo filmava parte de suas novelas e minisséries antes de construir o Projac, principalmente nos anos de 1970 e 80.

Com a morte do seu fundador em novembro de 2009, dívidas surgiram e as atividades no local foram encerradas, dando início ao processo de deterioração do imóvel. Em 2012, logo após ser leiloada a uma instituição religiosa japonesa, a casa passou por um incêndio misterioso que prejudicou as instalações e, especialmente, o seu acervo. 

Marcio Seixas de Volta à Herbert Richers.


Dos tempos de ouro, restaram apenas a memória e a nostalgia. É o que mostrou, em vídeo exclusivo, o ator e dublador Marcio Seixas, dono da voz emblemática da Herbert Richers. Em visita ao imóvel neste mês de setembro, vimos um Seixas emocionado em regressar à empresa onde trabalhou por 24 anos:

"Cheguei neste endereço com o recorte de jornal onde estava escrito "Herbert Richers oferece chance para quem tem boa voz e leitura em voz alta; comparecer à Rua Conde de Bonfim 1331 para seleção". Cheguei aqui antes das 8 horas da manhã, com o coração aos pulos. Parei diante deste portão e fiz assim: "Meu Deus, o quê me espera aqui dentro?" Pedi a Deus que me encaminhasse, que guiasse a minha voz, que me abrisse a porta desta empresa para trabalhar", relatou ele, que durante muitos anos morou no edifício ao lado do estúdio.


O clima de melancolia atinge não só os antigos artistas que fizeram parte do time da Herbert Richers, como também os tijucanos. O número 1331 da Conde de Bonfim, tal qual o vídeo de Seixas ratifica, se trata hoje de um imóvel coberto por plantas em todo o seu terreno. Segundo informações do jornal O Dia, insetos e morcegos ocupam os corredores do extinto estúdio, além do cheiro de material incendiado ainda permear grande parte das salas.

Para o cineasta Gustavo de Brito Colombo, morador e ativista pela volta dos cinemas de rua do bairro, a Herbert Richers representa mais um tipo de ruína do audiovisual tijucano:

"Além das salas de cinema desconfiguradas na forma de shoppings, farmácias ou igrejas, a Herbert Richers representa outro tipo de ruína do circuito audiovisual do bairro. Ouvindo "versão brasileira Herbert Richers" é como acredito que a maioria dos estudantes que realmente se apaixonaram por cinema e TV quiseram em suas casas e, ainda crianças, tentar reproduzir ou emular as mesmas narrativas pela primeira vez".

Colombo sugere ainda que o local seja preservado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade com algum tipo de sinalização ou destinação de uso de atividades dedicadas exclusivamente ao ramo audiovisual. Seria uma medida minimamente coerente com a importância da Herbert Richers para o entretenimento brasileiro e para a Tijuca, bairro-sede da empresa. 

25 de jul. de 2015

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses

Rua Conde de Bonfim 186: endereço emblemático que já concentrou diversas ocupações emblemáticas para a Tijuca.

O terreno da Rua Conde de Bonfim entre as ruas Conselheiro Zenha e Visconde de Figueiredo poderia ser considerado como parte de um endereço repleto de metamorfoses. Do século XIX até os dias de hoje, o número 186 da principal artéria tijucana já teve nada menos que sete ocupações distintas, todas muito simbólicas para a cultura local do bairro: de residência aristocrática no século XIX, já foi colégio tradicional, loja de departamentos e atualmente abriga a filial de um supermercado. 

Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Na segunda metade do século XIX, quem vivia no referido terreno da prestigiada Rua Conde de Bonfim era ninguém mais, ninguém menos, que Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, que dá nome ao município da região metropolitana fluminense. O militar morou nesse belo palácio até o dia de sua morte em maio de 1880, cujo funeral, segundo relatos, parece ter sido um grande acontecimento não só para a Tijuca assim como para toda a cidade:

Nove de maio de 1880 - Funerais do duque de Caxias: Às nove horas da manhã regurgitava o solar do duque de Caxias, na rua Conde de Bonfim, confluência das atuais Visconde de Figueiredo e Salgado Zenha. Ia sair o enterro do grande homem que fez jus em vida às homenagens até hoje prestadas pela Pátria: o único duque da nossa aristocracia (...) Tudo simples, para obedecer ao testamento do ilustre morto. Mas o acompanhamento foi sem dúvida o mais numeroso a que a cidade assistira. Ao chegar o coche ao cemitério de São Francisco de Paula, em Catumbi, ainda se enfileiravam carros para o cortejo em Conde de Bonfim. Logo após o coche fúnebre, iam 16 moços de estribeira e outro coche, com a coroa do duque, envolta em crepe e os símbolos militares com que invariavelmente conduziu o Brasil ao caminho da vitória: a espada, as dragonas, o talim, a banda e o chapéu... (trecho de Tijuca, de rua em rua [Editora Rio, 2004], de Lili Rose e Nelson Aguiar, páginas 118-119)

Supõe-se que logo após a morte do Duque de Caxias é que a sua então residência tenha virado sede do Club da Tijuca, no final do século XIX e início do século XX. Infelizmente, não existem muitas informações a respeito desse clube. Pesquisá-lo no Google, por exemplo, é tarefa complicada, já que o sistema de pesquisa acaba remetendo todos os resultados da busca ao Tijuca Tênis Clube por causa da semelhança entre os nomes. No grupo do Facebook Tijuca de todos os tempos, de onde tirei grande parte dessas imagens, ninguém soube me responder a respeito deste enigmático club.

Imagem do departamento feminino do Instituto La-Fayette, na Conde de Bonfim
Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Contudo, foi a partir de 1916 quando a Conde de Bonfim 186 tornou-se endereço de uma das mais emblemáticas instituições educacionais da Tijuca: o extinto Instituto La-Fayette. Com duas filiais na Tijuca e outra em Botafogo (na praia, esquina de Visconde de Ouro Preto), a ala feminina do La-Fayette estudava na Conde de Bonfim, enquanto a ala masculina ficava na Rua Haddock Lobo, no mesmo prédio onde hoje funciona a Fundação Bradesco. Para Felipe Torreira, do blog Pileque, que publicou um post de memórias incríveis do referido colégio em dezembro de 2008 (vale a pena ler também os comentários de leitores), o Instituto La-Fayette era um colégio antológico, histórico, e tijucano. Vive na memória dos moradores até hoje com muito orgulho. Afortunados são os que vestiram aquele uniforme. O prestígio inquestionável do colégio fez com que a charmosa rua que margeia a Pedra da Babilônia e o Colégio Militar, nas imediações da Rua São Francisco Xavier, ganhasse em 1947 o nome do fundador da instituição: Professor Lafayette Côrtes.

Reprodução: O Globo, 26 abril de 1981.

Fachada da Mesbla, na Tijuca
Após um misterioso incêndio nos anos 1970, o prédio do Instituto La-Fayette foi infelizmente demolido para dar lugar, em abril de 1981, à nova filial da também extinta loja de departamentos Mesbla. O novo edifício, modernoso para os anos 1980, em nada lembrava o simpático solar onde residiu o Duque de Caxias. Sinônima de vitrines elegantes e mercadorias para todos os bolsos, a Mesbla funcionou na Rua Conde de Bonfim 186 por quase 19 anos, quando em agosto de 1999 fechou as suas portas após ter tido a falência de toda a rede decretada. Na edição do dia 26 de agosto daquele ano, reportagem do caderno "Tijuca", de O Globo ("Magazine na memória da vizinha", 26 ago. 1999) coletou depoimentos de moradores sobre o fechamento da loja:

O lugar era ideal porque, se uma das duas se atrasava, a outra podia dar uma voltinha pela loja para passar o tempo. Afinal, a diversão preferida das mulheres é olhar vitrine (Maria Aurélia Castro, dona de casa, usava a Mesbla como ponto de encontro com a filha, Luciana)

Não gosto de lojas de departamento. Estão sempre cheias e com pouca variedade. Já na Mesbla era diferente. Eu adorava passear nos corredores e sempre acabava comprando alguma coisa (Luciana Castro, tijucana, filha de Maria Aurélia).

Apesar de a tendência ser o fim dos cinemas de rua, gostaria de ver algo no estilo do Estação, com um espaço moderno, filmes alternativos, café e livraria. É disso que o bairro precisa (Roberto Santos, publicitário).

Eles estão por toda parte. É difícil competir com um mercado que vende de tudo: alimentos, eletrodomésticos, roupas e utensílios para o lar. Lamento o fim da Mesbla, mas só os grandes sobrevivem (Lino Souza Gomes, aposentado, que previu o surgimento de um hipermercado no local).

Reprodução: O Globo, 26 de agosto de 1999.
Hipermercado Bon Marché Magazine, inaugurado na Conde de Bonfim 186 no ano 2000.

Foi a partir do ano 2000 quando o número 186 da Rua Conde de Bonfim entrou para a era dos supermercados. Na mesma época, grandes terrenos e edifícios importantes do bairro passaram por esse mesmo processo, como a antiga Companhia Hanseática, na Rua José Higino, transformada num Hipermercado Extra 24 Horas. Na Conde de Bonfim, o mercado inaugurado por lá foi o igualmente falido Bon Marché, do Grupo Pão de Açúcar, que encerrou suas atividades no local por volta de 2005 para dar lugar à filial da tradicional Casas Sendas, braço também pertencente ao GPA a partir de meados da década passada.

Casas Sendas, na Conde de Bonfim com Visconde de Figueiredo, durou até 2011.


O atual Supermercado Extra, na Conde de Bonfim 186 (imagem de 2015).

Entre 2010 e 2011, a marca Sendas foi trocada gradativamente por Extra e Pão de Açúcar. Havia uma expectativa de que essa filial da Conde de Bonfim fosse transformada em uma loja do Pão de Açúcar, já que a filial da Rua Uruguai havia fechado anos antes, sobrando apenas a loja da Praça Afonso Pena, que continua funcionando normalmente. No entanto, as únicas Sendas transformadas em Pão de Açúcar foram aquelas situadas em bairros turísticos, como Leblon e Copacabana. Assim, desde o início desta década, a Rua Conde de Bonfim 186 vem abrigando uma sucursal do Supermercado Extra.

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses. Depois desta retrospectiva, só nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos; se o endereço fizer jus ao seu perfil de transformações, o Supermercado Extra dará lugar a outro empreendimento muito em breve.
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