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30 de abr. de 2016

Engenho Velho vs. Tijuca: a disputa dos topônimos ao longo do tempo

As freguesias antigas do Rio de Janeiro (capa do livro de Noronha Santos):
Tijuca, um topônimo situado na freguesia da Gávea.

A curiosidade em torno dos topônimos (isto é, nomes próprios geográficos) relacionados à Tijuca e sua região é vasta, mas as informações disponíveis são, por vezes, muito confusas. O qui-pro-quo remonta ao século XVIII, quando Tijuca, Maracanã, Andaraí, Grajaú, Vila Isabel, Rio Comprido, São Cristóvão e partes da região do Grande Méier formavam um único bloco territorial denominado “Sesmaria do Iguaçu”. Administrada pela Companhia de Jesus, essa sesmaria foi parcelada e leiloada em três grandes blocos depois da expulsão dos jesuítas do Brasil. Esses blocos ficaram conhecidos como São Cristóvão, Engenho Velho e Engenho Novo.

Engenho Velho era o nome da freguesia correspondente à atual área da Grande Tijuca. A primeira atividade econômica local foi o cultivo da cana de açúcar, seguida do café, já no início do século XIX. Porém, muitos autores afirmam que as plantações de café estavam mais concentradas nas “matas da Tijuca”, dando a entender que o Engenho Velho correspondia ao local de passagem entre Mata-Porcos (Estácio) e a “Tijuca”. Mas, aí, vem a pergunta: quer dizer que Engenho Velho e Tijuca não eram a mesma coisa?

Não; tornaram-se a mesma coisa. Ou melhor: a Tijuca fagocitou o Engenho Velho.

“Tijuca”, na verdade, era o topônimo original referente à parte alta da nossa região – evidentemente, o que conhecemos hoje por Alto da Boa Vista. Uma olhadela nos mapas das freguesias do Rio antigo permite concluir também que a então “Tijuca” pertencia supostamente à freguesia da Gávea. “Engenho Velho”, por sua vez, era o nome da freguesia cujas terras se espraiavam junto às encostas da Tijuca.

O Engenho Velho, em 1875: veja no canto superior à esquerda o topônimo "Tijuca".
Mapa da Biblioteca Nacional.

A Tijuca daquela época era considerada um dos locais mais agradáveis do Rio de Janeiro oitocentista. Por suas belezas naturais e vegetação opulenta, tratava-se de local predileto para passeios e excursões de nobres (só os ricos conseguiam fazer passeios distantes como este, sem falar no difícil acesso ao bairro por causa dos manguezais da Cidade Nova).

Por sua terra fértil, chamou a atenção de muitos franceses dedicados ao cultivo do café, e que logo se mudaram para o “alto” também atraídos por sua qualidade de vida, livre dos “miasmas” da urbe. A pompa “tijucana” nasceu, portanto, nas imediações da floresta, e por causa de figuras ilustres que passaram a residir por lá, como a Baronesa de Roeun, o Príncipe de Montpeliard, o Conde de Scey, o Conde de Gestas, a Madame de Roquefeuille, o Barão do Bom Retiro, o Visconde de Jequitinhonha, o Barão de Itamaraty, e a família Taunay.

O palacete do Barão de Itamaraty, na Rua Boa Vista: abandono no Alto da Boa Vista.
(Créditos: Pedro Teixeira/Agência O Globo).

Nicolas Antoine Taunay era membro da Missão Artística Francesa e chegou ao Rio de Janeiro em 1816. Seu conjunto de terras foi chamado de “Sítio Boa Vista”, área equivalente aos atuais limites da Floresta da Tijuca. Taunay residia junto à Cascatinha, por isto o nome da queda d’água levar o seu sobrenome. Assim, não é de se estranhar que a notoriedade deste sítio tenha influenciado na maneira como as pessoas se referiam àquele local ao longo dos tempos: “Tijuca”, “Alto da Tijuca”, “Sítio Boa Vista”, “Alto”... “Alto da Boa Vista”.

Mas, voltemos a falar do café.

O cultivo de café favoreceu uma ocupação mais intensiva da Tijuca e do Engenho Velho, que cresceu a uma taxa populacional de 67% entre 1821 e 1838 (a taxa de crescimento do Rio como um todo foi de 22% no mesmo período). No decurso do século XIX, a urbanização foi se alastrando cada vez mais por todo o Engenho Velho à medida que esta freguesia se integrava com a malha urbana existente. O aterramento do mangue da Cidade Nova foi fundamental nesse processo.

A secagem do café em fazenda localizada na Floresta. Gravura do século XIX. 
(Crédito: Louis-Jules-Frédéric Villeneuve e Johan Moritz Rugendas/Biblioteca Nacional do RJ)

A queda na produtividade do café também foi fator decisivo para a urbanização do bairro. O café devastou as matas da Tijuca quase por completo, fato que exigiu o restabelecimento da cobertura vegetal da área nos anos de 1870. Com a transferência sucessiva dos cafezais para o Vale do Paraíba - e também com a extinção de certas atividades agrícolas -, os terrenos foram sendo progressivamente fragmentados. Novas ruas e lotes foram abertos. 

O Engenho Velho se transformou numa “colcha urbana de retalhos” à medida que novas funções e usos do solo também iam emergindo. É importante lembrar que o século XIX foi nosso período de transição para a sociedade capitalista, época em que se fundou a morfologia urbana na qual vivemos até hoje. Logo, mais habitações foram construídas; mais serviços foram chegando por aqui.

Assim sendo, localidades específicas da freguesia do Engenho Velho conquistaram certa importância, sendo posteriormente chamadas ou reconhecidas por nomes à parte. O topônimo “Fábrica das Chitas” correspondia à área formada pela atual Praça Saens Peña e Rua Desembargador Isidro (por causa da fábrica de tecidos existente nas vizinhanças). “Andaraí Pequeno” se referia à Rua Conde de Bonfim, que só passou a ser identificada desta maneira em 1871. “Andaraí Grande” contemplava Andaraí, Vila Isabel (tornada independente em 1873) e Grajaú (partilhado em 1912).

Segundo autores do livro “História dos bairros: Tijuca”, publicado pela João Fortes Engenharia em 1984, Tijuca foi um nome que “desceu”. Isto porque, se antes “Tijuca” era o nome dado à parte alta, no início do século XX já se chamava de Tijuca pelo menos toda a área que vai da Usina até o Largo da Segunda-Feira.

Uma das razões que podemos apontar para que o topônimo fosse apropriado desta forma tem a ver com o prestígio conferido à “Tijuca” original – vide a prosperidade econômica dos cafezais, a distinção dos moradores ilustres, e o status auferido por suas belezas naturais. O núcleo rico da Tijuca cresceu e precisou espalhar-se territorialmente pelas adjacências, “morro abaixo”, especialmente com a criação da reserva florestal que hoje protege o Alto da Boa Vista.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu cunhou o termo “espaço social” para designar aquele espaço imaginário cravado dentro de um espaço físico como local habitado por um grupo de pessoas que comungam uma mesma identidade, gostos e modo de vida (o habitus). Por este ângulo, é lógico pensar que, na segunda metade do século XIX, os novos moradores da freguesia do Engenho Velho – sobretudo aqueles que se instalaram na Usina, Muda e proximidades ao Alto – estivessem ali devido à simbologia da "Tijuca" original como lugar nobre. 

Igreja de São Francisco Xavier, em 1906: marco simbólico do Engenho Velho.

Por mimetismo – mas também porque pertenciam à mesma classe social –, reivindicaram indiretamente a extensão do topônimo “Tijuca” para seu local de ocupação. O espaço social da "Tijuca" estava sendo ampliado com a instalação de famílias daquele perfil nas encostas, já na parte baixa. E, desta forma, a designação “Tijuca” foi se estendendo ao longo da Rua Conde de Bonfim na proporção em que a freguesia do Engenho Velho se posicionava como lugar urbano habitado por uma classe social igualmente detentora dos valores simbólicos daquela “Tijuca”.

Pode-se imaginar que a decadência do uso de paróquias e freguesias como subdivisões administrativas da cidade do Rio tenha acompanhado o crescimento extensivo do topônimo “Tijuca” por este vale em que moramos. O “Engenho Velho”, por sua vez, continuou existindo até meados do século XX, mas não mais como divisão administrativa, e sim como localidade. Um sub-bairro, talvez?

Mesmo assim, sua área de alcance foi reduzida, conformando apenas o conjunto de ruas situado entre o Rio Comprido e a Rua São Francisco Xavier, localidade onde os jesuítas ainda no século XVIII ergueram a Igreja Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho. Uma evidência deste limite moderno entre Engenho Velho e Tijuca está na Praça Carlos Paolera, em frente ao Teatro Ziembinski: um monumento do Rotary Club dá as boas-vindas à Tijuca a partir daquele local. Instalado em 1986, o "totem" permanece até os dias de hoje no mesmo ponto, livre de vandalismos.

Ainda no livro “História dos bairros: Tijuca”, da João Fortes Engenharia, os autores afirmam que a estação de metrô da São Francisco Xavier se chamaria “Engenho Velho”, nos anos 1970. Entretanto, alguns tijucanos influentes protestaram contra a decisão sob o argumento de que este topônimo já estava em desuso “há décadas”. 

Estes podem ter sido sinais de que a Tijuca já havia, portanto, se alastrado rumo ao Estácio, condensando num único território seus valores e simbologias de lugar valorizado, aristocrático, primariamente chique. Vem daí a essência do "chamar-se" tijucano, gentílico surgido nos anos de 1940. Assim como as disputas pelos limites da Tijuca, como a exemplo de ruas do Andaraí, Vila Isabel, Maracanã e Rio Comprido que, volta e meia, se intitulam tijucanas. O próprio epíteto de "Grande Tijuca" já é uma amostra desse debate do querer-ser Tijuca.

Material consultado:
ABREU, Mauricio de Almeida. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPP, 2008.
CARDOSO, Elizabeth Dezouzart. História dos bairros: Tijuca. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia, 1984.
GERSON, Brasil. História das ruas do rio. 6a edição. Rio de Janeiro: Bem-te-vi, 2013.
LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Uma reflexão em busca de auto-estima. Rio de Janeiro: Record, 2005.
ROSE, Lili; AGUIAR, Nelson. Tijuca: de rua em rua. Rio de Janeiro: Editora Rio, 2004.

20 de mar. de 2016

Rua Adalberto Aranha

Rua Adalberto Aranha: na esquina com a Rua Antônio Salema e o Pico da Tijuca ao fundo.

Imortalizada pelo seu mais ilustre morador – o jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues –, a Aldeia Campista é mais uma daquelas regiões que entrou para o rol de bairros que não constam mais nos mapas oficiais da cidade do Rio. Como exemplos, podem ser citados os bairros Peixoto e o de Fátima, ou a Boca do Mato, no Lins de Vasconcelos. Não sei dissertar tão bem sobre o porquê de estes bairros terem tido a sua representatividade reduzida. Talvez seja pelo território diminuto ou pelo número irrelevante de habitantes, quem sabe. Ou muito provavelmente por causa da especulação imobiliária. Segundo a Revista da Semana de junho de 1958, é bem dizer que se mora na Tijuca e o nome do bairro também serve de chamariz nos anúncios de imóveis para venda ou aluguel, quando na verdade querem se referir ao Andaraí ou a outros bairros vizinhos... A Tijuca conserva sua pontinha de esnobismo (1).

Este é o caso da Aldeia Campista, que, além disso tudo, ninguém sabe ao certo quais são seus limites enquanto “sub-bairro”, muito embora seu conjunto de ruas tenha sido incorporado oficialmente ao território de Vila Isabel. Ou seja, toda aquela região compreendida pelas ruas Barão de Mesquita, Maxwell e Gonzaga Bastos etc., é o que se poderia chamar de Aldeia Campista. A Rua Adalberto Aranha, portanto, está nesse “miolo”.

Nessa ocasião, eu havia iniciado o meu passeio pela Rua Antônio Salema, perpendicular à Adalberto Aranha. Rua muito simpática, diga-se de passagem, com casinhas primorosas, que mostra de forma bastante interessante ao passeador a dinâmica residencial nesta faixa de transição entre a Tijuca e Vila. A Aldeia Campista ainda continua sendo, de certa forma, um local majoritariamente de casas e edifícios baixinhos dos anos 1950, mas cujo boom imobiliário dos anos 1980 e 1990 fez levantar uma série de espigões que paira sozinha nos ares, em sua maior concentração nas ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos. Um bando de casas rodeado por uma ilhazinha de prédios. Eis a herança do bairro pacato tão bem retratado nos contos rodriguianos só que contaminado pela especulação imobiliária do dileto bairro vizinho, a Tijuca, que verticalizou-se a partir dos anos 1960 e 70, principalmente devido à construção do metrô.

O detalhe das fachadas antigas: são muitas na Rua Adalberto Aranha.

Diferente do entorno, como as ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos, a Rua Adalberto Aranha é
bastante arborizada: jardins com ixoras, cachos-dourados e palmeiras.

Azulejos: o charme da herança lusitana.

A Rua Adalberto Aranha é um desses exemplos de como a especulação imobiliária falou mais alto, desconfigurando, assim, muito do que devia ter existido por ali até 30 anos atrás. Mais progressista que a adjacente e mais tradicional Rua Antônio Salema, a Adalberto Aranha é não apenas sombreada pela sua arborização impecável, mas igualmente pelo corredor de edifícios  levantados por ali nos anos 1980. Tornou-se uma rua típica da classe média tijucana contemporânea: a mistura do velho com o novo, dos azulejos hidráulicos meio lusitanos com o vidro das varandas confortáveis no alto dos prédios, dos muros baixinhos de pedra com as grades de ferro dos portões, cujas pontas são espetadas e inibidoras à intrusão. A Paróquia Sangue de Cristo, no número 48, complementa à rua a vocação carola que Tijuca e Vila Isabel emanam na história da urbanização carioca.

Mais adiante, chama a atenção o simpático Edifício Bertioga, no número 16. A porta do edifício é uma singela entrada de madeira, peculiaríssima aos projetos hoje tidos como retrôs, e toda coberta por arabescos e pastilhas. Um mimo, como se diria nos antanhos. Por outro lado, foi entristecedor notar o estado decadente do prédio cuja fachada foi detonada por pichadores e pelo gradeamento irregular das janelas. O próprio espaço do Bertioga com a rua, antes livre, foi cercado por um gradil moderno, que decerto mataria de desgosto o autor do projeto. É muito comum que esses edifícios antigos no Rio como um todo não recebam o cuidado e a atenção merecida. Sendo assim, o panorama lamentável do Edifício Bertioga não é nenhuma novidade, mas apenas a reafirmação de que nossa história e nossa arquitetura tendem a ir para o beleléu em tempos tão pouco apegados à memória como este em que vivemos.

Os arabescos do decadente, mas charmoso, Edifício Bertioga.

Na esquina com a Barão de Mesquita, o estilo dos armazéns de outrora.

Carroça de frutas: atividades comerciais tradicionais se mantêm na região.

Na Rua Barão de Mesquita, em frente à Rua Adalberto Aranha, está o 1º Batalhão da
Polícia do Exército - antigo DOI-CODI, símbolo do indecoroso Regime Militar.

Por outro lado, acho que o infortúnio é coisa apenas do Edifício Bertioga, porque a Rua Adalberto Aranha, de uma maneira geral, é bem cuidada e aprazível. Jardins suspensos recaem sobre a fachada dos prédios enquanto ixoras colorem os canteiros pelas calçadas. Mesmo estando às margens da Rua Barão de Mesquita, importante artéria da região por onde passam muitos ônibus e automóveis, a Rua Adalberto Aranha é bastante silenciosa e com clima familiar. Os transeuntes são moradores e prestadores de serviço do entorno: estudantes uniformizados, senhoras com sacolas de compras, os ciclistas com entregas das farmácias que os empregam. Enquanto caminhava pela rua, era possível até mesmo escutar conversas ecoadas lá do alto dos apartamentos – os dos primeiros e segundos pisos, é claro –, tamanho o silêncio.

A esquina com a Barão de Mesquita é onde está localizada a arquitetura de maior idade, espectadora das grandes mudanças ocorridas ao longo dos anos na Aldeia Campista. Um sobrado centenário no lado ímpar todo coberto por placas cerâmicas nas cores branca e verde, onde funciona uma clínica podológica, e um armazém, também centenário, com pé-direito alto e múltiplas portarias estreitas e arqueadas no seu topo.

Em frente, e intacto, o 1º Batalhão da Polícia do Exército, local das instalações do DOI-CODI, símbolo indecoroso do Regime Militar fincado em nossas terras. Segundo Aldir Blanc, agentes provocadores espalham, em Copacabana, que existem algumas ruas, na Tijuca, em que mora um ex-torturador para cada vinte habitantes (e desses, mais da metade apoiava, ainda que por omissão, o que o monstro fazia na época da ditadura). Não é verdade (2).

Muito além dos contos de Nelson Rodrigues, por suas calçadas estreitas e algumas ruas meio pastoris, essa Aldeia Campista oferece é coisa para ver e história para contar.

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Texto adaptado; publicação original no meu outro blog As Ruas do Rio, em 17 de fevereiro de 2014.

(1) CARDOSO, Elizabeth Dezouzart et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984.
(2) Ver prefácio do livro “Tijuca e Floresta”, da coleção Bairros do Rio, lançado pela Editora Fraiha em 2000.

19 de jul. de 2015

Tijuca: subúrbio ou simplesmente Zona Norte?

Praça Saenz Peña: cinemas de rua em funcionamento conferiram à região a alcunha de "Cinelândia da Tijuca".
Créditos: Ignacio Ferreira (1989).

Em edição comemorativa pelo aniversário de 256 anos do bairro, o repórter Mauricio Peixoto do caderno “Tijuca”, que saiu nessa última quinta-feira (16 jul. 2015) no Jornal O Globo, afirmou que os tijucanos gostam de exaltar o passado da região ao relembrarem orgulhosamente “dos cinemas na Praça Saens Peña, a ‘Cinelândia do subúrbio’”. De imediato, o termo “Cinelândia do subúrbio” chamou a atenção dos mais atentos leitores pelo simples fato de que a Saenz Peña, nos tempos áureos do cinema de rua, sempre foi conhecida apenas como a "Cinelândia da Tijuca", ou, mais recentemente, como a "Segunda Cinelândia Carioca" (graças ao livro da ótima Thalita Ferraz), embora nunca como "Cinelândia do subúrbio".

Matéria do O Globo Tijuca, de 16 jul. 2015
A questão é que existe uma ideia equivocada de que toda a Zona Norte carioca seja sinônimo de subúrbio, senso comum que motivou o repórter de O Globo a adjetivar a extinta cinelândia do bairro como "suburbana". Eis, então, a "polêmica", porque a Tijuca não é considerada oficialmente um bairro do subúrbio. E antes de defender esse argumento, é preciso reconhecer de cara que se trata de uma polêmica digna de qualquer tijucano que a defenda ser xingado de separatista, metido, arrogante, elitista etc. pelo restante da Zona Norte. Mas há fundamentos científicos que embasam essa afirmação, sustentados pela própria Prefeitura do Rio de Janeiro.

Grosso modo, todo subúrbio carioca é necessariamente parte da Zona Norte, mas há bairros da Zona Norte que não são tidos como subúrbios – como, por exemplo, Tijuca, Vila Isabel, São Cristóvão, entre outros bairros vizinhos. Por outro lado, esse entendimento, além de específico, também deveria ser visto como ultrapassado. Isso porque, no dicionário, subúrbio significa “arrabalde ou vizinhança da cidade ou de qualquer povoação”, o “território extramuros da cidade”. Porém, hoje em dia, os bairros “suburbanos” do Rio dispõem de uma conotação muito mais pejorativa e ideológica do que geográfica, já que, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) de 2010, o Rio de Janeiro e sua região metropolitana tem grau de urbanização que já alcança valores percentuais na faixa de 99%. Ou seja, não existem mais subúrbios na acepção da palavra: são todos bairros urbanizados e integrados com a cidade.

Para o caso da Tijuca - e retomando um pouco a história urbana carioca -, o apelido inventado pelo repórter, de “Cinelândia do subúrbio”, é inconsistente porque a região nunca chegou a se consolidar propriamente como um subúrbio da cidade dada a sua contiguidade espacial ao Centro do Rio. O processo de urbanização se expandiu rapidamente da região central, a partir do século XIX, para a Tijuca (na época, Engenho Velho), São Cristóvão e Botafogo, conformando, desse modo, uma única mancha urbana desde o início do século XX. Todos esses bairros citados fazem parte do rol dos mais antigos da cidade em relação àqueles de ocupação residencial, melhorias urbanísticas e integração viária na circunvizinhança do Centro.

As lojas e cinemas da Praça Saens Peña, nos anos 1950 (reprodução de livro).

O CONCEITO CARIOCA DE SUBÚRBIO

Subúrbio, no Rio: conceito ideológico
O livro “O rapto ideológico da categoria subúrbio” (Editora Apicuri, 2011), do professor de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Nelson da Nóbrega Fernandes, mostra um apanhado histórico dos antigos subúrbios cariocas a partir do ano de 1858 indicando que, em mapas oficiais da cidade e em outras documentações consultadas, subúrbio, poderia ser tanto o Méier, Madureira e Inhaúma, como os bairros de Copacabana, Ipanema e Gávea, hoje considerados nobres, da Zona Sul. Isto é, se tratavam de regiões adjacentes à zona previamente urbanizada, como o Centro e os bairros ao seu redor citados anteriormente, caracterizando-se, portanto, como regiões suburbanas no sentido literal.

Nos Estados Unidos e na Europa, onde o processo de urbanização das cidades foi pioneiro, o subúrbio, em geral, foi e continua sendo o espaço destinado às elites e classes médias – que para lá se refugiaram contra os aglomerados urbanos insalubres e perigosos da época das indústrias. São lugares bucólicos, ajardinados e de casas confortáveis. Até o início do século XX, essa acepção de subúrbio também se aplicava ao Rio de Janeiro. Segundo Fernandes, o subúrbio era o local de nobreza – não tão chic como Botafogo ou o Engenho Velho, bairros da aristocracia, como ele próprio sentencia –, mas com serviços voltados a essa classe, que também se dirigiam para lá com fins de descanso.

Segundo o autor, teria sido a partir da reforma urbana do prefeito Pereira Passos, em 1903, quando o conceito de subúrbio ganhou contornos mais ideológicos e pejorativos no contexto do Rio de Janeiro. Com a implantação de uma nova ordem urbana no Centro da futura metrópole, associada também à expansão do mercado imobiliário para as classes altas à beira-mar, o proletariado do Centro foi “expulso” para os subúrbios, passando a ser vistos como locais estratégicos de escoamento dessa população marginalizada para bem longe do Centro “civilizado”. Para Fernandes, não houve uma política de moralização da classe trabalhadora nesse processo, o que favoreceu a emergência do caráter pejorativo que o termo “subúrbio” emana no cenário carioca. Em outras palavras, o lugar “sem classe”, desvalorizado, de mau gosto.

TIJUCA, UM BAIRRO GENUINAMENTE NOBRE 


O bailado (e vestimenta) dos tijucanos,
por Olavo Bilac, em 1906
É com base no conceito carioca de subúrbio como remetente à ideia de locais habitados originalmente por classes socioeconômicas menos privilegiadas onde podemos constatar que a Tijuca e sua região, em termos históricos, geográficos e especialmente ideológicos, não pode ser considerada um subúrbio da cidade, mesmo fazendo parte da Zona Norte, onde se localiza grande parte dos originais subúrbios na atualmente. Primitivamente aristocrática, a Tijuca, nos seus primórdios, foi um bairro bastante valorizado, berço de famílias tradicionais e de uma classe média com bom poder aquisitivo que, mesmo com o êxodo dos anos 1990, continua caracterizando o perfil social da região mesmo nos dias de hoje.

Na obra clássica “A evolução urbana do Rio de Janeiro” (IPP, 2008), do também geógrafo Mauricio de Almeida Abreu, diz-se que entre 1870 e 1902 só morava fora da área central “quem podia se dar ao luxo” de arcar com os custos dos terrenos da Glória, Botafogo e Tijuca. Abreu cita também o papel dos bondes no desenvolvimento de bairros da Zona Sul e da Zona Norte, ou, em suas palavras, “os ricos bairros de chácaras da zona norte, como Tijuca e Andaraí” (p. 45).

Gilberto Velho, no estudo antropológico “A utopia urbana” (Editora Zahar, 1989), dos anos 1960, faz uma análise da estrutura social do bairro de Copacabana mostrando que considerável parte dos moradores que se mudaram para lá eram originalmente tijucanos. Em outras palavras, a construção de um bairro voltado para a elite, como foi o caso de Copacabana no início do século passado, favoreceu a migração de elites de outras partes da cidade, como a Tijuca, para esse novo “paraíso” imobiliário, cheio de signos e estilo de vida vistos como superiores.

Em “A invenção de Copacabana” (Editora Zahar, 2013), de Julia O’Donnell, é comentado que os jornais de bairro que circulavam em Copacabana por volta dos anos 1920 tinham grande articulação com os congêneres que circulavam entre a comunidade tijucana, mais especificamente a do Tijuca Tênis Clube, e a de Icaraí, em Niterói, por concentrarem uma elite com interesses comuns aos da de Copacabana. Nesse mesmo livro, O’Donnell fala que a “invenção de Copacabana” não só como local de residência burguesa, mas também lugar de passeio, sociabilidades e comensalidades, colocou aquele bairro lado a lado com a Tijuca em termos de lazer; segundo ela, a Tijuca era “um dos destinos privilegiados para os piqueniques na capital” nos anos 1920.

Em livro de Cynthia Campos Rangel derivado de sua dissertação de mestrado defendida no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ), “As Copacabanas no tempo e no espaço” (Observatório das Metrópoles, 2003), a região da Tijuca é categorizada como “Zona Norte nobre” na pesquisa em diferenciação socioespacial e hierarquia urbana da autora:

A Zona Norte nobre inclui os bairros da Tijuca, Vila Isabel, Andaraí, Grajaú, Alto da Boa Vista e Maracanã. Trata-se de uma área tradicional da cidade, onde ainda residem membros das classes superiores de nossa sociedade. Apesar da ausência de praia, importante símbolo de status carioca, os seus moradores e os que para lá pretendem se mudar, provenientes de outros bairros da Zona Norte ou do subúrbio carioca, apresentam um perfil elitizado (p. 57).

Destaca-se, nesse trecho, a diferenciação apontada pela autora entre Zona Norte e subúrbio, pontuando que os dois termos podem constituir noções distintas de localidades geográficas, detalhe que muitos cariocas ignoram, como o repórter de O Globo.


ZONA NORTE, ZONA SUL, SUBÚRBIO: HIERARQUIAS URBANAS

Para Gilberto Velho, a “divisão de zona sul, central, norte e suburbana tem forte conteúdo ideológico e subjetivo, formando um mapa social onde as pessoas se definem pelo lugar em que moram” (trecho citado na obra de Nelson Fernandes, p. 38).

Um bom exemplo que ilustra esse mapa social e a adoção cautelosa (senão temerosa) de denominações geográficas sobre os bairros é o caso da Barra da Tijuca. Considerada um subúrbio da cidade na acepção da palavra, no cenário carioca, entretanto, a Barra é vista como uma “periferia de alto status” por não dispor de feições morfológicas tampouco índices socioeconômicos semelhantes aos bairros tidos como “suburbanos”, como afirma Nelson da Nóbrega Fernandes em sua obra. Além disso, a ideia de "subúrbio", como já foi mostrado, infelizmente carrega um grande teor depreciativo, concepção que seria pouco atraente para os negócios e anúncios do aquecido mercado imobiliário da Barra e Recreio dos Bandeirantes caso estes fossem difundidos cotidianamente como bairros suburbanos pela população e, sobretudo, pelos empresários do ramo.

O mapa do Rio de Janeiro, da esquerda para a direita: periferia distante, periferia imediata (subúrbios) e o núcleo. Reprodução: ABREU, Mauricio. A Evolução Urbana do Rio de Janeiro (IPP, 2008).

Áreas de Planejamento do Rio de Janeiro, segundo o Plano Diretor: Tijuca e Vila Isabel pertencem à área
de planejamento 2, junto com bairros da Zona Sul, por afinidades socioeconômicas e perfil semelhante
da ocupação do solo. (Reprodução: Blog Mapa Ambiental)

Mauricio de Abreu, em “A evolução urbana do Rio de Janeiro” (IPP, 2008), assinala diversas vezes os limites entre núcleo e periferia incluindo sempre, por todas as questões já levantadas nesta publicação, a região da Tijuca no “centro”, ou seja, dentro do núcleo econômico. Em livro a ser lançado em agosto de 2015 pelo instituto de ciência e pesquisa Observatório das Metrópoles, da UFRJ, sobre as transformações na ordem urbana do Rio de Janeiro entre 1980 e 2010, vê-se que, em relação à organização social do território, as regiões administrativas da Tijuca e de Vila Isabel são categorizadas como de perfil superior no mercado imobiliário da cidade e que, tal qual Abreu apontou no estudo da evolução urbana do Rio, ambas continuam pertencendo ao núcleo econômico da cidade, conforme dados do último Censo Demográfico. 

De uma forma geral, o que todos esses autores indicam é que, muito embora a denominação da cidade por zonas seja uma construção social, existem questões históricas e geográficas que precisam ser levadas em conta na hora de se chamar um lugar ou outro de subúrbio. Por esse motivo que a região da Tijuca não pode ser denominada como suburbana, apesar de, incontáveis vezes, pontuar essa diferenciação – isto é, entre ser Zona Norte ou subúrbio – acabe necessariamente resvalando em questões muito mais de se querer expor uma divisão de classes sociais do que em questões histórico-geográficas do Rio de Janeiro.

Os cientistas sociais utilizam essa diferenciação entre Zona Norte e subúrbio como categorias para se analisar as desigualdades sociais no território, embora existam outros contextos e agentes que podem acabar reproduzindo tais designações geográficas com fins de pormenorização das hierarquias sociais entre os bairros, e, em muitas ocasiões, de maneira pedante. Como atualmente a grande mídia tende a massificar tudo que está para "além" do Túnel Rebouças, há uma tendência de se chamar, eventualmente, a Zona Norte inteira de subúrbio, principalmente porque grande porção do núcleo econômico da cidade está situado à beira-mar, diferentemente da Tijuca, que se trata de um bairro continental. 

21 de mai. de 2015

Limites imprecisos: final da José Higino é Tijuca ou Vila Isabel?

Final da Rua José Higino, junto ao SESC: limites indefinidos.

O mistério ronda o final da Rua José Higino; a que bairro pertence, afinal, à Tijuca ou à Vila Isabel? Para a Plamarc, empresa responsável pela confecção e manutenção dos postes de identificação de logradouros, a esquina da Rua José Higino com a Rua Barão de Mesquita pertence à Vila Isabel, muito embora a “Zé” Higino seja um endereço tradicionalmente tijucano. E é.

Ultimamente, o Google tem se tornado uma grande referência no que tange aos dados da cidade. Bastam alguns manuseios detalhados pelo Google Mapas para que se descubra, num piscar de olhos – ou melhor, a um clique do mouse – os domínios exatos de cada bairro carioca. Para a não surpresa, toda a extensão da Rua José Higino pertence à Tijuca. Por outro lado, é esse trecho da Barão de Mesquita, como vocês podem ver no mapa, o limiar entre a Tijuca, Andaraí e Vila Isabel.

Reprodução: Google.

A questão toda é que tal confusão de limites tem uma razão: toda a região compreendida entre a Barão de Mesquita e a Maxwell, da Pereira Nunes até a Uruguai, era conhecida como Aldeia Campista, o bairro imortalizado por Nelson Rodrigues, mas esquecido por muitos tijucanos e até mesmo pela Prefeitura do Rio de Janeiro.

Toda a área da Aldeia Campista, no entanto, foi anexada, em parte, à Vila, e outra parte, ao Andaraí, tal qual hoje em dia Muda e Usina pertencem à Tijuca. De todo modo, a José Higino é e sempre foi da Tijuca. Conserta isso, Plamarc!

23 de fev. de 2015

A versão tijucana de I LOVE NY em arte urbana, por Felipe Madeira

O designer Felipe Madeira, graduando em Desenho Industrial (UFRJ), é o autor da obra que
 ressalta, em forma de arte, a devoção dos tijucanos pelo seu bairro

O pedestre atento que circula pela Tijuca já deve ter reparado que, em questão de arte urbana, o bairro é uma verdadeira galeria a céu aberto. Recentemente, o que mais tem chamado a atenção nesta categoria em ruas como a Barão de Mesquita e a Professor Gabizo é a releitura tijucana do emblemático logotipo americano I LOVE NY (I ♥ NY), criação do designer gráfico Milton Glaser nos anos 1970 como parte de uma campanha para difundir o turismo na Big Apple nos anos de 1970. O símbolo, que tornou-se referência mundial e hoje serve de inspiração para diversas outras obras de arte, anúncios publicitários, estampas etc., chegou à Tijuca como I LOVE TJK (I ♥ TJK) em formato de lambe, uma espécie de pôster que vem ganhando cada vez mais espaço no rol da arte urbana carioca.

Um dos exemplares do I ♥ TJK, na Barão de Mesquita
Idealizador da ilustração, feita de jornal e stencil, o designer tijucano Felipe Madeira, de 22 anos, conta que desenvolveu esta ideia a princípio para estampar uma camisa, mas que acabou decidindo por usar a técnica do lambe quando participou de um workshop com o coletivo paulista SHN. O encontro rendeu-lhe não só um know-how, mas também a paixão por esta técnica que vem norteando sua trajetória artística. 

Sobre a arte, em primeiro lugar, cabe destacar que TJK é a abreviatura "internética" para Tijuca, muito difundida nos bate-papos de mensagens instantâneas durante os anos 2000. Daí a adaptação do NY para TJK, correlação igualmente pop ao NY e tributo de Felipe, nascido no Hospital da Ordem Terceira e ex-aluno do Colégio Pedro II, ao bairro onde reside:

— Quis fazer uma brincadeira com a "marra" tijucana, mas acabei percebendo que me apropriei de um ícone tão forte, que trazia consigo um contexto tão poderoso, que acabou caindo como uma luva para o espírito tijucano. Acredito que seja de fácil identificação e compreensão para os demais bairros, afinal, quem não conhece o "I ♥ NY"? – aponta ele.


A versão original, marca registrada de Milton Glaser: inspiração mundial.
Felipe na ativa em região próxima ao Hospital Oscar Clark, no Maracanã,
junto ao mosaico de Elisa Pessoa, sua parceira "de rua"

Reprodução: Instagram.
Felipe explica que seus pôsteres, conhecidos em inglês como wheat-paste posters, são pregados com uma cola especial à base de farinha com água e soda cáustica (prática, segundo ele, mas nociva à saúde se não tomar os devidos cuidados) e que, embora não tenha uma parceria direta na produção dos seus lambes, não dispensa a companhia de amigos na hora de sair pelas ruas:

— Não saio para colar sem amigos, são eles quem me dão ânimo de sair à rua depois de um dia de estudo e trabalho. Geralmente, meus lambes são vistos perto dos da Elisa Pessoa, também tijucana, estudante de design gráfico, que tem um trabalho muito interessante fazendo praticamente um mosaico de estampas feitas por ela. É tudo artesanal, bem manual.

Embora o I ♥ TJK seja uma de suas obras mais especiais, Felipe argumenta que não pretende se limitar à Tijuca como área de colagem, pois "se sentiria enjoado em ver a Tijuca infestada de I ♥ TJK's", atestando que produzir materiais novos é uma de suas necessidades pessoais enquanto artista. Além disso, alega que sua obra, além de prática e barata, dialoga diretamente com outras técnicas artísticas que, vez ou outra, se sobrepõem ao seu trabalho, como os adesivos (stickers).

Numa das imagens enviadas a O passeador tijucano, Felipe exemplifica esta interação entre o lambe e o sticker: ao invés do simbólico coração vermelho, surgiu o adesivo de um coração literal, ou seja, em sua versão biológica. Segundo o próprio, a arte de rua está a exposta a um tipo de efemeridade que proporciona tais interações e ressignificações constantes que, se por um lado, pode ser interpretado como vandalismo, por outro, é uma resposta positiva ao trabalho apresentado, capaz de mobilizar um diálogo direto com seus interlocutores.

Felipe, além de artista propagador do espírito tijucano pelas ruas do bairro, é graduando em Desenho Industrial com foco em Projeto de Produto na UFRJ e também estagia numa empresa focada em visual merchandising em Laranjeiras. Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, ele o expõe neste site (https://www.behance.net/felipemadeira) e no seu Instagram (https://instagram.com/felipe__madeira/).

Saudações tijucanas, Felipe!

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5 de set. de 2014

Das fábricas aos decadentes hipermercados: uma retrospectiva

O extinto Walmart da Tijuca, na Rua Almirante Cochrane, junto à Pedra da Babilônia: antigo Complexo Industrial da Brahma. (Créditos: Fernando Stankuns)

Um bairro de feições industriais, mas que acabou se entregando por completo ao terceiro setor: assim tornou-se a Tijuca a partir dos anos 1990, quando algumas de suas tradicionais fábricas foram fechando pouco a pouco até pulularem, em seus antigos espaços, grandes templos de consumo como os hipermercados. Em meio à recessão e às políticas neoliberais, a moda, nessa década, era consumir tal como se fazia na Barra da Tijuca, bairro importador de modelos comerciais estrangeiros para toda a cidade, sobretudo naqueles com terrenos disponíveis para a construção de colossais centros de compra.

Um dos primeiros a surgir por aqui foi o Carrefour, em julho de 1997, no antigo terreno da Fábrica Souza Cruz, que foi fechada em 1992 na Usina. Com investimento de R$ 15 milhões, a multinacional francesa inaugurou sua décima-primeira loja no Brasil justo na Rua Conde de Bonfim, causando certo frisson entre os tijucanos diante de tão modernoso hipermercado logo aqui no nosso “quintal”. Tal sinônimo de modernidade e sofisticação consistia na presença de outros tipos de lojas lá dentro, como cafeterias e lanchonetes, por exemplo, algo sem dúvida inovador na época.

Já na Avenida Maracanã com a Rua José Higino, havia a Companhia Cervejaria Hanseática, que tornou-se posteriormente na Fábrica da Brahma. Suas atividades foram encerradas no ano de 1992, no mesmo ano em que a Souza Cruz retirou-se da Usina. Segundo O Globo, durante a recessão daquele ano, embora a empresa pudesse continuar fabricando 17 milhões de litros de cerveja por mês, engarrafava apenas 8 milhões! Foram mais de 400 demissões, ao todo. Desde então, o terreno de aproximadamente 52 mil metros quadrados ficou abandonado e cheio de escombros, até que em 1999 o grupo Pão de Açúcar tornou-se proprietária dali para erguer, no ano 2000, o Extra Maracanã, hipermercado no mesmo molde do Carrefour: bastante imponente, grandioso e com o diferencial de funcionar 24 horas!

Companhia Hanseática Cervejaria, na Rua José Higino 115: registro de Augusto Malta.

O Extra ficou por muito tempo conhecido como um supermercado tijucano já que muitas das suas filiais localizavam-se na Grande Tijuca: Extra Mariz e Barros, onde era o antigo Superbox, e o Extra Boulevard, onde funcionava o Paes Mendonça de Vila Isabel e, claro, a antiga Fábrica de Tecidos Confiança. A alcunha tijucana também lhe era muito comum por ter sido um dos estabelecimentos comerciais precursores em expor fotos antigas do bairro em seus vastos corredores.

Tal prática de estímulo à memória cultural da região se alastrou por restaurantes, lojas, cafés, drogarias e até mesmo por outros hipermercados, como o estadunidense Walmart, que mesmo sem relação íntima alguma com a Tijuca, sabe-se bem que fez de tudo para angariar a simpatia dos tijucanos. Inaugurado no segundo semestre de 2007 no antigo Complexo Industrial da Brahma da Rua Almirante Cochrane 146, o Walmart era mais bem visto como um local capaz de dar maior sensação de segurança pública ao seu lúgubre entorno do que propriamente uma opção de onde-se-fazer-compras. Resultado: suas dependências, sempre vazias, foram fechadas ao público em outubro de 2013.

O caso do Carrefour: planos que nunca saíram do papel  

Carrefour da Usina
O fechamento do Walmart, no entanto, não foi pioneiro. Em abril de 2005, o Carrefour deu seus últimos suspiros na Usina. Diz-se que uma das grandes razões do seu insucesso tenha sido a instável segurança pública da época, que culminava em eventos muito frequentes de tiroteios dada a sua proximidade com a favela do Borel, Casa Branca e Indiana. Além disso, parece que assaltos e saques ao Carrefour eram também muito comuns, o que afugentava os fregueses.

Quem passa hoje pela Conde de Bonfim, indo ou vindo do Alto, depara com o espectro de um gigantesco hipermercado cujas vidraças já não existem, e de onde, inclusive, surgiram galhos e plantas entre as fissuras das antigas esteiras rolantes. Ainda é possível ver um ou outro cartaz indicando as promoções do dia, mas quase ilegíveis pelos seus tons amarelados.

Ideias para o local sempre foram muito recorrentes. Em agosto de 2009, o então secretário municipal de habitação Jorge Bittar apresentou a proposta de se construir ali um conjunto habitacional que serviria de residência para os moradores da Favela Indiana, permitindo, deste modo, que tal assentamento pudesse ser removido da Rua São Miguel.

A proposta foi vista com grande polêmica e alarde por muitos moradores, que temiam ter seus imóveis desvalorizados com a possível degradação do local sob o argumento de que "as políticas públicas atuais nem sempre são contínuas e capazes de manter algo daquele porte". Por fim, a última notícia que se teve é que o ex-Carrefour foi comprado em 2010 pela BVA Empreendimentos, que, em sociedade anônima, atua nos segmentos bancário, imobiliário e de energia.

Extra Maracanã: futuro Shopping Conviva Maracanã

Extra Maracanã: erguido junto à antiga Fábrica da Brahma, em 2000.
Fonte: Um coração suburbano
Se por um lado o Carrefour e o Walmart não resistiram à crise, o Extra Maracanã, por sua vez, continua suportando o tempo de vacas magras sem economizar nos sinais de decadência. No ano 2000, quando foi inaugurado, seu espaçoso ambiente era sinônimo de modernidade e conforto. Hoje, quem o frequenta percebe claramente que o número abundante de caixas registradoras é over, enquanto a seção de CDs, DVDs e livros parece ser quase inútil em tempos tão digitais. Na fachada, o letreiro está amarelado e com algumas pichações. Cenário similar é o da filial-irmã na Rua Mariz e Barros, que clama por reforma.

No entanto, a localização nobre - junto à Rua José Higino - tem sido vista como ponto estratégico para a GPA Malls, que anunciou a futura instalação do Conviva Maracanã ali, algo que eles chamam de shopping de vizinhança, definido como uma "alternativa de espaço comercial para lojistas, com a praticidade e segurança dos grandes shopping centers e o despojamento do comércio de rua". O projeto foi conceituado a partir de pesquisas qualitativas sobre o comportamento dos consumidores da região da Tijuca objetivando oferecer um mix de lojas inteligente que atenda à comunidade local.

Ainda não se sabe, porém, se o Conviva Maracanã transformará o Extra em Pão de Açúcar, como aconteceu com o antigo Freeway da Avenida das Américas, na Barra, o primeiro "Conviva" carioca. Em suma, a ideia do shopping de vizinhança é a criação de um pequeno centro comercial que reúna uma série de lojas de apelo doméstico e gastronômico, além de pet shops e academias de ginástica. Resta saber se manterão o Centro Coreográfico do Rio de Janeiro no local.

Um destino para o Walmart?

No final de 2013, assim que o Walmart encerrou suas atividades na Almirante Cochrane, capitaneei um movimento a favor da transformação deste terreno em um complexo cultural e de entretenimento (nosso abaixo-assinado: http://goo.gl/pauWcK). A ligeira repercussão causou-me uma nota jornalística no O GLOBO-Tijuca de 19 de dezembro de 2013. Na época, a multinacional estadunidense afirmou que já estava em fase de negociações com outras empresas interessadas no local. Suspeitava-se que ali se converteria numa Leroy Merlin, algo que definitivamente, pelo menos até agora, não saiu do papel. E hoje, quem passa pela Almirante Cochrane, consegue prever que o extinto Walmart está fadado à mesma alcunha do já comentado Carrefour: a de um verdadeiro elefante branco na Tijuca.

Material consultado:

ARAÚJO, Ledice. Carrefour vai inaugurar filial na Tijuca semana que vem: empresa pretende investir R$ 300 mihões ainda este ano. Economia. O Globo, 1 jul. 1997, p. 26.

KOPSCHITZ, Isabel. Prédio do Carrefour é vendido. O Globo-Tijuca. O Globo, 23 set. 2010, p. 2.

MASCARENHAS, Gabriel. Loja do Carrefour nos planos da prefeitura. O Globo-Tijuca. O Globo, 13 ago. 2009, p. 2.

SANTOS, Ana Cecilia. Dança renasce nos escombros: o centro coreográfico criado pela Prefeitura ocupará ruínas da Brahma. O Globo - Tijuca. O Globo, 21 jan 1999, p. 8.
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