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2 de jul. de 2017

Rua Coronel Aristarco Pessoa & Rua Rocha Miranda

Panorama da Rua Rocha Miranda, em primeiro plano, e da Rua Coronel Aristarco Pessoa, em segundo

Já se vão pouco mais de seis décadas desde que uma das mais simpáticas ruas da Usina, a Itabira, passava a ser oficialmente denominada como Coronel Aristarco Pessoa em tributo àquele comandante do corpo de bombeiros do antigo Distrito Federal brasileiro. O ano era 1951; mês, agosto (1).

Desde então, muita água rolou.

A Usina perdeu representatividade na cartografia e no imaginário carioca, salvo pela sua presença nos letreiros de alguns ônibus que circulam pelo Rio. Já não é mais caminho dos bondes que subiam o Alto da Boa Vista, embora ainda seja possível avistar os seus antigos trilhos interrompidos por algum ou outro pedaço de calçada colocado por cima. Já não tem mais a grande elite como classe majoritária, mas as belíssimas residências construídas por esses nobres e burgueses de outrora continuam por lá, paradinhas no tempo, imponentes.

Para quem não conhece, a Coronel Aristarco Pessoa é uma ruazinha estritamente residencial localizada próxima ao Largo da Usina. Os tradicionais fuscas-táxis, que só existem na Usina (note bem: em todo o Rio de Janeiro, eles permaneceram apenas na Usina!), fazem ponto justo ali, na esquina desta com a Avenida Edson Passos. As mototáxis também marcam presença no local e, junto a esses fusquinhas, representam uma opção alternativa e econômica para quem não pretende subir a pé as grandes ladeiras da região. É preciso fôlego. A Rua Rocha Miranda, transversal e vizinha à Rua Coronel Aristarco Pessoa, que o diga. Ambas as ruas se contrastam nestes termos: enquanto naquela impera a ladeira, a outra se apresenta por meio de um suave declive, dando as boas-vindas a quem lhe acessa pelo Largo da Usina.

Vista exuberante para o Maciço da Tijuca

O fusca-táxi da Usina: patrimônio carioca

Bucolismo à Rua Coronel Aristarco Pessoa.

A principal qualidade desta região, eu diria, é a quantidade de verde. Não é preciso ir ao topo da Rua Rocha Miranda para se desfrutar de uma vista tímida, mas espetacular das montanhas da Usina. Para quem não se simpatiza com as favelas, elas não aparecem no cenário – apenas muitas árvores, rochas, árvores, árvores e mais árvores estão enquadrados naquele panorama, portanto, belíssimo da Zona Norte. Em épocas de maior umidade e de baixas temperaturas, chega-se a ver até mesmo o deslize da água das chuvas escoando pelas rochas. Uma das visões mais emblemáticas, restauradoras e agradáveis deste trecho da Tijuca.

Aqui, abro um rápido parêntese para endossar que o clima bucólico e ligeiramente conservador de ambos os logradouros é exatamente verossímil às impressões de Joel Silveira, repórter da Revista O Cruzeiro (24 jul. 1943), sobre o nosso bairro:

"A Tijuca é assim como uma velha família mineira: tudo no seu passado é limpo, tudo no presente é claro sem discussões. Os homens ganham tranquila e honestamente a vida. Há os mesmos retratos de anos atrás na sala de visitas, a mesma cadeira de balanço de jacarandá, onde avós de ontem repousaram e onde os netos de hoje brincam de cavalo".

Nas ruas Coronel Aristarco Pessoa e Rocha Miranda, o estilo da arquitetura transparece muito bem esse jeito ancião dos confins da Tijuca ainda resistente neste princípio de século XXI. Tem-se, ali, a fisionomia clássica da casa dos avós, cujos filhos e netos devem passar apenas como visitas porque provável e decididamente preferem residir em cantos menos provincianos do que estes. Contudo, há um elemento moderno destoante nesta paisagem tão tradicionalista: um campo de paintball. A entrada sóbria para o campo do Paintball Usina não se compara, entretanto, ao intemperante comportamento das crianças e adolescentes que, efusivos, visitam o local.

Zona estritamente residencial na subida do Alto da Boa Vista

Rua Rocha Miranda

O trecho final da Rua Coronel Aristarco Pessoa

Voltando à Rua Coronel Aristarco Pessoa, dirijo-me ao seu final, que dá para um muro coberto por plantas. Não há saída. Tudo é muito silencioso, exceto pelo ruído mais ou menos intermitente do motor berrante dos fuscas e das mototáxis. E dos entregadores de pizza, também. E em meio a tantas casas, a única construção mais verticalizada e multifamiliar fica ali, no final da rua, o prédio de número 203. O clima de aconchego da vizinhança não se perde com ele; pelo contrário. O jardim que margeia a portaria é de uma simplicidade bela e suficiente para ornar ainda mais toda aquela Mata Atlântica que abraça tanto a rua, como o vale da Usina da Tijuca. Tudo está em aparente equilíbrio.


RUA ROCHA MIRANDA 53: A CASA ZUZU ANGEL

É destaque no local o imóvel situado à Rua Rocha Miranda 53, mais conhecido pela alcunha de “Casa Zuzu Angel”. Original do início do século XX, ele está para a Rua Rocha Miranda assim como o Edifício Cibrasil está para a Rua Professor Lafayette Côrtes, n’outro extremo do bairro da Tijuca. A imponente casa é propriedade da jornalista Hildegard Angel, filha da famosa e mitológica estilista Zuzu Angel, quem leva o nome da iniciativa lançada pela proprietária para transformar o local no futuro Museu da Moda.

A imponente casa da jornalista Hildegard Angel, à Rua Rocha Miranda 53: joia da arquitetura tijucana.

O imóvel possui estilo eclético com sala rococó, salas, banheiros, corredores e cozinha com azulejos de várias épocas e estilos nos quais predomina o art nouveau. Segundo informações institucionais fornecidas pela Casa Zuzu Angel, “seu belíssimo jardim e pátio externo já receberam personalidades da moda como Oscar de la Renta e Hubert de Givenchy”. A casa é uma das tantas joias arquitetônicas da Tijuca e passa por um projeto de restauro desde 2014. Paralelamente, abriga o acervo da falecida estilista e encontros mensais com pesquisadores, profissionais e interessados em compartilhar conhecimento e reflexões sobre pesquisas relacionadas a acervos, memória e patrimônio de moda no Brasil.

Os muitos e místicos rococós: a casa data do final do século XIX

Detalhe dos variados azulejos

De acordo com reportagem veiculada no caderno "Tijuca", de O Globo, em 1989 (18 jul.), Hildegard Angel afirmou ter comprado a casa em mau estado de conservação em meados daquela década e não poupou esforços para remodelá-la. Dentro do imóvel havia pelo menos três grandes vitrais não muito bem preservados, tendo um deles aproximadamente 10 metros quadrados. Com fins de recuperá-los, a jornalista contratou o mesmo restaurador de vitrais que, tempos antes, havia remodelado os vitrais da paróquia Bom Pastor, aqui mesmo no bairro. Na matéria, Hildegard comenta que o vitral "emprestava um ar místico à casa", aspecto que já se percebe na própria fachada pomposa e cheia de elementos religiosos.

A fachada, aliás, por si só já é um deleite para os pedestres que, direto do espaço público, podem contemplar tamanha beleza à espera, um dia, quem sabe, de convite para uma xícara de café. Um dedinho só de café, ali no jardim, junto à quaresmeira, vendo esses vitrais de perto, fotografando cada detalhe, cada centímetro dos azulejos. Um dia, quem sabe, adoraria, não seria muito incômodo, em nome da Tijuca, em prol dela... (Enquanto a casa ainda não se torna aberta ao público, resta-nos conhecê-la - e seu projeto por inteiro - por meio da Astorga Arquitetura e Restauração, encarregada de remodelá-la: https://www.astorgaarquitetura.com/casa-zuzu-angel).

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(1) Diário de Notícias (O Matutino de Maior Tiragem do Distrito Federal), quarta-feira, 1º ago. 1951, p. 3:

CEL. ARISTARCO PESSOA - No próximo sábado, às 10 horas, serão substituídas as antigas placas da rua Itabira, na Tijuca, há pouco denominada rua Coronel Aristarco Pessoa, numa homenagem da Municipalidade carioca ao antigo comandante do Corpo de Bombeiros. O ato contará com a presença de amigos do antigo comandante, do prefeito João Carlos Vital e do atual dirigente do Corpo de Bombeiros, coronel Sadock de Sá.

17 de jun. de 2017

Rua Dulce, Rua General Marcelino & Rua Professor Lafayette Côrtes

Praça Babilônia, no entroncamento da Rua Dulce e Rua General Marcelino

A Tijuca é reconhecidamente um bairro urbano e caótico, mas que tem o privilégio de ainda resguardar verdadeiros oásis. Quem costuma passar pela Rua Almirante Cochrane e está pouco familiarizado com a cartografia da região, por exemplo, dificilmente poderia imaginar que bem ali se descortina um desses paraísos. O palpite duvidoso se deve à imagem meio esquisita que se tem do acesso para a Rua Dulce, pouco antes do atual Supermercado Guanabara (extinto Walmart). Isto porque se trata de uma rua com cara de viela malcuidada e meio sombria o portal de entrada para uma espécie de cidadela à parte, charmosa e muito, mas muito bucólica.

Esse pequeno paraíso de que lhes falo compreende as ruas Dulce, General Marcelino e Professor Lafayette Côrtes, incrustadas nos fundos do Colégio Militar e coladas à belíssima Pedra da Babilônia. A proximidade desta grande rocha com as residências que loteiam a vizinhança faz deste cantinho da Tijuca uma espécie de Urca na Zona Norte. Principalmente porque toda a arquitetura dali inspira o glamour decadente dos anos dourados que também perfila as edificações daquele bairro da Zona Sul. Os prédios de pouco pavimentos sem elevadores e os muros baixinhos das casas resistem como se os tempos ainda fossem outros. Tudo cheira à vida, temperada por uma explícita ambiência familiar que tanto particulariza as ruas residenciais da Tijuca.

Para começar, só há uma entrada e uma saída: a primeira se dá pela Almirante Cochrane e a última pela Rua São Francisco Xavier. Logo, quem entra pelo sentido do tráfego de veículos, após o trecho horripilante de aproximadamente 100 metros confrontado por duas grandes fachadas inativas, depara com a primeira surpresa: a Praça Babilônia. Inaugurada nos anos 1980 com dinheiro arrecadado em festas juninas realizadas pelos próprios moradores, a Praça Babilônia se situa no entroncamento das ruas Dulce e General Marcelino. Bem conservada, cumpre a missão de ser o ponto de encontro para a diversão de toda a molecada que reside na vizinhança. Mas, há quem também aproveite os bancos para tomar um pouco de sol, com vista indevassável para a Pedra da Babilônia, “xará” da praça.

Rua General Marcelino, esquina de Dulce.

Muros baixos caracterizam a Rua Dulce

Uma amostra do estilo dos imóveis à Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua General Marcelino: um belíssimo edifício com detalhes em verde-chá.

A Rua Dulce é sem saída e combina tanto edifícios de três a quatro pavimentos como algumas poucas casas no lado par da via. Placas e adesivos de “vende” e “aluga-se” fixados às janelas são bastante recorrentes na Rua Dulce, enquanto na Rua General Marcelino a disputa por um imóvel parece ser mais concorrida. Há quem diga na vizinhança que os apartamentos por ali, principalmente na Rua Professor Lafayette Côrtes, chegam a pertencer a uma mesma família por gerações. O clima de tranquilidade que impera no local associado ao estilo antiguinho e aburguesado das edificações pode aparentemente ser um fator de permanência. Mesmo com a violência – assaltos e ações criminosas certamente não devem passar longe desse oásis –, ruas como estas continuam valorizadas na Tijuca e em toda a cidade do Rio de Janeiro.

RESIDÊNCIAS TOMBADAS E O EDIFÍCIO CIBRASIL

É de pouco conhecimento público, mesmo entre os tijucanos mais fervorosos, que no encontro da Rua Professor Lafayette Côrtes com a Rua General Marcelino se situa uma das mais joias raras arquitetônicas desta cidade: O Edifício Cibrasil, localizado no número 156 daquela. Apelidado de “Castelinho”, é um daqueles prédios de deixar qualquer um babando pela beleza, garbo e imponência. A fusão entre um estilo neoclássico e outro eclético impresso à edificação remete aos anos de 1940, mas segundo dados do livro "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), ele só foi finalizado mesmo na década de 1950. Foi, portanto, um dos primeiros prédios da Rua General Marcelino, aberta por decreto de 11 de setembro de 1947 quando ainda era um imenso matagal.

Os "bigodes bem penteados" do Edifício Cibrasil, vulgo Castelinho

O Edifício Cibrasil dispensaria descrições se não fosse a missão de O PASSEADOR TIJUCANO apresentar e reapresentá-lo a todo o público leitor deste blog que se interessa pela Tijuca, sua história e evolução urbana. Neste sentido, é interessante destacar que não apenas o Edifício Cibrasil – vulgo “Castelinho” –, mas todos os outros edifícios existentes nessas ruas representam um marco importante da evolução social da Tijuca. O estilo aburguesado dos imóveis, tal como qualifiquei algumas linhas acima, alude a um período de transição lenta e gradual em que a Tijuca vinha modificando seu perfil social mais dominante.

O intervalo que vai de 1930-1950 é bastante característico da fase em que a Tijuca consolida sua imagem vinculada ao imaginário de uma classe média abastada para um bairro fora da orla. O capital simbólico dos tempos aristocráticos, entretanto, se perpetuou nos hábitos e nos padrões de moradia dessa então novata classe social, que procurava reeditar um estilo de vida inspirado na Tijuca “chique” dos tempos da nobreza imperial. E o Edifício Cibrasil é uma prova, no presente, de como estes gostos foram moldados e materializados na arquitetura dali. Segundo informação de uma moradora do prédio, o edifício foi levantado por um próspero construtor para moradia própria, revendendo os outros apartamentos como retorno do investimento. Na Rua General Marcelino, foram erguidos outros dois edifícios pelo mesmo dono e nomeados de Cibrasil II (49) e Cibrasil III (61). Contudo, não são tão bonitos quanto o original.

Os azulejos em sintonia com arabescos: toque lusitano à Tijuca (2013).

O hall de entrada do Edifício Cibrasil: detalhe do corrimão.

É difícil não se embasbacar com a beleza do Cibrasil. A entrada é ornamentada por um portão elegante, de ferro, com detalhes dourados que lembram o formato de bigodes bem penteados. Essa parte da entrada se assemelha a uma torre, com arabescos na fachada sobre o portão, além de um vitral que se estende até o seu topo. Os espaços dentro dos arabescos são preenchidos por azulejos floridos, dando um aspecto bem lusitano ao conjunto. Para completar, lá em cima, no telhado circular, resplandece um galo moldado em chapa de ferro com bico apontado para o céu, como se estivesse cantando ao amanhecer.

Tanto por dentro como por fora, predominam tons de um matiz acinzentado, meio pálido, que atenuam o impacto visual das pequenas descaracterizações aplicadas à fachada – como, por exemplo, a colocação de grades e aparelhos de ar condicionado. Fazendo jus ao charme que lhe é indiscutivelmente peculiar, o sóbrio hall de entrada do Cibrasil possui um quadro estampando uma fotografia do prédio e escadas cujo corrimão é todo trabalhado em formas que remetem aos próprios arabescos da fachada.

O Edifício Cibrasil é preservado graças ao decreto de número 12.864, de 29 de abril de 1994, que instituiu a região como Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC) do entorno do Colégio Militar. Esse decreto também tombou a Pedra da Babilônia e preservou alguns outros imóveis, protegendo o ambiente urbano tanto dali como de ruas situadas no outro "lado" da Pedra, a exemplo das ruas Pareto e Deputado Soares Filho.

Panorama da Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua Professor Lafayette Côrtes 89: preservado pelo decreto da APAC do Colégio Militar.

Pedra da Babilônia e a Rua General Marcelino

Rua Professor Lafayette Côrtes (2011)

Rua General Marcelino (2011)


Imóveis preservados pelo Decreto número 12.864, de 29 de abril de 1994:

Rua Dulce
Lado ímpar: 175, 191, 207, 225, 243
Lado par: 40, 70, 128, 138

Rua Professor Lafayette Côrtes
Lado ímpar: 89, 105, 127, 155, 181, 241, 271
Lado par: 34, 46, 58, 70, 84, 98, 100, 120, 134, 156


RELATOS DE MORADORES: A MEMÓRIA AFETIVA DE QUEM VIVEU O ESPAÇO

Esta não é a primeira vez que escrevo sobre este conjunto de ruas na Tijuca. A primeira vez foi em 2011, quando ainda publicava textos no blog AS RUAS DO RIO, que, mesmo inativo, ainda está disponível para leitura no website da revista Veja Rio. Na segunda ocasião, já para O PASSEADOR TIJUCANO, comentei sobre o inusitado fato de o Edifício Cibrasil ter sido reproduzido em um croqui no livro “A Alma do Rio”, de Cynthia Howlett, lançado no final de 2013. Nesse ínterim, muitos foram os e-mails e comentários que recebi com depoimentos públicos sobre as memórias da vizinhança. Selecionei alguns deles:

Tive a felicidade de, em 1980, conhecer três rapazes que moravam na Lafayette Côrtes e eu morando em São José dos Campos. Em 1981 fui parar na Tijuca de tanto que eu fui passear nas casas deles e adorava aquele bairro! Eles moravam num prédio, o de número 127, construído pelo avô de um deles, que tem a imagem de Santo Ivo, feita com azulejos portugueses logo na entrada do prédio, que tem quatro andares e não tem elevador. Ai, ai, ai... voltei lá esse ano e a idade pesou dessa vez! (risos). 
Um dos meninos ainda mora lá, com os pais, a esposa e a filha, todos no mesmo apartamento, uma coisa bem peculiar desde aquela época, quando os jovens, mesmo já tendo seu emprego, seu estudo, não saíam da casa dos pais. E mesmo depois de tantos anos, muitos parentes dos meus amigos ainda moram naquele prédio, como o filho de uma amiga, o irmão do outro etc. O apartamento é da família, não foi vendido e foi passado para a geração futura, sem se preocupar em fazer reformas, mudar a "cara" do prédio (aliás, todos estão iguaizinhos desde quando estive lá pela última vez!). 
Não tínhamos problemas com segurança, íamos para as noitadas e voltávamos de madrugada, sem a preocupação de encontrar alguma surpresa pelo caminho ou em casa. Tinha festa junina na rua, onde todos os moradores colaboravam com algum acepipe, tinha quadrilha e até cadeia, além do correio elegante, é claro! Mesmo sendo adolescentes, gostávamos desse convívio com os vizinhos, que conhecíamos todos pelo nome, nos cumprimentávamos na rua. Bom, você sabe que a Tijuca é o único bairro que tem a sua naturalidade, ou seja, o carioca que nasceu na Tijuca não é apenas carioca... ele é tijucano!

Joana Darc de Oliveira, 11 out. 2013 (por e-mail)

Caro Pedro Paulo, 
Morei na Lafayette por mais de três décadas e ainda tenho relação com aquele recôncavo até hoje, pois minha mãe e muitos amigos ainda moram lá. 
Seu pedido, ao mesmo tempo que é fácil, também é difícil de retratar face à enorme quantidade de histórias e das particularidades que vivemos naquele período. Só para você ter uma ideia, éramos mais de 150 jovens convivendo diariamente e de quatro gerações diferentes. Imagine o que não há para se dizer de tudo isso. 
Naquele pedaço tinha campeonato de futebol, de jogo de botão, de futebol totó, festa junina (considerada por muitos a melhor da Tijuca!), jogo de cartas, xadrez, taco, vôlei e o que mais você possa imaginar.
Antonio Jorge Faria, 11 out. 2013 (por e-mail)

Nasci e fui criada na Rua Dulce, onde morei até os 13 anos, quando mudei para MG. Minha família ainda possui o apartamento no fim da rua e todo ano vou visitar. Quando entro no beco da Rua Dulce, meu coração até dispara, muitas lembranças boas. Valeu pela reportagem, inclusive li comentários de amigos da infância tão feliz!!!
Maria Inez Pedrosa Machado, 24 nov. 2015 (seção de comentários – AS RUAS DO RIO)

27 de mar. de 2016

Rua Pinheiro da Cunha & Rua Cotingo

Panorama da Rua Pinheiro da Cunha: arborização e edifícios baixos, como o simpático Jardelina, no número 62, à direita.

Com desenho análogo ao de uma cauda felina, a Rua Pinheiro da Cunha fica na Usina e é transversal à Conde de Bonfim, na altura do Hospital Venerável da Ordem Terceira da Penitência (atual São Francisco). Dali, sobe uma pequena ladeirinha hoje tomada por simpáticos edifícios baixos e se encurva, onde logo adiante faz esquina com outra rua – a Cotingo, esta sim basicamente formada por casarões. Dali, metros depois se encurva novamente para erguer-se de modo linearmente tortuoso rumo à montanha. Seu final é uma cul-de-sac encravado no Maciço, em que eu e nem mesmo o Google Street View chegamos até lá. O dia estava tão abafado que preferi ficar por ali mesmo, na parte baixa, cujo circuito já dava uma boa amostra do perfil décadence avec élégance da região.

A Usina tem uma das paisagens naturais mais bonitas da Tijuca e de todo o Rio de Janeiro. Não à toa, a arquitetura local soube aproveitar essa estética ao estilo dos prédios e casas, notoriamente aburguesado e nada contemporâneo. O Edifício Geribatu, logo na esquina com a Conde de Bonfim, por exemplo, reproduz o requinte monumental dos prédios de Copacabana dos anos 1950. O gradeamento opressivo das janelas e a falta de conservação da fachada são compensados, por outro lado, pela portaria livre de cercados. Seu acesso se dá diretamente da rua, sem intermediários, tal qual em tempos remotos. Belo e maltratado, o Geribatu é um deleite para os amantes das ruas e de sua arquitetura.

Edifício Geribatu, na esquina de Conde de Bonfim: elegância de tempos passados.
Rua em "curva", cujo desenho forma uma espécie de cauda felina

Vista lateral do Edifício Jardelina, um dos mais bonitos da Pinheiro da Cunha.

Chalé suíço geminado

De mais a mais, a vegetação opulenta do entorno faz da Rua Pinheiro da Cunha uma pequena floresta. Tanto ali como na Rua Cotingo é fácil encantar-se com bananeiras, paus-brasis, ervas-de-passarinho, além de plantas ornamentais e de flores rosas, amarelas e lilases. Canteiros de diferentes tamanhos também ocupam as calçadas, adornando-as mutuamente com a beleza dos edifícios subsequentes. Chamo a atenção para o Edifício Jardelina, no número 62, que é de um mimo inexplicável. Este, aliás, é um dos raros exemplos de edifícios “clássicos” no bairro em que pouco de seus traços foi mudado. O muro baixo, além de charmoso, é sinônimo de alívio: remete-nos à sensação de estarmos livre das claustrofobias urbanas. Ali, vive-se à moda antiga e tradicional, adjetivos mais do que apropriados para a Usina.

No encontro da Pinheiro da Cunha com a Rua Cotingo, um belo casarão descortina o sombreado corredor de prédios instalado anteriormente. Segundo uma amiga que reside logo ali, na “curva”, o imóvel ficou por muitas décadas tomado por um denso matagal. Em função disto, os traços elegantes da casa escondiam-se sob a mata, hoje desvelados aos olhos do pequeno público que transita pela via. A pompa toda, decadente – diga-se de passagem –, refere-se à Tijuca da época dos solares habitados por uma classe aristocrata e influente. Sem mencionar o cenário de fundo, que reforça ainda mais o fascínio causado pelas montanhas às antigas famílias abastadas: é dali de onde são avistados mais de perto ainda os picos da Tijuca e do Papagaio.


Casario elegante na esquina da Pinheiro da Cunha com Contigo: marcas do tempo
Sinalização da Rua Pinheiro da Cunha


Panorama das espécies arbóreas da Rua Cotingo

Estilo dos casarões: linhas clássicas, amplitude, centro de terreno e quintal. 


Rua Cotingo: os "picos" ao fundo
Para além da arborização e da arquitetura, as disputas políticas também estão presentes na Rua Pinheiro da Cunha. Enquanto no adorável chalé suíço hasteia-se a bandeira vermelha referente ao Partido dos Trabalhadores, mais adiante, o posicionamento é outro. Uma divertida caricatura da presidente Dilma Rousseff riscada pelo símbolo de proibição foi pregada junto à entrada da garagem de outra aprazível residência.

Já na Rua Cotingo, as disputas ocorriam entre as aves – pelo menos no momento em que eu por ali passeava. Gaiolas nas janelas, beija-flores libertos. É sinfônico este mundo dos pássaros, permeado por assobios que ecoam por todos os cantos, de diferentes timbres. A tais melodias misturavam-se as do rádio de pilha, um pouco abafadas pelo contato estreito deste com a orelha de certo transeunte. O ruído das motocicletas a mil pela Conde de Bonfim também foi incorporado à composição. Eis o produto musical da conjunção entre a urbe e a natureza.

O estilo clássico da Rua Cotingo é marcado também por certo ar de abandono. As casas amplas e confortáveis pararam dignamente no tempo, mas sem o esmero do jardim bem cuidado ou dos cercados ainda à tinta fresca. A Rua Cotingo cheira à domingo, de manhã preguiçosa em rede de dormir e de almoço em família. Tem aspecto de rua de avó ao estilo Dona Benta, que serve bolinho de chuva com café no final da tarde aos filhos, sogras e genros, netos e netas. Estes se despedem e regressam às suas casas, longe dali ou até mesmo perto, mas certamente em ruas mais modernas. A Rua Cotingo é adorável, mas nostálgica. É levemente melancólica e romântica ao mesmo tempo – igualzinha à Tijuca. Por isto nosso amor.

20 de mar. de 2016

Rua Adalberto Aranha

Rua Adalberto Aranha: na esquina com a Rua Antônio Salema e o Pico da Tijuca ao fundo.

Imortalizada pelo seu mais ilustre morador – o jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues –, a Aldeia Campista é mais uma daquelas regiões que entrou para o rol de bairros que não constam mais nos mapas oficiais da cidade do Rio. Como exemplos, podem ser citados os bairros Peixoto e o de Fátima, ou a Boca do Mato, no Lins de Vasconcelos. Não sei dissertar tão bem sobre o porquê de estes bairros terem tido a sua representatividade reduzida. Talvez seja pelo território diminuto ou pelo número irrelevante de habitantes, quem sabe. Ou muito provavelmente por causa da especulação imobiliária. Segundo a Revista da Semana de junho de 1958, é bem dizer que se mora na Tijuca e o nome do bairro também serve de chamariz nos anúncios de imóveis para venda ou aluguel, quando na verdade querem se referir ao Andaraí ou a outros bairros vizinhos... A Tijuca conserva sua pontinha de esnobismo (1).

Este é o caso da Aldeia Campista, que, além disso tudo, ninguém sabe ao certo quais são seus limites enquanto “sub-bairro”, muito embora seu conjunto de ruas tenha sido incorporado oficialmente ao território de Vila Isabel. Ou seja, toda aquela região compreendida pelas ruas Barão de Mesquita, Maxwell e Gonzaga Bastos etc., é o que se poderia chamar de Aldeia Campista. A Rua Adalberto Aranha, portanto, está nesse “miolo”.

Nessa ocasião, eu havia iniciado o meu passeio pela Rua Antônio Salema, perpendicular à Adalberto Aranha. Rua muito simpática, diga-se de passagem, com casinhas primorosas, que mostra de forma bastante interessante ao passeador a dinâmica residencial nesta faixa de transição entre a Tijuca e Vila. A Aldeia Campista ainda continua sendo, de certa forma, um local majoritariamente de casas e edifícios baixinhos dos anos 1950, mas cujo boom imobiliário dos anos 1980 e 1990 fez levantar uma série de espigões que paira sozinha nos ares, em sua maior concentração nas ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos. Um bando de casas rodeado por uma ilhazinha de prédios. Eis a herança do bairro pacato tão bem retratado nos contos rodriguianos só que contaminado pela especulação imobiliária do dileto bairro vizinho, a Tijuca, que verticalizou-se a partir dos anos 1960 e 70, principalmente devido à construção do metrô.

O detalhe das fachadas antigas: são muitas na Rua Adalberto Aranha.

Diferente do entorno, como as ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos, a Rua Adalberto Aranha é
bastante arborizada: jardins com ixoras, cachos-dourados e palmeiras.

Azulejos: o charme da herança lusitana.

A Rua Adalberto Aranha é um desses exemplos de como a especulação imobiliária falou mais alto, desconfigurando, assim, muito do que devia ter existido por ali até 30 anos atrás. Mais progressista que a adjacente e mais tradicional Rua Antônio Salema, a Adalberto Aranha é não apenas sombreada pela sua arborização impecável, mas igualmente pelo corredor de edifícios  levantados por ali nos anos 1980. Tornou-se uma rua típica da classe média tijucana contemporânea: a mistura do velho com o novo, dos azulejos hidráulicos meio lusitanos com o vidro das varandas confortáveis no alto dos prédios, dos muros baixinhos de pedra com as grades de ferro dos portões, cujas pontas são espetadas e inibidoras à intrusão. A Paróquia Sangue de Cristo, no número 48, complementa à rua a vocação carola que Tijuca e Vila Isabel emanam na história da urbanização carioca.

Mais adiante, chama a atenção o simpático Edifício Bertioga, no número 16. A porta do edifício é uma singela entrada de madeira, peculiaríssima aos projetos hoje tidos como retrôs, e toda coberta por arabescos e pastilhas. Um mimo, como se diria nos antanhos. Por outro lado, foi entristecedor notar o estado decadente do prédio cuja fachada foi detonada por pichadores e pelo gradeamento irregular das janelas. O próprio espaço do Bertioga com a rua, antes livre, foi cercado por um gradil moderno, que decerto mataria de desgosto o autor do projeto. É muito comum que esses edifícios antigos no Rio como um todo não recebam o cuidado e a atenção merecida. Sendo assim, o panorama lamentável do Edifício Bertioga não é nenhuma novidade, mas apenas a reafirmação de que nossa história e nossa arquitetura tendem a ir para o beleléu em tempos tão pouco apegados à memória como este em que vivemos.

Os arabescos do decadente, mas charmoso, Edifício Bertioga.

Na esquina com a Barão de Mesquita, o estilo dos armazéns de outrora.

Carroça de frutas: atividades comerciais tradicionais se mantêm na região.

Na Rua Barão de Mesquita, em frente à Rua Adalberto Aranha, está o 1º Batalhão da
Polícia do Exército - antigo DOI-CODI, símbolo do indecoroso Regime Militar.

Por outro lado, acho que o infortúnio é coisa apenas do Edifício Bertioga, porque a Rua Adalberto Aranha, de uma maneira geral, é bem cuidada e aprazível. Jardins suspensos recaem sobre a fachada dos prédios enquanto ixoras colorem os canteiros pelas calçadas. Mesmo estando às margens da Rua Barão de Mesquita, importante artéria da região por onde passam muitos ônibus e automóveis, a Rua Adalberto Aranha é bastante silenciosa e com clima familiar. Os transeuntes são moradores e prestadores de serviço do entorno: estudantes uniformizados, senhoras com sacolas de compras, os ciclistas com entregas das farmácias que os empregam. Enquanto caminhava pela rua, era possível até mesmo escutar conversas ecoadas lá do alto dos apartamentos – os dos primeiros e segundos pisos, é claro –, tamanho o silêncio.

A esquina com a Barão de Mesquita é onde está localizada a arquitetura de maior idade, espectadora das grandes mudanças ocorridas ao longo dos anos na Aldeia Campista. Um sobrado centenário no lado ímpar todo coberto por placas cerâmicas nas cores branca e verde, onde funciona uma clínica podológica, e um armazém, também centenário, com pé-direito alto e múltiplas portarias estreitas e arqueadas no seu topo.

Em frente, e intacto, o 1º Batalhão da Polícia do Exército, local das instalações do DOI-CODI, símbolo indecoroso do Regime Militar fincado em nossas terras. Segundo Aldir Blanc, agentes provocadores espalham, em Copacabana, que existem algumas ruas, na Tijuca, em que mora um ex-torturador para cada vinte habitantes (e desses, mais da metade apoiava, ainda que por omissão, o que o monstro fazia na época da ditadura). Não é verdade (2).

Muito além dos contos de Nelson Rodrigues, por suas calçadas estreitas e algumas ruas meio pastoris, essa Aldeia Campista oferece é coisa para ver e história para contar.

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Texto adaptado; publicação original no meu outro blog As Ruas do Rio, em 17 de fevereiro de 2014.

(1) CARDOSO, Elizabeth Dezouzart et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984.
(2) Ver prefácio do livro “Tijuca e Floresta”, da coleção Bairros do Rio, lançado pela Editora Fraiha em 2000.

27 de dez. de 2015

Praça Hans Klussman


A imaginação das crianças é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com base nessa concepção que o professor Paulo de Tarso, morador da Rua Sabóia Lima, recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann um verdadeiro recanto de fantasias. Aliás, mais do que um professor, Paulo de Tarso é um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro assim como do reino animal.

Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos de 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos no bairro de como urbe e natureza se conectam e, portanto, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam o local (um bom repelente já resolve esta questão), o alto da Rua Sabóia Lima oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde podem ser observadas as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa; do outro, um jacaré.

Foi neste momento em que tive a percepção de não estar vendo tudo o que de fato existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, além de uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde: os animais, cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade.



Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klussmann ganhou um colorido todo especial, mas que, paralelamente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou de qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças pensam da ilusão ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são "interagíves", no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e, dessa maneira, fantasiar um passeio pelo deserto - por exemplo.



Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, contribuindo para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda forma um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, que fica no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar diante do espaço em que estamos inseridos.

Num mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade - gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho.


Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados em suas leituras. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós, e, em outro rincão, um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klussmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul – e, à noite, estrelado – da nossa natureza. A nossa real natureza.

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Texto publicado em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 10 de agosto de 2013.

28 de jan. de 2015

Praça Comandante Xavier de Brito (a praça dos Cavalinhos)


Tempos escaldantes, estes últimos, aqui no Rio. O relógio digital marcava 36 graus Celsius nesse sábado que passou. Nem mesmo os belíssimos flamboyants, inertes, que margeiam o Rio Maracanã – aquele rio em que Lima Barreto, certa vez, afirmou ser um rio respeitável e considerável para o desenvolvimento de uma grande metrópole*–, conseguiam dar um pingo de refresco aos pedestres que iam em direção à Praça Xavier de Brito. Popularmente conhecida, aliás, como a Praça dos Cavalinhos, por causa dos tradicionais passeios a cavalo. É aos sábados, domingos e feriados em que a praça recebe mais visitas, especialmente de crianças. A Xavier de Brito é, portanto, uma espécie de parque recreativo da Tijuca, mas com belezas e um refinamento bastante adulto, eu diria.

Em primeiro lugar, há o refino paisagístico da praça: em seu centro, um portentoso chafariz francês que, segundo a lenda, era para ter ficado em alguma praça da França, mas que, no fim de contas, acabou vindo parar aqui, em solo tijucano, por volta dos anos 1960. Feito de bronze, o chafariz tem carrancas, anjinhos e golfinhos ornamentais por onde passam os filetes e o jorro d’água. O espetáculo aquático é medíocre, mas não anula os ares igualmente românticos da praça, envolvida por jardins que, embora não tenham a assinatura de mestres como Glaziou, por outro lado, possuem, sim, algum tipo de charme. Sem mencionar o conjunto de árvores quase centenárias que abraçam esse quarteirão: entre elas os flamboyants, tais quais seus congêneres às margens do Maracanã, e algumas sibipirunas, de flores amarelas e franjas vegetais que engalanam o espaço aéreo da praça.





 O chão de terra batida deve proporcionar às crianças tijucanas a experiência de se estar em uma cidadezinha do interior. É sobre este chão esfarelento onde brincam, correm e sentam à moda antiga, sem aparatos tecnológicos que as divirtam. O teatro de Guignol é uma dessas atrações ditas vintage. Nesse vaivém infantil, alguns pezinhos descalços deixam pegadas sobre a terra, facilmente confundidas com as das patas dos potros que, notoriamente fatigados, circulam no perímetro da praça carregando-as em seus dorsos. Ao final do passeio – que, a pedido do freguês, pode incluir quadras além da Xavier de Brito –, os potros retornam às árvores, onde são amarrados aos cuidados de seus donos que os utilizam como fonte de renda.

Ali, os potros matam a sede em baldes de água – o único bebedouro ao alcance deles – e defecam conforme a necessidade, aos olhos de todos. O cheiro empesteia o ambiente por alguns segundos, causando repulsa nos adultos e ares de curiosidade risonha às crianças. Não à toa que elas se referem à praça como a dos cavalinhos, para o desespero, suponho, do Comandante e Coronel Xavier de Brito. Sabe-se Deus onde possa estar, mas arrisco dizer que, provavelmente, o orgulho militar estaria ferido em ver que o tributo à sua figura, através do nome da praça, é ligeiramente escorchado pelo simpático apelido referente a tais quadrúpedes.

A Praça Xavier de Brito não é muito grande, mas seus espaços são bem arranjados. Em outro lugar completamente distante do imaginário infantil permeado por escorregas, balanços e gangorras, as barraquinhas da feira de produtos orgânicos vão tomando o trecho junto às bordas da Rua Oliveira da Silva. Há, entre seus frequentadores, um certo clima de novidade e de euforia consumista amortecida pela falta do que comprar: aparentemente, grande parte dos produtos foi vendida logo nas duas primeiras horas de feira, para o desespero dos dorminhocos que não chegaram a tempo. Essa lamentação não parece afetar, por outro lado, os senhores jogadores de dominó, carteado e bocha, tradicionais em seus hábitos e alheios às (poucas) novidades que a praça oferece.





Quando a hora do almoço se aproxima, as mesas espalhadas pela calçada atraem comensais para restaurantes como o Rei do Bacalhau e o Bar do Pavão, que, de acordo com a fama, serve a melhor feijoada sabatina do bairro. E logo ali, espremido entre os dois, e vizinho a um pet shop, o Bar do Neca é a opção etílica mais prática da vizinhança. Um digno e respeitoso boteco com jeitão lusitano que mantém intacta a mesma estrutura de anos, décadas atrás. Um letreiro em acrílico contorna as três paredes do local exibindo todas as refeições que possivelmente são (ou já foram, em tempos remotos) vendidas ali: salgadinhos; refrigerantes; vitaminas; toddy; churrasquinho; salsicha recheada; croquete de carne.

Diferindo-se da exaltação do outro lado da calçada, na esquina com a Avenida Maracanã a quietude toma conta da Escola Soares Pereira. A instituição, entretanto, é mais um daqueles primorosos prédios públicos que sofrem com o vandalismo de pichadores. Oriunda dos anos 1920, a escola tem um estilo definido como neocolonial brasileiro, segundo o Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2000), e deverá continuar silenciosa por pelo menos mais algum tempo, até depois do carnaval, quando o ano letivo tiver início. A quietude também embala o Edifício Imola, a poucos metros do educandário, um elegante expoente da arquitetura residencial dos anos 1960 que se gaba de ser o único prédio do entorno que não dispõe de grades ou portões. O mesmo acontece com a casa amarela, a poucos passos do Imola, orgulhosa – aos olhos do pedestre – de ser o único imóvel unifamiliar da praça resistente à especulação imobiliária e à verticalização, por vezes, impositiva.





E é assim que o bucolismo da Praça Xavier de Brito brinda ao bem-estar de seus visitantes com sombra, bancos, atrações lúdicas e até mesmo uma novata estação do Bike Rio, essa das bicicletas laranjas que, a priori, dominavam apenas a orla carioca. Se nenhum dos encantos da praça forem suficientemente capazes de acalmar o espírito do visitante, é bem provável que lhe surja a oportunidade de esbarrar-se com o Renato Sorriso – ele mesmo, o próprio, o gari da Comlurb mundialmente famoso pelas suas habilidades como passista no carnaval e que bate ponto por lá. Vale a pena cumprimentá-lo; diante da simpatia que lhe é de praxe, serão ainda maiores as chances de se ganhar um sorriso seu em troca, tal qual seu apelido. Encontro que, por fim, e seguramente, coroará com diamantes o passeio a esse garboso recanto da Zona Norte carioca.

*Informação obtida na tese de doutorado da jornalista e escritora Luciana Hidalgo (página 152), “Lima Barreto e a literatura da urgência: a escrita do extremo no domínio da loucura”, defendida em 2007 na Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras da Uerj.

** Texto publicado originalmente em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 21 de janeiro de 2015.
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