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22 de jun. de 2017

Letreiros antigos que resistem no comércio de rua da Tijuca

Memória afetiva para uns, abandono para outros. Na Tijuca, muitos letreiros antigos ainda povoam as fachadas do nosso comércio de rua. Alguns deles já se tornaram de estimação tamanha a simpatia (inconsciente) aos quais muitos tijucanos lhes têm. Para identificar o quão antigo pode ser um desses letreiros, há pistas certeiras: é só observar o estilo das letras que destacam o nome do empreendimento, o material utilizado, o modo como é apresentado o número de telefone, o tipo de iluminação. Número de fax, então, já é redenção na certa. Outros se entregam pelo simples anúncio do gênero de serviço prestado: videolocadoras, minutas e vitaminas, calçados e bolsas para senhoras.

O PASSEADOR TIJUCANO recorreu as principais ruas e procurou listar oito letreiros antigos e emblemáticos do nosso bairro. Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.


1. AO TRANSISTOR DA TIJUCA (Rua São Francisco Xavier 2, Loja E)


Rua São Francisco Xavier 2, Loja E, Largo da Segunda-Feira 


"Ao Transistor da Tijuca" é uma das tantas lojas de material elétrico e utilidades do gênero que existem no bairro. O letreiro antigo já é quase patrimônio gráfico do Largo da Segunda-Feira, onde se situa. Observem que o prefixo do telefone só apresenta três dígitos, dando uma amostra do seu longo tempo de existência. Vale destacar que, no Rio, todos os números de telefonia fixa passaram a ter prefixo de quatro dígitos no dia 30 de junho de 2001, há 16 anos.


2. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO STA. CAROLINA (Rua Santa Carolina 8)


Rua Santa Carolina 8, Usina

Outro gênero comercial bastante comum aqui na Tijuca é o varejo especializado em materiais de construção. São bazares à moda de outrora, bem diferentes das grandes cadeias como Leroy Merlin ou Casa Show. Na Usina, temos a loja "Materiais de Construção Sta. Carolina", localizada na rua homônima. O letreiro, coitadinho, mal conserva suas letras. Mesmo assim, ainda se pode identificar o derradeiro slogan: "Tudo Para Construção e Pinturas".


3. GURILANDIA LANCHES (Rua Conde de Bonfim 670)

Rua Conde de Bonfim 670, entre Uruguai e Dona Delfina 

Quem se lembra dos tempos em que ir à Disney também podia ser sinônimo de ir à Disneylândia? No caso da Tijuca, o sufixo "lândia", que cheira à naftalina de tão démodé, é utilizado para designar o território da gurizada na Rua Conde de Bonfim 670. Ou melhor: a "Gurilandia Lanches", sem circunflexo. O letreiro do estabelecimento não deixa mentir a idade: ele oferece (ou oferecia) refeições à minuta, pizzas e vitaminas. Em tempos de hambúrguer gourmetizado, o que são mesmo minutas e vitaminas?! De todo modo, eis mais um patrimônio gráfico do nosso bairro!


4. REQUINTE (Rua Conde de Bonfim 668, Loja B)

Rua Conde de Bonfim 668, Loja B, entre Uruguai e Dona Delfina

Nas vizinhanças da "Gurilandia Lanches", jaz o letreiro da antiga boutique "Requinte", no número 668 da Rua Conde de Bonfim. A loja é dos tempos em que se vendia produtos exclusivos para "senhoras", tais como calçados e bolsas. Diferentemente dos demais estabelecimentos listados aqui, a "Requinte" encerrou suas atividades já há um bom tempo (algum leitor sabe quando?), e o melhor - está fechada com portas pantográficas! Mais vintage, impossível. Nossa Tijuca é tradicional até quando não quer.


5. BRASEIRO (Rua Haddock Lobo 123A)

Rua Haddock Lobo 123, Loja A, próximo à Avenida Paulo de Frontin (Fonte: Google)

Oficialmente conhecida por "O Braseiro Armarinho Limitada", a Braseiro Modas - como é comumente chamada - está fincada na Rua Haddock Lobo desde 1966, já nas bandas do Rio Comprido. Segundo o tijucano Felipe Torreira, do blog Pileque, "as roupas estão expostas em cristaleiras muito bonitas, bem altas, pois o pé-direito da casa deve ter seus seis metros. Camisetas furadinhas, camisas sociais, camisolas, meias sociais, calçolas, cintos elegantes e moda íntima em geral enchem as estantes e mostruários". Tim Maia, o cantor, foi freguês em outras épocas. Inveterado letreiro!


6. ELETRÔNICA ROBRUM (Rua José Higino 290)

Rua José Higino 290

Já se foram os tempos em que hordas de tijucanos consumiam ad nauseam as incontáveis videolocadoras existentes no bairro. Com o fim dos cinemas na Praça Saenz Peña, alugar VHS e DVDs tornou-se uma das poucas opções culturais por aqui. Agora, em tempos digitais, as videolocadoras ficam só na saudade ou impressa nos letreiros, como neste da "Eletrônica Robrum", situada à Rua José Higino 290. A placa também entrega a idade pelo anúncio do número de telefone com prefixo de três dígitos e do número de fax. E os pontinhos luminosos que circundam a moldura? Dignos de cenário dos programas da Xuxa, nos anos 1980.


7. BAZAR CASCATA (Rua Conde de Bonfim 927, Loja D)

Rua Conde de Bonfim 927, Loja D, Muda 

Na esquina da Rua da Cascata, o "Bazar Cascata" faz parte da turma de lojas de ferragens, material elétrico e conserto de eletrodomésticos tão comuns na Tijuca. Após a remoção do tradicional letreiro de "O Queijeiro da Muda", arriscaria dizer ser este um dos mais emblemáticos atualmente deste pedacinho da Tijuca.


8. HOTEL TIJUCA (Rua Pareto 63)

Rua Pareto, 63, arredores da Praça Saenz Peña

O "Hotel Tijuca" dispensa apresentações: é um dos mais famosos motéis do tipo custo-benefício do bairro, muito embora ainda há quem encare o "Paretão" como um hotel - pelo menos, na página do Trip Advisor, onde se tecem críticas sobre o serviço prestado. O prédio chega a ser risível de feio, mas o seu letreiro continue firme e forte na paisagem aérea dos arredores da Praça Saenz Peña justo no seu trecho mais decadente, a Rua Pareto. A placa emana ares de far west movie, mas é um desses letreiros que eu estimo sem saber o porquê.

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Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.

17 de jun. de 2017

Rua Dulce, Rua General Marcelino & Rua Professor Lafayette Côrtes

Praça Babilônia, no entroncamento da Rua Dulce e Rua General Marcelino

A Tijuca é reconhecidamente um bairro urbano e caótico, mas que tem o privilégio de ainda resguardar verdadeiros oásis. Quem costuma passar pela Rua Almirante Cochrane e está pouco familiarizado com a cartografia da região, por exemplo, dificilmente poderia imaginar que bem ali se descortina um desses paraísos. O palpite duvidoso se deve à imagem meio esquisita que se tem do acesso para a Rua Dulce, pouco antes do atual Supermercado Guanabara (extinto Walmart). Isto porque se trata de uma rua com cara de viela malcuidada e meio sombria o portal de entrada para uma espécie de cidadela à parte, charmosa e muito, mas muito bucólica.

Esse pequeno paraíso de que lhes falo compreende as ruas Dulce, General Marcelino e Professor Lafayette Côrtes, incrustadas nos fundos do Colégio Militar e coladas à belíssima Pedra da Babilônia. A proximidade desta grande rocha com as residências que loteiam a vizinhança faz deste cantinho da Tijuca uma espécie de Urca na Zona Norte. Principalmente porque toda a arquitetura dali inspira o glamour decadente dos anos dourados que também perfila as edificações daquele bairro da Zona Sul. Os prédios de pouco pavimentos sem elevadores e os muros baixinhos das casas resistem como se os tempos ainda fossem outros. Tudo cheira à vida, temperada por uma explícita ambiência familiar que tanto particulariza as ruas residenciais da Tijuca.

Para começar, só há uma entrada e uma saída: a primeira se dá pela Almirante Cochrane e a última pela Rua São Francisco Xavier. Logo, quem entra pelo sentido do tráfego de veículos, após o trecho horripilante de aproximadamente 100 metros confrontado por duas grandes fachadas inativas, depara com a primeira surpresa: a Praça Babilônia. Inaugurada nos anos 1980 com dinheiro arrecadado em festas juninas realizadas pelos próprios moradores, a Praça Babilônia se situa no entroncamento das ruas Dulce e General Marcelino. Bem conservada, cumpre a missão de ser o ponto de encontro para a diversão de toda a molecada que reside na vizinhança. Mas, há quem também aproveite os bancos para tomar um pouco de sol, com vista indevassável para a Pedra da Babilônia, “xará” da praça.

Rua General Marcelino, esquina de Dulce.

Muros baixos caracterizam a Rua Dulce

Uma amostra do estilo dos imóveis à Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua General Marcelino: um belíssimo edifício com detalhes em verde-chá.

A Rua Dulce é sem saída e combina tanto edifícios de três a quatro pavimentos como algumas poucas casas no lado par da via. Placas e adesivos de “vende” e “aluga-se” fixados às janelas são bastante recorrentes na Rua Dulce, enquanto na Rua General Marcelino a disputa por um imóvel parece ser mais concorrida. Há quem diga na vizinhança que os apartamentos por ali, principalmente na Rua Professor Lafayette Côrtes, chegam a pertencer a uma mesma família por gerações. O clima de tranquilidade que impera no local associado ao estilo antiguinho e aburguesado das edificações pode aparentemente ser um fator de permanência. Mesmo com a violência – assaltos e ações criminosas certamente não devem passar longe desse oásis –, ruas como estas continuam valorizadas na Tijuca e em toda a cidade do Rio de Janeiro.

RESIDÊNCIAS TOMBADAS E O EDIFÍCIO CIBRASIL

É de pouco conhecimento público, mesmo entre os tijucanos mais fervorosos, que no encontro da Rua Professor Lafayette Côrtes com a Rua General Marcelino se situa uma das mais joias raras arquitetônicas desta cidade: O Edifício Cibrasil, localizado no número 156 daquela. Apelidado de “Castelinho”, é um daqueles prédios de deixar qualquer um babando pela beleza, garbo e imponência. A fusão entre um estilo neoclássico e outro eclético impresso à edificação remete aos anos de 1940, mas segundo dados do livro "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), ele só foi finalizado mesmo na década de 1950. Foi, portanto, um dos primeiros prédios da Rua General Marcelino, aberta por decreto de 11 de setembro de 1947 quando ainda era um imenso matagal.

Os "bigodes bem penteados" do Edifício Cibrasil, vulgo Castelinho

O Edifício Cibrasil dispensaria descrições se não fosse a missão de O PASSEADOR TIJUCANO apresentar e reapresentá-lo a todo o público leitor deste blog que se interessa pela Tijuca, sua história e evolução urbana. Neste sentido, é interessante destacar que não apenas o Edifício Cibrasil – vulgo “Castelinho” –, mas todos os outros edifícios existentes nessas ruas representam um marco importante da evolução social da Tijuca. O estilo aburguesado dos imóveis, tal como qualifiquei algumas linhas acima, alude a um período de transição lenta e gradual em que a Tijuca vinha modificando seu perfil social mais dominante.

O intervalo que vai de 1930-1950 é bastante característico da fase em que a Tijuca consolida sua imagem vinculada ao imaginário de uma classe média abastada para um bairro fora da orla. O capital simbólico dos tempos aristocráticos, entretanto, se perpetuou nos hábitos e nos padrões de moradia dessa então novata classe social, que procurava reeditar um estilo de vida inspirado na Tijuca “chique” dos tempos da nobreza imperial. E o Edifício Cibrasil é uma prova, no presente, de como estes gostos foram moldados e materializados na arquitetura dali. Segundo informação de uma moradora do prédio, o edifício foi levantado por um próspero construtor para moradia própria, revendendo os outros apartamentos como retorno do investimento. Na Rua General Marcelino, foram erguidos outros dois edifícios pelo mesmo dono e nomeados de Cibrasil II (49) e Cibrasil III (61). Contudo, não são tão bonitos quanto o original.

Os azulejos em sintonia com arabescos: toque lusitano à Tijuca (2013).

O hall de entrada do Edifício Cibrasil: detalhe do corrimão.

É difícil não se embasbacar com a beleza do Cibrasil. A entrada é ornamentada por um portão elegante, de ferro, com detalhes dourados que lembram o formato de bigodes bem penteados. Essa parte da entrada se assemelha a uma torre, com arabescos na fachada sobre o portão, além de um vitral que se estende até o seu topo. Os espaços dentro dos arabescos são preenchidos por azulejos floridos, dando um aspecto bem lusitano ao conjunto. Para completar, lá em cima, no telhado circular, resplandece um galo moldado em chapa de ferro com bico apontado para o céu, como se estivesse cantando ao amanhecer.

Tanto por dentro como por fora, predominam tons de um matiz acinzentado, meio pálido, que atenuam o impacto visual das pequenas descaracterizações aplicadas à fachada – como, por exemplo, a colocação de grades e aparelhos de ar condicionado. Fazendo jus ao charme que lhe é indiscutivelmente peculiar, o sóbrio hall de entrada do Cibrasil possui um quadro estampando uma fotografia do prédio e escadas cujo corrimão é todo trabalhado em formas que remetem aos próprios arabescos da fachada.

O Edifício Cibrasil é preservado graças ao decreto de número 12.864, de 29 de abril de 1994, que instituiu a região como Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC) do entorno do Colégio Militar. Esse decreto também tombou a Pedra da Babilônia e preservou alguns outros imóveis, protegendo o ambiente urbano tanto dali como de ruas situadas no outro "lado" da Pedra, a exemplo das ruas Pareto e Deputado Soares Filho.

Panorama da Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua Professor Lafayette Côrtes 89: preservado pelo decreto da APAC do Colégio Militar.

Pedra da Babilônia e a Rua General Marcelino

Rua Professor Lafayette Côrtes (2011)

Rua General Marcelino (2011)


Imóveis preservados pelo Decreto número 12.864, de 29 de abril de 1994:

Rua Dulce
Lado ímpar: 175, 191, 207, 225, 243
Lado par: 40, 70, 128, 138

Rua Professor Lafayette Côrtes
Lado ímpar: 89, 105, 127, 155, 181, 241, 271
Lado par: 34, 46, 58, 70, 84, 98, 100, 120, 134, 156


RELATOS DE MORADORES: A MEMÓRIA AFETIVA DE QUEM VIVEU O ESPAÇO

Esta não é a primeira vez que escrevo sobre este conjunto de ruas na Tijuca. A primeira vez foi em 2011, quando ainda publicava textos no blog AS RUAS DO RIO, que, mesmo inativo, ainda está disponível para leitura no website da revista Veja Rio. Na segunda ocasião, já para O PASSEADOR TIJUCANO, comentei sobre o inusitado fato de o Edifício Cibrasil ter sido reproduzido em um croqui no livro “A Alma do Rio”, de Cynthia Howlett, lançado no final de 2013. Nesse ínterim, muitos foram os e-mails e comentários que recebi com depoimentos públicos sobre as memórias da vizinhança. Selecionei alguns deles:

Tive a felicidade de, em 1980, conhecer três rapazes que moravam na Lafayette Côrtes e eu morando em São José dos Campos. Em 1981 fui parar na Tijuca de tanto que eu fui passear nas casas deles e adorava aquele bairro! Eles moravam num prédio, o de número 127, construído pelo avô de um deles, que tem a imagem de Santo Ivo, feita com azulejos portugueses logo na entrada do prédio, que tem quatro andares e não tem elevador. Ai, ai, ai... voltei lá esse ano e a idade pesou dessa vez! (risos). 
Um dos meninos ainda mora lá, com os pais, a esposa e a filha, todos no mesmo apartamento, uma coisa bem peculiar desde aquela época, quando os jovens, mesmo já tendo seu emprego, seu estudo, não saíam da casa dos pais. E mesmo depois de tantos anos, muitos parentes dos meus amigos ainda moram naquele prédio, como o filho de uma amiga, o irmão do outro etc. O apartamento é da família, não foi vendido e foi passado para a geração futura, sem se preocupar em fazer reformas, mudar a "cara" do prédio (aliás, todos estão iguaizinhos desde quando estive lá pela última vez!). 
Não tínhamos problemas com segurança, íamos para as noitadas e voltávamos de madrugada, sem a preocupação de encontrar alguma surpresa pelo caminho ou em casa. Tinha festa junina na rua, onde todos os moradores colaboravam com algum acepipe, tinha quadrilha e até cadeia, além do correio elegante, é claro! Mesmo sendo adolescentes, gostávamos desse convívio com os vizinhos, que conhecíamos todos pelo nome, nos cumprimentávamos na rua. Bom, você sabe que a Tijuca é o único bairro que tem a sua naturalidade, ou seja, o carioca que nasceu na Tijuca não é apenas carioca... ele é tijucano!

Joana Darc de Oliveira, 11 out. 2013 (por e-mail)

Caro Pedro Paulo, 
Morei na Lafayette por mais de três décadas e ainda tenho relação com aquele recôncavo até hoje, pois minha mãe e muitos amigos ainda moram lá. 
Seu pedido, ao mesmo tempo que é fácil, também é difícil de retratar face à enorme quantidade de histórias e das particularidades que vivemos naquele período. Só para você ter uma ideia, éramos mais de 150 jovens convivendo diariamente e de quatro gerações diferentes. Imagine o que não há para se dizer de tudo isso. 
Naquele pedaço tinha campeonato de futebol, de jogo de botão, de futebol totó, festa junina (considerada por muitos a melhor da Tijuca!), jogo de cartas, xadrez, taco, vôlei e o que mais você possa imaginar.
Antonio Jorge Faria, 11 out. 2013 (por e-mail)

Nasci e fui criada na Rua Dulce, onde morei até os 13 anos, quando mudei para MG. Minha família ainda possui o apartamento no fim da rua e todo ano vou visitar. Quando entro no beco da Rua Dulce, meu coração até dispara, muitas lembranças boas. Valeu pela reportagem, inclusive li comentários de amigos da infância tão feliz!!!
Maria Inez Pedrosa Machado, 24 nov. 2015 (seção de comentários – AS RUAS DO RIO)

18 de fev. de 2016

"Zimba", o teatro da Tijuca, é reinaugurado em grande estilo

Fachada do Zimba, na Avenida Heitor Beltrão: teatro foi reformado pela Secretaria Municipal de Cultura.

Após diversas idas e vindas nos seus quase 28 anos de existência, o Teatro Ziembinski foi finalmente reinaugurado ontem, 17 de fevereiro. A noite de gala começou a partir das 19 horas, quando o público convidado foi recebido por um coquetel servido pelos garçons do restaurante Otto. Holofotes discretos incidiam sobre a fachada do teatro, na Avenida Heitor Beltrão, e sobre o painel preenchido por logotipos da Prefeitura colocado no saguão.

A reforma do teatro, que ganhou novos assentos e palco, sistema de refrigeração e um café, nos fundos, virado para a Rua Urbano Duarte, foi toda custeada pela Secretaria Municipal de Cultura. Em 2015, foi divulgado um edital de ocupação do espaço pelo período inicial de dois anos. Licitação ganha, a partir de março, a nova residência artística do "Zimba" ficará a cargo da Opsis Soluções Culturais, gerida pelo casal Robson Sanchez e Monique Carvalho, presentes no evento. Marcelo Calero, jovem ex diplomata que agora ocupa o cargo de secretário, foi figura presente simpática em todo o evento.

Fernanda Torres durante o monólogo (Foto: Divulgação)
Às 20h25, a campainha soou e os convidados se direcionaram às dependências internas do Zimba. Por volta das 20h45, Fernanda Torres surgiu no palco encarnando a arisca senhorinha baiana criada por João Ubaldo Ribeiro na obra "A Casa dos Budas Ditosos" e adaptada para o teatro por Domingos de Oliveira. Em cartaz pela primeira vez na Tijuca, a platéia assistiu com atenção, em meio a risadas, a narrativa genial de peripécias sexuais evocada pela personagem, de 68 anos, notadamente feminista, esclarecida e progressista.

Quase duas horas transcorreram até o encerramento do espetáculo. Calero agradeceu a presença do público, mostrando em linhas gerais o "banho de loja" dado ao Zimba. Além disso, sublinhou a felicidade de estar podendo entregar um teatro como aquele à Tijuca, o bairro onde nasceu e foi criado. O ponto alto dessa conversa foi a reação quase imediata de Fernanda Torres, que também alegou ser tijucana e sócia do Tijuca Tênis Clube. Naturalmente, foi aplaudida com louvor.



A placa de reinauguração foi desvelada por Torres, Calero e Clara Becker, filha da atriz Cacilda Becker (1921-1969) e do ator Walmor Chagas (1930-2013), quem criou e inaugurou o Teatro Ziembinski em 6 de abril de 1988.

Segundo reportagem do Estadão, a cena cultural da Tijuca ficará ainda mais agitada. O Teatro Cesgranrio, cujo endereço não foi divulgado, será inaugurado ainda este ano na região num antigo auditório em reforma.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão, onde se situa o Teatro Ziembinski junto à estação do metrô.

A peça "A Casa dos Budas Ditosos" será reapresentada no Zimba na próxima quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016, às 20h30. Os ingressos serão vendidos de quarta para quinta no local (Rua Urbano Duarte 30, [21] 2254-5399, estação São Francisco Xavier do metrô).

3 de out. de 2015

Tijuca anda de metrô, aprova e aplaude o Presidente: impressões do dia 27 de maio de 1982

Estação Saens Peña do metrô, em 1982: inauguração com euforia, festa e aplausos ao Presidente militar.

A euforia e a comoção tomaram conta da Tijuca no remoto dia 27 de maio de 1982, quando o metrô finalmente era inaugurado no bairro após sete anos de obras caóticas. Na época, o Jornal do Brasil fez uma cobertura completíssima contando em detalhes sobre a grande festa que se evidenciou no bairro naquela ocasião. O trecho Estácio-Tijuca, conformado pelas estações Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saens Peña, foi entregue durante a gestão do Governador Chagas Freitas e inaugurado pelo então Presidente João Batista Figueiredo, que veio direto de Brasília para a festa de abertura.

Na Praça Saenz Peña, foi instalado um palanque onde o Presidente, o último do regime militar, discursou emocionado sobre seus tempos de juventude na Tijuca. Embora criado em São Cristóvão, Figueiredo anunciou a todos ter sido aluno do Colégio Militar e frequentador do Cine América, tendo, inclusive, contraído matrimônio com uma tijucana, dona Dulce, falecida em 2011. O Jornal do Brasil publicou o discurso na íntegra, como vocês poderão ler mais abaixo. Na edição do O Globo do mesmo dia, conta-se que após a solenidade, o Presidente Figueiredo aproveitou a estada na Tijuca para visitar um antigo amigo de seu pai em sua residência na Rua Martins Pena.

Um dos pontos altos desta extensa reportagem se refere às impressões dos tijucanos a respeito da chegada do metrô. Reflexo, talvez, do conservadorismo tão peculiar impresso à figura dos moradores da Tijuca, os repórteres relatam que muitos preferiram tomar o ônibus naquela quinta-feira de outono alegando “insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que o metrô não funcionasse tão bem quanto se falava”. Já aqueles que experimentaram andar de metrô logo no seu primeiro dia de funcionamento na Tijuca, foram retratados pelo JB como pessoas nada cosmopolitas – vide o caso de uma mulher que, ao ouvir o apito que antecedia o fechamento das portas, soltou um berro, tropeçando ao entrar no trem e causando rebuliço.

O entusiasmo das “donas de casa” da Tijuca se misturou ao dos estudantes e de outros espectadores do evento, que entoaram gritos de “Mengo, Mengo” e também do America Football Club. A festa contou também com balões, gente trepada no telhado e nas marquises, a presença de toda a classe política da época e do Cardeal Eugênio Sales, que benzeu a estátua de São Francisco Xavier na estação homônima. Na Praça Saenz Peña, cartazes agradeciam pelo término das obras, enquanto os moradores do Andaraí, “sempre esquecido” (segundo a faixa produzida por eles), reivindicava a integração do bairro com o metrô. Enquanto isso, o Governador Chagas Freitas informava que após a conclusão do trecho Inhaúma-Pavuna, da Linha 2, o Estado começaria a pensar "concretamente" sobre a conexão da Tijuca com o Leblon através do anel metroviário.

No meio de toda essa confraternização, o Jornal do Brasil traçava o perfil de Chico Alencar, o jovem presidente da extinta Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra), destacando-o como líder promissor e muito querido na Tijuca. Chico, hoje deputado federal pelo PSOL, afirmava residir na Rua Henrique Fleiuss, e no momento de inauguração do metrô já havia lançado o livro “A História da Sociedade Brasileira” (Editora Ao Livro Técnico). Em depoimento aos repórteres do JB, na contramão do puxa-saquismo dos moradores diante das autoridades políticas presentes na Saenz Peña, Chico alegou que os operários do metrô estavam segregados do público e que deveriam ser mencionados como forma de agradecimento a eles pelo trabalho prestado.

Na estação de Botafogo, antigo terminal da Linha 1, o letreiro indicava a Praça Saenz Peña como destino.

Jornal do Brasil, pp. 4-5, 28/05/1982.
Tijuca anda de metrô e aprova
Por Bruno Thys, Gloria O. Castro, Luiz Fernando Gomes, Paula Motta, Samuel Wainer Filho e Sandra Chaves
- Você viu só? – queixou-se uma senhora bem vestida ao saltar na estação Saens-Peña ontem às 18h05m, voltando do Centro. “Tive de empurrar aquele homem que estava parado na porta, segurando em cima, como se estivesse no trem da Central”, dizia ela para uma amiga. Na hora do rush de volta da cidade, o metro não chegou à Tijuca superlotado. Teve movimento regular para o primeiro dia de operações, que começou às 14h30min.

- Muita gente não deve ter usado o metro com medo de que estivesse supercheio – disse Sueli Farias, tijucana “desde antes de o metro esburacar a Praça Saens-Peña”. Ela e sua colega de trabalho, Lola Henriques, tomaram o metrô na estação Presidente Vargas – trabalham no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, na Presidente Vargas – e voltaram para casa depois do expediente, economizando Cr$ 15. A passagem de ônibus é Cr$ 40, e a volta de metrô custou Cr$ 25.

A economia, porém, Lola acredita que vá diminuir com um possível aumento que ela teme que seja anunciado em breve: “As passagens devem aumentar sim, porque com essas novas estações funcionando, eles vão precisar de mais dinheiro”.

Manuel Eduardo da Silva, que trabalha na Rua México, nem pensou duas vezes para tomar o metrô na Cinelândia na volta à casa. “É bem mais rápido”, disse, “quando decidi voltar de metrô não levei em conta a economia que faria, e sim a comodidade do transporte mais eficiente”.

A comodidade, o conforto, a novidade de um meio de transporte que oferece velocidade, ar condicionado, pontualidade e que já cobre uma extensão que vai da Zona Sul (Botafogo) à Zona Norte (Tijuca) levaram muitas pessoas a utilizar o metrô.

Uma viagem de metrô da estação Botafogo à Saens-Peña demora, em média, 23 minutos. Quando não há paradas mais demoradas, a viagem pode durar 21 minutos, como a feita ontem, saindo às 17h45m de Botafogo e desembarcando na Saens-Peña às 18h06m.

O maior fluxo de passageiros continua sendo da cidade em direção à Estação da Central do Brasil, quando o trem quase se esvazia, permitindo às pessoas que seguem, encontrar lugares vagos nas poucas cadeiras.
Ônibus continua cheio porque o novo assusta

Três motivos principais levam as pessoas a enfrentar um ônibus lotado, tráfego e uma viagem de quase 1 hora, quando poderiam se utilizar do metrô: insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que não funcione tão bem quanto se fala.

Foram estas as razões principais dos viajantes no ônibus da linha 409 (Jardim Botânico-Praça Saenz Peña) que saiu às 18h do ponto próximo à estação do metrô de Botafogo e chegou ao seu ponto final na Praça Gabriel Soares, um pouco depois da estação da Saenz Peña, às 18h50min, com o número de passageiros habitual.

Justificativas

Muito sorridente, enormes brincos de ouro e unhas pintadas de vermelho. Maria Aparecida Gomes, de 37 anos, trabalha como manicure particular na Zona Sul e mora na Conde de Bonfim. Achando muita graça em suas próprias palavras, explica as razões de não ter usado o metrô:

- O Presidente inaugurou hoje né? Eu não peguei o trem porque não estou acostumada e não quero fazer feio. Um dia desses, quando eu não estiver muito apressada, vou dar um pulinho na estação só para ver como funciona. Com coisa nova eu não nego a minha raça. Faço como os matutos do interior. Primeiro dou uma sapeada e depois então eu uso como se andasse sempre.

A maioria dos passageiros não se deu conta de que a inauguração das estações da Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saenz Peña, havia sido ontem. A cobradora do ônibus, Eunice da Conceição Pinto, disse que o movimento se mantinha igual aos dias anteriores.
Alguns, como o auxiliar de filmes e da TV Globo, Antônio Luís Santos, não usam o metrô “por causa da baldeação”. Ele justifica sua opção pelo ônibus alegando que “é o mesmo preço do metrô e assim eu só pego duas conduções. Se eu usasse o trem teria de pegar três conduções”.

Falando com a autoridade “de quem conhece seu ofício”, a cobradora Eunice sentencia: “Depois que o povo se acostumar com o metrô eu vou ter menos trabalho”.

“Um benefício estupendo”

Dona Gioconda Prado Seixas, moradora da Praça da Bandeira, “em cima do Bemge”, assistiu à solenidade de inauguração do metrô na Tijuca; foi em casa almoçou; tomou banho; trocou de roupas e voltou a tempo de pegar o primeiro trem que saiu da estação Saenz Peña. D. Vera Adelaide, que afirmou ter gostado muito “da autobiografia do Presidente”, também fez a mesma coisa. José Gomes Soares, advogado, que mora na Rua Almirante Cochrane, ao contrário das duas senhoras que usaram o metrô para passear, tomou o primeiro trem para a cidade porque trabalha no Centro. A ida do metrô até a Tijuca foi considerada, por todos, “um benefício estupendo”, como disse José Gomes Soares.

O funcionamento comercial das estações Saenz Peña, São Francisco Xavier e Afonso Pena começou às 14h30min. Para impedir o acesso das pessoas antes do horário, foram colocadas cordas de nylon grossas. Funcionários do setor de Operação vigiavam para que ninguém ultrapassasse a barreira. Na hora da liberação, o aviso dos funcionários para que o povo tivesse calma, não corresse. Tudo correu sem problemas.

O primeiro susto

O grupo de garotos do Colégio Municipal Euclides de Figueiredo (em homenagem ao pai do Presidente João Figueiredo) formado por Roberto 11 anos, Rodrigo, 11, Carlos, 13, Marcelo Alves, 12, Marcelo Henriques, 14, Marcelo Siqueira, 11, e Marcelo Queirós, 11, teve um pouco de dificuldade para passar no torniquete (queriam passar todos ao mesmo tempo e o torniquete só gira para uma pessoa de cada vez). Estavam excitados com a primeira viagem que fariam sozinhos no metrô: “Estamos achando um barato”, afirmou Marcelo Siqueira.

O trem partiu. Quando parou na estação São Francisco Xavier, ouviu-se um grito apavorado de mulher. Muita gente correu para fora do trem. Funcionários surgiram. O trem ficou parado alguns minutos. Mas a mulher apenas se assustara com o apito que antecede o fechamento das portas e tropeçou ao entrar no trem, caindo já dentro do vagão. O trem seguiu viagem.

O primeiro dia de funcionamento do metrô na Tijuca teve até palhaço no trem. Se Sacode, que faz promoção de lojas comerciais e alegra festas infantis, aproveitou a primeira viagem para distribuir os folhetos da loja de roupas para bebês que está divulgando atualmente. “Fazer rir é coisa muito séria”, disse, “ser palhaço é muito triste”, completou.
Ligação com o Leblon será o próximo projeto

Até setembro, as linhas do pré-Metrô deverão chegar a Inhaúma e depois à Pavuna. A informação é do Governador Chagas Freitas, que anunciou:

- Aí, poderemos pensar concretamente na ligação Tijuca-Leblon, através da Rua Uruguai, passando pelo maciço da Tijuca.

O presidente do Metrô, Carlos Teóphilo, muito festejado pela mudança de filosofia de arquitetura das estações do Metrô – optou por acabamento simplificado, ao invés do imponente mármore das primeiras estações – informou que o último acesso da Rua General Roca será entregue no próximo mês.

Teóphilo afirmou que para a melhoria de conforto, no Metrô, faltam apenas alguns trens, que deverão começar a ser entregue em setembro. Isso evitará os constantes problemas de superlotação no transporte.

Tijuca recebe metrô com balões e gente nos telhados

Havia gente nas janelas, sobre os telhados e nas marquisas. Alguns com binóculos. Balões coloridos de gás subiram ao céu, libertos das mãos de colegiais que cercavam o palanque com bandeirolas verdes-amarelas. Uma banda tocou Pra Frente Brasil e o Presidente Figueiredo, emocionado, falou de improviso – fora do programa. Estava oficialmente inaugurado o trecho Estácio-Tijuca da linha 1 do metrô.

A festa contou com a presença de políticos do PDS e do PMDB, mas não foi reivindicada por nenhum Partido. “A festa é do povo”, repetiam os deputados, opinião compartilhada pelo Governador Chagas Freitas. Foram sete anos de espera e de muitos transtornos, que modificaram a vida dos moradores. Fato lembrado, com pedidos de desculpas, em todos os discursos. Terminada a solenidade, a nova Praça Saenz Peña voltou a ser dos velhos, crianças, babás, pipoqueiros. Como antigamente.

Expectativa

A Praça Afonso Pena – primeira etapa do programa oficial – desde cedo foi tomada por centenas de populares que disputavam, aos empurrões, o melhor lugar para ver e cumprimentar o Presidente. Um dos donos da festa e anfitrião, o presidente do metrô, Carlos Teóphilo, foi o primeiro a chegar. Na calçada, recebia os convidados e apresentava a praça reurbanizada com árvores e bancos de concreto.

O horário marcado – 9h30min – foi respeitado pela maioria, mas muitos preferiram chegar mais cedo. Foi o caso do Cardeal Eugenio Sales, do Governador Chagas Freitas (acompanhado de vários secretários), do ex-ministro Eliseu Resende e de seu sucessor no Ministério dos Transportes, Cloraldino Severo, do presidente da Caixa Econômica Federal, Gil Macieira, além das autoridades militares da região.

Enquanto aguardavam o Presidente Figueiredo, permaneceram conversando em pequenos grupos, principalmente sobre política partidária. A indefinição da candidatura do PDS ao Governo Estadual foi tema muito abordado. Uma das rodas mais animadas reunia o Governador Chagas Freitas, o presidente da FAMERJ, Jô Resende, e representantes da Associação de Moradores da Tijuca.

O clima foi quebrado pelo nervosismo e ansiedade dos seguranças da Presidência da República, que momentos antes da chegada de Figueiredo afastavam aos empurrões e gritos quem estivesse no caminho a ser percorrido pela comitiva.

O Presidente, ao contrário – sorridente, apesar de uma visível irritação nos olhos –, chegou cumprimentando a todos, e não se furtou a autografar qualquer papel que lhe fosse oferecido. Acompanhado dos Ministros Leitão de Abreu e Danilo Venturini, Figueiredo foi conduzido para o interior da estação, onde ouviu explicações técnicas de Carlos Teóphilo e descerrou uma placa comemorativa.

Uma composição com seis carros – prefixo 100 – levou todos para a estação São Francisco Xavier, onde chegou às 10h30min – um minuto depois do embarque. Em rápida cerimônia (menos de 5 minutos). D. Eugênio Sales benzeu a imagem de São Francisco que ficará exposta na plataforma da estação, onde foi descerrada outra placa. A sirene apitou, novo embarque. Dois minutos depois, a Praça Saenz Peña.

Festa

Houve a determinação, por parte da segurança, de que todos os convidados e a imprensa saíssem da composição antes da comitiva presidencial. Figueiredo permaneceu no trem, conversando animadamente com Adhir Veloso (Secretário Estadual de Transportes), o Governador Chagas Freitas e o Cardeal Eugênio Sales. Depois, saiu pela plataforma direita, apoiando-se no corrimão, ainda com cheiro de tinta fresca.

No palanque armado à saída da estação, um locutor, pomposamente, narrava cada passo do presidente. Houve ligeiro tumulto quando Figueiredo se aproximou dos populares, que queriam abraça-lo e tocar sua mão. Fazia calor, mas o Presidente trajava terno cinza com colete. Colegiais acenavam suas bandeirolas, enquanto moradores aplaudiam das janelas. Uma revoada de balões de gás marcou o início da solenidade.

O primeiro a discursar foi o Ministro Cloraldino Severo, que com sua voz fina e nervosa não conseguiu atrair a atenção dos presentes: enquanto falava, Figueiredo e Chagas conversavam e atendiam aos que se aproximavam. Foi um discurso longo, técnico e abrangendo outras realizações de sua área.

Depois, foi a vez do Governador do Estado. Chagas Freitas recebeu um princípio de vaia, no início do discurso formal, previamente redigido. Só quando resolveu partir para um improviso, agradecendo aos operários e técnicos do Metrô, e desculpando-se pelos transtornos causados pela obra, conseguiu reverter o clima do público, que, neste instante, passou a aplaudir intensamente.

O locutor anunciou o fim da solenidade, quando populares pediram uma palavra do Presidente que já se preparava para deixar o palanque. Foi um discurso de improviso, bem-humorado e com muita emoção. Figueiredo lembrou dos tempos em que viveu na Tijuca, conheceu Dona Dulce, e das sessões vespertinas do cinema América, quando “vinha buscar uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse”.

Foi muito aplaudido e só recebeu vaias quando reafirmou sua condição de tricolor – mesmo contra a vontade do sogro (americano) e da família predominantemente americana. Não chegou a falar no Flamengo, apesar dos gritos “Mengo, Mengo”, vindos do povo. Eram 11h quando Figueiredo saiu em direção à Gávea Pequena.

Figueiredo recorda infância na Tijuca

“Caros tijucanos. Voltar ou estar no Rio de Janeiro, minha terra natal, terra natal de meu pai e de quatro de meus irmãos. Terra onde iniciei minha meninice no bairro de São Cristóvão. E onde a Tijuca me acolheu aos 12 anos, no Colégio Militar, e me protegeu, até 1963, quando o meu pai morreu e deixou de vir à Praça Saens Peña (...). Cada vez que venho ao Rio recordo as passagens da minha meninice, da minha juventude e de meus dois primeiros filhos. Agradeço a Deus, que veio me fazer também carioca.

Ao voltar à Tijuca, são tantas as recordações, sempre boas, da torcida que fazia contra o América, time da minha família. O América que me deu a minha mulher. Que sempre perdia para o Fluminense, que acabou vencendo o meu coração. Recordo também dos passeios pelas praças Afonso Pena e Saens Peña, das batalhas de confete nas ruas do bairro, das peladas de futebol contra o time do Salgueiro. E como era difícil ganhar deles. E das festas juninas, em cada casa, para festejar meu santo padroeiro, São João.

Confesso que ao desembarcar na Praça Afonso Pena e vir até a Saens Peña, passando em São Francisco Xavier (onde o trem maria-fumaça me deixava aos sábados, vindo de Realengo, para poder ver meus pais, meus irmãos e minha namorada), senti a emoção do menino de 18 anos. Senti o calor da torcida do América, reclamando da minha condição de tricolor, e a voz do meu sogro pedindo para que, se eu casasse com a filha dele, eu passasse para o América. E, ao mesmo tempo, a voz do meu pai, para ser Vasco.

São tantas as recordações que tive e tal foi o carinho com que o povo me recebeu, que insisto em não pensar nos dias de amargura que tive ao acompanhar os trabalhos do metrô ao longo de todos estes anos, que tantos sofrimentos trouxeram à gente do bairro. Anos morosos, porque não dispunha o Governo de recursos que possibilitassem um prazo mais curto para esta obra interminável.

A minha palavra, portanto, hoje, para todos vocês, são dois muito obrigado: o primeiro, pela compreensão por estes anos de sofrimento e de rebuliços que o metrô foi obrigado a causar a vocês. O segundo obrigado, pela recepção carinhosa que me deram, fazendo-me voltar novamente aos meus tempos de aluno do Colégio Militar, em eu vinha buscar nas sessões vespertinas do Cine América uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse. Muito obrigado”.


Praça virou festa e comércio deu brinde

Um brinde para cada cliente em qualquer compra. Só hoje, dia 27. Inauguração do metrô. O cartaz, à porta da Drogaria Venâncio, garantia um vidro de modelador de cabelos aos fregueses e retratava o espírito de festa que invadiu a Praça Saenz Peña já nas primeiras horas da manhã. O metrô contribuiu, espalhando bandeiras brancas, bolas coloridas e um imenso balão que anunciava a chegada do transporte subterrâneo e as transformações sofridas pela Saenz Peña.

Foi um dia fora do normal. Até pouco antes da chegada do Presidente, garis e operários davam os últimos retoques no calçamento de pedras portuguesas. Para entregar a estação na hora marcada, os trabalhos viraram a madrugada, mas houve uma recompensa. Segundo o operário Francisco das Chagas, servente de 24 anos, “é bom a gente ver uma coisa feita pela gente, pronta, e inaugurada pelo Presidente”.

Faixas, havia muitas. “Bem-vindo Presidente Figueiredo”, “Os Tijucanos agradecem ao Governador Chagas Freitas” e “Andaraí sempre esquecido reivindicou integração” – um protesto, quase isolado, pela não inclusão do bairro nas linhas de integração. Apesar do rígido esquema de segurança, muita gente conseguiu furar o bloqueio imposto pelos guardas e se aproximar do palanque.

Muitos seguravam bandeirolas também nas janelas dos prédios onde boa parte dos tijucanos assistiu a cerimônia de inauguração do metrô. Nas ruas, os guardas de trânsito, condescendentes, permitiam tráfego na contramão e até mesmo estacionamento em áreas não permitidas.

Em um canto próximo ao palanque, um grupo de alunos e professores da Associação dos Pais e Amigos de Excepcionais (APAE) comparecia para exigir do Presidente Figueiredo o cumprimento da promessa feita na inauguração da Caixa Econômica Federal para ajudar nas despesas de Cr$ 10 milhões (gasto mensal da entidade). Portavam cartazes em que diziam que Excepcional também é brasileiro e cobravam: O Metrô veio de Botafogo para a Tijuca: e a nossa verba?

Durante a solenidade, além da carta com o pedido da APAE, Figueiredo recebeu outros documentos das associações de moradores e da menina Manoela Pinho de Azevedo Souza, que pediu pela proteção da natureza. Manoela, 12 anos, demonstrou bastante organização: levou várias cópias xerox para distribuir à imprensa. Já Maria da Glória Mendes, 58anos, entregou uma carta que preferiu não divulgar. Chorando muito, disse que era assunto particular. “Essa é a quinta vez que faço isso. E ainda não fui atendida”.

“Chico” usa terno escuro

Um dos personagens mais festejados, ontem, foi o presidente da Amoapra (Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña), Francisco Alencar. Por onde passava, era cumprimentado e abraçado pelos moradores do bairro, que agradeciam a luta da associação em favor da transformação dos terrenos remanescentes do Metrô em áreas de lazer. “Fomos a população que mais sofreu com as obras, durante sete anos” – respondia Chico Alencar, como é conhecido.

Foi a primeira vez em que a Federação das Associações de Moradores recebeu convite para uma solenidade oficial de inauguração. Segundo Jô Resende, “é um reconhecimento ao trabalho que desenvolvemos e que hoje representa uma grande parcela de esforço da população no sentido de conquistar soluções para as nossas próprias necessidades”. Apenas a Amoapra conta com cerca de 100 mil pessoas na sua área de atuação.

Francisco de Alencar – vestido com um terno escuro, pouco comum às lideranças de bairro, “mas imposto pelas necessidades” – lembrou que um abaixo-assinado foi entregue há algum tempo ao Governo do Estado, no sentido de uma rápida conclusão das obras do metrô, com a devolução dos terrenos à comunidade.

- Foi uma vitória do povo, sobretudo pelo direito que adquirimos de acompanhar o destino de nossas áreas de lazer. Em São Paulo, por exemplo, isto não foi feito e os terrenos acabaram vendidos.

Chico lembrou ainda que a reurbanização da praça Saens Peña foi uma vitória dos moradores que a reconquistaram como queriam, modificando o projeto original, “uma forma muito árida, semelhante ao calçadão da Cinelândia”. Por sugestão da Amoapra, foram, ao contrário, plantadas mais árvores, colocados bancos com encosto e o lago foi reconstruído.

- Entretanto, a comunidade vai continuar fiscalizando para que tudo funcione bem – concluiu.

Em uma carta aberta ao Presidente Figueiredo, a FAMERJ e 12 associações de moradores afirmaram que “essa inauguração compensa em parte os seis anos de transtornos e a descaracterização urbana dos bairros, mas não elimina os graves problemas da condução coletiva do Grande Rio, já que a linha 1 serve apenas a uma população que não tem tantas dificuldades quanto a de outras regiões mais carentes”.

E acrescenta ainda a carta que “a maior transformação vivida pela Tijuca não está no progresso material que o metrô traz, nem na piora da qualidade de vida, mas num fato novo, positivo e que vai aos poucos, como semente, fecundando toda a sociedade: as associações de bairro que necessitam ser ouvidas para o progresso e desenvolvimento do país”, concluiu.

Embora aparente menos de 25 anos, Francisco de Alencar Filho – O Chico, presidente da Associação de Moradores da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra) – tem 32 anos de vida e de Tijuca, sempre na mesma rua, Henrique Fleiuss. Profissionalmente é tão bem sucedido quanto na presidência de sua associação: é professor da rede pública e particular (colégios São Vicente de Paulo, Santo Inácio e Eliezer Stemberg) e autor do livro A História da Sociedade Brasileira, com Marcus Vinícius e Lucia Carpi, que desde o lançamento em 79 já vendeu mais de 80 mil exemplares. Casado com Ângela, professora de Português, é pai de Emanuel, de seis meses.

Ontem foi um dia muito especial na vida do tijucano e historiador Chico de Alencar, que “acordou” para a participação comunitária em 1966, com a juventude estudantil católica. “Enquanto o palanque estava lotadíssimo de autoridades, no outro extremo da praça os operários assistiam a tudo em cima dos respiradouros. Eles também deveriam ser mencionados”. Neste momento, o historiador é mais forte e ele recorda a abertura de seu livro: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis...” (Bertold Brecht).

10 de jul. de 2014

Maracaí, Saens Peña, e outras memórias afetivas de ônibus

Linha 221 (Maracaí x Praça XV): extinta no ano 2000. Foto: Companhia de Ônibus.

Dia desses, esperava um ônibus na Rua São Francisco Xavier, bem naquele ponto em frente à Escola Orsina da Fonseca, quando observei a placa que informava as linhas que paravam ali. Aproximei-me, analisando-a atento, pois o semblante era de surpresa ao perceber que a extinta linha 221 ainda constava na tal sinalização. 221! Quem se lembra dessa linha, Maracaí x Praça XV, que deixou de circular pelo bairro no início dos anos 2000?

Para quem não sabe, Maracaí é o nome de uma estradinha no Alto da Boa Vista já quase nas imediações de São Conrado, na Zona Sul. Tal linha, operada pela Auto Viação Tijuca (vulgo Tijuquinha), era a única cujo itinerário contemplava a Rua Mariz e Barros rumo à Usina (sim, não há mais linhas na Mariz e Barros que passem pela Usina).

Bateu uma onda nostálgica após esse encontro inesperado com uma placa – presto muita atenção em placas, diga-se de passagem. Recordei imediatamente as antigas pinturas que existiam nas latarias dos veículos, abolidas em 2010 com a padronização de cores por consórcios. É bem verdade que o sistema ficou mais organizado. Por outro lado, esquecemo-nos de que os ônibus, por mais odiosos que sejam no contexto do Rio, também têm o seu lado afetivo na vida dos cariocas.

Sou um usuário exemplar de transporte público desde os 10 anos de idade. Aqui na Tijuca, os ônibus mais marcantes para mim eram os da empresa Alpha e os da Tijuquinha. Afinal, eram os que eu mais pegava rumo à Zona Sul, no caso da Alpha, ou ao Centro, no caso da Tijuquinha. O layout de ambos era idêntico, mudando apenas a paleta de cores. Para a Alpha, tons avermelhados; para a Tijuquinha, azulados. E a Alpha sempre teve fama de possuir itinerários inseguros, alvo de assaltos.

Não bastasse o orgulho naturalmente bairrista do tijucano, além de uma empresa de ônibus com o nome do bairro, ainda tínhamos outra empresa cujo nome aludia à nossa principal praça, a Viação Saens Peña, com lataria que expunha em letras garrafais a sigla SP. O curioso era ver que mesmo com a alcunha tijucana, a empresa operava linhas bem longe do bairro, como a 125 – Central x General Osório ou a variante Central x Horto. Recentemente, a Viação Saens Peña mudou seu nome para Nossa Senhora das Graças. Fiel e orgulhoso tijucano que sou, obviamente preferia a versão antiga.

17 de jun. de 2014

Tijuca, esse bairro apaixonantemente "parado"

"Salve Tijuca", por Elli, na Rua Almirante Cochrane.

Faço pós-graduação em Planejamento Urbano pela UFRJ e, numa das aulas de Cidade e Sociabilidade, começamos a discutir sobre o jeito de ser da Tijuca. Toda essa querela se deu após a leitura do capítulo “Muda – Quando se Muda”, do livro Prosas Cariocas: uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004), organizado por Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki.

A autora deste texto, a jornalista e atriz Bianca Ramoneda, exaltou sua relação com a Muda, onde residia – sublinhando enfaticamente a fase violenta da Tijuca, nos anos 90 e 2000 -, fazendo uma comparação com o momento em que finalmente deixou a região para morar num quarto-e-sala no Leblon. Pretendo comentar sobre esse texto em outra oportunidade, embora valha a pena destacar, diante do propósito deste post, o seguinte trecho:

"Eu tinha 18 anos, morava na Muda, pequeno bairro dentro da enorme Tijuca, onde era feita a troca de bondes. Lindo bairro pra morar, se a sua ideia for passar os dias e, principalmente, as noites dentro de casa. Como uma legítima cidade do interior, na Muda o transporte acaba antes das 22 horas e é impossível comer um salgadinho onde quer que seja, pois não há nada aberto. A Muda tem um silêncio impressionante durante a madrugada, herança da proximidade com o Alto da Boa Vista, um silêncio que só é rompido pelo latido dos infinitos cães que reagem ao som de cada folha que cai no asfalto (p. 51).”

Apesar do cenário descrito acima ser da Muda – de fato, uma cidadela pra lá de pacata entre a Tijuca e a floresta –, muita gente ainda associa essa ideia de bairro “parado” à Tijuca como um todo. “Ah, não há vida noturna na Tijuca”, apontam alguns. Mas como não, cara pálida? E a boêmia dos arredores da Praça Varnhagen? O que dizer, então, da balbúrdia dos pés-sujos da Haddock Lobo?

No entanto, entendo o que querem dizer com isso, principalmente quando esse argumento vem de um tijucano menos esclarecido: a Tijuca não é o bairro da moda. Logo, o que há de entretenimento por aqui nem se compara à diversão cosmopolita de Botafogo, esse sim o bairro vitrine do Rio, cheio de novidades, bares estilosos que abrem e fecham conforme a demanda de público, shoppings, excelentes livrarias e cinemas badalados. Paraíso do consumo cool, onde volta e meia me abasteço, é claro. Não há disso na Tijuca.

Por vezes não nos damos conta da influência impressionante que a publicidade e a mídia têm no nosso modo de viver. Neste sentido, o estilo de vida da zona sul (ou seja, o lugar que dita a moda) se impõe como padrão e, forçosamente, acabamos acreditando nessa concepção de que a Tijuca não é tão bacana assim. Daí surgem os argumentos mais ultrapassados possíveis contra este nosso vale: “bairro de gente velha e moralista”, “só tem farmácia”, “não tem praia”, “o lazer se resume ao shopping” etc.

Tá, tá, tá, tudo bem. O jeito como alguém gosta de se divertir é muito particular, não há como questionar. Se os encantos do capital são os que te cativam, é para a zona sul ou para a Barra que você, caro tijucano, deve ir mesmo. A Tijuca é prática e sem firulas, mantém a tradição, não se diversifica, com exceção do shopping center. Eu e minha família vamos sempre, há anos, no mesmo braseiro, o arrebatador Lareira, na Rua Major Ávila. Mas há quem prefira comer o mesmo galeto, e pagando talvez até mais caro, lá nesse tal de Braseiro do Baixo Gávea, lugar dos chamados trendsetters (grosso modo, termo em inglês para dizer que alguém lança moda).

A vida cultural do Centro ou de Botafogo são irresistíveis, confesso. Só que também me invade uma sensação muito esquisita quando volto desses lugares, algo que nasce e cresce dentro de mim, sempre que saio do metrô e deparo com o chafariz da Praça Saens Peña ou cada vez que um 415 cruza o viaduto Paulo de Frontin, perpassa a Praça Afonso Pena e segue reto, toda vida, até chegar à Usina. Bate uma emoção em atravessar tantas ruas queridas, tantos monumentos esplendorosos como a Igreja de São Francisco Xavier e o Colégio Marista! O encantamento com a zona sul fica pra trás.

Voltar à Tijuca, após uma noitada na Lapa, por exemplo, é retornar literalmente para casa. A gente se diverte lá e regressa sabendo que na Tijuca encontraremos o descanso e o silêncio. O afastamento necessário à vida mundana exalada pelos bairros notívagos. É como se as nossas ruas respeitassem seus próprios relógios biológicos: durante o dia, vivacidade, à noite, adormecimento. O clima de família, ainda que ultimamente visto como um valor antiquado, tempera o nosso bairro com doses irresistíveis de hospitalidade.

Vendo assim, a Tijuca pode até ser um bairro meio sem nada para fazer mesmo, mas um bairro apaixonantemente "parado".

7 de mar. de 2014

Direto da Rua Professor Lafayette Côrtes, o edifício Cibrasil!

Ilustração do livro de Cynthia Howlett reproduz a monumentalidade do Edifício Cibrasil, na região da Rua Dulce


Foi uma grata surpresa folhear o recém-lançado livro bilíngue de Cynthia Howlett (Alma do Rio/The Soul of Rio, Editora Réptil, R$ 39,50 na Travessa) e me deparar com um capítulo exclusivamente dedicado ao bairro da Tijuca. Para quem é do Rio e costuma folhear os guias turísticos publicados sobre a cidade, sabe bem que a Tijuca é ignorada dada a sua falta de atratividades turísticas comerciais, muito embora seja uma região significativamente histórica da cidade e que abriga, nas suas cercanias, o estádio do Maracanã e a floresta que leva o nome do bairro.

Cynthia Howlett remou contra a maré e dissertou um pouco sobre o bairro, de forma comedida e sem muita intimidade - afinal, a moça é cria da Zona Sul -, mas que valeu a pena pela lembrança. Mesmo que as fotografias da Praça Saens Peña, símbolo-mor do bairro, tenham sido substituídas pelas do estádio do Maracanã como referência tijucana, há uma agradável surpresa no Alma do Rio/The Soul of Rio: um croqui pra lá de simpático do anônimo edifício Cibrasil, da autoria de Juliana Yue, a ilustradora do livro. 

Você, tijucano, o conhece? Pode ser que de nome, não, apesar de já ter ouvido falar nas ruas Dulce e Professor Lafayette Côrtes, certo? O edifício Cibrasil, esse que você pode ver nas imagens, fica na esquina da Lafayette Côrtes com a General Marcelino, bem nos fundos do Colégio Militar, às margens da imponente Pedra da Babilônia. Região da São Francisco Xavier e Almirante Cóchrane. Localizou? É difícil mesmo de situar-se caso você não disponha de um mapa. Os próprios tijucanos se confundem com as suas ruas e tal qual foi a minha surpresa de logo a Cynthia Howlett - mais uma vez, cria da Zona Sul - supostamente conhecer e ainda colocá-las no seu livro.

O Cibrasil é um daqueles edifícios clássicos dos anos 1940 que tanto embelezaram bairros como a Tijuca, Flamengo e Copacabana (sobretudo nos arredores da Praça do Lido) e que hoje sobrevivem a custa de muito interesse por parte dos seus proprietários, que nem sempre estão interessados - ou possibilitados, financeiramente falando - em preservar tais prédios. É uma manutenção, por vezes, langorosa. O Cibrasil faz parte desse rol de joias arquitetônicas da cidade que não recebem o devido cuidado, mas que, por outro lado, continuam adornando as nossas ruas.

A garça feita em chapa de ferro no topo do Cibrasil: joia arquitetônica tijucana

Ele se parece a um castelinho, e sua cor acinzentada, meio pálida, atenua o impacto das pequenas descaracterizações aplicadas à fachada. A entrada possui um elegante portão verde de ferro cujos detalhes dourados, em formato de ondas, se parecem a bigodes muito bem penteados. Os arabescos, preenchidos por azulejos floridos, compõem toda a fachada da torre com um charmoso vitral por onde passa a escadaria do Cibrasil. Os antigos jardins do pátio interno do edifício, no entanto, clamam por melhores cuidados - tornaram-se um amontoado de matos e folhas sem intenção paisagística alguma.

Por último, peço ao leitor (e futuro pedestre da rua!) que observe o topo da torre do Cibrasil: o telhado tradicional, em formato circular, comporta uma garça composta em material ferroso que, além de ser um belíssimo e incólume adorno, também se assemelha a uma rosa-dos-ventos.

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