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27 de dez. de 2015

Praça Hans Klussman


A imaginação das crianças é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com base nessa concepção que o professor Paulo de Tarso, morador da Rua Sabóia Lima, recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann um verdadeiro recanto de fantasias. Aliás, mais do que um professor, Paulo de Tarso é um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro assim como do reino animal.

Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos de 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos no bairro de como urbe e natureza se conectam e, portanto, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam o local (um bom repelente já resolve esta questão), o alto da Rua Sabóia Lima oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde podem ser observadas as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa; do outro, um jacaré.

Foi neste momento em que tive a percepção de não estar vendo tudo o que de fato existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, além de uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde: os animais, cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade.



Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klussmann ganhou um colorido todo especial, mas que, paralelamente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou de qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças pensam da ilusão ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são "interagíves", no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e, dessa maneira, fantasiar um passeio pelo deserto - por exemplo.



Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, contribuindo para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda forma um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, que fica no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar diante do espaço em que estamos inseridos.

Num mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade - gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho.


Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados em suas leituras. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós, e, em outro rincão, um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klussmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul – e, à noite, estrelado – da nossa natureza. A nossa real natureza.

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Texto publicado em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 10 de agosto de 2013.

3 de jul. de 2015

Victor Belart, do FAZ NA PRAÇA: "[a Saens Peña] não deveria ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista"

Victor Belart: FAZ NA PRAÇA
As praças da Tijuca têm vivido uma fase de efervescência cultural nunca antes experimentada. Eventos públicos com DJs, arte, debates, cinema, comida entre outras intervenções vêm ocorrendo com cada vez mais frequência na Saens Peña, Praça da Bandeira e Xavier de Brito. Neste último domingo, 28 de junho, por exemplo a inauguração do Cine Xavier exibiu o longa-metragem argentino Medianeras ao ar livre da Praça Xavier de Brito reunindo toda uma geração de jovens e adultos que possivelmente só havia frequentado a praça dos cavalinhos assim, tão integralmente, na infância. Já a Praça Saens Peña comemorou seu 104º aniversário de modo inovador, há cerca de um mês: considerada um lugar de afazeres domésticos e deserto à noite, a praça abrigou um grande concerto público que reuniu no mínimo 500 pessoas de todas as idades que dificilmente estariam por lá em circunstâncias comuns.

Por trás dessas iniciativas que estão incrementando o entretenimento (público) da Tijuca está o coletivo FAZ NA PRAÇA (ou melhor, Fluxo de Articulação de Zona na Praça), formado por um grupo de amigos do bairro engajados em trazer de volta à rotina dos cariocas o hábito de vivenciar as praças como local de interações e desfrute. Nesse grupo, Victor Belart, tijucano, jornalista e produtor cultural de 24 anos, tem se mostrado um notório representante do FAZ NA PRAÇA. Durante a festa da Saens Peña, Belart ganhou aplausos instantâneos após anunciar, no palanque, que a praça “não devia ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista”, evidenciando a proposta e o lema do FAZ NA PRAÇA em tornar esses espaços públicos da região da Tijuca em um grande palco de intervenções coletivas e alternativas ao circuito tradicional de arte e entretenimento.

Aniversário da Praça Saens Peña deste ano: curadoria musical e artística a cargo do FAZ NA PRAÇA.
Créditos: André Valente.

Primeira exibição do Cine Xavier: cinema ao ar livre na Praça dos Cavalinhos.

O passeador tijucano conversou brevemente com Victor sobre a atuação do FAZ NA PRAÇA na Tijuca, além dos planos e novidades para o restante do ano:

De onde surgiu a ideia de fazer o evento em celebração ao 104º aniversário da Praça Saens Peña no último dia 30 de maio, levando em conta que, inicialmente, grande parte dos eventos do FAZ NA PRAÇA estava sendo realizada na Praça dos Cavalinhos?
Victor Belart: Já tínhamos interesse de fazer alguma atividade na Saens Peña, mas o evento do dia 30 não foi iniciativa nossa. A Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) faz todo ano uma atividade na praça comemorando o aniversário dela e esse ano nós fizemos a curadoria musical e divulgação. Mas a iniciativa é originalmente da ACIT e rola ano a ano, agora especificamente para esse último evento, a ACIT teve alguns incentivos da Secretaria de Cultura para pagar certos custos estruturais. Já a Xavier de Brito [Praça dos Cavalinhos] virou uma espécie de laboratório nosso porque tudo começou por lá. Eu e a Tais Barcia fizemos um aniversário na Praça e desse evento a galera que apareceu decidiu se juntar pra fazer mais vezes. Muita gente da Tijuca tem história desde criança com a Xavier de Brito, mas na vida adulta esqueceu o sentido daquele lugar. Aquela praça tem especificamente algumas questões especiais, desde o choque cultural e social das crianças que habitam o espaço ou a própria ideia de já ser uma praça vista como “um fim”. Dificilmente alguém cruza a Xavier de Brito de passagem, todo mundo que está ali vai pra ficar pela própria praça. Esse tipo de Praça, que já tem uma movimentação própria, tem muito a ensinar para todos nós e também por isso pegamos o espaço como “laboratório”.

Qual sua função no FAZ NA PRAÇA? Você é o "líder"?
VB: Na verdade não tem nenhum líder; a ideia do FAZ NA PRAÇA é para ser um movimento orgânico. Na real, no início, era pra ser um movimento tão livre que poderia ocorrer ações do FAZ NA PRAÇA sem que nenhuma das 8 a 10 pessoas que fazem parte desse grupo estivessem envolvidas. Como se o FAZ NA PRAÇA fosse a ideia de fazer indiscriminadamente as coisas em praças, mas acabou que por algumas questões específicas de responsabilidade temos tomado um pouco de cuidado com isso. Se acontecer um FAZ NA PRAÇA sem nós e der algum problema, a responsabilidade recai sobre a gente, então queremos ter um pouco de cautela nesse sentido. Mas em todo caso, o FAZ NA PRAÇA é um grupo não muito rígido quanto à quantidade de pessoas, mas que varia sempre em torno de 8 a 10 e que querem levar atividade e movimento ao ar livre pela nossa cidade.


Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira: moradores mais antigos ainda resistem.
Créditos: Felipe Bauerfeldt (Deu Zebraa).


Vocês pretendem manter uma linha de ocupação de praças apenas na região da Tijuca (vide o Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira), para consolidar a programação cultural do bairro ou a proposta é expandir para outras regiões?
VB: Temos esse carinho especial pela Tijuca porque a maioria de nós é daqui e sabemos da falta de atividades do gênero pela área. Na verdade, o bairro tem melhorado muito nesse sentido também. Surgiram novos espaços de coworking, algumas atividades ao ar livre e até mesmo noturnas, mas o bairro ainda tem essa concepção de ser um “lugar somente para dormir”. A gente acaba vestindo muito essa bandeira tijucana porque crescemos aqui e sentimos a falta de atividades do gênero, mas a ideia do FAZ NA PRAÇA é que por todo o Rio de Janeiro se faça atividade na rua, ou seja, botar propriamente a praça no centro do debate urbano. Sempre falamos que as praças talvez sejam um dos únicos lugares onde a democracia realmente seja levada ao pé da letra.  Além disso, a questão da praça é importante para ampliar nossa ideia de cidade; quando saímos de casa e vivemos somente a nossa própria rotina, tendemos a não ter muita sensibilidade com a realidade do outro. Num evento de rua sempre vai ter um morador de rua e alguém que só frequenta shopping ali naquele mesmo espaço e ambos estarão nesse lugar para estar “além” do seu próprio estereótipo ou da própria rotina. Esse tipo de encontro rola naturalmente é só tende a ser positivo para todos os envolvidos.

Quais os próximos eventos? Novidades? Fiquei sabendo do Cine Xavier. É você quem está coordenando?
VB: Antes de tudo, precisamos terminar de resolver alguns problemas ainda pendentes do aniversário da Saens Peña. Num futuro muito próximo queremos fazer esse cinema na Xavier [a entrevista ocorreu antes da efetivação desse evento, no último dia 28 de junho], mas também nos sugeriram o Grajaú. Também temos a ideia de fazer alguma ocupação na UERJ, que não deixa de ser um espaço público do nosso bairro e que ainda tem uma ideia muito vertical, aquele cinza, aquele prédio gigante. Conhecemos uma galera recentemente que quer tentar fazer com que a UERJ tenha uma ideia mais plana, mais de praça.

4 de mai. de 2015

Usina, oásis e tradição na Tijuca

A Conde de Bonfim, na Usina: mais perto da Floresta.
A Usina sofre de uma espécie de rejeição calamitosa: suas ruas são desertas, aparentemente relegadas pelos pedestres, que, com exceção dos poucos moradores dali, circulam somente a bordo de seus carros rumo ao Alto da Boa Vista ou à Praça Saenz Peña. Grande pecado: além de ser uma das regiões mais bucólicas e agradáveis do nosso bairro, a Usina é também o local onde a Tijuca mostra com rigor a sua tradição e simbolismo histórico no contexto da cidade do Rio de Janeiro. Explico-me.

Uns desses primeiros indícios estão na Rua São Rafael, ruazinha pequena entre as ruas São Miguel e Conde de Bonfim. Chama a atenção por ali o conjunto de resistentes casas centenárias, bem de frente para a Avenida Maracanã. Os janelões frontais e os emblemas no topo da fachada estão preservados e remetem o pedestre a uma Tijuca pacata e aristocrática, mais conhecida por suas “benesses” serranas do que por sua intensa urbanidade como é hoje observada. O estilo da arquitetura e a ambiência local favorecem a imaginação: que famílias terão vivido lá? No lado de dentro, o que se preservou?

Um passo adiante, ainda na Rua São Rafael, é possível deparar-se com o córrego do Rio Maracanã perpassando, a alguns metros de profundidade, uma série de casas deterioradas. Nesse panorama, cabe destacar o estado límpido da água, que transcorre entre pedras e pequenas vegetações. Como essa região é um aclive – afinal, é a subida para a Floresta –, a água do Rio Maracanã ganha força e, em alguns trechos observáveis, tem um aspecto de riacho que ecoa um relaxante barulhinho por toda a bucólica Rua São Rafael.

Rua São Rafael: janelas frontais e emblemas no topo da fachada remetem ao século XIX.


O muro mais do que centenário da Rua São Rafael: placa remete ao ano de 1895.

No entanto, não era apenas este detalhe que eu queria lhes comentar. A vista para o Rio Maracanã é protegida por uma mureta de pedra que existe em ambos os lados da rua. Até aí, nada de demais – eu estaria falando apenas de um muro qualquer se não fosse o que há preso a este muro, algo que lhe dá uma importância extraordinária: uma placa aparafusada com o ano de “1895”. É bem capaz de que até os próprios moradores da região sequer tenham notado de que se trata de um muro centenário cuja placa – desde já, patrimônio nobilíssimo desta cidade – jaz sem nenhum tipo de aclamação.


Armazém do Loureiro: mercearia desde os anos 1930 na São Rafael com Conde de Bonfim.

Na esquina da Rua São Rafael com a Rua Conde de Bonfim, outra perseverante joia arquitetônica: o Armazém do Loureiro. Negócio familiar, inaugurado nos anos de 1930 pelo português “Seu” Loureiro, o armazém é uma espécie de mercearia que, até pouco tempo, era bastante resistente e alternativo frente à hegemonia dos supermercados. Segundo O Globo, de 22 de dezembro de 1987, o Armazém Loureiro era o local de compras preferido dos moradores da Usina por causa da qualidade dos produtos vendidos, como arroz, feijão, bacalhau, sardinhas portuguesas, vinho alemão e do Porto, uísque escocês, champanhe francesa, entre outros. A tradição do local é tanta que por muitos anos foram adeptos da venda a fiado, com caderninho e tudo para anotar as despesas de cada freguês.

Resquício dos trilhos dos bondes no Largo da Usina

Rua Rocha Miranda, na divisa com o Alto: residências espaçosas em local aprazível.
Outro casario remanescente de outrora, na Conde de Bonfim: à esquerda, a Herbert Ritchers.

Edifício Jequitibá: modernismo na Conde de Bonfim.
No Largo da Usina, os trilhos dos bondes ainda permanecem à mostra, como se pudessem voltar a ser utilizados a qualquer momento tal qual antigamente, quando a Usina, na verdade, era uma usina termoelétrica que gerava energia para esse meio de transporte. O Largo continua sendo um marco da região, na divisa entre a Tijuca e o Alto da Boa Vista, cujas ruas transversais ainda resguardam os signos de nobreza e sofisticação do bairro, como a Rua Rocha Miranda, ao passo que outras, mesmo assoladas pela decadência, ainda preservam o aspecto familiar e de calmaria, como o das ruas próximas ao Hospital da Ordem Terceira da Penitência.

Outro trecho interessante da Usina está na Rua Conde de Bonfim entre os números 1325 e 1337. No primeiro número, temos o Edifício Jequitibá, um belíssimo residencial modernista que se destaca na paisagem da rua com seus azulejos que remetem à obra de Athos Bulcão e as janelas venezianas que deslizam pela fachada. Ao lado desse edifício, outro marco da Usina: o imóvel onde funcionava a Herbert Ritchers, um dos estúdios de dublagem mais famosos do Brasil, falido em 2009. Abandonado, há uma vegetação crescente pela fachada, que há tempos já não deixa mais à vista o letreiro do derradeiro estúdio. E, por fim, nos números 1335 e 1337, vê-se mais um conjunto de casas centenárias intactas, que continuam preservando a história da Usina assim como as vizinhas na Rua São Rafael.

O que mostrei se trata apenas de um resumo das surpresas e detalhes que a Usina resguarda, esse pedacinho da Tijuca, por vezes, tão maltratado e pouco desfrutado pelos tijucanos. As fotos dão um destaque à beleza local: entende, agora, caro leitor, por que a Usina merece ser “passeada”?

2 de mai. de 2015

Nas calçadas tijucanas, os resquícios das pedras portuguesas

O chão original da Conde de Bonfim: pedras portuguesas entre a Saenz Peña e a Haddock Lobo.

Tidas como símbolo maior do calçadão da praia de Copacabana, assim como marco do urbanismo de praças e calçadas do século XX, as pedras portuguesas estão ganhando cada vez menos espaço nas áreas públicas da cidade. Seja pelo alto custo de manutenção, seja pelos supostos riscos que comprometem a mobilidade do pedestre, essa belíssima herança lusitana ainda encanta e suspira os cariocas que têm o privilégio de tê-las em seus bairros ou ruas de estimação.

Aqui na Tijuca, as pedras portuguesas estão por todas as partes, mas de forma descontínua. Uma caminhada atenta pelo bairro permite observar como as vias principais da Tijuca dispunham de desenhos próprios de pedras portuguesas, alterados e/ou fragmentados na medida em que intervenções urbanísticas foram sendo realizadas sem que a concepção original das calçadas fosse preservada. O mesmo vale para as construções aparentemente ilegais de prédios e muros que não respeitaram o alinhamento primário das calçadas, criando, desta maneira, curvas e interrupções no passeio.


Na Muda, o mesmo chão de pedras portuguesas foi preservado na esquina da Conde de Bonfim
com Rua Mário de Alencar:

Uma primeira evidência de que a Rua Conde de Bonfim detinha um desenho particular de pedras portuguesas em toda sua extensão pode ser comprovada nos trechos em que o Rio Cidade não interveio. Em 1995, o programa de remodelação estética do ex prefeito César Maia trouxe uma nova identidade urbanística para o trecho da Conde de Bonfim entre a Praça Saens Peña e a Rua Uruguai, substituindo todo o piso da praça e das calçadas por placas de cimento.

O piso original da região da Saenz Peña, antes do Rio Cidade 1995: rua Doutor Pereira dos Santos.

Assim, o piso original aplicado à Conde de Bonfim, que lembra o formato de losangos acompanhados por linhas pretas, se manteve apenas na região da Muda e da Usina e entre a Rua Pareto e o Largo da Segunda-Feira, estendendo-se também para a Rua Haddock Lobo. Além disso, ruas adjacentes a essas vias também eram contempladas pelo piso; até hoje, um passeio pelas ruas Carlos Vasconcelos, Moura Brito, Marechal Trompowsky, Canuto Saraiva, entre outras, deixa à mostra o resquício desse desenho.

No entanto, vale lembrar que o modelo do piso da Praça Saens Peña era diferente do da Rua Conde de Bonfim. Na praça, o chão também tinha um desenho geométrico, mas com um desenho que lembra “pontas”. Os resquícios desse piso podem ser vistos apenas no trecho da Rua Doutor Pereira dos Santos próximo à sua esquina com Rua General Roca; ali, aparentemente, o Rio Cidade não chegou a intervir, o que se por um lado é motivo de contentamento para os nostálgicos, por outro deixa provas de como tais obras nem sempre prezaram a qualidade no seu acabamento.

Na Avenida Maracanã, o piso segue a mesma linha que aquela aplicada ao calçadão de Ipanema.

Na Rua Barão de Mesquita, as pedras portuguesas seguem o mesmo padrão que o da Rua São
Francisco Xavier, mas de maneira precária; veja o mal estado de conservação.

Além da Conde de Bonfim, vias como a Avenida Maracanã e as ruas Almirante Cochrane, São Francisco Xavier e Rua Barão de Mesquita também mantêm até hoje, em muitos dos seus trechos, resquícios não só de pedras portuguesas, mas de todo o projeto particular aplicado a cada um desses logradouros. No canteiro central da Avenida Maracanã, em especial no trecho entre a São Francisco Xavier e a Praça Lamartine Babo, o desenho de pedras portuguesas é idêntico àquele implementado no calçadão da praia de Ipanema. A própria Praça Varnhagen detinha esse piso até pouco tempo atrás, quando foi interditada para a construção de um reservatório subterrâneo. Seguramente, as pedras portuguesas não serão devolvidas – vide o caso da Praça da Bandeira.

O chão de flores da Rua Almirante Cochrane, nas imediações da Rua Marquês de Valença.

As ruas Barão de Mesquita e São Francisco Xavier, por sua vez, também fizeram parte de um mesmo projeto conceitual de piso. Tal qual o caso da Conde de Bonfim, esse conjunto de ruas – que também abarca as vias transversais – passou por uma série de descaracterizações, supostamente com o advento dos edifícios residenciais na Tijuca durante os anos 1970. Panorama similar é o da Rua Almirante Cochrane – seu chão de pedras apresenta um desenho que lembra flores – que foi parcialmente destruída entre 1976 e 1982 para a construção do metrô no bairro.

3 de abr. de 2015

À beira da mediocridade, Prefeitura inaugura a nova Praça da Bandeira

Imagem aérea da nova Praça da Bandeira, inaugurada em 7 de fevereiro: projeto pobre compromete
a estética local. Fonte: Divulgação Prefeitura do Rio.

Após dois anos interditada para obras contra enchentes, a Praça da Bandeira foi reinaugurada no início de fevereiro deste ano com novo mobiliário urbano e paisagismo. O evento, que reuniu autoridades locais e municipais, contou com a apresentação do concerto da Banda da Guarda Municipal acompanhada da cerimônia de hasteamento da bandeira brasileira, devolvida finalmente à praça carioca que lhe dá o nome.

A interdição fez parte de um conjunto de obras destinado a melhorias urbanísticas na cidade do Rio de Janeiro em virtude dos jogos olímpicos do ano que vem, 2016. Desse modo, a construção de um reservatório subterrâneo na Praça da Bandeira promete acabar com as clássicas enchentes que assolam tal área do município, e, consequentemente, é motivo de comemoração para os moradores e comerciantes de lá que há tantas décadas sofrem com os temporais.

Mesmo diante de tantas perspectivas otimistas sobre a região da Praça da Bandeira, que, a partir deste ano, ao que tudo indica, estará “salva” dos dilúvios cariocas, é cabível destacar a decepção com o resultado final da praça em si. Fruto de um projeto urbanístico que aparentemente tem sido igual para todas as outras praças e espaços públicos revitalizados há pouco tempo no Rio, a remodelação na superfície da praça durou pouco menos de dois meses. Para uma área que ficou interditada por dois anos, o que seriam dois meses? Eficiência ou trabalho mal feito?

As imagens divulgadas nas redes sociais da Prefeitura e da Subprefeitura da Grande Tijuca não deixam mentir: a Praça da Bandeira foi contemplada por um projeto pobre em termos estéticos. Quem passa pela região com frequência e tem um mínimo de senso crítico, também já deve ter percebido este detalhe. A nova praça dispõe de pisos acimentados (ficarão encardidos logo, logo), palmeiras esquálidas sustentadas por pedaços de madeira, gramado e jardim simplórios, que beiram a inexpressão, sem mencionar a sensação de aridez emanada pelo local nos dias de calor.

O panorama não difere em nada do que foi feito recentemente no entorno do estádio do Maracanã, por exemplo, onde a inclusão de elementos de entretenimento, como a academia da terceira da idade e a pista de skate, por outro lado, parecem ser as únicas qualidades. Esses elementos são ressaltados no vídeo abaixo publicado pelo prefeito Eduardo Paes em sua página do Facebook em 13 de março. Na matéria, percebe-se claramente a sobrevalorização da construção do reservatório subterrâneo (vulgo “piscinão”) e da academia da terceira idade como mascaramento à pobreza e à má qualidade do projeto executado.




Para quem não se lembra, a “antiga” Praça da Bandeira dispunha de abricós frondosos e pisos cobertos por simbólicas pedras portuguesas, que fazem parte da identidade do Rio. Muito embora fosse mal conservada, dado o fato de que a praça é pouco acessível a pedestres por estar rodeada de autopistas, opino que a “nova” Praça da Bandeira reproduz uma concepção urbanística de “praça revitalizada”, muito em voga atualmente no Rio, que rompe com a identidade e os símbolos cariocas a favor de atributos como eficiência, agilidade e redução de custos que, claramente, estão comprometendo a estética e a sustentabilidade das nossas áreas públicas. A nova Praça da Bandeira é, portanto, um (infeliz) retrocesso, que preocupa o futuro das praças Varnhagen e Niterói, na Tijuca, que estão sob as mesmas circunstâncias.

20 de out. de 2014

Avenida Heitor Beltrão (3): o perímetro da decadência

O antigo imóvel da Casa de Cultura Lima Barreto: abandonado desde 2007 na Rua Conselheiro Zenha

Vista como um sinônimo de modernidade e de progresso no seu momento de abertura, a Avenida Heitor Beltrão trouxe impactos negativos a longo prazo à região da Tijuca onde se localiza. Em primeiro lugar, a via jamais recebeu qualquer empreendimento imobiliário que desse algum tipo de feição residencial a seu cenário. Em segundo lugar, como uma consequência da primeira razão, a Avenida Heitor Beltrão, portanto, nunca foi capaz de atrair muitos pedestres para as suas calçadas; pelo contrário: seu aspecto exclusivamente rodoviarista acabou por repeli-los, mesmo com a presença ali do Teatro Municipal Ziembinski, de um centro cultural - fechado em 2007 - e de pequenos parques em suas margens.

Não à toa, o Zimba - como é carinhosamente conhecido o Teatro Ziembinski - foi apropriado pela Prefeitura em 1992. Ao longo dos anos, o número de vezes de fechamento e reabertura do local por falta de verba ou de problemas com infraestrutura é incontável. De todo modo, o Zimba segue lá, na Rua Urbano Duarte junto à Heitor Beltrão, com uma programação não muito badalada, mas ultimamente contínua. Em contrapartida, o Centro Cultural Lima Barreto fechou suas portas por volta do ano de 2007 e hoje seu antigo espaço jaz na esquina da Rua Conselheiro Zenha. Sem dúvidas, uma grande perda para a Tijuca.

Sinalização de 2013 já depredada em 2014
A hipótese de que a Avenida Heitor Beltrão seja uma avenida fracassada também se confirma com a sua mais recente intervenção pública: a implantação de um corredor do Bus Rapid System (BRS). Inaugurado no segundo semestre de 2013, o BRS conferiu à avenida nova sinalização e novos pontos de ônibus que foram rapidamente vandalizados. O Ciep Samuel Wainer, por sua vez, é um outro caso de abandono: mesmo sendo um sucesso em termos escolares, suas dependências físicas são precárias e feias, especialmente o anexo formado pela quadra poliesportiva. 

Em suma, a Heitor Beltrão continuou sendo, desde a sua inauguração, uma avenida de grandes vazios urbanos. As praças construídas nesses locais - demanda, essa, da própria associação de moradores nos anos 1980 - não foram capazes de angariar um público cativo e, na atualidade, são comumente frequentados por usuários de drogas e/ou por cachorros encoleirados. No entanto, a ação de grafiteiros nas muralhas da Heitor Beltrão tem contribuído para melhorar a sua paisagem, assim como o evento de arte urbana Wallpeople, que vem procurando reocupar a Praça Paulo Emílio da Costa pelo menos uma vez por ano com encontros e troca de arte colaborativa.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão: via pouco amigável aos pedestres.

Muralha na Rua Almirante Cochrane: extinto posto de gasolina em frente ao Walmart.

O anexo do Ciep Samuel Wainer que dá forma à quadra poliesportiva: gradil depredado e
risco de assaltos no entorno.

O problema é que o "feitiço maldito" da Avenida Heitor Beltrão não se circunscreve apenas aos seus limites: as ruas vizinhas também foram atingidas pelo impacto negativo da avenida fantasma. Na Rua Pareto, por exemplo, os indícios de decadência são gritantes. Na esquina com a Conde de Bonfim, um antigo casario permanece fechado - e praticamente caindo aos pedaços - após o encerramento das atividades de uma lanchonete no início dos anos 2000. Em outras épocas, abrigava a Sorveteria Molinaro. Já o extinto Colégio MV1 Pareto foi desmembrado em duas partes, onde uma delas tornou-se um prédio inexplicavelmente atroz. A ideia é que ali funcionasse uma loja de nome "Ti Ti Ti", voltada mais ao perfil popular, mas que acabou não saindo do papel. Hoje, trata-se de um imóvel abandonado que, não raramente, é invadido por moradores de rua.

Na Rua Almirante Cochrane, os efeitos são ainda mais perversos. De um lado, um prédio elegante junto à Pedra da Babilônia não dialoga mais em estética com o seu entorno, reconstruído mediocremente em virtude das demolições do metrô. Paredes pichadas estão por todas as partes, assim como um posto de gasolina abandonado na esquina de Visconde de Figueiredo. Em frente, um grande elefante branco, o prédio do antigo Walmart, que está se degradando continuamente graças à deserção repentina de seus proprietários e, é claro, à ação do tempo (em março de 2016, foi inaugurado o Supermercado Guanabara no local). Panorama similar é o da Rua Marquês de Valença, no seu cruzamento com a Rua Pereira de Siqueira: o prenúncio de declínio econômico é muito evidente.

Imóvel centenário na Pareto com Conde de Bonfim à espera de revitalização

Ainda na Rua Pareto, imóvel desmembrado ao antigo Colégio MV1 , não raro, é ocupado por
sem-tetos e usuários de droga

A falta de êxito na ambiência urbana da Avenida Heitor Beltrão, especificamente, se deve ao fato de que os terrenos baldios ali existentes ainda são de propriedade do governo estadual. A privatização do metrô nos anos 1990 não consistiu na entrega desses terrenos ao Metrô Rio, companhia que administra o transporte metroviário atualmente. Entretanto, em 2010 o governo estadual deu início a uma série de leilões de antigas áreas remanescentes do metrô na Zona Sul e na Tijuca. O objetivo era angariar verba para cobrir os gastos da expansão metroviária para a Barra via Linha Quatro.

Ao que tudo indica, não houve tantos interessados na Tijuca, mas em Botafogo está sendo evidenciado um fator positivo nesse processo. O resgate de um quarteirão entre as ruas Voluntários da Pátria e São Clemente, no coração do bairro, permitiu a construção de uma nova rua acompanhada de empreendimentos residenciais e comerciais que alavancaram o dinamismo econômico e de pedestres da área. O quarteirão, por sua vez, foi contemplado por uma bela praça e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ambos elementos públicos muito bem utilizados pela comunidade e visitantes locais.

Talvez fosse essa a solução para a Heitor Beltrão: uma conjugação mais expressiva de usos, funcionalidades e serviços. Em outras palavras, continuamos à espera de um futuro melhor para essa avenida.

18 de out. de 2014

Heitor Beltrão (parte 2): uma avenida que já foi de muitos endereços

Avenida Heitor Beltrão: por muito tempo, foi nome de quatro avenidas diferentes!

Imagine-se na situação de ser convidado por um amigo a visitá-lo em sua residência numa determinada rua X, mas que, no fim de contas, você acaba indo parar em outro lugar completamente diferente que também leva o nome de rua "X". Deu para entender? Confuso, não? Pois é. Por muito tempo, aqui na Tijuca, a Avenida Heitor Beltrão foi nome de quatro trechos de ruas completamente distintos. Segundo o caderno "Tijuca", de O Globo, de 25 de agosto de 1987, a confusão só não era maior porque - talvez pelo zelo das autoridades ou por puro acaso - as numerações das quatro avenidas não se repetiam. As ruas eram:


1 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Professor Gabizo e a Rua São Francisco Xavier;
2 - Avenida Heitor Beltrão: trecho inaugurado em 1982, prolongamento do trecho citado acima, entre a Rua São Francisco Xavier e a Rua Conde de Bonfim, nas proximidades da Pareto;
3 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Conde de Bonfim e a Rua General Roca, passando por trás da Praça Saenz Peña e atual Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro;
4 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Desembargador Isidro e a Rua Conde de Bonfim, ao lado do Tijuca Tênis Clube e atual Rua Abelardo Chacrinha Barbosa.

Segundo o plano de arruamento do bairro, a ideia era que a Heitor Beltrão fosse idealizada como uma longa avenida que conectasse os arredores da Rua Professor Gabizo com a Rua Desembargador Isidro (percurso de quase dois quilômetros) a fim de criar um fluxo de trânsito no sentido Centro-Muda, descarregando assim, a já caótica Conde de Bonfim. Se analisarmos o propósito desse projeto num mapa, percebe-se que essa Heitor Beltrão, para sair do papel, teria de desapropriar imóveis em muitos logradouros, especialmente no eixo Alzira Brandão-Pareto e no eixo General Roca-Barão de Pirassununga-Desembargador Isidro, sendo este último jamais executado.

Deste modo, os quatro trechos que levavam o nome de Heitor Beltrão eram nada mais que o caminho planejado para que uma nova avenida surgisse na Tijuca. Entretanto, apenas o eixo Alzira Brandão-Pareto sofreu intervenções, como foi mostrado na postagem anterior, em virtude da chegada do metrô e do prolongamento da Heitor Beltrão sobre os trilhos subterrâneos da Linha Um. Outros projetos de abertura de ruas, previstos no plano de arruamento da Tijuca, também não tomaram forma, como, por exemplo, a conexão da Rua Barão de Itapagipe com a Rua Carlos Vasconcelos, discutido em O PASSEADOR TIJUCANO em abril de 2014.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão nas redondezas da Marquês de Valença: pico do Grajaú ao fundo.

Além do alto custo das desapropriações, não se sabe bem quais foram os outros entraves que impediram a execução dessa grande "cirurgia urbana" na malha viária tijucana. Minha hipótese é de que as obras do metrô no bairro durante os anos de 1976 a 1982 causaram o caos suficiente para que a comunidade da Tijuca nunca mais aceitasse conviver novamente com intervenções de tal porte. Nessa época, a atuação da associação de moradores era incisiva e dispunha de muita força política, o que decididamente pode ter freado uma atuação mais ousada do governo nessa questão.

Acredito que o primeiro sinal de desistência de unificação desses quatro trechos tenha se dado a partir de 1989, quando a Heitor Beltrão que margeava o Tijuca Tênis Clube teve seu nome modificado para Abelardo Chacrinha Barbosa, em homenagem ao ilustre comunicador da TV brasileira falecido em 1988. Esse trecho, inaugurado durante os anos 1970, curiosamente nunca teve edifício ou qualquer tipo de residência; até hoje se trata de uma área livre com vista para as empenas dos edifícios de ruas vizinhas e local de pontos finais de ônibus, como a 634 (Saenz Peña-Freguesia) e a 636 (Saenz Peña-Gardênia Azul).

Por outro lado, o trecho vizinho correspondente à antiga Heitor Beltrão entre a Conde de Bonfim e a General Roca, sempre foi residencial e já teve outro nome antes mesmo de ter sido "Heitor Beltrão". O jornalista João Máximo, em "Rua, avenida, clube e amendoim" ("Tijuca", O Globo, 24 ago. 1995), afirma que esse trecho era chamado de Rua dos Trapicheiros pelo dela situar-se às margens do Rio Trapicheiros. Apesar disso, Máximo não comenta sobre a partir de que momento esta rua tornou-se, de fato, mais um fragmento da Heitor Beltrão.

Ao mesmo tempo, vale comentar que João Máximo indagava em sua crônica a verdadeira identidade deste Heitor Beltrão, pois afirmava conhecer três pessoas célebres de nome Heitor Beltrão: o ex-presidente do Tijuca Tênis Clube (TTC); o compositor da canção "Amendoim torradinho", interpretado pela cantora Sylvia Telles; e o advogado, jornalista e parlamentar recifense. Sua dúvida era se, por aleatoriedade, cada um desses trechos "perdidos" se referissem a cada uma dessas personalidades que, de maneira supostamente insólita, possuíam nomes idênticos.

Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro:
deixou de ser Heitor Beltrão em 2005
Na verdade, ele estava enganado, pois o ex-presidente do TTC e o advogado, jornalista e parlamentar, no final de contas, eram a mesma pessoa. Lili Rose e Nelson Aguiar, no clássico "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), apontam que Heitor da Nóbrega Beltrão, apesar de ter nascido em Recife, tem sua história intimamente ligada à Tijuca, fato que, inclusive, tornou-o patrono do TTC, além da notória vida política e jornalística. Já o compositor de "Amendoim torradinho", seja dito de passagem, se chamava, na verdade, Henrique Beltrão.

Voltado à antiga Rua dos Trapicheiros e posterior Avenida Heitor Beltrão, em 2002 a Prefeitura resolveu criar mais uma pista ali para facilitar o trânsito dos veículos que vinham da Rua Soares da Costa para a Rua General Roca. No entanto, essa intervenção foi inexpressiva, o que só contribuiu ainda mais para torná-la uma rua sem identidade e ligeiramente mal cheirosa - é neste trecho onde o Rio Trapicheiros é mais poluído!

Por fim, em abril de 2005, dois anos após o assassinato por bala perdida da estudante Gabriela Prado Maia Ribeiro em assalto na estação São Francisco Xavier do metrô, a antiga Rua dos Trapicheiros (e depois Heitor Beltrão) foi renomeada em tributo à Gabriela, moradora do bairro, dando fim ao ao aspecto "fragmentado" da Heitor Beltrão. Isso não tirou-lhe, entretanto, o caráter polêmico e calamitoso, pois como veremos a seguir, é um dos principais logradouros que formam o "perímetro da decadência" no coração da Tijuca.


15 de out. de 2014

Heitor Beltrão, o surgimento de uma polêmica avenida no coração da Tijuca

"Seja benvindo à Tijuca": monumento do Rotary Club inaugura a Avenida Heitor Beltrão, aberta
em 1982. Ao fundo, o Teatro Ziembinski, que chegou à avenida apenas em 1988.

A geração atual de tijucanos e amigos do bairro provavelmente ignora esse fato, mas a Avenida Heitor Beltrão, correspondente ao trecho entre o Largo São Maron e a Rua Pareto, foi inaugurada em 1982 graças à chegada do metrô na Tijuca. Prevista pelo plano de arruamento original do bairro, a Heitor Beltrão foi designada para escoar mais fluidamente o trânsito do Centro para a Praça Saens Peña, servindo, da mesma maneira, como parte do traçado subterrâneo dos trilhos pertencentes à Linha 1 do metrô. Até então, todo o trânsito da Tijuca para o Centro (e vice-versa) se restringia ao eixo Conde de Bonfim-Haddock Lobo, que trafegava em sentido duplo, e à Rua Almirante Cochrane, que trazia o fluxo de veículos advindo da Praça da Bandeira.

Vista do antigo Mercado São Lucas (O Globo, 09 out. 1976)
O projeto da “nova” Heitor Beltrão consistia na construção de uma praça junto à Igreja de São Francisco Xavier acompanhada de uma via para carros que rasgaria transversalmente ruas como Alzira Brandão, Marquês de Valença, Carmela Dutra, Visconde de Figueiredo, Conselheiro Zenha e Pareto, até chegar aos arredores da Saens Peña. Muitos imóveis foram demolidos na época, como grande parte daqueles situados no lado ímpar da Rua Almirante Cochrane (paralela à Heitor Beltrão), além do extinto Mercado São Lucas, cujo espaço abriga atualmente o camelódromo e uma agência dos Correios.

Segundo o livro "Tijuca - História dos Bairros/Memória Urbana", publicado pelo Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR/UFRJ (1984), a abertura da Avenida Heitor Beltrão deixou os moradores do bairro encantados com a vista livre que o pedestre passou a ter do Maciço da Tijuca naquela área. No entanto, a avenida foi inaugurada com grandes vazios ao longo do seu percurso; não havia prédio algum projetado para a Heitor Beltrão, somente a visão das empenas de edifícios situados em ruas vizinhas. Urbanisticamente falando, era uma avenida "moderna", porém feia.

Esse fato foi protestado pelas associações de moradores em atividade na época, como a Amoapra (Associação de Moradores da Praça Saens Peña), que exigia a implantação de áreas de lazer nesses terrenos, que eram antigos canteiros de obra. O deputado federal Chico Alencar, presidente da Amoapra na ocasião, encabeçou o movimento que solicitava a criação do “Parque da Tijuca” às margens da Heitor Beltrão. Tal parque consistiria na colocação de playgrounds, ciclovias, anfiteatros, áreas verdes e quadras desportivas nos moldes do Aterro do Flamengo. Em contrapartida, Jorge Washington Montillo, presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) em 1982, defendia que a melhor opção para a nova via tijucana seria vender seus terrenos à iniciativa privada com a condição de que fossem criados espaços comunitários nos pilotis.

Antes e depois das obras da Avenida Heitor Beltrão, junto à Rua São Francisco Xavier *

Como vocês podem perceber, os próprios tijucanos não chegavam a um consenso sobre essa questão. Mesmo assim, o governador Chagas Freitas ratificou o decreto 5627 em 1983 garantindo para aquela área a criação exclusiva de parques, praças e quadras conforme a pressão e o desejo da maioria das associações de moradores. Entretanto, durante o governo de Leonel Brizola, esse decreto acabou sendo contrariado a favor da construção do Centro Integrado de Educação Pública Samuel Wainer (Ciep) num estreito terreno entre a Heitor Beltrão e a Almirante Cochrane em frente à Rua Conselheiro Zenha. Inaugurado em agosto de 1986, a chegada desse Ciep à referida avenida irou muitos moradores, que definiam tal decisão de Brizola como “autoritária” e desnecessária, pois a Tijuca já dispunha de muitas escolas primárias (vide O Globo-Tijuca, 29 set. 1986, p. 7).

Por outro lado, foi nesse mesmo ano quando a Avenida Heitor Beltrão começou a ganhar suas primeiras feições culturais, pois além da criação de um parque em toda sua extensão, havia a ideia também de se criar um corredor cultural por ali. Neste sentido, o Centro Cultural da Tijuca, sede do Sindicato dos Escritores, foi inaugurado na esquina da Rua Conselheiro Zenha em setembro de 1986. Pouco tempo depois, o local passou a ser chamado oficialmente de Casa de Cultura Lima Barreto. As atividades literárias e culturais desse centro cultural foram bastante efervescentes durante seu primeiro decênio de existência, com muitos cursos, exposições e oficinas. Além disso, havia inclusive um projeto de que fosse criado nas suas dependências um anexo destinado ao Museu da Tijuca, que apresentaria a história, fotografia e objetos referentes à cultura e tradição tijucana.

Em meados de 1988, o Teatro Ziembinski chegou à Heitor Beltrão, nas vizinhanças da estação São Francisco Xavier do metrô. Capitaneado pelo ator e diretor Walmor Chagas, o Ziembinski (vulgo Zimba) tinha a proposta inovadora de abrigar, além do teatro, uma escola para atores. Sem dúvidas, seu grande desafio foi trazer uma programação qualificada à Tijuca que fizesse com que os moradores e frequentadores do bairro não precisassem se deslocar tanto para a zona sul em busca de boas obras teatrais.

E assim a Avenida Heitor Beltrão foi se adaptando à malha viária da cidade e ao cotidiano tijucano. Entretanto, quem acha que as polêmicas envolvendo essa via acabaram por aí, está redondamente enganado. Por décadas, a Heitor Beltrão foi nome de 4 (quatro!) ruas diferentes na Tijuca, graças ao projeto de arruamento do bairro que previa a unificação desses trechos jamais executada. Discorrerei sobre esse tópico na próxima publicação. Por fim, em outra e breve oportunidade, farei uma análise da evolução urbana da Heitor Beltrão até os dias de hoje. Nem preciso adiantar que entre os tijucanos é unânime a opinião de que a Heitor Beltrão é o maior símbolo de decadência do bairro, condição que se estende igualmente a muitas de suas ruas adjacentes.

*Fonte: CARDOSO, Elizabeth Dezouzart; VAZ, Lilian Fessler; ALBERNAZ, Maria Paula; et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984. 

16 de set. de 2014

A história do túnel entre a Rua Uruguai e o bairro da Gávea

O urbanista grego Constantino Doxiadis foi o fundamentador do Túnel da Rua Uruguai (Fonte: Arquivo O Globo, 1965)

Se você perguntar para algum morador do Jardim Botânico ou da Gávea se ele conhece a história do Túnel da Rua Uruguai, que conectaria a Tijuca a esse trecho da Zona Sul em instantes, muitos balançarão negativamente a cabeça. Outros vão até mesmo perguntar "onde fica essa tal de Rua Uruguai?!". Por outro lado, basta papear com qualquer tijucano típico, daqueles bem bairristas, que ele começará a falar entusiasticamente sobre esse projeto nos mínimos detalhes. Ao mesmo tempo, com um certo ar de lamentação, vai suspirar pelo fato do dito-cujo até hoje não ter saído do papel.

O chamado túnel da Rua Uruguai remete à gestão do governador Carlos Lacerda, nos anos de 1960, que contratou a equipe do urbanista grego Constantino Doxiadis para reformular toda a estrutura rodoviária da cidade. O Plano Doxiadis, como ficou conhecido, sugeriu a criação de seis vias expressas que integrariam grande parte da malha viária "guanabarense", todas estas batizadas com nomes de cores: Vermelha, Azul, Marrom, Verde, Amarela e Lilás. As linhas Vermelha e Amarela, como bem se sabe, foram implementadas nos anos de 1990. As outras não tiveram a mesma sorte ou foram executadas apenas parcialmente.

É o caso da Linha Verde, que prometia ligar a Rodovia Presidente Dutra à Gávea, "rasgando" uma grande parte do subúrbio carioca, até chegar à Vila Isabel e Tijuca e, por fim, à Gávea, através do Túnel da Rua Uruguai. É interessante notar que alguns trechos da Linha Verde ganharam forma e hoje fazem parte da malha viária da cidade. Um exemplo é a Avenida Pastor Martin Luther King (antiga Automóvel Clube) e o Túnel Noel Rosa, logradouros que fariam parte do traçado da Linha Verde.

Apesar disso, o verdadeiro filé mignon da Linha Verde, que seria esse túnel entre a Tijuca e a Gávea, parece não ter tido força econômica suficiente para ser efetivado. Há muitas hipóteses para isso: a mais lógica delas é que o Estado, naquele momento, não tinha dinheiro suficiente para criar um eixo viário de tal magnitude. Em primeiro lugar, porque o Túnel Rebouças, aberto ao lado da Tijuca em 1967, tomou muito tempo de obras e de verbas. Em segundo lugar, porque o Túnel da Rua Uruguai requereria a desapropriação de imóveis nas duas vertentes mais valorizadas da montanha: Jardim Botânico e Gávea, na sul, e o alto da Rua Uruguai, na norte, sendo este trecho considerado até hoje o mais nobre da Tijuca.

Mesmo sendo uma obra custosa, colossal, mas inteligente do ponto de vista geográfico, a integração da Tijuca com a Zona Sul também era motivada por uma necessidade de se encurtar as distâncias entre os dois espaços concentradores de alta renda do Rio em meados do século XX. Vale lembrar que intervenções segregacionistas costumam ser muito comuns entre áreas socioeconomicamente distintas (vide a remoção das favelas na Zona Sul por Lacerda), embora perceba-se, em contrapartida, que intervenções "integracionistas", isto é, entre regiões com grande concentração de renda, eram - e ainda costumam ser - de muito interesse, ocorrendo sempre que possível. Neste sentido, a construção de um túnel interligando a Tijuca à Gávea tinha motivações especialmente políticas, as mesmas que forçaram a integração da Barra da Tijuca à Zona Sul via metrô. Um outro exemplo rápido e ilustrativo a esse argumento, no passado, foi a junção da Grande Tijuca à Zona Sul no mapa funcional do Plano Diretor do Rio de Janeiro, que a definiu como um único território de planejamento (Área de Planejamento 2).

No início dos anos de 1980, o Governo do Estado desengavetou o projeto do Túnel da Rua Uruguai, mas transformando-o num túnel metroviário. Com a inauguração das estações tijucanas do metrô em 1982, a ideia era levá-lo da Praça Saenz Peña até a Rua Uruguai e, de lá, à Praça Antero de Quental, no Leblon. A estação da Rua Uruguai seria construída no espaço do então Colégio Batista Brasileiro, hoje ocupado pela Universidade Cândido Mendes, na Muda.

Segundo reportagem de O Globo de 22 de junho de 1982, intitulada  "Tome o metrô na Tijuca e vá tomar um chopinho no Leblon", o repórter Dênis de Moraes afirma que essa expansão daria forma ao "eixo básico" do metrô; no caso, a ligação em reta entre as duas regiões geograficamente muito próximas, mas separadas por uma montanha. Mesmo prevendo poucas desapropriações por ser um túnel subterrâneo - o que supostamente tornaria as obras mais baratas -, a Companhia Metropolitana tinha uma dívida externa que girava em torno de US$ 1 bilhão, o que possivelmente dificultaria a execução do projeto. A promessa era de que em 1985 o Leblon já tivesse uma conexão direta com a Tijuca e vice-versa.

Uma década depois, o túnel metroviário voltou a ser pauta do governo, mas com outro enfoque: a ligação não apenas da Tijuca com a Gávea, mas igualmente daquela com a Barra. A proposta, cuja defesa teve início em 1995 pela Câmara Comunitária da Barra, tinha o nome de "Barra Metrô 2000". Desta vez, não estava prevista uma passagem pelo Leblon, mas sim pelo Jardim Oceânico, São Conrado, Gávea e, finalmente, Uruguai. O Globo-Zona Sul de 07 de maio de 1998 alegou que o governo estadual dependia do apoio da iniciativa privada para isso e que tal demanda era uma reivindicação dos próprios moradores da Barra.

O ex-prefeito Cesar Maia cogitou a ideia de se fazer o túnel metroviário, mas não levou adiante a proposta

No final de 2000, Cesar Maia, quem voltaria a ser prefeito em 2001, rediscutiu a ideia de se construir o Túnel da Rua Uruguai mesmo que este não fosse um tema da sua alçada, já que o metrô sempre se referiu ao Estado. Em O Globo de 16 de novembro de 2000, o então futuro alcaide se comprometeu a sugerir uma parceria com a concessionária Opportrans, sob financiamento do BNDES, para a construção do túnel. Luiz Paulo Corrêa da Rocha, nomeado Secretário Municipal de Transportes na gestão de Cesar Maia, alegou na ocasião que este "era o trajeto mais simples, porque é uma linha reta. Além disso, 90% da ligação são formados por rocha, o que facilita a obra e diminui o problema das desapropriações".

Desde então, nunca mais se comentou oficialmente sobre o Túnel da Rua Uruguai, fazendo da discussão em torno do anel metroviário um tópico cada vez mais restrito aos fóruns de internet. Nem os protestos recentes de associações de moradores contra a Linha Quatro do metrô, na Zona Sul, foram capazes de defender o Túnel da Rua Uruguai como uma das primordiais medidas para se melhorar a eficiência do metrô e o deslocamento eficiente entre as duas regiões. Esses grupos falam de mil e uma alternativas para o metrô, mas parecem não ser tão entusiastas do projeto talvez por questões "segregacionistas", suponho, já que a força econômica e política da Tijuca foi consideravelmente transferida para a Barra da Tijuca ao longo dos últimos 20 anos.

Por fim, esta é a história do Túnel da Rua Uruguai, primeiramente caracterizado como uma via expressa para automóveis e, posteriormente, como uma linha de metrô. Os mais otimistas dirão que será possível sair da Gávea e chegar à Tijuca em poucos minutos na próxima década. Entretanto, diante de tantos interesses contrários a se fazer um metrô sério no Rio, cabe aos ativistas continuarem lutando pela sua implantação, e, aos mais resignados, esperar sentado.

7 de set. de 2014

Revitalização da Praça Xavier de Brito

Chafariz francês da Praça Xavier de Brito passou por revitalização nesta primeira semana de setembro

Na última semana, a Praça Comandante Xavier de Brito - vulgo "Praça dos Cavalinhos" - foi contemplada pelo projeto "Valorizando o Patrimônio" através da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos. Um dos pontos centrais da intervenção foram os reparos técnicos efetuados no seu suntuoso chafariz, que, muitos não devem saber, embora produzido na França e destinado originalmente a uma praça europeia, acabou vindo parar aqui no Brasil para servir de fonte.

A sua chegada à Praça Xavier de Brito, no entanto, se deu apenas nos anos 1960, para o deleite dos tijucanos. Todo feito de bronze, esse chafariz dispõe de carrancas, anjinhos e golfinhos ornamentais por onde passam os filetes e o jorro d'água. Por outro lado, há tempos que esse "espetáculo aquático" se mantinha irregular. Muitos canais de saída estavam aparentemente entupidos, o que comprometia o funcionamento geral do chafariz.

No vídeo abaixo, registrado na sexta-feira 5 de setembro, filmei a atuação da Prefeitura no local e o simpático jorro d'água do chafariz funcionando em perfeitas condições:



Além disso, o jardim que margeia a bacia d'água do chafariz também foi revitalizado. Segundo o blog da Região Administrativa da Tijuca, foram plantadas mais de 900 mudas no seu entorno, número, à primeira vista, consideravelmente alto para um jardim tão diminuto. De todo modo, a Tijuca agradece a atenção dispensada. A Praça Xavier de Brito é linda mesmo e fica ainda mais esplêndida quando recebe esses tipos de zelo.

24 de ago. de 2014

Bike Rio chega à Tijuca

A nova estação do Bike Rio, no canteiro central da Avenida Maracanã junto à Varnhagen:
sustentada por energia solar.

Com três anos de atraso, o sistema de bicicletas laranjinhas do Itaú, conhecido como Bike Rio, está finalmente chegando à Tijuca e arredores desde meados deste mês de agosto, quando o tijucano já pôde avistar algumas de suas novas estações sendo implantadas na Praça Varnhagen (180) e no Largo da Segunda-Feira (177) - as únicas estações até agora em operação, ou seja, já disponíveis para uso.

Detalhe da estação 180 (Varnhagen)
O Bike Rio surgiu em meados de 2011 apenas na parte turística da cidade, expandindo-se posteriormente para outras localidades da zona sul até alcançar o Centro - que, há cerca de 3 meses, foi contemplado por um número expressivo de novas estações - e o Parque Madureira, a única área isolada desta grande região atendida pelo sistema. Aqui na Tijuca, a estação mais próxima até então era a de número 174, localizada no Largo do Estácio.

Quando falo que o Bike Rio chegou com atraso à Tijuca e arredores deve-se ao fato de que foi precisamente em meados de 2011 e início de 2012 que ganhamos nossas primeiras ciclofaixas nas ruas Barão de Mesquita e Major Ávila, conectadas ao Estádio do Maracanã, além de outras do mesmo porte em Vila Isabel e no Grajaú. Isto é, na mesma época em que o Bike Rio foi implementado na cidade.

O Bike Rio será uma "mão na roda" para o tijucano se deslocar pelo seu bairro; afinal, a Tijuca, por ser extensa, é quase uma mini-cidade dentro do Rio. Isso sem levar em consideração os bairros contíguos como Vila Isabel, Grajaú e Maracanã, tão populosos e densamente ocupados como a Tijuca. É por essa razão que a Grande Tijuca merece um sistema de transporte alternativo como esse, que facilite a locomoção de seus moradores dentro da própria região; no fim de contas, entre essas vizinhanças, as distâncias são pequenas e seus caminhos têm grande rotatividade por a Tijuca ser um grande centro econômico e de serviços na área. 

Muito embora o mapa da estação 180 na Praça Varnhagen assinale que a Tijuca será contemplada com mais duas estações na Praça Xavier de Brito (188) e no Metrô Uruguai (185) - além da estação Maracanã Norte (197), junto ao estádio -, foram licitadas em 2013 um total de 26 estações do Bike Rio entre Tijuca e Vila Isabel, segundo a página Os Ciclanos:

TIJUCA (16 estações)
175 - Metrô Estácio
176 - Rua Dr. Satamini / Rua do Matoso
177 - Largo da Segunda-Feira
178 - Afonso Pena
179 - Colégio Militar
180 - Praça Varnhagen
181 - Heitor Beltrão
182 - Praça Saenz Peña
183 - Shopping Tijuca
184 - Praça São Charbel / EXTRA Maracanã
185 - Metrô Uruguai
186 - SESC Tijuca
187 - Oi Futuro
188 - Praça Xavier de Brito
189 - Praça Pinheiro Guimarães (Hospital da Ordem Terceira)
190 - Largo São Camilo (Usina)

VILA ISABEL/MARACANÃ (10 Estações)
191 - Shopping Iguatemi - rua Barão de São Francisco
192 - Praça Barão de Drummond
193 - Boulevard 28 de Setembro / Rua Souza Franco
194 - UERJ
195 - Maracanã
196 - Maracanã Sul
197 - Maracanã Norte
198 - Estádio Célio de Barros
199 - Praça Niterói
200 - EXTRA Boulevard

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