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14 de jul. de 2015

O dia a dia da Tijuca: boteco, família, escola e pedestres

No Rio de Janeiro dos espetáculos e dos megaeventos, a Tijuca mantém a tradição e se destaca como uma região cuja rotina é basicamente aquela de um bairro na acepção da palavra: famílias frequentando as praças e calçadas, estudantes uniformizados saindo das escolas, os botecos de sempre, que congregam desde beberrões a comensais, o vaivém daqueles que utilizam os transportes de massa, a caminhada matinal sob a luz do sol carioca. Neste ensaio fotográfico, é um pouco do dia a dia tijucano que entra em foco.

Bar na Rua Conde de Bonfim, entre as ruas Dona Delfina e Uruguai (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Bebês se entretêm no parquinho da Praça Xavier de Brito (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Avó e neta, de patinete, na Praça Xavier de Brito (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Não há praia na Tijuca, mas a Saenz Peña quebra um galho (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Rua Campos Sales com Haddock Lobo (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Pausa para as notícias do dia, no Largo da Segunda-Feira (Créditos: Pedro Paulo Bastos)

Alunas do Pedro II passeiam pela Rua Oto de Alencar (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Caminhada matinal pelo alto da Rua Sabóia Lima (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

Tijuca, bairro residencial de uma grande metrópole (Créditos: Pedro Paulo Bastos).

3 de jul. de 2015

Victor Belart, do FAZ NA PRAÇA: "[a Saens Peña] não deveria ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista"

Victor Belart: FAZ NA PRAÇA
As praças da Tijuca têm vivido uma fase de efervescência cultural nunca antes experimentada. Eventos públicos com DJs, arte, debates, cinema, comida entre outras intervenções vêm ocorrendo com cada vez mais frequência na Saens Peña, Praça da Bandeira e Xavier de Brito. Neste último domingo, 28 de junho, por exemplo a inauguração do Cine Xavier exibiu o longa-metragem argentino Medianeras ao ar livre da Praça Xavier de Brito reunindo toda uma geração de jovens e adultos que possivelmente só havia frequentado a praça dos cavalinhos assim, tão integralmente, na infância. Já a Praça Saens Peña comemorou seu 104º aniversário de modo inovador, há cerca de um mês: considerada um lugar de afazeres domésticos e deserto à noite, a praça abrigou um grande concerto público que reuniu no mínimo 500 pessoas de todas as idades que dificilmente estariam por lá em circunstâncias comuns.

Por trás dessas iniciativas que estão incrementando o entretenimento (público) da Tijuca está o coletivo FAZ NA PRAÇA (ou melhor, Fluxo de Articulação de Zona na Praça), formado por um grupo de amigos do bairro engajados em trazer de volta à rotina dos cariocas o hábito de vivenciar as praças como local de interações e desfrute. Nesse grupo, Victor Belart, tijucano, jornalista e produtor cultural de 24 anos, tem se mostrado um notório representante do FAZ NA PRAÇA. Durante a festa da Saens Peña, Belart ganhou aplausos instantâneos após anunciar, no palanque, que a praça “não devia ser o lugar que a gente cruza apenas para ir ao dentista”, evidenciando a proposta e o lema do FAZ NA PRAÇA em tornar esses espaços públicos da região da Tijuca em um grande palco de intervenções coletivas e alternativas ao circuito tradicional de arte e entretenimento.

Aniversário da Praça Saens Peña deste ano: curadoria musical e artística a cargo do FAZ NA PRAÇA.
Créditos: André Valente.

Primeira exibição do Cine Xavier: cinema ao ar livre na Praça dos Cavalinhos.

O passeador tijucano conversou brevemente com Victor sobre a atuação do FAZ NA PRAÇA na Tijuca, além dos planos e novidades para o restante do ano:

De onde surgiu a ideia de fazer o evento em celebração ao 104º aniversário da Praça Saens Peña no último dia 30 de maio, levando em conta que, inicialmente, grande parte dos eventos do FAZ NA PRAÇA estava sendo realizada na Praça dos Cavalinhos?
Victor Belart: Já tínhamos interesse de fazer alguma atividade na Saens Peña, mas o evento do dia 30 não foi iniciativa nossa. A Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) faz todo ano uma atividade na praça comemorando o aniversário dela e esse ano nós fizemos a curadoria musical e divulgação. Mas a iniciativa é originalmente da ACIT e rola ano a ano, agora especificamente para esse último evento, a ACIT teve alguns incentivos da Secretaria de Cultura para pagar certos custos estruturais. Já a Xavier de Brito [Praça dos Cavalinhos] virou uma espécie de laboratório nosso porque tudo começou por lá. Eu e a Tais Barcia fizemos um aniversário na Praça e desse evento a galera que apareceu decidiu se juntar pra fazer mais vezes. Muita gente da Tijuca tem história desde criança com a Xavier de Brito, mas na vida adulta esqueceu o sentido daquele lugar. Aquela praça tem especificamente algumas questões especiais, desde o choque cultural e social das crianças que habitam o espaço ou a própria ideia de já ser uma praça vista como “um fim”. Dificilmente alguém cruza a Xavier de Brito de passagem, todo mundo que está ali vai pra ficar pela própria praça. Esse tipo de Praça, que já tem uma movimentação própria, tem muito a ensinar para todos nós e também por isso pegamos o espaço como “laboratório”.

Qual sua função no FAZ NA PRAÇA? Você é o "líder"?
VB: Na verdade não tem nenhum líder; a ideia do FAZ NA PRAÇA é para ser um movimento orgânico. Na real, no início, era pra ser um movimento tão livre que poderia ocorrer ações do FAZ NA PRAÇA sem que nenhuma das 8 a 10 pessoas que fazem parte desse grupo estivessem envolvidas. Como se o FAZ NA PRAÇA fosse a ideia de fazer indiscriminadamente as coisas em praças, mas acabou que por algumas questões específicas de responsabilidade temos tomado um pouco de cuidado com isso. Se acontecer um FAZ NA PRAÇA sem nós e der algum problema, a responsabilidade recai sobre a gente, então queremos ter um pouco de cautela nesse sentido. Mas em todo caso, o FAZ NA PRAÇA é um grupo não muito rígido quanto à quantidade de pessoas, mas que varia sempre em torno de 8 a 10 e que querem levar atividade e movimento ao ar livre pela nossa cidade.


Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira: moradores mais antigos ainda resistem.
Créditos: Felipe Bauerfeldt (Deu Zebraa).


Vocês pretendem manter uma linha de ocupação de praças apenas na região da Tijuca (vide o Baile da Minha Rua, na Praça da Bandeira), para consolidar a programação cultural do bairro ou a proposta é expandir para outras regiões?
VB: Temos esse carinho especial pela Tijuca porque a maioria de nós é daqui e sabemos da falta de atividades do gênero pela área. Na verdade, o bairro tem melhorado muito nesse sentido também. Surgiram novos espaços de coworking, algumas atividades ao ar livre e até mesmo noturnas, mas o bairro ainda tem essa concepção de ser um “lugar somente para dormir”. A gente acaba vestindo muito essa bandeira tijucana porque crescemos aqui e sentimos a falta de atividades do gênero, mas a ideia do FAZ NA PRAÇA é que por todo o Rio de Janeiro se faça atividade na rua, ou seja, botar propriamente a praça no centro do debate urbano. Sempre falamos que as praças talvez sejam um dos únicos lugares onde a democracia realmente seja levada ao pé da letra.  Além disso, a questão da praça é importante para ampliar nossa ideia de cidade; quando saímos de casa e vivemos somente a nossa própria rotina, tendemos a não ter muita sensibilidade com a realidade do outro. Num evento de rua sempre vai ter um morador de rua e alguém que só frequenta shopping ali naquele mesmo espaço e ambos estarão nesse lugar para estar “além” do seu próprio estereótipo ou da própria rotina. Esse tipo de encontro rola naturalmente é só tende a ser positivo para todos os envolvidos.

Quais os próximos eventos? Novidades? Fiquei sabendo do Cine Xavier. É você quem está coordenando?
VB: Antes de tudo, precisamos terminar de resolver alguns problemas ainda pendentes do aniversário da Saens Peña. Num futuro muito próximo queremos fazer esse cinema na Xavier [a entrevista ocorreu antes da efetivação desse evento, no último dia 28 de junho], mas também nos sugeriram o Grajaú. Também temos a ideia de fazer alguma ocupação na UERJ, que não deixa de ser um espaço público do nosso bairro e que ainda tem uma ideia muito vertical, aquele cinza, aquele prédio gigante. Conhecemos uma galera recentemente que quer tentar fazer com que a UERJ tenha uma ideia mais plana, mais de praça.

22 de mai. de 2015

Praça Xavier de Brito: "Casa-Grande & Senzala"?

Reproduções patriarcais na Praça Xavier de Brito: casa grande e senzala? (Foto: Emerson Guimarães)

Na manhã de hoje, recebi de um amigo o link para o texto "Severino, me ajuda", de autoria da jornalista Pollyanna Brêtas, que escreve para a Le Monde Diplomatique Brasil. No seu relato, em forma de crônica, Pollyana utiliza como pano de fundo a Praça Xavier de Brito, na Muda, para compor a crítica central da sua observação: a reprodução de comportamentos sociais, naquela praça, que aludem à imagem de casa grande e senzala filosofada pelo sociólogo Gilberto Freyre em seu livro homônimo de 1933. Segundo a autora, à sombra de flamboyants, os meninos, todos negros ou mulatos, puxam cavalos para deleite do ‘senhozinho’. A sociedade patriarcal brasileira está ali sintetizada sem que ninguém se dê conta. As crianças dos dois lados são exploradas.
Nesse artigo, a autora elucida os bastidores do fantástico e pueril parque de diversões da Tijuca, que, diante de tantas belezas e atrações tradicionais, como o passeio de charrete, por vezes tende a velar o árduo trabalho de crianças negras e mulatas – em geral, pobres e moradoras de favelas – que, num domingo de sol, quando deveriam estar se divertindo tais quais às crianças “brancas” da classe média na pracinha, por outra perspectiva, também estão lá, mas para servir a estas e a seus pais que contratam o serviço dos corcéis.

Leia o artigo de Pollyanna Brêtas na íntegra: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1878

A sensibilidade de Pollyanna Brêtas não foi única. Em julho de 2013, o internauta Emerson Guimarães publicou uma foto da Praça Xavier de Brito, de sua autoria, na página Lente Tijucana do Facebook com a seguinte legenda: “Xavier de Brito... Alegria e tristeza andam juntos”. Tal imagem, que ilustra a portada deste post, mostra dois adolescentes negros puxando outros dois cavalinhos que transportam, aparentemente, irmãs gêmeas, bem pequenas, e “brancas”. A foto, bastante contemplativa, abre margem para reflexões sobre nossas questões sociais que conjugam consideravelmente com a imagem de casa grande e senzala apontada por Brêtas, na Le Monde Diplomatique Brasil deste mês.

Quem é leitor de O PASSEADOR TIJUCANO sabe bem que a Praça Xavier de Brito é a minha predileta na Tijuca. O lugar, bucólico, cheira à nostalgia, é lindo e ultimamente tem sido ponto de encontro para diferentes lazeres e serviços, como o Faz na Praça e a feirinha orgânica, que acontece todos os sábados. No entanto, a reflexão de Brêtas chega em hora boa como uma inestimável contribuição para todos os frequentadores e moradores dessa belíssima praça: uma vez que não depende exclusivamente de nós mesmos modificar determinadas estruturas sociais, no entanto, pelo menos devemos estar mais atentos à forma como esses meninos são tratados nos dias em que há passeios de cavalo por lá. Mais gentileza e mais educação a eles não são suficientes para “aliviar” suas condições, embora representem o ponto de partida para o estabelecimento de uma relação menos desarmoniosa e menos socialmente hierarquizada.

6 de mai. de 2015

Ode à Praça Xavier de Brito

Ode à Praça Xavier de Brito: poema preso na parede do Bar do Neca chama a atenção
 pela declaração de amor à praça

Domingo passado, andando de bicicleta pela Tijuca, acabei parando no Bar do Neca para tomar um pouco de água e, claro, descansar na Praça Xavier de Brito. Conversa vai, conversa vem, notei, presa à parede do tradicional bar, uma folha de papel escrita à mão: era um poema sobre a formosa e idolatrada Praça dos Cavalinhos. O simpático dono, o Seu Manuel, um português que cuida sozinho do estabelecimento, disse que desconhece o autor destas estrofes, largada ali, em sua bancada, já no longínquo ano de 2007. O passeador tijucano reproduz, então, na íntegra, os sábios (e condizentes) dizeres de O. A. T.:




Praça Xavier de Brito
Recinto espetacular
Aos domingos, crianças, cavalos e cabritos
Ao redor, muita gente a caminhar

Quem aqui vem passear
Sente-se alegre e feliz
Ao ver a água a jorrar
No tradicional chafariz

Vêem-se peixinhos nadando
Ouve-se o cantar da passarada
Em volta cavalos cavalgando
Carregando a criançada

Vêem-se pombinhas andando
Vêem-se plantas em flor
Vêem-se pessoas se exercitando
Comandadas pelo professor

Finais de semana são festivos
Cerveja no copo ou caneca,
É o encontro dos amigos
No tradicional Bar do Neca

Enquanto eu viver
Bem alto teu nome grito
Jamais vou-te esquecer
Ó praça Xavier de Brito

por O. A. T. (2007)

19 de abr. de 2015

Tijuca em preto e branco: cotidiano e paisagens

Rua Conde de Bonfim (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Morro do Salgueiro e Sumaré, com Rua Moura Brito em primeiro plano (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Muda (Foto: Pedro Paulo Bastos)

O Cristo, na perspectiva da Rua Professor Gabizo (Foto: Pedro Paulo Bastos)

O táxi-fusca da Usina (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Granado (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Rua Caruso, a rua do art déco tijucano (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Praça Lamartine Babo (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Remanescente arquitetura da Rua Bom Pastor (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Bate-papo na Saenz Peña (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Haddock x Campos Sales (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Pedalada na Praça dos Cavalinhos (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Praça Saenz Peña (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Rua Conde de Bonfim II (Foto: Pedro Paulo Bastos)

28 de jan. de 2015

Praça Comandante Xavier de Brito (a praça dos Cavalinhos)


Tempos escaldantes, estes últimos, aqui no Rio. O relógio digital marcava 36 graus Celsius nesse sábado que passou. Nem mesmo os belíssimos flamboyants, inertes, que margeiam o Rio Maracanã – aquele rio em que Lima Barreto, certa vez, afirmou ser um rio respeitável e considerável para o desenvolvimento de uma grande metrópole*–, conseguiam dar um pingo de refresco aos pedestres que iam em direção à Praça Xavier de Brito. Popularmente conhecida, aliás, como a Praça dos Cavalinhos, por causa dos tradicionais passeios a cavalo. É aos sábados, domingos e feriados em que a praça recebe mais visitas, especialmente de crianças. A Xavier de Brito é, portanto, uma espécie de parque recreativo da Tijuca, mas com belezas e um refinamento bastante adulto, eu diria.

Em primeiro lugar, há o refino paisagístico da praça: em seu centro, um portentoso chafariz francês que, segundo a lenda, era para ter ficado em alguma praça da França, mas que, no fim de contas, acabou vindo parar aqui, em solo tijucano, por volta dos anos 1960. Feito de bronze, o chafariz tem carrancas, anjinhos e golfinhos ornamentais por onde passam os filetes e o jorro d’água. O espetáculo aquático é medíocre, mas não anula os ares igualmente românticos da praça, envolvida por jardins que, embora não tenham a assinatura de mestres como Glaziou, por outro lado, possuem, sim, algum tipo de charme. Sem mencionar o conjunto de árvores quase centenárias que abraçam esse quarteirão: entre elas os flamboyants, tais quais seus congêneres às margens do Maracanã, e algumas sibipirunas, de flores amarelas e franjas vegetais que engalanam o espaço aéreo da praça.





 O chão de terra batida deve proporcionar às crianças tijucanas a experiência de se estar em uma cidadezinha do interior. É sobre este chão esfarelento onde brincam, correm e sentam à moda antiga, sem aparatos tecnológicos que as divirtam. O teatro de Guignol é uma dessas atrações ditas vintage. Nesse vaivém infantil, alguns pezinhos descalços deixam pegadas sobre a terra, facilmente confundidas com as das patas dos potros que, notoriamente fatigados, circulam no perímetro da praça carregando-as em seus dorsos. Ao final do passeio – que, a pedido do freguês, pode incluir quadras além da Xavier de Brito –, os potros retornam às árvores, onde são amarrados aos cuidados de seus donos que os utilizam como fonte de renda.

Ali, os potros matam a sede em baldes de água – o único bebedouro ao alcance deles – e defecam conforme a necessidade, aos olhos de todos. O cheiro empesteia o ambiente por alguns segundos, causando repulsa nos adultos e ares de curiosidade risonha às crianças. Não à toa que elas se referem à praça como a dos cavalinhos, para o desespero, suponho, do Comandante e Coronel Xavier de Brito. Sabe-se Deus onde possa estar, mas arrisco dizer que, provavelmente, o orgulho militar estaria ferido em ver que o tributo à sua figura, através do nome da praça, é ligeiramente escorchado pelo simpático apelido referente a tais quadrúpedes.

A Praça Xavier de Brito não é muito grande, mas seus espaços são bem arranjados. Em outro lugar completamente distante do imaginário infantil permeado por escorregas, balanços e gangorras, as barraquinhas da feira de produtos orgânicos vão tomando o trecho junto às bordas da Rua Oliveira da Silva. Há, entre seus frequentadores, um certo clima de novidade e de euforia consumista amortecida pela falta do que comprar: aparentemente, grande parte dos produtos foi vendida logo nas duas primeiras horas de feira, para o desespero dos dorminhocos que não chegaram a tempo. Essa lamentação não parece afetar, por outro lado, os senhores jogadores de dominó, carteado e bocha, tradicionais em seus hábitos e alheios às (poucas) novidades que a praça oferece.





Quando a hora do almoço se aproxima, as mesas espalhadas pela calçada atraem comensais para restaurantes como o Rei do Bacalhau e o Bar do Pavão, que, de acordo com a fama, serve a melhor feijoada sabatina do bairro. E logo ali, espremido entre os dois, e vizinho a um pet shop, o Bar do Neca é a opção etílica mais prática da vizinhança. Um digno e respeitoso boteco com jeitão lusitano que mantém intacta a mesma estrutura de anos, décadas atrás. Um letreiro em acrílico contorna as três paredes do local exibindo todas as refeições que possivelmente são (ou já foram, em tempos remotos) vendidas ali: salgadinhos; refrigerantes; vitaminas; toddy; churrasquinho; salsicha recheada; croquete de carne.

Diferindo-se da exaltação do outro lado da calçada, na esquina com a Avenida Maracanã a quietude toma conta da Escola Soares Pereira. A instituição, entretanto, é mais um daqueles primorosos prédios públicos que sofrem com o vandalismo de pichadores. Oriunda dos anos 1920, a escola tem um estilo definido como neocolonial brasileiro, segundo o Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2000), e deverá continuar silenciosa por pelo menos mais algum tempo, até depois do carnaval, quando o ano letivo tiver início. A quietude também embala o Edifício Imola, a poucos metros do educandário, um elegante expoente da arquitetura residencial dos anos 1960 que se gaba de ser o único prédio do entorno que não dispõe de grades ou portões. O mesmo acontece com a casa amarela, a poucos passos do Imola, orgulhosa – aos olhos do pedestre – de ser o único imóvel unifamiliar da praça resistente à especulação imobiliária e à verticalização, por vezes, impositiva.





E é assim que o bucolismo da Praça Xavier de Brito brinda ao bem-estar de seus visitantes com sombra, bancos, atrações lúdicas e até mesmo uma novata estação do Bike Rio, essa das bicicletas laranjas que, a priori, dominavam apenas a orla carioca. Se nenhum dos encantos da praça forem suficientemente capazes de acalmar o espírito do visitante, é bem provável que lhe surja a oportunidade de esbarrar-se com o Renato Sorriso – ele mesmo, o próprio, o gari da Comlurb mundialmente famoso pelas suas habilidades como passista no carnaval e que bate ponto por lá. Vale a pena cumprimentá-lo; diante da simpatia que lhe é de praxe, serão ainda maiores as chances de se ganhar um sorriso seu em troca, tal qual seu apelido. Encontro que, por fim, e seguramente, coroará com diamantes o passeio a esse garboso recanto da Zona Norte carioca.

*Informação obtida na tese de doutorado da jornalista e escritora Luciana Hidalgo (página 152), “Lima Barreto e a literatura da urgência: a escrita do extremo no domínio da loucura”, defendida em 2007 na Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras da Uerj.

** Texto publicado originalmente em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 21 de janeiro de 2015.

29 de set. de 2014

Tradição no ensino primário tijucano: a Escola Soares Pereira

Tradição na educação pública tijucana: a Escola Soares Pereira, inaugurada em 1927 na Muda

Espectadora dos passeios de charrete e do cooper matinal e noturno dos tijucanos ao redor da Praça Comandante Xavier de Brito, a Escola Soares Pereira é uma dessas arquiteturas esplendorosas do nosso bairro capaz de deixar qualquer um encantado com a sua discrição e beleza. O estado de conservação, entretanto, deixa a desejar, especialmente pelas pichações.

Avenida Maracanã 1450, Muda 
Definida pelo Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2000) como pertencente ao estilo neocolonial luso-brasileiro, a Escola Soares Pereira foi construída em 1925, mas inaugurada apenas em 1927. Maria do Nascimento Soares Pereira, a matriarca da família cujo sobrenome batizou o colégio, doou o então recém-inaugurado imóvel ao Distrito Federal sob duas condições: que fosse sempre mantida a sua função educacional primária e o seu nome de "batismo".

Em 1988, a Soares Pereira passou por uma série de dificuldades por ser local de abrigo das mais de 400 famílias do Morro da Formiga que ficaram sem suas casas após a enchente que assolou a cidade em fevereiro daquele ano. Muitos dizem que os anos letivos de 1988 e 1989 foram os mais irregulares de sua história, já que a ocupação da população afetada no interior da escola interferiu bastante no cronograma das aulas.

Tombada pelo decreto 19.342 de 27 de set. 2000, não se sabe se a Escola Soares Pereira é aberta à visitação. De todo modo, vale a pena contemplá-la mesmo estando do lado de fora, pois emana ares de cidade do interior junto à típica e calorosa energia das escolas primárias. Fica na Avenida Maracanã 1450.

7 de set. de 2014

Revitalização da Praça Xavier de Brito

Chafariz francês da Praça Xavier de Brito passou por revitalização nesta primeira semana de setembro

Na última semana, a Praça Comandante Xavier de Brito - vulgo "Praça dos Cavalinhos" - foi contemplada pelo projeto "Valorizando o Patrimônio" através da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos. Um dos pontos centrais da intervenção foram os reparos técnicos efetuados no seu suntuoso chafariz, que, muitos não devem saber, embora produzido na França e destinado originalmente a uma praça europeia, acabou vindo parar aqui no Brasil para servir de fonte.

A sua chegada à Praça Xavier de Brito, no entanto, se deu apenas nos anos 1960, para o deleite dos tijucanos. Todo feito de bronze, esse chafariz dispõe de carrancas, anjinhos e golfinhos ornamentais por onde passam os filetes e o jorro d'água. Por outro lado, há tempos que esse "espetáculo aquático" se mantinha irregular. Muitos canais de saída estavam aparentemente entupidos, o que comprometia o funcionamento geral do chafariz.

No vídeo abaixo, registrado na sexta-feira 5 de setembro, filmei a atuação da Prefeitura no local e o simpático jorro d'água do chafariz funcionando em perfeitas condições:



Além disso, o jardim que margeia a bacia d'água do chafariz também foi revitalizado. Segundo o blog da Região Administrativa da Tijuca, foram plantadas mais de 900 mudas no seu entorno, número, à primeira vista, consideravelmente alto para um jardim tão diminuto. De todo modo, a Tijuca agradece a atenção dispensada. A Praça Xavier de Brito é linda mesmo e fica ainda mais esplêndida quando recebe esses tipos de zelo.
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