Tempos escaldantes, estes últimos, aqui no Rio. O relógio digital
marcava 36 graus Celsius nesse sábado que passou. Nem mesmo os
belíssimos flamboyants, inertes, que margeiam o Rio Maracanã – aquele
rio em que Lima Barreto, certa vez, afirmou ser um rio respeitável e
considerável para o desenvolvimento de uma grande metrópole*–,
conseguiam dar um pingo de refresco aos pedestres que iam em direção à
Praça Xavier de Brito. Popularmente conhecida, aliás, como a Praça dos
Cavalinhos, por causa dos tradicionais passeios a cavalo. É aos sábados,
domingos e feriados em que a praça recebe mais visitas, especialmente de
crianças. A Xavier de Brito é, portanto, uma espécie de parque
recreativo da Tijuca, mas com belezas e um refinamento bastante adulto,
eu diria.
Em primeiro lugar, há o refino paisagístico da praça: em seu centro,
um portentoso chafariz francês que, segundo a lenda, era para ter ficado
em alguma praça da França, mas que, no fim de contas, acabou vindo parar
aqui, em solo tijucano,
por volta dos anos 1960. Feito de bronze, o chafariz tem carrancas,
anjinhos e golfinhos ornamentais por onde passam os filetes e o jorro
d’água. O espetáculo aquático é medíocre, mas não anula os ares
igualmente românticos da praça, envolvida por jardins que, embora não
tenham a assinatura de mestres como Glaziou, por outro lado, possuem,
sim, algum tipo de charme. Sem mencionar o conjunto de árvores quase
centenárias que abraçam esse quarteirão: entre elas os flamboyants, tais
quais seus congêneres às margens do Maracanã, e algumas sibipirunas, de
flores amarelas e franjas vegetais que engalanam o espaço aéreo da
praça.




O chão de terra batida deve proporcionar às crianças tijucanas a
experiência de se estar em uma cidadezinha do interior. É sobre este
chão esfarelento onde brincam, correm e sentam à moda antiga, sem
aparatos tecnológicos que as divirtam. O teatro de Guignol é uma dessas
atrações ditas
vintage. Nesse vaivém infantil, alguns pezinhos
descalços deixam pegadas sobre a terra, facilmente confundidas com as das
patas dos potros que, notoriamente fatigados, circulam no perímetro da
praça carregando-as em seus dorsos. Ao final do passeio – que, a pedido
do freguês, pode incluir quadras além da Xavier de Brito –, os potros
retornam às árvores, onde são amarrados aos cuidados de seus donos que os
utilizam como fonte de renda.
Ali, os potros matam a sede em baldes de água – o único bebedouro ao
alcance deles – e defecam conforme a necessidade, aos olhos de todos. O
cheiro empesteia o ambiente por alguns segundos, causando repulsa nos
adultos e ares de curiosidade risonha às crianças. Não à toa que elas se
referem à praça como a dos cavalinhos, para o desespero, suponho, do Comandante e Coronel Xavier de Brito. Sabe-se Deus onde possa estar, mas arrisco dizer que, provavelmente, o orgulho militar estaria ferido em ver que o tributo à sua figura, através do nome da praça, é ligeiramente
escorchado pelo simpático apelido referente a tais quadrúpedes.
A Praça Xavier de Brito não é muito grande, mas seus espaços são bem
arranjados. Em outro lugar completamente distante do imaginário infantil
permeado por escorregas, balanços e gangorras, as barraquinhas da feira
de produtos orgânicos vão tomando o trecho junto às bordas da Rua
Oliveira da Silva. Há, entre seus frequentadores, um certo clima de
novidade e de euforia consumista amortecida pela falta do que comprar:
aparentemente, grande parte dos produtos foi vendida logo nas duas
primeiras horas de feira, para o desespero dos dorminhocos que não
chegaram a tempo. Essa lamentação não parece afetar, por outro lado, os
senhores jogadores de dominó, carteado e bocha, tradicionais em seus
hábitos e alheios às (poucas) novidades que a praça oferece.



Quando a hora do almoço se aproxima, as mesas espalhadas pela calçada
atraem comensais para restaurantes como o Rei do Bacalhau e o Bar do
Pavão, que, de acordo com a fama, serve a melhor feijoada sabatina do
bairro. E logo ali, espremido entre os dois, e vizinho a um
pet shop,
o Bar do Neca é a opção etílica mais prática da vizinhança. Um digno e
respeitoso boteco com jeitão lusitano que mantém intacta a mesma
estrutura de anos, décadas atrás. Um letreiro em acrílico contorna as
três paredes do local exibindo todas as refeições que possivelmente são
(ou já foram, em tempos remotos) vendidas ali: salgadinhos;
refrigerantes; vitaminas;
toddy; churrasquinho; salsicha recheada;
croquete de carne.
Diferindo-se da exaltação do outro lado da calçada, na esquina com a
Avenida Maracanã a quietude toma conta da Escola Soares Pereira. A
instituição, entretanto, é mais um daqueles primorosos prédios públicos
que sofrem com o vandalismo de pichadores. Oriunda dos anos 1920, a
escola tem um estilo definido como neocolonial brasileiro, segundo o
Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro
(Casa da Palavra, 2000), e deverá continuar silenciosa por pelo menos
mais algum tempo, até depois do carnaval, quando o ano letivo tiver
início. A quietude também embala o Edifício Imola, a poucos metros do
educandário, um elegante expoente da arquitetura residencial dos anos
1960 que se gaba de ser o único prédio do entorno que não dispõe de
grades ou portões. O mesmo acontece com a casa amarela, a poucos passos
do Imola, orgulhosa – aos olhos do pedestre – de ser o único
imóvel unifamiliar da praça resistente à especulação imobiliária e à
verticalização, por vezes, impositiva.
E é assim que o bucolismo da Praça Xavier de Brito brinda ao
bem-estar de seus visitantes com sombra, bancos, atrações lúdicas e até
mesmo uma novata estação do Bike Rio, essa das bicicletas laranjas que,
a priori,
dominavam apenas a orla carioca. Se nenhum dos encantos
da praça forem suficientemente capazes de acalmar o espírito do
visitante, é bem provável que lhe surja a oportunidade de esbarrar-se
com o Renato Sorriso – ele mesmo, o próprio, o gari da Comlurb
mundialmente famoso pelas suas habilidades como passista no carnaval e
que bate ponto por lá. Vale a pena cumprimentá-lo; diante da simpatia
que lhe é de praxe, serão ainda maiores as chances de se ganhar um
sorriso seu em troca, tal qual seu apelido. Encontro que, por fim, e seguramente,
coroará com diamantes o passeio a esse garboso recanto da Zona Norte
carioca.
*Informação obtida na tese de doutorado da jornalista e escritora Luciana Hidalgo
(página 152), “Lima Barreto e a literatura da urgência: a escrita do
extremo no domínio da loucura”, defendida em 2007 na Coordenação dos
Cursos de Pós-Graduação em Letras da Uerj.
** Texto publicado originalmente em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 21 de janeiro de 2015.