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3 de out. de 2015

Tijuca anda de metrô, aprova e aplaude o Presidente: impressões do dia 27 de maio de 1982

Estação Saens Peña do metrô, em 1982: inauguração com euforia, festa e aplausos ao Presidente militar.

A euforia e a comoção tomaram conta da Tijuca no remoto dia 27 de maio de 1982, quando o metrô finalmente era inaugurado no bairro após sete anos de obras caóticas. Na época, o Jornal do Brasil fez uma cobertura completíssima contando em detalhes sobre a grande festa que se evidenciou no bairro naquela ocasião. O trecho Estácio-Tijuca, conformado pelas estações Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saens Peña, foi entregue durante a gestão do Governador Chagas Freitas e inaugurado pelo então Presidente João Batista Figueiredo, que veio direto de Brasília para a festa de abertura.

Na Praça Saenz Peña, foi instalado um palanque onde o Presidente, o último do regime militar, discursou emocionado sobre seus tempos de juventude na Tijuca. Embora criado em São Cristóvão, Figueiredo anunciou a todos ter sido aluno do Colégio Militar e frequentador do Cine América, tendo, inclusive, contraído matrimônio com uma tijucana, dona Dulce, falecida em 2011. O Jornal do Brasil publicou o discurso na íntegra, como vocês poderão ler mais abaixo. Na edição do O Globo do mesmo dia, conta-se que após a solenidade, o Presidente Figueiredo aproveitou a estada na Tijuca para visitar um antigo amigo de seu pai em sua residência na Rua Martins Pena.

Um dos pontos altos desta extensa reportagem se refere às impressões dos tijucanos a respeito da chegada do metrô. Reflexo, talvez, do conservadorismo tão peculiar impresso à figura dos moradores da Tijuca, os repórteres relatam que muitos preferiram tomar o ônibus naquela quinta-feira de outono alegando “insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que o metrô não funcionasse tão bem quanto se falava”. Já aqueles que experimentaram andar de metrô logo no seu primeiro dia de funcionamento na Tijuca, foram retratados pelo JB como pessoas nada cosmopolitas – vide o caso de uma mulher que, ao ouvir o apito que antecedia o fechamento das portas, soltou um berro, tropeçando ao entrar no trem e causando rebuliço.

O entusiasmo das “donas de casa” da Tijuca se misturou ao dos estudantes e de outros espectadores do evento, que entoaram gritos de “Mengo, Mengo” e também do America Football Club. A festa contou também com balões, gente trepada no telhado e nas marquises, a presença de toda a classe política da época e do Cardeal Eugênio Sales, que benzeu a estátua de São Francisco Xavier na estação homônima. Na Praça Saenz Peña, cartazes agradeciam pelo término das obras, enquanto os moradores do Andaraí, “sempre esquecido” (segundo a faixa produzida por eles), reivindicava a integração do bairro com o metrô. Enquanto isso, o Governador Chagas Freitas informava que após a conclusão do trecho Inhaúma-Pavuna, da Linha 2, o Estado começaria a pensar "concretamente" sobre a conexão da Tijuca com o Leblon através do anel metroviário.

No meio de toda essa confraternização, o Jornal do Brasil traçava o perfil de Chico Alencar, o jovem presidente da extinta Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra), destacando-o como líder promissor e muito querido na Tijuca. Chico, hoje deputado federal pelo PSOL, afirmava residir na Rua Henrique Fleiuss, e no momento de inauguração do metrô já havia lançado o livro “A História da Sociedade Brasileira” (Editora Ao Livro Técnico). Em depoimento aos repórteres do JB, na contramão do puxa-saquismo dos moradores diante das autoridades políticas presentes na Saenz Peña, Chico alegou que os operários do metrô estavam segregados do público e que deveriam ser mencionados como forma de agradecimento a eles pelo trabalho prestado.

Na estação de Botafogo, antigo terminal da Linha 1, o letreiro indicava a Praça Saenz Peña como destino.

Jornal do Brasil, pp. 4-5, 28/05/1982.
Tijuca anda de metrô e aprova
Por Bruno Thys, Gloria O. Castro, Luiz Fernando Gomes, Paula Motta, Samuel Wainer Filho e Sandra Chaves
- Você viu só? – queixou-se uma senhora bem vestida ao saltar na estação Saens-Peña ontem às 18h05m, voltando do Centro. “Tive de empurrar aquele homem que estava parado na porta, segurando em cima, como se estivesse no trem da Central”, dizia ela para uma amiga. Na hora do rush de volta da cidade, o metro não chegou à Tijuca superlotado. Teve movimento regular para o primeiro dia de operações, que começou às 14h30min.

- Muita gente não deve ter usado o metro com medo de que estivesse supercheio – disse Sueli Farias, tijucana “desde antes de o metro esburacar a Praça Saens-Peña”. Ela e sua colega de trabalho, Lola Henriques, tomaram o metrô na estação Presidente Vargas – trabalham no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, na Presidente Vargas – e voltaram para casa depois do expediente, economizando Cr$ 15. A passagem de ônibus é Cr$ 40, e a volta de metrô custou Cr$ 25.

A economia, porém, Lola acredita que vá diminuir com um possível aumento que ela teme que seja anunciado em breve: “As passagens devem aumentar sim, porque com essas novas estações funcionando, eles vão precisar de mais dinheiro”.

Manuel Eduardo da Silva, que trabalha na Rua México, nem pensou duas vezes para tomar o metrô na Cinelândia na volta à casa. “É bem mais rápido”, disse, “quando decidi voltar de metrô não levei em conta a economia que faria, e sim a comodidade do transporte mais eficiente”.

A comodidade, o conforto, a novidade de um meio de transporte que oferece velocidade, ar condicionado, pontualidade e que já cobre uma extensão que vai da Zona Sul (Botafogo) à Zona Norte (Tijuca) levaram muitas pessoas a utilizar o metrô.

Uma viagem de metrô da estação Botafogo à Saens-Peña demora, em média, 23 minutos. Quando não há paradas mais demoradas, a viagem pode durar 21 minutos, como a feita ontem, saindo às 17h45m de Botafogo e desembarcando na Saens-Peña às 18h06m.

O maior fluxo de passageiros continua sendo da cidade em direção à Estação da Central do Brasil, quando o trem quase se esvazia, permitindo às pessoas que seguem, encontrar lugares vagos nas poucas cadeiras.
Ônibus continua cheio porque o novo assusta

Três motivos principais levam as pessoas a enfrentar um ônibus lotado, tráfego e uma viagem de quase 1 hora, quando poderiam se utilizar do metrô: insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que não funcione tão bem quanto se fala.

Foram estas as razões principais dos viajantes no ônibus da linha 409 (Jardim Botânico-Praça Saenz Peña) que saiu às 18h do ponto próximo à estação do metrô de Botafogo e chegou ao seu ponto final na Praça Gabriel Soares, um pouco depois da estação da Saenz Peña, às 18h50min, com o número de passageiros habitual.

Justificativas

Muito sorridente, enormes brincos de ouro e unhas pintadas de vermelho. Maria Aparecida Gomes, de 37 anos, trabalha como manicure particular na Zona Sul e mora na Conde de Bonfim. Achando muita graça em suas próprias palavras, explica as razões de não ter usado o metrô:

- O Presidente inaugurou hoje né? Eu não peguei o trem porque não estou acostumada e não quero fazer feio. Um dia desses, quando eu não estiver muito apressada, vou dar um pulinho na estação só para ver como funciona. Com coisa nova eu não nego a minha raça. Faço como os matutos do interior. Primeiro dou uma sapeada e depois então eu uso como se andasse sempre.

A maioria dos passageiros não se deu conta de que a inauguração das estações da Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saenz Peña, havia sido ontem. A cobradora do ônibus, Eunice da Conceição Pinto, disse que o movimento se mantinha igual aos dias anteriores.
Alguns, como o auxiliar de filmes e da TV Globo, Antônio Luís Santos, não usam o metrô “por causa da baldeação”. Ele justifica sua opção pelo ônibus alegando que “é o mesmo preço do metrô e assim eu só pego duas conduções. Se eu usasse o trem teria de pegar três conduções”.

Falando com a autoridade “de quem conhece seu ofício”, a cobradora Eunice sentencia: “Depois que o povo se acostumar com o metrô eu vou ter menos trabalho”.

“Um benefício estupendo”

Dona Gioconda Prado Seixas, moradora da Praça da Bandeira, “em cima do Bemge”, assistiu à solenidade de inauguração do metrô na Tijuca; foi em casa almoçou; tomou banho; trocou de roupas e voltou a tempo de pegar o primeiro trem que saiu da estação Saenz Peña. D. Vera Adelaide, que afirmou ter gostado muito “da autobiografia do Presidente”, também fez a mesma coisa. José Gomes Soares, advogado, que mora na Rua Almirante Cochrane, ao contrário das duas senhoras que usaram o metrô para passear, tomou o primeiro trem para a cidade porque trabalha no Centro. A ida do metrô até a Tijuca foi considerada, por todos, “um benefício estupendo”, como disse José Gomes Soares.

O funcionamento comercial das estações Saenz Peña, São Francisco Xavier e Afonso Pena começou às 14h30min. Para impedir o acesso das pessoas antes do horário, foram colocadas cordas de nylon grossas. Funcionários do setor de Operação vigiavam para que ninguém ultrapassasse a barreira. Na hora da liberação, o aviso dos funcionários para que o povo tivesse calma, não corresse. Tudo correu sem problemas.

O primeiro susto

O grupo de garotos do Colégio Municipal Euclides de Figueiredo (em homenagem ao pai do Presidente João Figueiredo) formado por Roberto 11 anos, Rodrigo, 11, Carlos, 13, Marcelo Alves, 12, Marcelo Henriques, 14, Marcelo Siqueira, 11, e Marcelo Queirós, 11, teve um pouco de dificuldade para passar no torniquete (queriam passar todos ao mesmo tempo e o torniquete só gira para uma pessoa de cada vez). Estavam excitados com a primeira viagem que fariam sozinhos no metrô: “Estamos achando um barato”, afirmou Marcelo Siqueira.

O trem partiu. Quando parou na estação São Francisco Xavier, ouviu-se um grito apavorado de mulher. Muita gente correu para fora do trem. Funcionários surgiram. O trem ficou parado alguns minutos. Mas a mulher apenas se assustara com o apito que antecede o fechamento das portas e tropeçou ao entrar no trem, caindo já dentro do vagão. O trem seguiu viagem.

O primeiro dia de funcionamento do metrô na Tijuca teve até palhaço no trem. Se Sacode, que faz promoção de lojas comerciais e alegra festas infantis, aproveitou a primeira viagem para distribuir os folhetos da loja de roupas para bebês que está divulgando atualmente. “Fazer rir é coisa muito séria”, disse, “ser palhaço é muito triste”, completou.
Ligação com o Leblon será o próximo projeto

Até setembro, as linhas do pré-Metrô deverão chegar a Inhaúma e depois à Pavuna. A informação é do Governador Chagas Freitas, que anunciou:

- Aí, poderemos pensar concretamente na ligação Tijuca-Leblon, através da Rua Uruguai, passando pelo maciço da Tijuca.

O presidente do Metrô, Carlos Teóphilo, muito festejado pela mudança de filosofia de arquitetura das estações do Metrô – optou por acabamento simplificado, ao invés do imponente mármore das primeiras estações – informou que o último acesso da Rua General Roca será entregue no próximo mês.

Teóphilo afirmou que para a melhoria de conforto, no Metrô, faltam apenas alguns trens, que deverão começar a ser entregue em setembro. Isso evitará os constantes problemas de superlotação no transporte.

Tijuca recebe metrô com balões e gente nos telhados

Havia gente nas janelas, sobre os telhados e nas marquisas. Alguns com binóculos. Balões coloridos de gás subiram ao céu, libertos das mãos de colegiais que cercavam o palanque com bandeirolas verdes-amarelas. Uma banda tocou Pra Frente Brasil e o Presidente Figueiredo, emocionado, falou de improviso – fora do programa. Estava oficialmente inaugurado o trecho Estácio-Tijuca da linha 1 do metrô.

A festa contou com a presença de políticos do PDS e do PMDB, mas não foi reivindicada por nenhum Partido. “A festa é do povo”, repetiam os deputados, opinião compartilhada pelo Governador Chagas Freitas. Foram sete anos de espera e de muitos transtornos, que modificaram a vida dos moradores. Fato lembrado, com pedidos de desculpas, em todos os discursos. Terminada a solenidade, a nova Praça Saenz Peña voltou a ser dos velhos, crianças, babás, pipoqueiros. Como antigamente.

Expectativa

A Praça Afonso Pena – primeira etapa do programa oficial – desde cedo foi tomada por centenas de populares que disputavam, aos empurrões, o melhor lugar para ver e cumprimentar o Presidente. Um dos donos da festa e anfitrião, o presidente do metrô, Carlos Teóphilo, foi o primeiro a chegar. Na calçada, recebia os convidados e apresentava a praça reurbanizada com árvores e bancos de concreto.

O horário marcado – 9h30min – foi respeitado pela maioria, mas muitos preferiram chegar mais cedo. Foi o caso do Cardeal Eugenio Sales, do Governador Chagas Freitas (acompanhado de vários secretários), do ex-ministro Eliseu Resende e de seu sucessor no Ministério dos Transportes, Cloraldino Severo, do presidente da Caixa Econômica Federal, Gil Macieira, além das autoridades militares da região.

Enquanto aguardavam o Presidente Figueiredo, permaneceram conversando em pequenos grupos, principalmente sobre política partidária. A indefinição da candidatura do PDS ao Governo Estadual foi tema muito abordado. Uma das rodas mais animadas reunia o Governador Chagas Freitas, o presidente da FAMERJ, Jô Resende, e representantes da Associação de Moradores da Tijuca.

O clima foi quebrado pelo nervosismo e ansiedade dos seguranças da Presidência da República, que momentos antes da chegada de Figueiredo afastavam aos empurrões e gritos quem estivesse no caminho a ser percorrido pela comitiva.

O Presidente, ao contrário – sorridente, apesar de uma visível irritação nos olhos –, chegou cumprimentando a todos, e não se furtou a autografar qualquer papel que lhe fosse oferecido. Acompanhado dos Ministros Leitão de Abreu e Danilo Venturini, Figueiredo foi conduzido para o interior da estação, onde ouviu explicações técnicas de Carlos Teóphilo e descerrou uma placa comemorativa.

Uma composição com seis carros – prefixo 100 – levou todos para a estação São Francisco Xavier, onde chegou às 10h30min – um minuto depois do embarque. Em rápida cerimônia (menos de 5 minutos). D. Eugênio Sales benzeu a imagem de São Francisco que ficará exposta na plataforma da estação, onde foi descerrada outra placa. A sirene apitou, novo embarque. Dois minutos depois, a Praça Saenz Peña.

Festa

Houve a determinação, por parte da segurança, de que todos os convidados e a imprensa saíssem da composição antes da comitiva presidencial. Figueiredo permaneceu no trem, conversando animadamente com Adhir Veloso (Secretário Estadual de Transportes), o Governador Chagas Freitas e o Cardeal Eugênio Sales. Depois, saiu pela plataforma direita, apoiando-se no corrimão, ainda com cheiro de tinta fresca.

No palanque armado à saída da estação, um locutor, pomposamente, narrava cada passo do presidente. Houve ligeiro tumulto quando Figueiredo se aproximou dos populares, que queriam abraça-lo e tocar sua mão. Fazia calor, mas o Presidente trajava terno cinza com colete. Colegiais acenavam suas bandeirolas, enquanto moradores aplaudiam das janelas. Uma revoada de balões de gás marcou o início da solenidade.

O primeiro a discursar foi o Ministro Cloraldino Severo, que com sua voz fina e nervosa não conseguiu atrair a atenção dos presentes: enquanto falava, Figueiredo e Chagas conversavam e atendiam aos que se aproximavam. Foi um discurso longo, técnico e abrangendo outras realizações de sua área.

Depois, foi a vez do Governador do Estado. Chagas Freitas recebeu um princípio de vaia, no início do discurso formal, previamente redigido. Só quando resolveu partir para um improviso, agradecendo aos operários e técnicos do Metrô, e desculpando-se pelos transtornos causados pela obra, conseguiu reverter o clima do público, que, neste instante, passou a aplaudir intensamente.

O locutor anunciou o fim da solenidade, quando populares pediram uma palavra do Presidente que já se preparava para deixar o palanque. Foi um discurso de improviso, bem-humorado e com muita emoção. Figueiredo lembrou dos tempos em que viveu na Tijuca, conheceu Dona Dulce, e das sessões vespertinas do cinema América, quando “vinha buscar uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse”.

Foi muito aplaudido e só recebeu vaias quando reafirmou sua condição de tricolor – mesmo contra a vontade do sogro (americano) e da família predominantemente americana. Não chegou a falar no Flamengo, apesar dos gritos “Mengo, Mengo”, vindos do povo. Eram 11h quando Figueiredo saiu em direção à Gávea Pequena.

Figueiredo recorda infância na Tijuca

“Caros tijucanos. Voltar ou estar no Rio de Janeiro, minha terra natal, terra natal de meu pai e de quatro de meus irmãos. Terra onde iniciei minha meninice no bairro de São Cristóvão. E onde a Tijuca me acolheu aos 12 anos, no Colégio Militar, e me protegeu, até 1963, quando o meu pai morreu e deixou de vir à Praça Saens Peña (...). Cada vez que venho ao Rio recordo as passagens da minha meninice, da minha juventude e de meus dois primeiros filhos. Agradeço a Deus, que veio me fazer também carioca.

Ao voltar à Tijuca, são tantas as recordações, sempre boas, da torcida que fazia contra o América, time da minha família. O América que me deu a minha mulher. Que sempre perdia para o Fluminense, que acabou vencendo o meu coração. Recordo também dos passeios pelas praças Afonso Pena e Saens Peña, das batalhas de confete nas ruas do bairro, das peladas de futebol contra o time do Salgueiro. E como era difícil ganhar deles. E das festas juninas, em cada casa, para festejar meu santo padroeiro, São João.

Confesso que ao desembarcar na Praça Afonso Pena e vir até a Saens Peña, passando em São Francisco Xavier (onde o trem maria-fumaça me deixava aos sábados, vindo de Realengo, para poder ver meus pais, meus irmãos e minha namorada), senti a emoção do menino de 18 anos. Senti o calor da torcida do América, reclamando da minha condição de tricolor, e a voz do meu sogro pedindo para que, se eu casasse com a filha dele, eu passasse para o América. E, ao mesmo tempo, a voz do meu pai, para ser Vasco.

São tantas as recordações que tive e tal foi o carinho com que o povo me recebeu, que insisto em não pensar nos dias de amargura que tive ao acompanhar os trabalhos do metrô ao longo de todos estes anos, que tantos sofrimentos trouxeram à gente do bairro. Anos morosos, porque não dispunha o Governo de recursos que possibilitassem um prazo mais curto para esta obra interminável.

A minha palavra, portanto, hoje, para todos vocês, são dois muito obrigado: o primeiro, pela compreensão por estes anos de sofrimento e de rebuliços que o metrô foi obrigado a causar a vocês. O segundo obrigado, pela recepção carinhosa que me deram, fazendo-me voltar novamente aos meus tempos de aluno do Colégio Militar, em eu vinha buscar nas sessões vespertinas do Cine América uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse. Muito obrigado”.


Praça virou festa e comércio deu brinde

Um brinde para cada cliente em qualquer compra. Só hoje, dia 27. Inauguração do metrô. O cartaz, à porta da Drogaria Venâncio, garantia um vidro de modelador de cabelos aos fregueses e retratava o espírito de festa que invadiu a Praça Saenz Peña já nas primeiras horas da manhã. O metrô contribuiu, espalhando bandeiras brancas, bolas coloridas e um imenso balão que anunciava a chegada do transporte subterrâneo e as transformações sofridas pela Saenz Peña.

Foi um dia fora do normal. Até pouco antes da chegada do Presidente, garis e operários davam os últimos retoques no calçamento de pedras portuguesas. Para entregar a estação na hora marcada, os trabalhos viraram a madrugada, mas houve uma recompensa. Segundo o operário Francisco das Chagas, servente de 24 anos, “é bom a gente ver uma coisa feita pela gente, pronta, e inaugurada pelo Presidente”.

Faixas, havia muitas. “Bem-vindo Presidente Figueiredo”, “Os Tijucanos agradecem ao Governador Chagas Freitas” e “Andaraí sempre esquecido reivindicou integração” – um protesto, quase isolado, pela não inclusão do bairro nas linhas de integração. Apesar do rígido esquema de segurança, muita gente conseguiu furar o bloqueio imposto pelos guardas e se aproximar do palanque.

Muitos seguravam bandeirolas também nas janelas dos prédios onde boa parte dos tijucanos assistiu a cerimônia de inauguração do metrô. Nas ruas, os guardas de trânsito, condescendentes, permitiam tráfego na contramão e até mesmo estacionamento em áreas não permitidas.

Em um canto próximo ao palanque, um grupo de alunos e professores da Associação dos Pais e Amigos de Excepcionais (APAE) comparecia para exigir do Presidente Figueiredo o cumprimento da promessa feita na inauguração da Caixa Econômica Federal para ajudar nas despesas de Cr$ 10 milhões (gasto mensal da entidade). Portavam cartazes em que diziam que Excepcional também é brasileiro e cobravam: O Metrô veio de Botafogo para a Tijuca: e a nossa verba?

Durante a solenidade, além da carta com o pedido da APAE, Figueiredo recebeu outros documentos das associações de moradores e da menina Manoela Pinho de Azevedo Souza, que pediu pela proteção da natureza. Manoela, 12 anos, demonstrou bastante organização: levou várias cópias xerox para distribuir à imprensa. Já Maria da Glória Mendes, 58anos, entregou uma carta que preferiu não divulgar. Chorando muito, disse que era assunto particular. “Essa é a quinta vez que faço isso. E ainda não fui atendida”.

“Chico” usa terno escuro

Um dos personagens mais festejados, ontem, foi o presidente da Amoapra (Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña), Francisco Alencar. Por onde passava, era cumprimentado e abraçado pelos moradores do bairro, que agradeciam a luta da associação em favor da transformação dos terrenos remanescentes do Metrô em áreas de lazer. “Fomos a população que mais sofreu com as obras, durante sete anos” – respondia Chico Alencar, como é conhecido.

Foi a primeira vez em que a Federação das Associações de Moradores recebeu convite para uma solenidade oficial de inauguração. Segundo Jô Resende, “é um reconhecimento ao trabalho que desenvolvemos e que hoje representa uma grande parcela de esforço da população no sentido de conquistar soluções para as nossas próprias necessidades”. Apenas a Amoapra conta com cerca de 100 mil pessoas na sua área de atuação.

Francisco de Alencar – vestido com um terno escuro, pouco comum às lideranças de bairro, “mas imposto pelas necessidades” – lembrou que um abaixo-assinado foi entregue há algum tempo ao Governo do Estado, no sentido de uma rápida conclusão das obras do metrô, com a devolução dos terrenos à comunidade.

- Foi uma vitória do povo, sobretudo pelo direito que adquirimos de acompanhar o destino de nossas áreas de lazer. Em São Paulo, por exemplo, isto não foi feito e os terrenos acabaram vendidos.

Chico lembrou ainda que a reurbanização da praça Saens Peña foi uma vitória dos moradores que a reconquistaram como queriam, modificando o projeto original, “uma forma muito árida, semelhante ao calçadão da Cinelândia”. Por sugestão da Amoapra, foram, ao contrário, plantadas mais árvores, colocados bancos com encosto e o lago foi reconstruído.

- Entretanto, a comunidade vai continuar fiscalizando para que tudo funcione bem – concluiu.

Em uma carta aberta ao Presidente Figueiredo, a FAMERJ e 12 associações de moradores afirmaram que “essa inauguração compensa em parte os seis anos de transtornos e a descaracterização urbana dos bairros, mas não elimina os graves problemas da condução coletiva do Grande Rio, já que a linha 1 serve apenas a uma população que não tem tantas dificuldades quanto a de outras regiões mais carentes”.

E acrescenta ainda a carta que “a maior transformação vivida pela Tijuca não está no progresso material que o metrô traz, nem na piora da qualidade de vida, mas num fato novo, positivo e que vai aos poucos, como semente, fecundando toda a sociedade: as associações de bairro que necessitam ser ouvidas para o progresso e desenvolvimento do país”, concluiu.

Embora aparente menos de 25 anos, Francisco de Alencar Filho – O Chico, presidente da Associação de Moradores da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra) – tem 32 anos de vida e de Tijuca, sempre na mesma rua, Henrique Fleiuss. Profissionalmente é tão bem sucedido quanto na presidência de sua associação: é professor da rede pública e particular (colégios São Vicente de Paulo, Santo Inácio e Eliezer Stemberg) e autor do livro A História da Sociedade Brasileira, com Marcus Vinícius e Lucia Carpi, que desde o lançamento em 79 já vendeu mais de 80 mil exemplares. Casado com Ângela, professora de Português, é pai de Emanuel, de seis meses.

Ontem foi um dia muito especial na vida do tijucano e historiador Chico de Alencar, que “acordou” para a participação comunitária em 1966, com a juventude estudantil católica. “Enquanto o palanque estava lotadíssimo de autoridades, no outro extremo da praça os operários assistiam a tudo em cima dos respiradouros. Eles também deveriam ser mencionados”. Neste momento, o historiador é mais forte e ele recorda a abertura de seu livro: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis...” (Bertold Brecht).

3 de fev. de 2015

Relatos de uma Tijuca irritada com o Metrô, a violência e a perda de tranquilidade

A construção da Linha Quatro do metrô carioca, que ligou a Zona Sul à Barra da Tijuca, tirou o sono de muitos moradores de São Conrado, Leblon e Ipanema. As interdições, os tapumes e o consequente prejuízo ao comércio, aliados à insegurança e o temor aos desmoronamentos de prédios, temperam os argumentos que resistiram e reclamaram contra o metrô naquela ilustre parte da cidade. Entretanto, nos anos 1970, a Tijuca também foi assunto de inúmeras manchetes sobre a chegada do metrô à Zona Norte, alvo de antipatia quase unânime entre os tijucanos naquela época. O bairro, até então bucólico e tranquilo, foi convertido em um grande canteiro de obras e acometido por elementos pouco comuns ao cotidiano daquele momento: assaltos, poeira, engarrafamentos, caos. A Tijuca, tão orgulhosa de suas tradições, se via confrontada com a chegada de um progresso que, se hoje a põe no rol dos bairros com melhor infraestrutura de mobilidade do Rio, nos anos 1970, porém, era visto como filme de terror.

Diante dos transtornos vivenciados pelos moradores em 1977, o Jornal O Globo publicou uma extensa reportagem contendo relatos de residentes e comerciantes sobre a insatisfação de se viver na Tijuca junto à construção do metrô. Muito mais do que depoimentos que ilustravam a precariedade das obras metroviárias na cidade (como ocorre até hoje, quatro décadas passadas), esta matéria, assinada por Heloisa Daddario, é um grande documento sobre a história moderna da Tijuca, mas especialmente sobre a identidade do tijucano dos anos 1970, que apresenta justificativas nada cerimoniosas sobre os seus dissabores bairristas.

Nota-se que esses depoimentos ilustram notoriamente a posição da Tijuca na escala hierárquica imaginária dos bairros. A chegada de ex-moradores do subúrbio que ascenderam socialmente à Tijuca, por exemplo, é vista como motivo de desprazer a uma das entrevistadas, que baseia tal fato na ideia de que isto fez a Tijuca "mudar". O gerente da extinta Casa Olga, por sua vez, aponta que "o bairro de classe média onde todos se conheciam, onde todos se cumprimentavam" foi a pique diante de tanta violência nas ruas. Já uma moradora do Alto da Boa Vista confessa sentir vergonha de falar que mora na Tijuca, embora, contraditoriamente, garante que a Tijuca continuava sendo "o bairro da fina flor carioca". Cabe mencionar também o certo ultraje dos tijucanos em relação à Copacabana, bairro considerado caótico e nada atrativo por muitos dos nossos conterrâneos. Percebe-se um claro desdém ao que era o maior símbolo do Rio de Janeiro naquela época, Copacabana e seu status, algo desprezado por uma Tijuca convicta e orgulhosa de seus próprios valores.

Jornal da Família, O Globo, pp. 1-2, 20 nov. 1977. 
Tijuca: de repente, a vida virou um canteiro só
Por Rose Esquenazi, Aurora Vasconcelos, Cláudia Boechat, Marlene Tavares e Heloisa Daddario (texto final). Fotos: Anibal Philot
Em matéria de qualidade de vida, a Tijuca já foi um padrão carioca. Se São Cristóvão, por abrigar a residência do Imperador, era considerado o ponto elegante da cidade, a Tijuca sobressaía pelo esplendor de sua vegetação, seu clima ameno e seu ar puro, a eleita da aristocracia. Chamberlain, cronista inglês que por aqui andou a essa época, refere-se a ela como a “Sintra Brasileira”. Na Tijuca, localizavam-se os melhores (na verdade, poucos) hotéis da Corte. Em suas luxuosas residências, chácaras e sítios eram realizados elegantes saraus, como o recital do pianista norte-americano Gotschalk, autor da famosa “Fantasia” sobre o Hino Nacional Brasileiro. Grande entusiasta da Tijuca foi a imperatriz Leopoldina, que aí coletava orquídeas para suas estufas no Paço. Historiadores e visitantes – como os missionários Kidder e Fletcher –, aristocratas, artistas e intelectuais, sem esquecer Tiradentes e José de Alencar, fartaram-se de enaltecer as virtudes e as excelências do lugar, sob todos os títulos o mais saudável e tranquilo da Corte. 
O chão e a paz golpeados por homens e máquinas
Ao lado dos transtornos causados pelas obras do metrô – congestionamentos de trânsito, poeira, barulho, perigo de acidentes -, a violência ocupa lugar de destaque entre as preocupações do tijucano, que se queixa principalmente de assaltos e agressões. Queixa que o administrador regional atribui à irritação dos moradores, mas que a polícia considera válida ao admitir um aumento da criminalidade nos últimos meses. 
I parte - Queixas: muito perigo na rua
— As obras do Metrô e a pouca iluminação são um convite para os marginais e assaltantes. Esta semana um doente mental quebrou a vitrine daqui da loja. Há pouco tempo, a mesma pessoa quebrou a vitrine de outra loja e deu com um paralelepípedo na cabeça de um mendigo. Um outro doente mental quebrou o braço de um senhor que caminhava pela Conde de Bonfim. Não adianta pedir providências porque eles prendem e soltam os doentes no dia seguinte. O Pinel diz que não tem ambulância, a Polícia Militar diz que louco não é problema dela. As moças daqui da loja vivem apavoradas.
— As vendas caíram de 30 a 40 por cento depois da chegada do Metrô. Os que trabalham à base de comissão foram os mais prejudicados. Os fregueses mais antigos é que garantem um pouco, mas a maioria das nossas freguesas antigas já está se mudando para a zona sul ou para a Muda. Moro na Tijuca há 22 anos e trabalho nessa loja o mesmo tempo. A Tijuca era um bairro de classe média onde todos se conheciam, se cumprimentavam. Antigamente, o vizinho dava bom-dia, boa tarde e boa noite. Hoje ninguém se conhece. Antigamente a gente se reunia nas portas dos edifícios para conversar. Hoje há o medo de sair de noite e quem pára para conversar está arriscado a ser assaltado. Moro na rua Barão de Itapagipe, rua movimentada e com um barulho insuportável de freadas e buzinas. Não existe mais aquela comunidade, aquele papo gostoso (Fernando Fernandes Branco, gerente da Casa Olga, filial Tijuca). 
— A Tijuca mudou muito. Ficou mais comercial e mais movimentada. Mas está muito violenta, a gente vive em sobressalto, dá até medo de andar na rua porque os assaltos ocorrem a qualquer hora. Assaltos praticados por pivetes são inúmeros. Depois do metrô ficou pior, isto aqui está até parecendo faroeste. Antigamente era muito tranquilo e agradável, podia-se andar na rua até tarde da noite sem nenhum problema. Agora é preciso muito cuidado, a qualquer hora do dia.
— O barulho e o movimento aqui no Largo da Usina são atordoantes. Nas sextas-feiras à noite é um movimento de carros e uma barulhada que vai até às 3 da madrugada. Muitas vezes as reuniões antes dos pegas são aqui no Largo e aí é um inferno. O trânsito também fica muito pesado nos fins de semana por causa do caminho da Barra. Sábado e domingo de manhã é apito de guarda, buzina, uma loucura. E também há muito movimento nas noites de calor. 
— No setor de diversões, a Tijuca ainda é muito precária. Estão acabando com todos os cinemas. Já foi o Metro, o Olinda e agora já estão falando que o Rio vai acabar também. Às vezes é preciso esperar semanas para ver um filme que estreia na Zona Sul, e muitas vezes eles nem chegam até aqui. Teatros só existem dois, mas mesmo assim o do Sesc inaugurou há pouquíssimo tempo. Restaurantes existem, alguns bons, mas o que tem mais é lanchonete. Apesar disso, gosto muito da Tijuca e para mudar para a Zona Sul só indo para o Leblon, que talvez ainda seja um pouco parecido com o que era a Tijuca antigamente (Dona Elza, moradora da Tijuca desde 1949 e na Usina há três anos).
    Com dez cinemas, 17 clubes, 15 restaurantes, três escolas de samba, 41 clínicas, ambulatórios e socorros urgentes, dez hospitais e casas de saúde, 15 igrejas católicas, nove templos protestantes, dez casas espíritas e três de outros cultos, a Tijuca não dispõe, entretanto, de uma infraestrutura de serviços, comércio e lazer suficiente para atender aos moradores do bairro e à população que se desloca do Méier, Grajaú, Engenho de Dentro, Vila Isabel à procura de serviços, diversão e comércio.
    Com a maior área verde da cidade – a Floresta da Tijuca – e inúmeros pontos turísticos, a Tijuca ainda conservava, até alguns anos atrás, em ruas silenciosas e arborizadas, o ar aristocrático, remanescente dos condes, barões e viscondes franceses que integravam a Missão Artística, convidada por d. João VI. Utilizando-se de um único caminho, chamado pelo povo de “Quebra-Cangalhas”, os franceses procuraram a floresta, entre eles os Taunay, os Escragnolle e os Beaurepaire, cuja fixação na floresta acabou por se consolidar com o casamento de seus descendentes e a ocupação de outras regiões. 
    Frequentada pela nobreza e pela imperatriz Leopoldina, que por ali passeava à procura de orquídeas raras, a Floresta da Tijuca hoje é um dos locais mais procurados pela população da zona norte e subúrbios, nos fins de semana. A Estrada das Furnas, no Alto da Boa Vista, aos sábados e domingos está permanentemente engarrafada. Mas os congestionamentos já se tornaram uma constante na vida do tijucano. Para Adilson Lopes, da Assessoria de Comunicação Social do Detran, o trânsito do Rio de Janeiro está cada dia mais complicado, principalmente na Tijuca. 
    — O Metrô tem causado problemas e tumulto mas no futuro contribuirá para diminuir o número de veículos que trafegam diariamente pela cidade. Com o Metrô, o Detran foi obrigado a mexer em todo o trânsito da área. Mas o grande problema da Tijuca é que existe uma saturação das vias existentes. Desta maneira, todas as artérias estão sendo utilizadas em sua capacidade máxima. Para solucionar os problemas de engarrafamento seria necessário abrirmos novas ruas, mas isto é quase impossível, por ser uma região montanhosa. Nós proibimos o estacionamento em algumas ruas e acabamos com alguns retornos para que o tráfego possa fluir mais rapidamente. Nos fins de semana pretendemos desviar o tráfego para a Estrada das Furnas, que foi sinalizada e receberá o fluxo de veículos que se desloca para a Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes.
    — Nos fins de semana – diz um morador – é praticamente impossível sair de casa. Se o trânsito já é infernal por causa do Metrô, aos sábados e domingos ele se transforma em uma verdadeira loucura coletiva. Todo mundo quer ir à praia ou passear na Floresta. Os engarrafamentos irritam os motoristas, os automóveis se chocam, surgem as brigas. Leva-se horas até a praia, debaixo do maior calor.

II Parte – Obra: do sonho ao pesadelo
    Há um ano e meio, quando o Detran anunciava as alterações do tráfego, o clima era de festa na Tijuca. Na praça Saens Peña, uma exposição e refrigerantes para os estudantes marcaram o início das obras. Com a interdição da rua Conde de Bonfim, começaram a aparecer as bicicletas, os skates e os times de futebol. E em cada uma das seis esquinas da Conde de Bonfim interditadas pelo Detran, jovens e crianças auxiliavam os guardas na colocação de cavaletes, liberando a passagem apenas para os moradores.
    Mas a festa durou pouco. Com a interdição das ruas Heitor Beltrão e Doutor Satamini – juntamente com a Conde de Bonfim, principais vias de acesso do bairro, com o regime de mão dupla em outras 20 ruas, de mão única em duas, invertidas em 13 e alternados os itinerários de 34 linhas de ônibus, o tráfego ficou seriamente prejudicado. 
    Em um bairro pelo qual circulam diariamente 1.754 ônibus, distribuídos por 56 linhas – das quais somente 26 na praça Saens Peña, as alterações do tráfego, como não poderia deixar de ser, acabaram por afetar totalmente a vida de seus moradores. Mas o congestionamento do tráfego é apenas um dos aspectos da grande mudança ocorrida na Tijuca após o metrô. 
    Já no início, o então Secretário de Transportes, Josef Barata, previa a espécie de pesadelo que os tijucanos seriam obrigados a enfrentar:
    — Não se trata de falar de antes ou do depois – dizia ele – mas do presente, do agora, do barulho, do engarrafamento, das demolições, da perda de tempo e paciência. 
    E tudo isto de fato ocorreu. Hoje, o tijucano tem uma opinião dividida em relação ao Metrô. Ele acredita na melhoria do tráfego em um futuro que deseja o mais próximo possível, mas não se contém diante dos transtornos e reclama: da poeira, do barulho, do tráfego, da dificuldade de ir às compras, da perda da tranquilidade. Os moradores da Usina, por exemplo, enfrentam também um grave problema de condução. Os 408 ônibus que trafegavam pela rua Andrade Neves foram reduzidos para 205. Os que moravam em ruas tranquilas e exclusivamente residenciais passaram a conviver com buzinas, carros estacionados nas calçadas, pontos de ônibus e o tráfego pesado durante as madrugadas.
    — Mas nós temos uma boa notícia para os moradores do bairro. Antes do fim do ano serão liberadas as calçadas da rua Pinto de Figueiredo até a Almirante Cochrane, e o tijucano poderá andar mais livremente para fazer suas compras.
    — A previsão das obras era de 30 meses, mas parece que vai se estender bastante. Logo no início houve uma queda das vendas muito grande mas aos poucos o público foi se acostumando e aceitando as obras. Muitos comerciantes, cerca de 30, perderam definitivamente seus estabelecimentos. Outros estão se aguentando sem fazer grandes negócios – diz o presidente da Associação Comercial. — Eu mesmo sou sócio de um estabelecimento comercial que está sofrendo o problema da entrega. Várias firmas se recusam a entregar mercadorias, pois já não podem estacionar os caminhões. 
    Para os moradores, a pergunta é uma só: até quando durará o pesadelo? Leandro Petronilho Gomes afirma que há um prazo previsto, que deverá ser cumprido “caso tudo corra bem”. Mas os transtornos causados pelas obras não se limitam à praça Saens Peña nem dependem exclusivamente do Metrô. A Light e a Companhia de Gás também abrem buracos por todo o bairro para a melhoria dos serviços. Grandes edifícios estendem seus tapumes pelas calçadas. E desta forma o bairro residencial e arborizado está cheio de operários, barracas de lona, montes de terra, pedras, poeira, fios e tabuletas com pedidos de desculpas pelo transtorno: “Estamos trabalhando para o seu bem estar”.
    Se a justificativa pode parecer uma provocação para o tijucano, este não perde totalmente o bom humor e já apelidou a praça Saens Peña de “Praça Faz Pena”; a Conde de Bonfim virou “rua do Fim do Conde”. 
    Apesar do tumulto, do risco de andar pelo meio da rua, do calor, das desapropriações, da poeira e do barulho, a vida do bairro continua. Se não há espaço, todos se apertam um pouquinho para dar passagem ao carrinho de bebê. Se há lama, capricha-se no pulo para não sujar os saltos do sapato. Se a praça acabou, o fotógrafo aproveita os tapumes como “estúdio”. E há ainda quem goste de toda a confusão:
    — Moro há 20 anos no bairro e acho que o progresso não afetou em nada a vida do bairro. O crescimento só trouxe benefícios e a Tijuca se tornou um centro e tanto. Acho tudo muito positivo. O Metrô no futuro será muito bom. É a evolução dos tempos — diz Armando Augusto, diretor da Casa dos Poveiros, um dos vários clubes portugueses existentes na Tijuca. 
    São os comerciantes, entretanto, os que mais reclamam da situação. A praça Saens Peña, que reunia o comércio elegante do bairro, as lanchonetes e sorveterias, cinemas, pontos de ônibus e grandes lojas está transformada em um único e imenso canteiro de obras. E com a destruição da praça, o tijucano perdeu um ponto de referência importante para a vida do bairro. 
    — É preciso que o tijucano saiba que será beneficiado por uma nova avenida de acesso, que partirá da Haddock Lobo – justifica-se o vice-presidente da Companhia do Metropolitano, professor Barroso. 
    Os moradores reclamam do barulho e da poeira, mas o vice-presidente do Metrô pede compreensão e anuncia novas medidas.
    — Em relação ao barulho, é preciso que entendem que a concretagem, uma vez iniciada, não pode ser interrompida, por causa da segurança dos prédios, principalmente os mais antigos. O barulho deve melhorar e o Metrô tem tido muito cuidado com a segurança dos moradores. 
    — Os problemas aqui são mais diversos, começando pelo Metrô – diz Holmes Vieira Martins, presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca. — Estamos esperando que sejam construídas as passarelas diante das lojas da rua Conde de Bonfim, atualmente em estado precário. Constantemente as pessoas caem, se machucam, quebram os saltos dos sapatos e rasgam a roupa.
    Diante dos incidentes, o diretor de Engenharia Leandro Petronilho Gomes também pede compreensão. Ele diz que a Companhia já iniciou os estudos para um convênio com a Comlurb, o que contribuirá para diminuir a sujeira e a poeira provocadas pelas obras.

III Parte – Lembranças: um bairro de paz
— Quando me perguntavam onde morava, respondia de boca cheia: na Tijuca. Hoje a gente diz baixinho, morrendo de vergonha, para ninguém ouvir. Moro aqui há 41 anos. Isso já foi Tijuca. Hoje são tantos os problemas... o barulho é infernal e ninguém respeita horário. O pessoal do metrô chega a trabalhar até 11 e 30 da noite. A condução está um caos. A gente já pega os ônibus lotados na praça Saens Peña. Ir ao cinema à noite é querer arriscar a vida. Os pungistas atacam a qualquer hora, na rua ou dentro da loja. Temos que andar com a bolsa agarrada no peito. Isso aqui era uma tranquilidade, ninguém se preocupava, parecia uma cidade do interior. Todos se conheciam. A Tijuca foi destruída, estamos largados (Wilma S., moradora na Avenida Edson Passos). 
    A Tijuca dos velhos casarões e ruas arborizadas, de famílias aristocráticas e muita tranquilidade, de vizinhos que conversavam nas calçadas e de passeios pela praça Saens Peña não existe mais. E hoje esta imagem do bairro é apenas uma lembrança para os moradores mais apaixonados, que apesar de todas as mudanças fazem questão de afirmar:
    — É o bairro da fina flor carioca. 
    O crescimento urbano afetou a vida da Tijuca e o bairrismo de seus moradores. Primeiro foram os túneis – Santa Bárbara e Rebouças -, estabelecendo uma ligação mais do que geográfica entre a zona norte e a zona sul. Com Rebouças, principalmente, descobriu-se que morar na Tijuca era um privilégio. Bairro residencial, comércio próspero e a 15 minutos de Ipanema e Leblon. Edifícios substituíram os velhos casarões, a população cresceu, e o bairro foi perdendo suas características.
    — A Tijuca era uma grande fazenda, uma província – diz uma moradora. — Antes todos se conheciam, agora parece até Copacabana. 
    O comércio ficou mais caro, os aluguéis subiram, o número de carros aumentou e foram surgindo os mesmos problemas que gradativamente afetaram a qualidade de vida no Rio de Janeiro: poluição visual e sonora, tráfego engarrafado, obras, aumento da criminalidade, falta de estacionamento, transportes coletivos insuficientes. O início das obras do metrô afetou definitivamente a tranquilidade do tijucano. Para uma população de cerca de 250 mil pessoas, com uma das rendas per capita mais altas da cidade, os constantes engarrafamentos, a poeira, o barulho, a inversão de mão nas ruas, a diminuição das linhas de ônibus e a dificuldade de andar sobre buracos e tapumes foram decisivos para que a Tijuca perdesse todas as características de bairro residencial. 
    — Sempre morei na Tijuca, até 1972, quando casei. E nunca pensei em continuar morando lá. A Tijuca se transformou muito. Hoje verifico que quando era menina o poder aquisitivo dos moradores era alto, sem nenhuma diferença para a zona sul. Hoje existe uma invasão do pessoal do subúrbio, que ascendeu um pouco economicamente e que tem como objetivo na vida morar na Tijuca. Não moro mais lá mas meus pais continuam morando.
    — A Tijuca de hoje não tem nada a ver com a Tijuca em que morei. Ela era arborizada, hoje não existem mais árvores, está tudo árido. Era um bairro tranquilo, hoje é uma violência só. Adquiriu todos os defeitos de um bairro de grande cidade sem ter mudado de mentalidade, que ficou atrasada. Basta dizer que no edifício de minha mãe ainda existe a preocupação do “o que é que os vizinhos vão dizer...” (Ana Lúcia Boiteux, 23 anos, moradora do Jardim Botânico). 
    — Acho a Tijuca um bairro maravilhoso. Moro na Barão de Mesquita, perto do quartel, e por isto não posso me queixar de segurança. As obras do metrô não afetam a minha área mas não resto do bairro os problemas são constantes. A Tijuca tem sofrido muitas transformações e piorou em certos aspectos — aumento do barulho, obras, trânsito engarrafado. Uma coisa que tem melhorado é o comércio. Está aumentando, novas lojas estão sendo inauguradas. Não é mais preciso ir à zona sul para fazer compras. O comércio local satisfaz plenamente. 
    — O que acho muito deficiente é o setor de diversões e lazer (Ila, 28 anos, moradora da Tijuca há cinco, antiga moradora do Engenho de Dentro).

IV Parte – Labirintos da criminalidade
    
Nos últimos meses, os assaltos têm sido constantes. As lojas fecham cedo, ninguém ficava conversando na porta de casa, todos andam assustados quando começa a escurecer. A violência está aumentando na Tijuca, a ponto de a rua dos Araújos, por exemplo, onde os assaltos ocorrem a todo instante, ser definida desta maneira por um morador:
    — Quem disser que nunca foi assaltado aqui, ou se mudou ontem ou está mentindo.
    O administrador regional do bairro, Luiz Gonzaga Abreu Jorge, entretanto, não concorda:
    — Não acho que esteja havendo muito assalto. A população anda irritada por causa do metrô e qualquer assalto – coisa menor em qualquer bairro – se torna um problema aqui.
    Segundo as estatísticas da Polícia Militar, o 6º Batalhão, que atende à região da Tijuca, Andaraí, Vila Isabel e Maracanã, registrou 427 ocorrências no mês de agosto, 411 em setembro e 548 em outubro. Essas ocorrências vão desde os acidentes de trânsito com ou sem vítima, às agressões, arrombamentos, assaltos, condução de presos e doentes mentais e as chamadas “ocorrências diversas”. Se estes dados forem comparados com os obtidos no 14º Batalhão, que atende à região onde a criminalidade atinge os maiores índices – é a área que vai da Leopoldina à Avenida Brasil -, chega-se à conclusão de que a Tijuca não é só um bairro irritado com as obras do metrô, como pretende o administrador regional.  
   No mês de agosto, a região da Leopoldina e Avenida Brasil registrou 742 ocorrências; em setembro, 788, e em outubro, 884. Comparando os índices com Copacabana, por exemplo, onde os assaltos, furtos e agressões são constantes, percebe-se que a violência na Tijuca aumenta dia a dia. Em agosto, o 19º Batalhão, de Copacabana, registrou 536 ocorrências; em setembro, 481, e em outubro, 648.
    O chefe de Relações Públicas da Polícia Militar, coronel Delamare, acha que a violência existe na cidade, pois a população vive um clima de insatisfação e agressão generalizada:
    — Ninguém respeita os direitos do outro, faz-se o que quer a hora que se tem vontade, qualquer coisa gera agressão. O sujeito sai da praia e atira areia no carro do outro. O que tem moto resolve fazer barulho debaixo da janela de madrugada. Qualquer batida de carro se transforma em briga. 
    Quanto à violência na Tijuca, o coronel Delamare cita os seis morros existentes no bairro – Borel, Liberdade, Formiga, Turano, Macaco e Salgueiro – como responsáveis, em parte, pelo número de assaltos. E os tapumes do metrô:
    — O morro antigamente era tranquilo. Havia poucos marginais, e quando estes eram presos tudo ficava em paz. Hoje o morro é uma insatisfação só. Além disso, os tapumes, buracos e labirintos causados pelas obras do Metrô são um convite aos marginais, que se utilizam deles para praticar os assaltos e se esconder. 
    Mesmo pagando um preço muito elevado pelo progresso, e apesar da perda momentânea da tranquilidade, todos esperam pelo tempo melhor que virá.
   

15 de out. de 2014

Heitor Beltrão, o surgimento de uma polêmica avenida no coração da Tijuca

"Seja benvindo à Tijuca": monumento do Rotary Club inaugura a Avenida Heitor Beltrão, aberta
em 1982. Ao fundo, o Teatro Ziembinski, que chegou à avenida apenas em 1988.

A geração atual de tijucanos e amigos do bairro provavelmente ignora esse fato, mas a Avenida Heitor Beltrão, correspondente ao trecho entre o Largo São Maron e a Rua Pareto, foi inaugurada em 1982 graças à chegada do metrô na Tijuca. Prevista pelo plano de arruamento original do bairro, a Heitor Beltrão foi designada para escoar mais fluidamente o trânsito do Centro para a Praça Saens Peña, servindo, da mesma maneira, como parte do traçado subterrâneo dos trilhos pertencentes à Linha 1 do metrô. Até então, todo o trânsito da Tijuca para o Centro (e vice-versa) se restringia ao eixo Conde de Bonfim-Haddock Lobo, que trafegava em sentido duplo, e à Rua Almirante Cochrane, que trazia o fluxo de veículos advindo da Praça da Bandeira.

Vista do antigo Mercado São Lucas (O Globo, 09 out. 1976)
O projeto da “nova” Heitor Beltrão consistia na construção de uma praça junto à Igreja de São Francisco Xavier acompanhada de uma via para carros que rasgaria transversalmente ruas como Alzira Brandão, Marquês de Valença, Carmela Dutra, Visconde de Figueiredo, Conselheiro Zenha e Pareto, até chegar aos arredores da Saens Peña. Muitos imóveis foram demolidos na época, como grande parte daqueles situados no lado ímpar da Rua Almirante Cochrane (paralela à Heitor Beltrão), além do extinto Mercado São Lucas, cujo espaço abriga atualmente o camelódromo e uma agência dos Correios.

Segundo o livro "Tijuca - História dos Bairros/Memória Urbana", publicado pelo Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR/UFRJ (1984), a abertura da Avenida Heitor Beltrão deixou os moradores do bairro encantados com a vista livre que o pedestre passou a ter do Maciço da Tijuca naquela área. No entanto, a avenida foi inaugurada com grandes vazios ao longo do seu percurso; não havia prédio algum projetado para a Heitor Beltrão, somente a visão das empenas de edifícios situados em ruas vizinhas. Urbanisticamente falando, era uma avenida "moderna", porém feia.

Esse fato foi protestado pelas associações de moradores em atividade na época, como a Amoapra (Associação de Moradores da Praça Saens Peña), que exigia a implantação de áreas de lazer nesses terrenos, que eram antigos canteiros de obra. O deputado federal Chico Alencar, presidente da Amoapra na ocasião, encabeçou o movimento que solicitava a criação do “Parque da Tijuca” às margens da Heitor Beltrão. Tal parque consistiria na colocação de playgrounds, ciclovias, anfiteatros, áreas verdes e quadras desportivas nos moldes do Aterro do Flamengo. Em contrapartida, Jorge Washington Montillo, presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) em 1982, defendia que a melhor opção para a nova via tijucana seria vender seus terrenos à iniciativa privada com a condição de que fossem criados espaços comunitários nos pilotis.

Antes e depois das obras da Avenida Heitor Beltrão, junto à Rua São Francisco Xavier *

Como vocês podem perceber, os próprios tijucanos não chegavam a um consenso sobre essa questão. Mesmo assim, o governador Chagas Freitas ratificou o decreto 5627 em 1983 garantindo para aquela área a criação exclusiva de parques, praças e quadras conforme a pressão e o desejo da maioria das associações de moradores. Entretanto, durante o governo de Leonel Brizola, esse decreto acabou sendo contrariado a favor da construção do Centro Integrado de Educação Pública Samuel Wainer (Ciep) num estreito terreno entre a Heitor Beltrão e a Almirante Cochrane em frente à Rua Conselheiro Zenha. Inaugurado em agosto de 1986, a chegada desse Ciep à referida avenida irou muitos moradores, que definiam tal decisão de Brizola como “autoritária” e desnecessária, pois a Tijuca já dispunha de muitas escolas primárias (vide O Globo-Tijuca, 29 set. 1986, p. 7).

Por outro lado, foi nesse mesmo ano quando a Avenida Heitor Beltrão começou a ganhar suas primeiras feições culturais, pois além da criação de um parque em toda sua extensão, havia a ideia também de se criar um corredor cultural por ali. Neste sentido, o Centro Cultural da Tijuca, sede do Sindicato dos Escritores, foi inaugurado na esquina da Rua Conselheiro Zenha em setembro de 1986. Pouco tempo depois, o local passou a ser chamado oficialmente de Casa de Cultura Lima Barreto. As atividades literárias e culturais desse centro cultural foram bastante efervescentes durante seu primeiro decênio de existência, com muitos cursos, exposições e oficinas. Além disso, havia inclusive um projeto de que fosse criado nas suas dependências um anexo destinado ao Museu da Tijuca, que apresentaria a história, fotografia e objetos referentes à cultura e tradição tijucana.

Em meados de 1988, o Teatro Ziembinski chegou à Heitor Beltrão, nas vizinhanças da estação São Francisco Xavier do metrô. Capitaneado pelo ator e diretor Walmor Chagas, o Ziembinski (vulgo Zimba) tinha a proposta inovadora de abrigar, além do teatro, uma escola para atores. Sem dúvidas, seu grande desafio foi trazer uma programação qualificada à Tijuca que fizesse com que os moradores e frequentadores do bairro não precisassem se deslocar tanto para a zona sul em busca de boas obras teatrais.

E assim a Avenida Heitor Beltrão foi se adaptando à malha viária da cidade e ao cotidiano tijucano. Entretanto, quem acha que as polêmicas envolvendo essa via acabaram por aí, está redondamente enganado. Por décadas, a Heitor Beltrão foi nome de 4 (quatro!) ruas diferentes na Tijuca, graças ao projeto de arruamento do bairro que previa a unificação desses trechos jamais executada. Discorrerei sobre esse tópico na próxima publicação. Por fim, em outra e breve oportunidade, farei uma análise da evolução urbana da Heitor Beltrão até os dias de hoje. Nem preciso adiantar que entre os tijucanos é unânime a opinião de que a Heitor Beltrão é o maior símbolo de decadência do bairro, condição que se estende igualmente a muitas de suas ruas adjacentes.

*Fonte: CARDOSO, Elizabeth Dezouzart; VAZ, Lilian Fessler; ALBERNAZ, Maria Paula; et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984. 

16 de set. de 2014

A história do túnel entre a Rua Uruguai e o bairro da Gávea

O urbanista grego Constantino Doxiadis foi o fundamentador do Túnel da Rua Uruguai (Fonte: Arquivo O Globo, 1965)

Se você perguntar para algum morador do Jardim Botânico ou da Gávea se ele conhece a história do Túnel da Rua Uruguai, que conectaria a Tijuca a esse trecho da Zona Sul em instantes, muitos balançarão negativamente a cabeça. Outros vão até mesmo perguntar "onde fica essa tal de Rua Uruguai?!". Por outro lado, basta papear com qualquer tijucano típico, daqueles bem bairristas, que ele começará a falar entusiasticamente sobre esse projeto nos mínimos detalhes. Ao mesmo tempo, com um certo ar de lamentação, vai suspirar pelo fato do dito-cujo até hoje não ter saído do papel.

O chamado túnel da Rua Uruguai remete à gestão do governador Carlos Lacerda, nos anos de 1960, que contratou a equipe do urbanista grego Constantino Doxiadis para reformular toda a estrutura rodoviária da cidade. O Plano Doxiadis, como ficou conhecido, sugeriu a criação de seis vias expressas que integrariam grande parte da malha viária "guanabarense", todas estas batizadas com nomes de cores: Vermelha, Azul, Marrom, Verde, Amarela e Lilás. As linhas Vermelha e Amarela, como bem se sabe, foram implementadas nos anos de 1990. As outras não tiveram a mesma sorte ou foram executadas apenas parcialmente.

É o caso da Linha Verde, que prometia ligar a Rodovia Presidente Dutra à Gávea, "rasgando" uma grande parte do subúrbio carioca, até chegar à Vila Isabel e Tijuca e, por fim, à Gávea, através do Túnel da Rua Uruguai. É interessante notar que alguns trechos da Linha Verde ganharam forma e hoje fazem parte da malha viária da cidade. Um exemplo é a Avenida Pastor Martin Luther King (antiga Automóvel Clube) e o Túnel Noel Rosa, logradouros que fariam parte do traçado da Linha Verde.

Apesar disso, o verdadeiro filé mignon da Linha Verde, que seria esse túnel entre a Tijuca e a Gávea, parece não ter tido força econômica suficiente para ser efetivado. Há muitas hipóteses para isso: a mais lógica delas é que o Estado, naquele momento, não tinha dinheiro suficiente para criar um eixo viário de tal magnitude. Em primeiro lugar, porque o Túnel Rebouças, aberto ao lado da Tijuca em 1967, tomou muito tempo de obras e de verbas. Em segundo lugar, porque o Túnel da Rua Uruguai requereria a desapropriação de imóveis nas duas vertentes mais valorizadas da montanha: Jardim Botânico e Gávea, na sul, e o alto da Rua Uruguai, na norte, sendo este trecho considerado até hoje o mais nobre da Tijuca.

Mesmo sendo uma obra custosa, colossal, mas inteligente do ponto de vista geográfico, a integração da Tijuca com a Zona Sul também era motivada por uma necessidade de se encurtar as distâncias entre os dois espaços concentradores de alta renda do Rio em meados do século XX. Vale lembrar que intervenções segregacionistas costumam ser muito comuns entre áreas socioeconomicamente distintas (vide a remoção das favelas na Zona Sul por Lacerda), embora perceba-se, em contrapartida, que intervenções "integracionistas", isto é, entre regiões com grande concentração de renda, eram - e ainda costumam ser - de muito interesse, ocorrendo sempre que possível. Neste sentido, a construção de um túnel interligando a Tijuca à Gávea tinha motivações especialmente políticas, as mesmas que forçaram a integração da Barra da Tijuca à Zona Sul via metrô. Um outro exemplo rápido e ilustrativo a esse argumento, no passado, foi a junção da Grande Tijuca à Zona Sul no mapa funcional do Plano Diretor do Rio de Janeiro, que a definiu como um único território de planejamento (Área de Planejamento 2).

No início dos anos de 1980, o Governo do Estado desengavetou o projeto do Túnel da Rua Uruguai, mas transformando-o num túnel metroviário. Com a inauguração das estações tijucanas do metrô em 1982, a ideia era levá-lo da Praça Saenz Peña até a Rua Uruguai e, de lá, à Praça Antero de Quental, no Leblon. A estação da Rua Uruguai seria construída no espaço do então Colégio Batista Brasileiro, hoje ocupado pela Universidade Cândido Mendes, na Muda.

Segundo reportagem de O Globo de 22 de junho de 1982, intitulada  "Tome o metrô na Tijuca e vá tomar um chopinho no Leblon", o repórter Dênis de Moraes afirma que essa expansão daria forma ao "eixo básico" do metrô; no caso, a ligação em reta entre as duas regiões geograficamente muito próximas, mas separadas por uma montanha. Mesmo prevendo poucas desapropriações por ser um túnel subterrâneo - o que supostamente tornaria as obras mais baratas -, a Companhia Metropolitana tinha uma dívida externa que girava em torno de US$ 1 bilhão, o que possivelmente dificultaria a execução do projeto. A promessa era de que em 1985 o Leblon já tivesse uma conexão direta com a Tijuca e vice-versa.

Uma década depois, o túnel metroviário voltou a ser pauta do governo, mas com outro enfoque: a ligação não apenas da Tijuca com a Gávea, mas igualmente daquela com a Barra. A proposta, cuja defesa teve início em 1995 pela Câmara Comunitária da Barra, tinha o nome de "Barra Metrô 2000". Desta vez, não estava prevista uma passagem pelo Leblon, mas sim pelo Jardim Oceânico, São Conrado, Gávea e, finalmente, Uruguai. O Globo-Zona Sul de 07 de maio de 1998 alegou que o governo estadual dependia do apoio da iniciativa privada para isso e que tal demanda era uma reivindicação dos próprios moradores da Barra.

O ex-prefeito Cesar Maia cogitou a ideia de se fazer o túnel metroviário, mas não levou adiante a proposta

No final de 2000, Cesar Maia, quem voltaria a ser prefeito em 2001, rediscutiu a ideia de se construir o Túnel da Rua Uruguai mesmo que este não fosse um tema da sua alçada, já que o metrô sempre se referiu ao Estado. Em O Globo de 16 de novembro de 2000, o então futuro alcaide se comprometeu a sugerir uma parceria com a concessionária Opportrans, sob financiamento do BNDES, para a construção do túnel. Luiz Paulo Corrêa da Rocha, nomeado Secretário Municipal de Transportes na gestão de Cesar Maia, alegou na ocasião que este "era o trajeto mais simples, porque é uma linha reta. Além disso, 90% da ligação são formados por rocha, o que facilita a obra e diminui o problema das desapropriações".

Desde então, nunca mais se comentou oficialmente sobre o Túnel da Rua Uruguai, fazendo da discussão em torno do anel metroviário um tópico cada vez mais restrito aos fóruns de internet. Nem os protestos recentes de associações de moradores contra a Linha Quatro do metrô, na Zona Sul, foram capazes de defender o Túnel da Rua Uruguai como uma das primordiais medidas para se melhorar a eficiência do metrô e o deslocamento eficiente entre as duas regiões. Esses grupos falam de mil e uma alternativas para o metrô, mas parecem não ser tão entusiastas do projeto talvez por questões "segregacionistas", suponho, já que a força econômica e política da Tijuca foi consideravelmente transferida para a Barra da Tijuca ao longo dos últimos 20 anos.

Por fim, esta é a história do Túnel da Rua Uruguai, primeiramente caracterizado como uma via expressa para automóveis e, posteriormente, como uma linha de metrô. Os mais otimistas dirão que será possível sair da Gávea e chegar à Tijuca em poucos minutos na próxima década. Entretanto, diante de tantos interesses contrários a se fazer um metrô sério no Rio, cabe aos ativistas continuarem lutando pela sua implantação, e, aos mais resignados, esperar sentado.

15 de mar. de 2014

E o metrô finalmente chegou às imediações da Rua Uruguai

Tijucanos ansiosos pela abertura da estação Uruguai na Rua Itacuruçá na manhã de sábado (15)

Mesmo após uma noitada no Bar do Momo, regada a muita cerveja, bolinho de arroz, aparecidinho de carne seca e jiló com provolone (tais detalhes ficarão para uma próxima postagem, afinal, o reduto é tijucaníssimo), decidi obedecer ao alarme do despertador e me levantei da cama, ainda sonolento, disposto a caminhar da região da Praça Saens Peña até a Rua Uruguai. O propósito? Participar da inauguração do novo terminal da Linha Um do metrô carioca, a estação Uruguai.

Tem gente que não se encanta em participar, assim, tão ativamente dos acontecimentos dos bairros onde moram, mas aqui na Tijuca tenho a impressão de que as pessoas apreciam esses tipos de evento. A inauguração das três primeiras estações metroviárias na região, em 1982, por exemplo, foi uma grande festa entre os tijucanos. Depois de seis anos sofrendo com as obras do metrô e todos os seus efeitos colaterais, sobretudo na Praça Saens Peña, finalmente puderam ver o progresso chegando por essas bandas. E, desde então, o metrô continua se expandindo lentamente pelo Rio. Ou seja, a abertura de uma nova estação é sempre acompanhada de muita euforia. Foi com base nisso que decidi partir para lá um pouco antes das 10 da manhã. Queria fazer parte desse dia histórico para a Tijuca!

O único acesso aberto era o da Rua Itacuruçá, onde havia uma expressiva aglomeração de moradores e curiosos no aguardo para o primeiro sinal de “passagem liberada”. Tijucanos das antigas comentavam sobre a tão esperada estação de metrô nesse local. Uns, mais calorosos, ecoavam frases como "Agora estamos mais perto da zona sul!", enquanto outros, mais críticos, divagavam sobre a possibilidade do metrô ir parar no Andaraí e no Grajaú. Estudantes do Colégio Palas, animados com a balbúrdia, circulavam entre grupos de senhoras que posavam para fotos diante do letreiro da Estação Uruguai. Do alto dos prédios, famílias observavam a multidão lá embaixo com alegria e ansiedade no semblante. Sim, estavam todos muito felizes.

A plataforma da estação Uruguai: cores vivas
Por outro lado, demorou bastante para que as coisas ali começassem a fluir. O pessoal já estava impaciente e cogitando ir embora quando, depois de um atraso de 45 minutos em relação ao horário de abertura anunciado, passamos a ouvir o discurso do secretário de transportes Júlio Lopes ressoando pela escadaria e chegando até a população do lado de fora, na Rua Itacuruçá. Foi nesse momento em que "as meninas do Metrô", mocinhas muito bem apresentáveis com uniforme do Metrô Rio, passaram a liberar o nosso acesso em grupos de dez. Por acaso, eu estava contemplado neste grupo. Eu e mais um bando de senhoras.

O saguão da estação Uruguai estava tomado por repórteres e políticos, além de convidados especiais. Gente da Tijuca, por exemplo, como o Jaime Miranda (presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca) e o administrador regional Nelson Aguiar, além de comerciantes tradicionais. Logo na descida havia uma mesa com sucos, café, canapés e sanduichinhos. Um coquetel que, mesmo sendo muuui singelo, atraiu a atenção imediata das "tias" que estavam no meu grupo. Um beijo para elas, aliás, todas muito simpáticas e gentis em me chamarem de "pão".

No centro da roda envolta por câmeras de TV, microfones e gravadores, encontravam-se o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o alcaide Eduardo Paes, o vice-governador Luiz Fernando de Souza, o Pezão, e, como já foi citado, o secretário de transportes. Uma passagem curiosa do discurso, que era alternado a todo momento para cada uma destas figuras, foi o anúncio certeiro, cheio de convicção, por parte de Sérgio Cabral, de que o Pezão seria o nosso futuro governador. Os convidados, ali, todos muito simpatizantes com o PMDB, gritavam em uníssono o nome de Pezão, bem como aplaudiam incansavelmente quaisquer promessas escapulidas pela trupe no microfone.

Depois de tanto blablablá é que, por fim, foi dado o sinal verde para que todos embarcassem no trem em direção à Praça General Osório. A primeira viagem aconteceu por volta do meio-dia e com vagões não tão lotados, apesar da grande quantidade de pessoas que assistiram à cerimônia. Câmeras não paravam de clicar em um só momento, sobretudo as dos moradores da Muda e Usina, entusiasmadíssimos com a ideia de poderem, a partir de hoje, embarcar no metrô sem precisarem de ônibus-integração, cujo serviço continuará existindo tendo como ponto final a Saens Peña.

O saguão com as catracas, ainda vazio, enquanto a campanha política rolava solta ao lado

Acompanhado de amigos, viajamos até a estação Saens Peña, onde pudemos ter uma dimensão ainda mais crítica do metrô nessa fase pós-Uruguai. Explico-me: a organização espacial da estação Saens Peña ainda está configurada como uma estação terminal, o que deixou de ser. Faltam-lhe novas sinalizações, reordenamento das catracas, assim como das escadas de acesso e saída, sem mencionar o alargamento urgente das plataformas, muito estreitas para a quantidade abundante de usuários que passam diariamente pela praça.

Do jeito que a estação Uruguai do metrô ficou bonita e, de certo modo, luxuosa, tudo indica que Saens Peña, São Francisco Xavier e Afonso Pena, que não são reformadas desde os anos 1980, serão as “primas pobres” da Uruguai. Essa alcunha é o de menos; o pior, eu palpitaria, é o descontentamento, agora, dos usuários da Praça Saens Peña, que não mais viajarão sentados como lhes foi costumeiro por mais de 30 anos. Take it easy, minha gente.

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