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2 de jul. de 2017

Rua Coronel Aristarco Pessoa & Rua Rocha Miranda

Panorama da Rua Rocha Miranda, em primeiro plano, e da Rua Coronel Aristarco Pessoa, em segundo

Já se vão pouco mais de seis décadas desde que uma das mais simpáticas ruas da Usina, a Itabira, passava a ser oficialmente denominada como Coronel Aristarco Pessoa em tributo àquele comandante do corpo de bombeiros do antigo Distrito Federal brasileiro. O ano era 1951; mês, agosto (1).

Desde então, muita água rolou.

A Usina perdeu representatividade na cartografia e no imaginário carioca, salvo pela sua presença nos letreiros de alguns ônibus que circulam pelo Rio. Já não é mais caminho dos bondes que subiam o Alto da Boa Vista, embora ainda seja possível avistar os seus antigos trilhos interrompidos por algum ou outro pedaço de calçada colocado por cima. Já não tem mais a grande elite como classe majoritária, mas as belíssimas residências construídas por esses nobres e burgueses de outrora continuam por lá, paradinhas no tempo, imponentes.

Para quem não conhece, a Coronel Aristarco Pessoa é uma ruazinha estritamente residencial localizada próxima ao Largo da Usina. Os tradicionais fuscas-táxis, que só existem na Usina (note bem: em todo o Rio de Janeiro, eles permaneceram apenas na Usina!), fazem ponto justo ali, na esquina desta com a Avenida Edson Passos. As mototáxis também marcam presença no local e, junto a esses fusquinhas, representam uma opção alternativa e econômica para quem não pretende subir a pé as grandes ladeiras da região. É preciso fôlego. A Rua Rocha Miranda, transversal e vizinha à Rua Coronel Aristarco Pessoa, que o diga. Ambas as ruas se contrastam nestes termos: enquanto naquela impera a ladeira, a outra se apresenta por meio de um suave declive, dando as boas-vindas a quem lhe acessa pelo Largo da Usina.

Vista exuberante para o Maciço da Tijuca

O fusca-táxi da Usina: patrimônio carioca

Bucolismo à Rua Coronel Aristarco Pessoa.

A principal qualidade desta região, eu diria, é a quantidade de verde. Não é preciso ir ao topo da Rua Rocha Miranda para se desfrutar de uma vista tímida, mas espetacular das montanhas da Usina. Para quem não se simpatiza com as favelas, elas não aparecem no cenário – apenas muitas árvores, rochas, árvores, árvores e mais árvores estão enquadrados naquele panorama, portanto, belíssimo da Zona Norte. Em épocas de maior umidade e de baixas temperaturas, chega-se a ver até mesmo o deslize da água das chuvas escoando pelas rochas. Uma das visões mais emblemáticas, restauradoras e agradáveis deste trecho da Tijuca.

Aqui, abro um rápido parêntese para endossar que o clima bucólico e ligeiramente conservador de ambos os logradouros é exatamente verossímil às impressões de Joel Silveira, repórter da Revista O Cruzeiro (24 jul. 1943), sobre o nosso bairro:

"A Tijuca é assim como uma velha família mineira: tudo no seu passado é limpo, tudo no presente é claro sem discussões. Os homens ganham tranquila e honestamente a vida. Há os mesmos retratos de anos atrás na sala de visitas, a mesma cadeira de balanço de jacarandá, onde avós de ontem repousaram e onde os netos de hoje brincam de cavalo".

Nas ruas Coronel Aristarco Pessoa e Rocha Miranda, o estilo da arquitetura transparece muito bem esse jeito ancião dos confins da Tijuca ainda resistente neste princípio de século XXI. Tem-se, ali, a fisionomia clássica da casa dos avós, cujos filhos e netos devem passar apenas como visitas porque provável e decididamente preferem residir em cantos menos provincianos do que estes. Contudo, há um elemento moderno destoante nesta paisagem tão tradicionalista: um campo de paintball. A entrada sóbria para o campo do Paintball Usina não se compara, entretanto, ao intemperante comportamento das crianças e adolescentes que, efusivos, visitam o local.

Zona estritamente residencial na subida do Alto da Boa Vista

Rua Rocha Miranda

O trecho final da Rua Coronel Aristarco Pessoa

Voltando à Rua Coronel Aristarco Pessoa, dirijo-me ao seu final, que dá para um muro coberto por plantas. Não há saída. Tudo é muito silencioso, exceto pelo ruído mais ou menos intermitente do motor berrante dos fuscas e das mototáxis. E dos entregadores de pizza, também. E em meio a tantas casas, a única construção mais verticalizada e multifamiliar fica ali, no final da rua, o prédio de número 203. O clima de aconchego da vizinhança não se perde com ele; pelo contrário. O jardim que margeia a portaria é de uma simplicidade bela e suficiente para ornar ainda mais toda aquela Mata Atlântica que abraça tanto a rua, como o vale da Usina da Tijuca. Tudo está em aparente equilíbrio.


RUA ROCHA MIRANDA 53: A CASA ZUZU ANGEL

É destaque no local o imóvel situado à Rua Rocha Miranda 53, mais conhecido pela alcunha de “Casa Zuzu Angel”. Original do início do século XX, ele está para a Rua Rocha Miranda assim como o Edifício Cibrasil está para a Rua Professor Lafayette Côrtes, n’outro extremo do bairro da Tijuca. A imponente casa é propriedade da jornalista Hildegard Angel, filha da famosa e mitológica estilista Zuzu Angel, quem leva o nome da iniciativa lançada pela proprietária para transformar o local no futuro Museu da Moda.

A imponente casa da jornalista Hildegard Angel, à Rua Rocha Miranda 53: joia da arquitetura tijucana.

O imóvel possui estilo eclético com sala rococó, salas, banheiros, corredores e cozinha com azulejos de várias épocas e estilos nos quais predomina o art nouveau. Segundo informações institucionais fornecidas pela Casa Zuzu Angel, “seu belíssimo jardim e pátio externo já receberam personalidades da moda como Oscar de la Renta e Hubert de Givenchy”. A casa é uma das tantas joias arquitetônicas da Tijuca e passa por um projeto de restauro desde 2014. Paralelamente, abriga o acervo da falecida estilista e encontros mensais com pesquisadores, profissionais e interessados em compartilhar conhecimento e reflexões sobre pesquisas relacionadas a acervos, memória e patrimônio de moda no Brasil.

Os muitos e místicos rococós: a casa data do final do século XIX

Detalhe dos variados azulejos

De acordo com reportagem veiculada no caderno "Tijuca", de O Globo, em 1989 (18 jul.), Hildegard Angel afirmou ter comprado a casa em mau estado de conservação em meados daquela década e não poupou esforços para remodelá-la. Dentro do imóvel havia pelo menos três grandes vitrais não muito bem preservados, tendo um deles aproximadamente 10 metros quadrados. Com fins de recuperá-los, a jornalista contratou o mesmo restaurador de vitrais que, tempos antes, havia remodelado os vitrais da paróquia Bom Pastor, aqui mesmo no bairro. Na matéria, Hildegard comenta que o vitral "emprestava um ar místico à casa", aspecto que já se percebe na própria fachada pomposa e cheia de elementos religiosos.

A fachada, aliás, por si só já é um deleite para os pedestres que, direto do espaço público, podem contemplar tamanha beleza à espera, um dia, quem sabe, de convite para uma xícara de café. Um dedinho só de café, ali no jardim, junto à quaresmeira, vendo esses vitrais de perto, fotografando cada detalhe, cada centímetro dos azulejos. Um dia, quem sabe, adoraria, não seria muito incômodo, em nome da Tijuca, em prol dela... (Enquanto a casa ainda não se torna aberta ao público, resta-nos conhecê-la - e seu projeto por inteiro - por meio da Astorga Arquitetura e Restauração, encarregada de remodelá-la: https://www.astorgaarquitetura.com/casa-zuzu-angel).

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(1) Diário de Notícias (O Matutino de Maior Tiragem do Distrito Federal), quarta-feira, 1º ago. 1951, p. 3:

CEL. ARISTARCO PESSOA - No próximo sábado, às 10 horas, serão substituídas as antigas placas da rua Itabira, na Tijuca, há pouco denominada rua Coronel Aristarco Pessoa, numa homenagem da Municipalidade carioca ao antigo comandante do Corpo de Bombeiros. O ato contará com a presença de amigos do antigo comandante, do prefeito João Carlos Vital e do atual dirigente do Corpo de Bombeiros, coronel Sadock de Sá.

27 de mar. de 2016

Rua Pinheiro da Cunha & Rua Cotingo

Panorama da Rua Pinheiro da Cunha: arborização e edifícios baixos, como o simpático Jardelina, no número 62, à direita.

Com desenho análogo ao de uma cauda felina, a Rua Pinheiro da Cunha fica na Usina e é transversal à Conde de Bonfim, na altura do Hospital Venerável da Ordem Terceira da Penitência (atual São Francisco). Dali, sobe uma pequena ladeirinha hoje tomada por simpáticos edifícios baixos e se encurva, onde logo adiante faz esquina com outra rua – a Cotingo, esta sim basicamente formada por casarões. Dali, metros depois se encurva novamente para erguer-se de modo linearmente tortuoso rumo à montanha. Seu final é uma cul-de-sac encravado no Maciço, em que eu e nem mesmo o Google Street View chegamos até lá. O dia estava tão abafado que preferi ficar por ali mesmo, na parte baixa, cujo circuito já dava uma boa amostra do perfil décadence avec élégance da região.

A Usina tem uma das paisagens naturais mais bonitas da Tijuca e de todo o Rio de Janeiro. Não à toa, a arquitetura local soube aproveitar essa estética ao estilo dos prédios e casas, notoriamente aburguesado e nada contemporâneo. O Edifício Geribatu, logo na esquina com a Conde de Bonfim, por exemplo, reproduz o requinte monumental dos prédios de Copacabana dos anos 1950. O gradeamento opressivo das janelas e a falta de conservação da fachada são compensados, por outro lado, pela portaria livre de cercados. Seu acesso se dá diretamente da rua, sem intermediários, tal qual em tempos remotos. Belo e maltratado, o Geribatu é um deleite para os amantes das ruas e de sua arquitetura.

Edifício Geribatu, na esquina de Conde de Bonfim: elegância de tempos passados.
Rua em "curva", cujo desenho forma uma espécie de cauda felina

Vista lateral do Edifício Jardelina, um dos mais bonitos da Pinheiro da Cunha.

Chalé suíço geminado

De mais a mais, a vegetação opulenta do entorno faz da Rua Pinheiro da Cunha uma pequena floresta. Tanto ali como na Rua Cotingo é fácil encantar-se com bananeiras, paus-brasis, ervas-de-passarinho, além de plantas ornamentais e de flores rosas, amarelas e lilases. Canteiros de diferentes tamanhos também ocupam as calçadas, adornando-as mutuamente com a beleza dos edifícios subsequentes. Chamo a atenção para o Edifício Jardelina, no número 62, que é de um mimo inexplicável. Este, aliás, é um dos raros exemplos de edifícios “clássicos” no bairro em que pouco de seus traços foi mudado. O muro baixo, além de charmoso, é sinônimo de alívio: remete-nos à sensação de estarmos livre das claustrofobias urbanas. Ali, vive-se à moda antiga e tradicional, adjetivos mais do que apropriados para a Usina.

No encontro da Pinheiro da Cunha com a Rua Cotingo, um belo casarão descortina o sombreado corredor de prédios instalado anteriormente. Segundo uma amiga que reside logo ali, na “curva”, o imóvel ficou por muitas décadas tomado por um denso matagal. Em função disto, os traços elegantes da casa escondiam-se sob a mata, hoje desvelados aos olhos do pequeno público que transita pela via. A pompa toda, decadente – diga-se de passagem –, refere-se à Tijuca da época dos solares habitados por uma classe aristocrata e influente. Sem mencionar o cenário de fundo, que reforça ainda mais o fascínio causado pelas montanhas às antigas famílias abastadas: é dali de onde são avistados mais de perto ainda os picos da Tijuca e do Papagaio.


Casario elegante na esquina da Pinheiro da Cunha com Contigo: marcas do tempo
Sinalização da Rua Pinheiro da Cunha


Panorama das espécies arbóreas da Rua Cotingo

Estilo dos casarões: linhas clássicas, amplitude, centro de terreno e quintal. 


Rua Cotingo: os "picos" ao fundo
Para além da arborização e da arquitetura, as disputas políticas também estão presentes na Rua Pinheiro da Cunha. Enquanto no adorável chalé suíço hasteia-se a bandeira vermelha referente ao Partido dos Trabalhadores, mais adiante, o posicionamento é outro. Uma divertida caricatura da presidente Dilma Rousseff riscada pelo símbolo de proibição foi pregada junto à entrada da garagem de outra aprazível residência.

Já na Rua Cotingo, as disputas ocorriam entre as aves – pelo menos no momento em que eu por ali passeava. Gaiolas nas janelas, beija-flores libertos. É sinfônico este mundo dos pássaros, permeado por assobios que ecoam por todos os cantos, de diferentes timbres. A tais melodias misturavam-se as do rádio de pilha, um pouco abafadas pelo contato estreito deste com a orelha de certo transeunte. O ruído das motocicletas a mil pela Conde de Bonfim também foi incorporado à composição. Eis o produto musical da conjunção entre a urbe e a natureza.

O estilo clássico da Rua Cotingo é marcado também por certo ar de abandono. As casas amplas e confortáveis pararam dignamente no tempo, mas sem o esmero do jardim bem cuidado ou dos cercados ainda à tinta fresca. A Rua Cotingo cheira à domingo, de manhã preguiçosa em rede de dormir e de almoço em família. Tem aspecto de rua de avó ao estilo Dona Benta, que serve bolinho de chuva com café no final da tarde aos filhos, sogras e genros, netos e netas. Estes se despedem e regressam às suas casas, longe dali ou até mesmo perto, mas certamente em ruas mais modernas. A Rua Cotingo é adorável, mas nostálgica. É levemente melancólica e romântica ao mesmo tempo – igualzinha à Tijuca. Por isto nosso amor.

27 de dez. de 2015

Praça Hans Klussman


A imaginação das crianças é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com base nessa concepção que o professor Paulo de Tarso, morador da Rua Sabóia Lima, recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann um verdadeiro recanto de fantasias. Aliás, mais do que um professor, Paulo de Tarso é um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro assim como do reino animal.

Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos de 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos no bairro de como urbe e natureza se conectam e, portanto, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam o local (um bom repelente já resolve esta questão), o alto da Rua Sabóia Lima oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde podem ser observadas as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa; do outro, um jacaré.

Foi neste momento em que tive a percepção de não estar vendo tudo o que de fato existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, além de uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde: os animais, cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade.



Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klussmann ganhou um colorido todo especial, mas que, paralelamente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou de qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças pensam da ilusão ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são "interagíves", no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e, dessa maneira, fantasiar um passeio pelo deserto - por exemplo.



Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, contribuindo para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda forma um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, que fica no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar diante do espaço em que estamos inseridos.

Num mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade - gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho.


Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados em suas leituras. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós, e, em outro rincão, um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klussmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul – e, à noite, estrelado – da nossa natureza. A nossa real natureza.

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Texto publicado em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 10 de agosto de 2013.

4 de mai. de 2015

Usina, oásis e tradição na Tijuca

A Conde de Bonfim, na Usina: mais perto da Floresta.
A Usina sofre de uma espécie de rejeição calamitosa: suas ruas são desertas, aparentemente relegadas pelos pedestres, que, com exceção dos poucos moradores dali, circulam somente a bordo de seus carros rumo ao Alto da Boa Vista ou à Praça Saenz Peña. Grande pecado: além de ser uma das regiões mais bucólicas e agradáveis do nosso bairro, a Usina é também o local onde a Tijuca mostra com rigor a sua tradição e simbolismo histórico no contexto da cidade do Rio de Janeiro. Explico-me.

Uns desses primeiros indícios estão na Rua São Rafael, ruazinha pequena entre as ruas São Miguel e Conde de Bonfim. Chama a atenção por ali o conjunto de resistentes casas centenárias, bem de frente para a Avenida Maracanã. Os janelões frontais e os emblemas no topo da fachada estão preservados e remetem o pedestre a uma Tijuca pacata e aristocrática, mais conhecida por suas “benesses” serranas do que por sua intensa urbanidade como é hoje observada. O estilo da arquitetura e a ambiência local favorecem a imaginação: que famílias terão vivido lá? No lado de dentro, o que se preservou?

Um passo adiante, ainda na Rua São Rafael, é possível deparar-se com o córrego do Rio Maracanã perpassando, a alguns metros de profundidade, uma série de casas deterioradas. Nesse panorama, cabe destacar o estado límpido da água, que transcorre entre pedras e pequenas vegetações. Como essa região é um aclive – afinal, é a subida para a Floresta –, a água do Rio Maracanã ganha força e, em alguns trechos observáveis, tem um aspecto de riacho que ecoa um relaxante barulhinho por toda a bucólica Rua São Rafael.

Rua São Rafael: janelas frontais e emblemas no topo da fachada remetem ao século XIX.


O muro mais do que centenário da Rua São Rafael: placa remete ao ano de 1895.

No entanto, não era apenas este detalhe que eu queria lhes comentar. A vista para o Rio Maracanã é protegida por uma mureta de pedra que existe em ambos os lados da rua. Até aí, nada de demais – eu estaria falando apenas de um muro qualquer se não fosse o que há preso a este muro, algo que lhe dá uma importância extraordinária: uma placa aparafusada com o ano de “1895”. É bem capaz de que até os próprios moradores da região sequer tenham notado de que se trata de um muro centenário cuja placa – desde já, patrimônio nobilíssimo desta cidade – jaz sem nenhum tipo de aclamação.


Armazém do Loureiro: mercearia desde os anos 1930 na São Rafael com Conde de Bonfim.

Na esquina da Rua São Rafael com a Rua Conde de Bonfim, outra perseverante joia arquitetônica: o Armazém do Loureiro. Negócio familiar, inaugurado nos anos de 1930 pelo português “Seu” Loureiro, o armazém é uma espécie de mercearia que, até pouco tempo, era bastante resistente e alternativo frente à hegemonia dos supermercados. Segundo O Globo, de 22 de dezembro de 1987, o Armazém Loureiro era o local de compras preferido dos moradores da Usina por causa da qualidade dos produtos vendidos, como arroz, feijão, bacalhau, sardinhas portuguesas, vinho alemão e do Porto, uísque escocês, champanhe francesa, entre outros. A tradição do local é tanta que por muitos anos foram adeptos da venda a fiado, com caderninho e tudo para anotar as despesas de cada freguês.

Resquício dos trilhos dos bondes no Largo da Usina

Rua Rocha Miranda, na divisa com o Alto: residências espaçosas em local aprazível.
Outro casario remanescente de outrora, na Conde de Bonfim: à esquerda, a Herbert Ritchers.

Edifício Jequitibá: modernismo na Conde de Bonfim.
No Largo da Usina, os trilhos dos bondes ainda permanecem à mostra, como se pudessem voltar a ser utilizados a qualquer momento tal qual antigamente, quando a Usina, na verdade, era uma usina termoelétrica que gerava energia para esse meio de transporte. O Largo continua sendo um marco da região, na divisa entre a Tijuca e o Alto da Boa Vista, cujas ruas transversais ainda resguardam os signos de nobreza e sofisticação do bairro, como a Rua Rocha Miranda, ao passo que outras, mesmo assoladas pela decadência, ainda preservam o aspecto familiar e de calmaria, como o das ruas próximas ao Hospital da Ordem Terceira da Penitência.

Outro trecho interessante da Usina está na Rua Conde de Bonfim entre os números 1325 e 1337. No primeiro número, temos o Edifício Jequitibá, um belíssimo residencial modernista que se destaca na paisagem da rua com seus azulejos que remetem à obra de Athos Bulcão e as janelas venezianas que deslizam pela fachada. Ao lado desse edifício, outro marco da Usina: o imóvel onde funcionava a Herbert Ritchers, um dos estúdios de dublagem mais famosos do Brasil, falido em 2009. Abandonado, há uma vegetação crescente pela fachada, que há tempos já não deixa mais à vista o letreiro do derradeiro estúdio. E, por fim, nos números 1335 e 1337, vê-se mais um conjunto de casas centenárias intactas, que continuam preservando a história da Usina assim como as vizinhas na Rua São Rafael.

O que mostrei se trata apenas de um resumo das surpresas e detalhes que a Usina resguarda, esse pedacinho da Tijuca, por vezes, tão maltratado e pouco desfrutado pelos tijucanos. As fotos dão um destaque à beleza local: entende, agora, caro leitor, por que a Usina merece ser “passeada”?

29 de out. de 2014

Saguis invadem (e divertem) a Tijuca!

Um sagui se alimenta de banana em muro de residência próxima à Praça Hilda

Não é mais raro para o tijucano se deparar com um sagui travesso no muro de sua residência ou cambaleante pela fiação de sua rua. Embora comumente encontrados em ruas mais arborizadas e próximas da Mata Atlântica, como a Sabóia Lima e aquelas da Usina e do Alto da Boa Vista, os saguis estão presentes inclusive naquelas vias mais urbanas e distantes da encosta! Pertencentes à simpática subfamília de macacos chamada Callitrichinae, eles se espalham pelo bairro e viraram atração momentânea entre crianças e adultos curiosos quando surgem inesperadamente à procura de abrigo ou de comida.

Na Rua Alzira Brandão (veja vídeo abaixo), semana passada, uma família trôpega de saguis parecia estar fugindo de alguma zona de perigo ao percorrer a fiação dos postes de lá. O mais curioso foi ter percebido que na "garupa" de um dos membros saltitantes da trupe havia um filhotinho todo esquálido aferrado à suposta mãe. Já nas redondezas da Praça Hilda, aos pés da Pedra da Babilônia, um casal da espécie passeava displicentemente pelo meio-fio até alcançar o muro de uma das residências, cujos moradores ofereceram-lhes uma banana como "boas-vindas".

O gracejo gastronômico, no entanto, deve ser evitado - orientam especialistas. No Parque Lage, pelo menos, onde a presença de diferentes tipos de macacos é muito recorrente, os guardas advertem aos visitantes que alimentá-los pode ser um atentado à sobrevivência da espécie, que correria o risco de ser contaminada pelos nossos "germes" através da comida - ou seja, germes inofensivos apenas à espécie humana, mas nocivos aos macacos.



Por outro lado, ainda há muitas outras ignorâncias em torno dos saguis. Uma delas é que são, na verdade, originários do Nordeste e introduzidos no Rio de Janeiro por causa do tráfico de animais (pessoas que compraram e trouxeram para o Rio). Além disso, Pedro Develey, coordenador da ONG BirdLife, em entrevista ao site G1 em 2007, explicou que o Callithrix jacchus (nome designado à espécie), por ser um animal onívoro, pode ameaçar a existência de pássaros nas zonas urbanas - no caso, a zona urbana da Tijuca - já que se alimentam basicamente de ovos de aves.

Como são predadores consideravelmente novos na região, os pássaros ainda não adaptaram seus ninhos para proteger seus ovos, que se tornam alvos fáceis para os saguis. Todavia, ele pontua que a população de pássaros não entrará em extinção, mas que se o número de saguis continuar a crescer, o de pássaros poderá "diminuir drasticamente", segundo Develey.

Na mesma reportagem, Vitor Berbara, supervisor do Centro de Zoonose da Secretaria de Saúde do Rio, avisa que os saguis não oferecem riscos graves à população, apesar de poderem portar o vírus da febre amarela e da Raiva. E ainda aconselha aos pedestres que evitem muitas aproximações com o animal, pois, mesmo pequenino e aparentemente afável, o sagui costuma ser agressivo por se sentir em constante ameaça.

Seja como for, eles são praticamente um espetáculo circense em pleno cotidiano da Tijuca. De momentos insólitos, quem não gosta?

25 de ago. de 2014

O bucolismo em meio à Conde de Bonfim

A Tijuca é mesmo um bairro de surpresas. Caótico em virtude do progresso e da verticalização acentuada, este ainda resguarda certas paisagens e detalhes capazes de deixar atônito qualquer turista ou pedestre desatento. Um bueiro histórico, o detalhe arquitetônico de renome, os trilhos do bonde sufocados pela camada espessa de asfalto, um panorama mais bucólico em meio à urbe: a Tijuca é mestre em surpresas. Veja este vídeo, por exemplo:



À primeira vista, poderíamos supor que tal cenário corresponderia a qualquer cantinho verdejante, de natureza pulsante, do Alto da Boa Vista. Uma corrente d'água assim, tão limpinha, não combina nem um pouco com o espírito pra lá de babélico da Rua Conde de Bonfim. Pois é, esse trecho do Rio Maracanã, que desce o Alto e perpassa a Conde de Bonfim rumo à Avenida Maracanã, é um oásis de tranquilidade na Usina, por onde estava passeando e gravei esse vídeo.

Por ali, na altura do número 1328, há uma mureta no lado par da calçada que divide o rio em relação às pistas da Conde de Bonfim e, por conseguinte, ao outro lado da calçada, dotado de condomínios e prédios modernistas, como esse em evidência. Adorável...

19 de mar. de 2014

Manhã dominical na Praça Afonso Vizeu

O chafariz francês do Alto da Boa Vista que, antigamente, localizava-se na Praça Onze

No fins de semana do verão, há os tijucanos que rumam para a praia ou para o clube, enquanto há outros que preferem fazer passeios tão refrescantes quanto, mas distantes da muvuca do balneário ou dos parques aquáticos. Incluo-me nesse último caso, consciente de que sou dos poucos que, ao invés de continuar seguindo viagem no 302 (antiga linha 233, Rodoviária-Barra da Tijuca) para a praia da Barra, acaba dando sinal e desembarcando ali mesmo na Praça Afonso Vizeu, o coração do Alto da Boa Vista.

Foi o que aconteceu nesse último domingo 16 de março, quando os termômetros da Praça Saenz Peña estavam marcando temperaturas ao redor dos 39 graus Celsius às 10h30 da manhã. Acenei, então, para o coletivo, muito embora já soubesse que não daria continuidade à viagem até a Barra da Tijuca. Pararia no Alto para desfrutar um pouco do clima ameno da região. Já tinha experimentado o passeio outras vezes e gostei, principalmente porque não tenho carro; vivo do transporte ativo. Assim, a praticidade de se passear pelo Alto indo e voltando de ônibus é um privilégio, sobretudo para nós, tijucanos, que contamos com tantas linhas que percorrem o Alto da Boa Vista, nosso quintal.

Apesar de muita gente reclamar deste percurso, não tem nada mais gostoso do que “subir” o Alto por meio de suas estradas longas e sinuosas. Basta o ônibus sair do Largo da Usina e adentrar a Avenida Edson Passos para o meu humor melhorar, salvo em casos de se estar com hora marcada na Barra e, por isto, desejar que o ônibus voe! Mas, repare bem, caro leitor: neste trajeto, sente-se a temperatura cair progressivamente enquanto os tipos arquitetônicos mais imponentes da região se descortinam pela janela do veículo. O cheiro de mata fresca também invade as nossas narinas, sem falar no ruído relaxante de uma ou outra queda d’água que aparece no meio do caminho. A urbe, ali, fica definitivamente pra trás.

A Praça Afonso Vizeu congrega os elementos ideais para a realização de atividades físicas e recreação infantil
Exemplo art déco na Avenida Edson Passos

O Bar da Pracinha, ao fundo, com o chafariz
Após alguns sacolejos por ruas que serpenteiam a floresta, o ônibus chega à parte plana do Alto, a Praça Afonso Vizeu, após uma viagem de aproximadamente 20 minutos a partir da Praça Saenz Peña. Essa praça também pode ser vista como benção, pois trata-se de um dos espaços públicos mais bonitos do Rio! Colada à entrada da Floresta da Tijuca, a Afonso Vizeu é arejada, infinitamente arborizada e, para completar, bem conservada. Sempre quando chego por lá, fico hipnotizado com o chafariz no centro do local. Obra do renomado arquiteto francês Grandjean de Montigny, ele conserva água fresca e limpa cujo reflexo, graças à luz solar tão potente das manhãs, incide sobre a base do monumento criando, assim, um visual incrível.

Em determinadas épocas do ano, o solo da praça fica todo coberto por um tapete de pétalas cor-de-rosa, todas despedaçadas, caídas de alguma árvore dali que eu não sei o nome. Parece cenário de casamento a céu aberto. Ciclistas que vêm do Horto e da Vista Chinesa, em trajes apropriadamente desportivos, perpassam pela Afonso Vizeu rumo à Floresta, enquanto famílias e casais realizam o desjejum ou tomam um simples choppinho nas mesas ao ar livre do Bar da Pracinha, extinto Robin Hood Pub.

Quem não quiser consumir na Praça Afonso Vizeu – no Bar da Pracinha, melhor dizendo –, não precisa desistir de visitá-la. Recomenda-se levar um livro ou uma cadeira de praia; vá acompanhado de amigos, aproveite o entorno bucólico para relaxar ao gorjear dos passarinhos. Observe, também, a diversidade de cores da flora local. Admire as casas que margeiam a praça, como o belíssimo exemplar art déco de Lucrezia Maria Petrelli, com seu belo painel em motivos florais na fachada. Ou então, bem ali na esquina com a entrada da Floresta, a nobre casa construída em 1865 pelo inglês Bartlett-James.

Depois de tudo isso, de espreguiçar-se e alongar-se, de sentir ar puro, caminhe um pouquinho mais e vá até à Cascatinha, distante apenas cinco minutos a pé da praça. Deixe-se magnetizar por essa cortina de água; adormeça, em pé mesmo. Se a temperatura aumentar - o Rio é úmido, sente-se calor facilmente -, refresque o rosto com a água gelada e natural que sai da boca de um "leão" que a despeja sobre uma luxuosa, mas velha banheira oitocentista. Seu dia estará salvo, garanto. E tudo "patrocinado" pela Tijuca.

A Cascatinha, a cinco minutos a pé da Praça Afonso Vizeu
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