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22 de jun. de 2017

Letreiros antigos que resistem no comércio de rua da Tijuca

Memória afetiva para uns, abandono para outros. Na Tijuca, muitos letreiros antigos ainda povoam as fachadas do nosso comércio de rua. Alguns deles já se tornaram de estimação tamanha a simpatia (inconsciente) aos quais muitos tijucanos lhes têm. Para identificar o quão antigo pode ser um desses letreiros, há pistas certeiras: é só observar o estilo das letras que destacam o nome do empreendimento, o material utilizado, o modo como é apresentado o número de telefone, o tipo de iluminação. Número de fax, então, já é redenção na certa. Outros se entregam pelo simples anúncio do gênero de serviço prestado: videolocadoras, minutas e vitaminas, calçados e bolsas para senhoras.

O PASSEADOR TIJUCANO recorreu as principais ruas e procurou listar oito letreiros antigos e emblemáticos do nosso bairro. Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.


1. AO TRANSISTOR DA TIJUCA (Rua São Francisco Xavier 2, Loja E)


Rua São Francisco Xavier 2, Loja E, Largo da Segunda-Feira 


"Ao Transistor da Tijuca" é uma das tantas lojas de material elétrico e utilidades do gênero que existem no bairro. O letreiro antigo já é quase patrimônio gráfico do Largo da Segunda-Feira, onde se situa. Observem que o prefixo do telefone só apresenta três dígitos, dando uma amostra do seu longo tempo de existência. Vale destacar que, no Rio, todos os números de telefonia fixa passaram a ter prefixo de quatro dígitos no dia 30 de junho de 2001, há 16 anos.


2. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO STA. CAROLINA (Rua Santa Carolina 8)


Rua Santa Carolina 8, Usina

Outro gênero comercial bastante comum aqui na Tijuca é o varejo especializado em materiais de construção. São bazares à moda de outrora, bem diferentes das grandes cadeias como Leroy Merlin ou Casa Show. Na Usina, temos a loja "Materiais de Construção Sta. Carolina", localizada na rua homônima. O letreiro, coitadinho, mal conserva suas letras. Mesmo assim, ainda se pode identificar o derradeiro slogan: "Tudo Para Construção e Pinturas".


3. GURILANDIA LANCHES (Rua Conde de Bonfim 670)

Rua Conde de Bonfim 670, entre Uruguai e Dona Delfina 

Quem se lembra dos tempos em que ir à Disney também podia ser sinônimo de ir à Disneylândia? No caso da Tijuca, o sufixo "lândia", que cheira à naftalina de tão démodé, é utilizado para designar o território da gurizada na Rua Conde de Bonfim 670. Ou melhor: a "Gurilandia Lanches", sem circunflexo. O letreiro do estabelecimento não deixa mentir a idade: ele oferece (ou oferecia) refeições à minuta, pizzas e vitaminas. Em tempos de hambúrguer gourmetizado, o que são mesmo minutas e vitaminas?! De todo modo, eis mais um patrimônio gráfico do nosso bairro!


4. REQUINTE (Rua Conde de Bonfim 668, Loja B)

Rua Conde de Bonfim 668, Loja B, entre Uruguai e Dona Delfina

Nas vizinhanças da "Gurilandia Lanches", jaz o letreiro da antiga boutique "Requinte", no número 668 da Rua Conde de Bonfim. A loja é dos tempos em que se vendia produtos exclusivos para "senhoras", tais como calçados e bolsas. Diferentemente dos demais estabelecimentos listados aqui, a "Requinte" encerrou suas atividades já há um bom tempo (algum leitor sabe quando?), e o melhor - está fechada com portas pantográficas! Mais vintage, impossível. Nossa Tijuca é tradicional até quando não quer.


5. BRASEIRO (Rua Haddock Lobo 123A)

Rua Haddock Lobo 123, Loja A, próximo à Avenida Paulo de Frontin (Fonte: Google)

Oficialmente conhecida por "O Braseiro Armarinho Limitada", a Braseiro Modas - como é comumente chamada - está fincada na Rua Haddock Lobo desde 1966, já nas bandas do Rio Comprido. Segundo o tijucano Felipe Torreira, do blog Pileque, "as roupas estão expostas em cristaleiras muito bonitas, bem altas, pois o pé-direito da casa deve ter seus seis metros. Camisetas furadinhas, camisas sociais, camisolas, meias sociais, calçolas, cintos elegantes e moda íntima em geral enchem as estantes e mostruários". Tim Maia, o cantor, foi freguês em outras épocas. Inveterado letreiro!


6. ELETRÔNICA ROBRUM (Rua José Higino 290)

Rua José Higino 290

Já se foram os tempos em que hordas de tijucanos consumiam ad nauseam as incontáveis videolocadoras existentes no bairro. Com o fim dos cinemas na Praça Saenz Peña, alugar VHS e DVDs tornou-se uma das poucas opções culturais por aqui. Agora, em tempos digitais, as videolocadoras ficam só na saudade ou impressa nos letreiros, como neste da "Eletrônica Robrum", situada à Rua José Higino 290. A placa também entrega a idade pelo anúncio do número de telefone com prefixo de três dígitos e do número de fax. E os pontinhos luminosos que circundam a moldura? Dignos de cenário dos programas da Xuxa, nos anos 1980.


7. BAZAR CASCATA (Rua Conde de Bonfim 927, Loja D)

Rua Conde de Bonfim 927, Loja D, Muda 

Na esquina da Rua da Cascata, o "Bazar Cascata" faz parte da turma de lojas de ferragens, material elétrico e conserto de eletrodomésticos tão comuns na Tijuca. Após a remoção do tradicional letreiro de "O Queijeiro da Muda", arriscaria dizer ser este um dos mais emblemáticos atualmente deste pedacinho da Tijuca.


8. HOTEL TIJUCA (Rua Pareto 63)

Rua Pareto, 63, arredores da Praça Saenz Peña

O "Hotel Tijuca" dispensa apresentações: é um dos mais famosos motéis do tipo custo-benefício do bairro, muito embora ainda há quem encare o "Paretão" como um hotel - pelo menos, na página do Trip Advisor, onde se tecem críticas sobre o serviço prestado. O prédio chega a ser risível de feio, mas o seu letreiro continue firme e forte na paisagem aérea dos arredores da Praça Saenz Peña justo no seu trecho mais decadente, a Rua Pareto. A placa emana ares de far west movie, mas é um desses letreiros que eu estimo sem saber o porquê.

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Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.

28 de mar. de 2016

Rua Conde de Bonfim 841: e lá se vai mais um casarão da Tijuca!

Na Muda, casario dos anos 1910 será posto abaixo: patrimônio em baixa.

A notícia de que o imóvel centenário da Rua Conde de Bonfim 841, na Muda, seria demolido foi dada semana passada no grupo “Tijuca de todos os tempos”, no Facebook. Na ocasião, as fotos publicadas por Ney Carmelita mostravam as janelas da casa ainda intactas. Porém, nesta última sexta-feira, 25 de março, indícios de que o “põe-se abaixo” estava confirmado refletiam na própria aparência do imóvel, já parcialmente afetado. Até aquele dia, o telhado já havia sido removido, assim como algumas vigas internas.

Construído em 1905, este casario é mais uma das vítimas do abandono e do descaso com o patrimônio da cidade. A falta de interesse – somada à falta de recursos – dos proprietários acaba por dar fim à nossa história. Sem mencionar a especulação imobiliária, que, em repetidas ocasiões, influencia consideravelmente na dinâmica de reprodução da cidade. Resta-nos, por fim, e com muito pesar, guardar essas imagens para a posteridade.

21 de jan. de 2016

Linha 413 vira 213 ao ser limada das ruas da Zona Sul

Linha 413: lataria dos anos 1990 é recordada com nostalgia

Na segunda etapa da operação que reorganizou os ônibus que circulam na Zona Sul do Rio, acabou sobrando para a nossa linha 413 (Muda-Jardim de Alah). Com a implantação das “troncais”, como estão sendo chamadas as novas linhas que ligam a Zona Sul ao Centro, a Prefeitura seccionou o itinerário de três linhas que saíam da Zona Norte. O objetivo foi conferir maior "racionalização" ao sistema de ônibus carioca.

Desde o início de janeiro de 2016, a linha 413, uma das afetadas, circula apenas entre a Muda e o Castelo, no Centro, onde o passageiro é obrigado a fazer baldeação caso deseje seguir até o Jardim de Alah. A mudança impactou até mesmo na numeração da linha, que passa a ser atendida de agora em diante por 213.

Operada pela Auto Viação Alpha, a linha 413 era uma das mais tradicionais da Tijuca. Originalmente, circulava apenas entre a Muda e Copacabana, tendo seu itinerário estendido até a entrada do Leblon por volta de 2010. Com a reorganização do sistema, a Linha 413, ao invés de seguir a Avenida Rio Branco rumo ao Aterro, passa a fazer o retorno na Avenida Presidente Antônio Carlos de volta à região da Muda.


Conde de Bonfim continua sem opções de ônibus via Rebouças

Muito embora o plano de racionalização das linhas de ônibus tenha mantido as linhas 415 (Leblon-Usina) e 426 (Jardim de Alah-Usina), é consenso entre os estudiosos de mobilidade urbana que se perdeu uma grande oportunidade de rever a eficiência dos itinerários afetados ao invés de simplesmente seccioná-los. Um bom exemplo disto é esta linha, a 413, cujo itinerário poderia ter sido transferido para o Túnel Rebouças.

Essa rota alternativa conseguiria oferecer uma opção inédita de coletivo que percorresse grande parte da Rua Conde de Bonfim rumo à Zona Sul via Rebouças, distância mais curta e mais eficiente do que a antiga, via Centro e Aterro do Flamengo. Atualmente, não existem ônibus que façam tal trajeto, com exceção da Linha 416, que circula apenas nos dias de semana em horário comercial, tendo como destino final o Horto do Jardim Botânico.

Além disso, é válido destacar que, aqui na Tijuca, já existem diversas linhas de ônibus que vão para o Centro, sem mencionar as quatro estações do metrô. Neste sentido, a criação da Linha 213 é redundante, sem trazer benefícios mais efetivos ao nosso bairro.

14 de jan. de 2016

Com tijucano não se brinca

Artur Xexéo (Reprodução: Internet)
Em 2002, o jornalista Artur Xexéo provocou a discórdia entre os tijucanos ao publicar em sua coluna do Jornal O Globo certa hipérbole quanto à criminalidade que assolava o bairro:

[...] Dizem que vivemos numa guerra civil. Não é bem assim. Numa guerra civil, como em qualquer guerra, sempre há a possibilidade de um armistício. Ou de a guerra acabar. Mas qual é a chance de o conflito que envolve cidadãos do Rio de Janeiro ter um fim? No Rio, só se vai a festas com a garantia de segurança. Ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficante de um dos morros que cercam a Tijuca. 
XEXÉO, Artur. Vivendo numa cidade entregue a Deus. Festa com comboio protegido por seguranças? Está ficando cada vez mais difícil ser carioca. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 28 ago. 2002.

Para quem não se lembra do contexto da época, um refresco:


O Globo, 20 ago. 2002
Naquela época, a Tijuca viveu episódios violentos de grande repercussão por causa da disputa pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Só em agosto de 2002, o comércio do bairro foi fechado duas vezes a mando dos líderes de facções criminosas presentes nas favelas da região. No dia 20, os comerciantes da Praça Saens Peña foram obrigados a paralisar suas atividades em luto forçado por traficante do Morro do Salgueiro morto pela PM. Dez dias antes, foi a vez das lojas da Muda e Usina, entre as ruas Medeiros Pássaro e Uruguai, baixarem suas portas por condolências a outro criminoso morto durante tiroteio com policiais no Morro da Formiga.

Assaltos, arrastões e balas perdidas também fizeram parte do cenário do bairro por pelo menos uma década. No entanto, para os tijucanos, a imprensa era injusta ao noticiar tais fatos de violência como peculiares unicamente à Tijuca, e não à cidade como um todo. Por muitos anos, ficamos estigmatizados como o único "bairro do perigo" na cidade - também chamavam-nos de "bairro decadente" - por culpa da opinião pública. Xexéo não ficou imune às críticas dos tijucanos, que, bairristas, trataram de defender seu torrão. Os depoimentos foram gentilmente publicados na coluna da semana seguinte:

[...] Acho que exagerei. Outro dia escrevi aqui que "ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficantes de um dos morros que cercam a Tijuca". As queixas não tardaram. "Desta vez você falou besteira. A despeito da barbárie que isso significa, aconteceu apenas uma vez", assinala Paulo Roberto Granja. 
"Nós, moradores deste bairro, não temos conhecimento de que uma vez por semana o comércio da Praça Saens Peña fecha. Só se é aos domingos! Fique sabendo que esta foi a primeira vez que isto aconteceu. De outra vez foi na Rua Conde de Bonfim, perto do Borel, e não em toda a Conde de Bonfim como pensa quem lê os jornais. Seria interessante que você viesse ao nosso bairro que é tão violento quanto qualquer outro do Rio ou de outras cidades do Brasil, mesmo acompanhado de seguranças para sua maior tranquilidade, para comprovar que as pessoas aqui levam uma vida normal, andam de ônibus, vão às lojas, aos shoppings e, logicamente, saem menos à noite como em todos os demais bairros. Parece que só aqui existe violência, mas leio diariamente notícias sobre assaltos e outros crimes em vários bairros como Botafogo, Barra, Recreio, Copacabana, embora a imprensa não dá o mesmo destaque", reclama Eugenia Szoor. 
"Como o senhor pode dizer uma coisa dessas? Só porque ouviu nas duas últimas semanas essa notícia, já condenou a Tijuca para o ano inteiro? O senhor sabe muito bem quais são os cariocas mais bairristas do Rio: os moradores da Ilha do Governador, os tijucanos e, apesar de tecnicamente não serem do Rio, os icaraienses. Então, como tijucano, solicito que esclareça em sua coluna que não foi bem isso o que queria dizer", exige Roberto Oliveira. Moral da história: com tijucano não se brinca. Portanto, não foi bem isso o que eu queria dizer.

XEXÉO, Artur. Os excluídos do cabelo duro. Como não dormir de touca e enfrentar tijucanos ofendidos. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 1 set. 2002.

Segundo Caderno, O Globo, 1o set. 2002.

Os e-mails e cartas não pararam, fazendo com que o assunto rendesse por mais de duas semanas. Xexéo reservou parte de sua coluna do dia 8 de setembro de 2002 para publicar, daquela vez, o relato de um tijucano que, diferentemente dos outros, ratificava a perspectiva levantada pelo jornalista no estopim da história. O título dessa coluna era sugestivo, "Entre tijucanos e insulanos", trazendo, ainda, comentários sobre o então recém-lançado filme "Cidade de Deus":

A Tijuca é mesmo uma caixinha de surpresas. Foi só eu voltar atrás e acabar admitindo que o bairro não é tão violento quanto pintam, para aparecerem os tijucanos que não acham nada disso, muito pelo contrário. Fala que eu te escuto, Reynaldo Tavares: 
"Desculpe-me abordá-lo com um tema já comentado, porém, como tijucano, com dois filhos no Colégio Marista São José, praticantes de esportes no Tijuca Tênis Clube e que estudam inglês também no bairro, quero dizer que não posso entender a posição de avestruz tomada por meus vizinhos e citada por você em sua coluna de domingo, pois tudo que você escreveu ainda é pouco para descrever o calvário em que vivemos no bairro. Quando dizem que a vida está normal pois continuam andando de ônibus, eu digo: e sendo assaltados! A Praça Saenz Peña é, sim, uma praça de guerra até o anoitecer, pois no acender das primeiras luzes é tomada por ambulantes agressivos e protegidos por algum tipo de poder paralelo, pois nada os assusta nem lhes causa respeito. Você não aumentou nada. O inferno é aqui e agora". 
Vocês são tijucanos, vocês que se entendam. Eu tô fora. No Bairro Peixoto. 
XEXÉO, Artur. Entre tijucanos e insulanos. Uma galinha no caminho da crítica a 'Cidade de Deus'. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 8 set. 2002.

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Opinião de O PASSEADOR TIJUCANO:

O que vou falar não é novidade para nenhum tijucano, mas apenas a confirmação - somos bairristas e contraditórios. Apesar da violência ter atingido toda a cidade, de 1990 a 2007 a Tijuca foi o bairro de classe média do Rio de Janeiro mais simbolicamente atingido pela falta de segurança pública. O depoimento da primeira leva de leitores reflete a principal faceta do tijucano, a de que só quem tem o direito de falar mal ou de se referir negativamente à Tijuca são seus próprios moradores. Todas as informações que, porventura, firam a imagem do bairro são atenuadas e contra-argumentadas por meio de suas palavras. Isso fica muito claro.

O leitor da última coluna, que corrobora com a perspectiva de Xexéo, aprofundando-a conforme sua experiência enquanto espectador (e participante) desse cenário, já representa o time dos bairristas "lúcidos". Observem que antes de dar o recado, Reynaldo Tavares enumera todas os hábitos que o legitimam como um "verdadeiro tijucano" para aí, sim, criticar aquele território onde está inserido e que o pertence.

De todas as formas, Xexéo estava certo: com tijucano não se brinca.

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Feliz 2016!

21 de dez. de 2015

Rua Conde de Bonfim: o coração da Tijuca

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

22 de mai. de 2015

Praça Xavier de Brito: "Casa-Grande & Senzala"?

Reproduções patriarcais na Praça Xavier de Brito: casa grande e senzala? (Foto: Emerson Guimarães)

Na manhã de hoje, recebi de um amigo o link para o texto "Severino, me ajuda", de autoria da jornalista Pollyanna Brêtas, que escreve para a Le Monde Diplomatique Brasil. No seu relato, em forma de crônica, Pollyana utiliza como pano de fundo a Praça Xavier de Brito, na Muda, para compor a crítica central da sua observação: a reprodução de comportamentos sociais, naquela praça, que aludem à imagem de casa grande e senzala filosofada pelo sociólogo Gilberto Freyre em seu livro homônimo de 1933. Segundo a autora, à sombra de flamboyants, os meninos, todos negros ou mulatos, puxam cavalos para deleite do ‘senhozinho’. A sociedade patriarcal brasileira está ali sintetizada sem que ninguém se dê conta. As crianças dos dois lados são exploradas.
Nesse artigo, a autora elucida os bastidores do fantástico e pueril parque de diversões da Tijuca, que, diante de tantas belezas e atrações tradicionais, como o passeio de charrete, por vezes tende a velar o árduo trabalho de crianças negras e mulatas – em geral, pobres e moradoras de favelas – que, num domingo de sol, quando deveriam estar se divertindo tais quais às crianças “brancas” da classe média na pracinha, por outra perspectiva, também estão lá, mas para servir a estas e a seus pais que contratam o serviço dos corcéis.

Leia o artigo de Pollyanna Brêtas na íntegra: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1878

A sensibilidade de Pollyanna Brêtas não foi única. Em julho de 2013, o internauta Emerson Guimarães publicou uma foto da Praça Xavier de Brito, de sua autoria, na página Lente Tijucana do Facebook com a seguinte legenda: “Xavier de Brito... Alegria e tristeza andam juntos”. Tal imagem, que ilustra a portada deste post, mostra dois adolescentes negros puxando outros dois cavalinhos que transportam, aparentemente, irmãs gêmeas, bem pequenas, e “brancas”. A foto, bastante contemplativa, abre margem para reflexões sobre nossas questões sociais que conjugam consideravelmente com a imagem de casa grande e senzala apontada por Brêtas, na Le Monde Diplomatique Brasil deste mês.

Quem é leitor de O PASSEADOR TIJUCANO sabe bem que a Praça Xavier de Brito é a minha predileta na Tijuca. O lugar, bucólico, cheira à nostalgia, é lindo e ultimamente tem sido ponto de encontro para diferentes lazeres e serviços, como o Faz na Praça e a feirinha orgânica, que acontece todos os sábados. No entanto, a reflexão de Brêtas chega em hora boa como uma inestimável contribuição para todos os frequentadores e moradores dessa belíssima praça: uma vez que não depende exclusivamente de nós mesmos modificar determinadas estruturas sociais, no entanto, pelo menos devemos estar mais atentos à forma como esses meninos são tratados nos dias em que há passeios de cavalo por lá. Mais gentileza e mais educação a eles não são suficientes para “aliviar” suas condições, embora representem o ponto de partida para o estabelecimento de uma relação menos desarmoniosa e menos socialmente hierarquizada.

6 de mai. de 2015

Ode à Praça Xavier de Brito

Ode à Praça Xavier de Brito: poema preso na parede do Bar do Neca chama a atenção
 pela declaração de amor à praça

Domingo passado, andando de bicicleta pela Tijuca, acabei parando no Bar do Neca para tomar um pouco de água e, claro, descansar na Praça Xavier de Brito. Conversa vai, conversa vem, notei, presa à parede do tradicional bar, uma folha de papel escrita à mão: era um poema sobre a formosa e idolatrada Praça dos Cavalinhos. O simpático dono, o Seu Manuel, um português que cuida sozinho do estabelecimento, disse que desconhece o autor destas estrofes, largada ali, em sua bancada, já no longínquo ano de 2007. O passeador tijucano reproduz, então, na íntegra, os sábios (e condizentes) dizeres de O. A. T.:




Praça Xavier de Brito
Recinto espetacular
Aos domingos, crianças, cavalos e cabritos
Ao redor, muita gente a caminhar

Quem aqui vem passear
Sente-se alegre e feliz
Ao ver a água a jorrar
No tradicional chafariz

Vêem-se peixinhos nadando
Ouve-se o cantar da passarada
Em volta cavalos cavalgando
Carregando a criançada

Vêem-se pombinhas andando
Vêem-se plantas em flor
Vêem-se pessoas se exercitando
Comandadas pelo professor

Finais de semana são festivos
Cerveja no copo ou caneca,
É o encontro dos amigos
No tradicional Bar do Neca

Enquanto eu viver
Bem alto teu nome grito
Jamais vou-te esquecer
Ó praça Xavier de Brito

por O. A. T. (2007)

2 de mai. de 2015

Nas calçadas tijucanas, os resquícios das pedras portuguesas

O chão original da Conde de Bonfim: pedras portuguesas entre a Saenz Peña e a Haddock Lobo.

Tidas como símbolo maior do calçadão da praia de Copacabana, assim como marco do urbanismo de praças e calçadas do século XX, as pedras portuguesas estão ganhando cada vez menos espaço nas áreas públicas da cidade. Seja pelo alto custo de manutenção, seja pelos supostos riscos que comprometem a mobilidade do pedestre, essa belíssima herança lusitana ainda encanta e suspira os cariocas que têm o privilégio de tê-las em seus bairros ou ruas de estimação.

Aqui na Tijuca, as pedras portuguesas estão por todas as partes, mas de forma descontínua. Uma caminhada atenta pelo bairro permite observar como as vias principais da Tijuca dispunham de desenhos próprios de pedras portuguesas, alterados e/ou fragmentados na medida em que intervenções urbanísticas foram sendo realizadas sem que a concepção original das calçadas fosse preservada. O mesmo vale para as construções aparentemente ilegais de prédios e muros que não respeitaram o alinhamento primário das calçadas, criando, desta maneira, curvas e interrupções no passeio.


Na Muda, o mesmo chão de pedras portuguesas foi preservado na esquina da Conde de Bonfim
com Rua Mário de Alencar:

Uma primeira evidência de que a Rua Conde de Bonfim detinha um desenho particular de pedras portuguesas em toda sua extensão pode ser comprovada nos trechos em que o Rio Cidade não interveio. Em 1995, o programa de remodelação estética do ex prefeito César Maia trouxe uma nova identidade urbanística para o trecho da Conde de Bonfim entre a Praça Saens Peña e a Rua Uruguai, substituindo todo o piso da praça e das calçadas por placas de cimento.

O piso original da região da Saenz Peña, antes do Rio Cidade 1995: rua Doutor Pereira dos Santos.

Assim, o piso original aplicado à Conde de Bonfim, que lembra o formato de losangos acompanhados por linhas pretas, se manteve apenas na região da Muda e da Usina e entre a Rua Pareto e o Largo da Segunda-Feira, estendendo-se também para a Rua Haddock Lobo. Além disso, ruas adjacentes a essas vias também eram contempladas pelo piso; até hoje, um passeio pelas ruas Carlos Vasconcelos, Moura Brito, Marechal Trompowsky, Canuto Saraiva, entre outras, deixa à mostra o resquício desse desenho.

No entanto, vale lembrar que o modelo do piso da Praça Saens Peña era diferente do da Rua Conde de Bonfim. Na praça, o chão também tinha um desenho geométrico, mas com um desenho que lembra “pontas”. Os resquícios desse piso podem ser vistos apenas no trecho da Rua Doutor Pereira dos Santos próximo à sua esquina com Rua General Roca; ali, aparentemente, o Rio Cidade não chegou a intervir, o que se por um lado é motivo de contentamento para os nostálgicos, por outro deixa provas de como tais obras nem sempre prezaram a qualidade no seu acabamento.

Na Avenida Maracanã, o piso segue a mesma linha que aquela aplicada ao calçadão de Ipanema.

Na Rua Barão de Mesquita, as pedras portuguesas seguem o mesmo padrão que o da Rua São
Francisco Xavier, mas de maneira precária; veja o mal estado de conservação.

Além da Conde de Bonfim, vias como a Avenida Maracanã e as ruas Almirante Cochrane, São Francisco Xavier e Rua Barão de Mesquita também mantêm até hoje, em muitos dos seus trechos, resquícios não só de pedras portuguesas, mas de todo o projeto particular aplicado a cada um desses logradouros. No canteiro central da Avenida Maracanã, em especial no trecho entre a São Francisco Xavier e a Praça Lamartine Babo, o desenho de pedras portuguesas é idêntico àquele implementado no calçadão da praia de Ipanema. A própria Praça Varnhagen detinha esse piso até pouco tempo atrás, quando foi interditada para a construção de um reservatório subterrâneo. Seguramente, as pedras portuguesas não serão devolvidas – vide o caso da Praça da Bandeira.

O chão de flores da Rua Almirante Cochrane, nas imediações da Rua Marquês de Valença.

As ruas Barão de Mesquita e São Francisco Xavier, por sua vez, também fizeram parte de um mesmo projeto conceitual de piso. Tal qual o caso da Conde de Bonfim, esse conjunto de ruas – que também abarca as vias transversais – passou por uma série de descaracterizações, supostamente com o advento dos edifícios residenciais na Tijuca durante os anos 1970. Panorama similar é o da Rua Almirante Cochrane – seu chão de pedras apresenta um desenho que lembra flores – que foi parcialmente destruída entre 1976 e 1982 para a construção do metrô no bairro.

19 de abr. de 2015

Tijuca em preto e branco: cotidiano e paisagens

Rua Conde de Bonfim (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Morro do Salgueiro e Sumaré, com Rua Moura Brito em primeiro plano (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Muda (Foto: Pedro Paulo Bastos)

O Cristo, na perspectiva da Rua Professor Gabizo (Foto: Pedro Paulo Bastos)

O táxi-fusca da Usina (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Granado (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Rua Caruso, a rua do art déco tijucano (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Praça Lamartine Babo (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Remanescente arquitetura da Rua Bom Pastor (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Bate-papo na Saenz Peña (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Haddock x Campos Sales (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Pedalada na Praça dos Cavalinhos (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Praça Saenz Peña (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Rua Conde de Bonfim II (Foto: Pedro Paulo Bastos)

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