30 de mai. de 2015

Sinalização estilo wayfinding chega à Tijuca

Sinalização turística estilo wayfinding na Pareto com Heitor Beltrão: orientação geográfica ao pedestre.

A Tijuca não é lá um bairro turístico, mas está ganhando sinalização de tal gênero. O projeto de wayfinding, elaborado pela Secretaria Especial de Turismo desta cidade, consiste na implantação de totens bilíngues que orientem o pedestre sobre serviços e pontos turísticos locais, além de mapas dos arredores e a estimativa em minutos do tempo de caminhada entre um ponto e outro.

Aqui no bairro, esses totens estão sendo colocados em vias de grande movimento, sobretudo aquelas no eixo do metrô ou em ruas que se conectem facilmente com o estádio do Maracanã. O painel que ilustra esta publicação está situado no cruzamento da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Pareto, um pouco antes de chegar à Praça Saenz Peña. Em uma breve caminhada pela região, descobri outros totens já instalados na Almirante Cochrane com Conde de Bonfim e na Major Ávila com Barão de Mesquita.

Esse projeto, ja implantado parcialmente na Zona Sul, é executado pelo Consórcio Rio Inteligente, ganhador da licitação, que atua em parceria com outras empresas de design e engenharia. O layout escolhido segue o padrão internacional e tem grande semelhança com projetos de wayfinding de cidades como Londres, Nova York, Cleveland e Brighton, no Reino Unido. Até o fim do ano, a Prefeitura pretende instalar cerca de 500 painéis desses tanto na Zona Sul, como no Centro, na Barra e na Tijuca/Maracanã.

22 de mai. de 2015

Praça Xavier de Brito: "Casa-Grande & Senzala"?

Reproduções patriarcais na Praça Xavier de Brito: casa grande e senzala? (Foto: Emerson Guimarães)

Na manhã de hoje, recebi de um amigo o link para o texto "Severino, me ajuda", de autoria da jornalista Pollyanna Brêtas, que escreve para a Le Monde Diplomatique Brasil. No seu relato, em forma de crônica, Pollyana utiliza como pano de fundo a Praça Xavier de Brito, na Muda, para compor a crítica central da sua observação: a reprodução de comportamentos sociais, naquela praça, que aludem à imagem de casa grande e senzala filosofada pelo sociólogo Gilberto Freyre em seu livro homônimo de 1933. Segundo a autora, à sombra de flamboyants, os meninos, todos negros ou mulatos, puxam cavalos para deleite do ‘senhozinho’. A sociedade patriarcal brasileira está ali sintetizada sem que ninguém se dê conta. As crianças dos dois lados são exploradas.
Nesse artigo, a autora elucida os bastidores do fantástico e pueril parque de diversões da Tijuca, que, diante de tantas belezas e atrações tradicionais, como o passeio de charrete, por vezes tende a velar o árduo trabalho de crianças negras e mulatas – em geral, pobres e moradoras de favelas – que, num domingo de sol, quando deveriam estar se divertindo tais quais às crianças “brancas” da classe média na pracinha, por outra perspectiva, também estão lá, mas para servir a estas e a seus pais que contratam o serviço dos corcéis.

Leia o artigo de Pollyanna Brêtas na íntegra: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1878

A sensibilidade de Pollyanna Brêtas não foi única. Em julho de 2013, o internauta Emerson Guimarães publicou uma foto da Praça Xavier de Brito, de sua autoria, na página Lente Tijucana do Facebook com a seguinte legenda: “Xavier de Brito... Alegria e tristeza andam juntos”. Tal imagem, que ilustra a portada deste post, mostra dois adolescentes negros puxando outros dois cavalinhos que transportam, aparentemente, irmãs gêmeas, bem pequenas, e “brancas”. A foto, bastante contemplativa, abre margem para reflexões sobre nossas questões sociais que conjugam consideravelmente com a imagem de casa grande e senzala apontada por Brêtas, na Le Monde Diplomatique Brasil deste mês.

Quem é leitor de O PASSEADOR TIJUCANO sabe bem que a Praça Xavier de Brito é a minha predileta na Tijuca. O lugar, bucólico, cheira à nostalgia, é lindo e ultimamente tem sido ponto de encontro para diferentes lazeres e serviços, como o Faz na Praça e a feirinha orgânica, que acontece todos os sábados. No entanto, a reflexão de Brêtas chega em hora boa como uma inestimável contribuição para todos os frequentadores e moradores dessa belíssima praça: uma vez que não depende exclusivamente de nós mesmos modificar determinadas estruturas sociais, no entanto, pelo menos devemos estar mais atentos à forma como esses meninos são tratados nos dias em que há passeios de cavalo por lá. Mais gentileza e mais educação a eles não são suficientes para “aliviar” suas condições, embora representem o ponto de partida para o estabelecimento de uma relação menos desarmoniosa e menos socialmente hierarquizada.

21 de mai. de 2015

Limites imprecisos: final da José Higino é Tijuca ou Vila Isabel?

Final da Rua José Higino, junto ao SESC: limites indefinidos.

O mistério ronda o final da Rua José Higino; a que bairro pertence, afinal, à Tijuca ou à Vila Isabel? Para a Plamarc, empresa responsável pela confecção e manutenção dos postes de identificação de logradouros, a esquina da Rua José Higino com a Rua Barão de Mesquita pertence à Vila Isabel, muito embora a “Zé” Higino seja um endereço tradicionalmente tijucano. E é.

Ultimamente, o Google tem se tornado uma grande referência no que tange aos dados da cidade. Bastam alguns manuseios detalhados pelo Google Mapas para que se descubra, num piscar de olhos – ou melhor, a um clique do mouse – os domínios exatos de cada bairro carioca. Para a não surpresa, toda a extensão da Rua José Higino pertence à Tijuca. Por outro lado, é esse trecho da Barão de Mesquita, como vocês podem ver no mapa, o limiar entre a Tijuca, Andaraí e Vila Isabel.

Reprodução: Google.

A questão toda é que tal confusão de limites tem uma razão: toda a região compreendida entre a Barão de Mesquita e a Maxwell, da Pereira Nunes até a Uruguai, era conhecida como Aldeia Campista, o bairro imortalizado por Nelson Rodrigues, mas esquecido por muitos tijucanos e até mesmo pela Prefeitura do Rio de Janeiro.

Toda a área da Aldeia Campista, no entanto, foi anexada, em parte, à Vila, e outra parte, ao Andaraí, tal qual hoje em dia Muda e Usina pertencem à Tijuca. De todo modo, a José Higino é e sempre foi da Tijuca. Conserta isso, Plamarc!

6 de mai. de 2015

Ode à Praça Xavier de Brito

Ode à Praça Xavier de Brito: poema preso na parede do Bar do Neca chama a atenção
 pela declaração de amor à praça

Domingo passado, andando de bicicleta pela Tijuca, acabei parando no Bar do Neca para tomar um pouco de água e, claro, descansar na Praça Xavier de Brito. Conversa vai, conversa vem, notei, presa à parede do tradicional bar, uma folha de papel escrita à mão: era um poema sobre a formosa e idolatrada Praça dos Cavalinhos. O simpático dono, o Seu Manuel, um português que cuida sozinho do estabelecimento, disse que desconhece o autor destas estrofes, largada ali, em sua bancada, já no longínquo ano de 2007. O passeador tijucano reproduz, então, na íntegra, os sábios (e condizentes) dizeres de O. A. T.:




Praça Xavier de Brito
Recinto espetacular
Aos domingos, crianças, cavalos e cabritos
Ao redor, muita gente a caminhar

Quem aqui vem passear
Sente-se alegre e feliz
Ao ver a água a jorrar
No tradicional chafariz

Vêem-se peixinhos nadando
Ouve-se o cantar da passarada
Em volta cavalos cavalgando
Carregando a criançada

Vêem-se pombinhas andando
Vêem-se plantas em flor
Vêem-se pessoas se exercitando
Comandadas pelo professor

Finais de semana são festivos
Cerveja no copo ou caneca,
É o encontro dos amigos
No tradicional Bar do Neca

Enquanto eu viver
Bem alto teu nome grito
Jamais vou-te esquecer
Ó praça Xavier de Brito

por O. A. T. (2007)

4 de mai. de 2015

Usina, oásis e tradição na Tijuca

A Conde de Bonfim, na Usina: mais perto da Floresta.
A Usina sofre de uma espécie de rejeição calamitosa: suas ruas são desertas, aparentemente relegadas pelos pedestres, que, com exceção dos poucos moradores dali, circulam somente a bordo de seus carros rumo ao Alto da Boa Vista ou à Praça Saenz Peña. Grande pecado: além de ser uma das regiões mais bucólicas e agradáveis do nosso bairro, a Usina é também o local onde a Tijuca mostra com rigor a sua tradição e simbolismo histórico no contexto da cidade do Rio de Janeiro. Explico-me.

Uns desses primeiros indícios estão na Rua São Rafael, ruazinha pequena entre as ruas São Miguel e Conde de Bonfim. Chama a atenção por ali o conjunto de resistentes casas centenárias, bem de frente para a Avenida Maracanã. Os janelões frontais e os emblemas no topo da fachada estão preservados e remetem o pedestre a uma Tijuca pacata e aristocrática, mais conhecida por suas “benesses” serranas do que por sua intensa urbanidade como é hoje observada. O estilo da arquitetura e a ambiência local favorecem a imaginação: que famílias terão vivido lá? No lado de dentro, o que se preservou?

Um passo adiante, ainda na Rua São Rafael, é possível deparar-se com o córrego do Rio Maracanã perpassando, a alguns metros de profundidade, uma série de casas deterioradas. Nesse panorama, cabe destacar o estado límpido da água, que transcorre entre pedras e pequenas vegetações. Como essa região é um aclive – afinal, é a subida para a Floresta –, a água do Rio Maracanã ganha força e, em alguns trechos observáveis, tem um aspecto de riacho que ecoa um relaxante barulhinho por toda a bucólica Rua São Rafael.

Rua São Rafael: janelas frontais e emblemas no topo da fachada remetem ao século XIX.


O muro mais do que centenário da Rua São Rafael: placa remete ao ano de 1895.

No entanto, não era apenas este detalhe que eu queria lhes comentar. A vista para o Rio Maracanã é protegida por uma mureta de pedra que existe em ambos os lados da rua. Até aí, nada de demais – eu estaria falando apenas de um muro qualquer se não fosse o que há preso a este muro, algo que lhe dá uma importância extraordinária: uma placa aparafusada com o ano de “1895”. É bem capaz de que até os próprios moradores da região sequer tenham notado de que se trata de um muro centenário cuja placa – desde já, patrimônio nobilíssimo desta cidade – jaz sem nenhum tipo de aclamação.


Armazém do Loureiro: mercearia desde os anos 1930 na São Rafael com Conde de Bonfim.

Na esquina da Rua São Rafael com a Rua Conde de Bonfim, outra perseverante joia arquitetônica: o Armazém do Loureiro. Negócio familiar, inaugurado nos anos de 1930 pelo português “Seu” Loureiro, o armazém é uma espécie de mercearia que, até pouco tempo, era bastante resistente e alternativo frente à hegemonia dos supermercados. Segundo O Globo, de 22 de dezembro de 1987, o Armazém Loureiro era o local de compras preferido dos moradores da Usina por causa da qualidade dos produtos vendidos, como arroz, feijão, bacalhau, sardinhas portuguesas, vinho alemão e do Porto, uísque escocês, champanhe francesa, entre outros. A tradição do local é tanta que por muitos anos foram adeptos da venda a fiado, com caderninho e tudo para anotar as despesas de cada freguês.

Resquício dos trilhos dos bondes no Largo da Usina

Rua Rocha Miranda, na divisa com o Alto: residências espaçosas em local aprazível.
Outro casario remanescente de outrora, na Conde de Bonfim: à esquerda, a Herbert Ritchers.

Edifício Jequitibá: modernismo na Conde de Bonfim.
No Largo da Usina, os trilhos dos bondes ainda permanecem à mostra, como se pudessem voltar a ser utilizados a qualquer momento tal qual antigamente, quando a Usina, na verdade, era uma usina termoelétrica que gerava energia para esse meio de transporte. O Largo continua sendo um marco da região, na divisa entre a Tijuca e o Alto da Boa Vista, cujas ruas transversais ainda resguardam os signos de nobreza e sofisticação do bairro, como a Rua Rocha Miranda, ao passo que outras, mesmo assoladas pela decadência, ainda preservam o aspecto familiar e de calmaria, como o das ruas próximas ao Hospital da Ordem Terceira da Penitência.

Outro trecho interessante da Usina está na Rua Conde de Bonfim entre os números 1325 e 1337. No primeiro número, temos o Edifício Jequitibá, um belíssimo residencial modernista que se destaca na paisagem da rua com seus azulejos que remetem à obra de Athos Bulcão e as janelas venezianas que deslizam pela fachada. Ao lado desse edifício, outro marco da Usina: o imóvel onde funcionava a Herbert Ritchers, um dos estúdios de dublagem mais famosos do Brasil, falido em 2009. Abandonado, há uma vegetação crescente pela fachada, que há tempos já não deixa mais à vista o letreiro do derradeiro estúdio. E, por fim, nos números 1335 e 1337, vê-se mais um conjunto de casas centenárias intactas, que continuam preservando a história da Usina assim como as vizinhas na Rua São Rafael.

O que mostrei se trata apenas de um resumo das surpresas e detalhes que a Usina resguarda, esse pedacinho da Tijuca, por vezes, tão maltratado e pouco desfrutado pelos tijucanos. As fotos dão um destaque à beleza local: entende, agora, caro leitor, por que a Usina merece ser “passeada”?

2 de mai. de 2015

Nas calçadas tijucanas, os resquícios das pedras portuguesas

O chão original da Conde de Bonfim: pedras portuguesas entre a Saenz Peña e a Haddock Lobo.

Tidas como símbolo maior do calçadão da praia de Copacabana, assim como marco do urbanismo de praças e calçadas do século XX, as pedras portuguesas estão ganhando cada vez menos espaço nas áreas públicas da cidade. Seja pelo alto custo de manutenção, seja pelos supostos riscos que comprometem a mobilidade do pedestre, essa belíssima herança lusitana ainda encanta e suspira os cariocas que têm o privilégio de tê-las em seus bairros ou ruas de estimação.

Aqui na Tijuca, as pedras portuguesas estão por todas as partes, mas de forma descontínua. Uma caminhada atenta pelo bairro permite observar como as vias principais da Tijuca dispunham de desenhos próprios de pedras portuguesas, alterados e/ou fragmentados na medida em que intervenções urbanísticas foram sendo realizadas sem que a concepção original das calçadas fosse preservada. O mesmo vale para as construções aparentemente ilegais de prédios e muros que não respeitaram o alinhamento primário das calçadas, criando, desta maneira, curvas e interrupções no passeio.


Na Muda, o mesmo chão de pedras portuguesas foi preservado na esquina da Conde de Bonfim
com Rua Mário de Alencar:

Uma primeira evidência de que a Rua Conde de Bonfim detinha um desenho particular de pedras portuguesas em toda sua extensão pode ser comprovada nos trechos em que o Rio Cidade não interveio. Em 1995, o programa de remodelação estética do ex prefeito César Maia trouxe uma nova identidade urbanística para o trecho da Conde de Bonfim entre a Praça Saens Peña e a Rua Uruguai, substituindo todo o piso da praça e das calçadas por placas de cimento.

O piso original da região da Saenz Peña, antes do Rio Cidade 1995: rua Doutor Pereira dos Santos.

Assim, o piso original aplicado à Conde de Bonfim, que lembra o formato de losangos acompanhados por linhas pretas, se manteve apenas na região da Muda e da Usina e entre a Rua Pareto e o Largo da Segunda-Feira, estendendo-se também para a Rua Haddock Lobo. Além disso, ruas adjacentes a essas vias também eram contempladas pelo piso; até hoje, um passeio pelas ruas Carlos Vasconcelos, Moura Brito, Marechal Trompowsky, Canuto Saraiva, entre outras, deixa à mostra o resquício desse desenho.

No entanto, vale lembrar que o modelo do piso da Praça Saens Peña era diferente do da Rua Conde de Bonfim. Na praça, o chão também tinha um desenho geométrico, mas com um desenho que lembra “pontas”. Os resquícios desse piso podem ser vistos apenas no trecho da Rua Doutor Pereira dos Santos próximo à sua esquina com Rua General Roca; ali, aparentemente, o Rio Cidade não chegou a intervir, o que se por um lado é motivo de contentamento para os nostálgicos, por outro deixa provas de como tais obras nem sempre prezaram a qualidade no seu acabamento.

Na Avenida Maracanã, o piso segue a mesma linha que aquela aplicada ao calçadão de Ipanema.

Na Rua Barão de Mesquita, as pedras portuguesas seguem o mesmo padrão que o da Rua São
Francisco Xavier, mas de maneira precária; veja o mal estado de conservação.

Além da Conde de Bonfim, vias como a Avenida Maracanã e as ruas Almirante Cochrane, São Francisco Xavier e Rua Barão de Mesquita também mantêm até hoje, em muitos dos seus trechos, resquícios não só de pedras portuguesas, mas de todo o projeto particular aplicado a cada um desses logradouros. No canteiro central da Avenida Maracanã, em especial no trecho entre a São Francisco Xavier e a Praça Lamartine Babo, o desenho de pedras portuguesas é idêntico àquele implementado no calçadão da praia de Ipanema. A própria Praça Varnhagen detinha esse piso até pouco tempo atrás, quando foi interditada para a construção de um reservatório subterrâneo. Seguramente, as pedras portuguesas não serão devolvidas – vide o caso da Praça da Bandeira.

O chão de flores da Rua Almirante Cochrane, nas imediações da Rua Marquês de Valença.

As ruas Barão de Mesquita e São Francisco Xavier, por sua vez, também fizeram parte de um mesmo projeto conceitual de piso. Tal qual o caso da Conde de Bonfim, esse conjunto de ruas – que também abarca as vias transversais – passou por uma série de descaracterizações, supostamente com o advento dos edifícios residenciais na Tijuca durante os anos 1970. Panorama similar é o da Rua Almirante Cochrane – seu chão de pedras apresenta um desenho que lembra flores – que foi parcialmente destruída entre 1976 e 1982 para a construção do metrô no bairro.

19 de abr. de 2015

Tijuca em preto e branco: cotidiano e paisagens

Rua Conde de Bonfim (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Morro do Salgueiro e Sumaré, com Rua Moura Brito em primeiro plano (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Muda (Foto: Pedro Paulo Bastos)

O Cristo, na perspectiva da Rua Professor Gabizo (Foto: Pedro Paulo Bastos)

O táxi-fusca da Usina (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Granado (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Rua Caruso, a rua do art déco tijucano (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Praça Lamartine Babo (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Remanescente arquitetura da Rua Bom Pastor (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Bate-papo na Saenz Peña (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Haddock x Campos Sales (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Pedalada na Praça dos Cavalinhos (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Praça Saenz Peña (Foto: Pedro Paulo Bastos)

Rua Conde de Bonfim II (Foto: Pedro Paulo Bastos)

8 de abr. de 2015

Comoção pelo último sanduíche: filial tijucana drive-thru do Bob's vai fechar

Panorama do Bob's Drive Thru, ao lado do Off Shopping: após 27 anos de existência, encerrará suas atividades.

Quem deu a notícia em primeira mão foi a coluna Gente Boa, do Segundo Caderno (Jornal O Globo, 02/04/2015) anunciando “que a Tijuca perderia mais um de seus símbolos”. No caso, a nota se referia como símbolo tijucano ao Bob's Drive Thru do Tijuca Off-Shopping, inaugurado em 1988 sob a alcunha de “maior Bob's do Rio”, cujo fechamento está previsto para o final deste mês de abril. A razão do encerramento das atividades ali seria por causa do alto valor do aluguel estipulado para o local, pois, segundo a matéria, seus rendimentos já não seriam mais sustentáveis com o período atual de crise.

A notícia se espalhou rapidamente pelas redes sociais, gerando comoção e nostalgia: foi criado um evento no Facebook convocando tijucanos e simpatizantes da causa a lanchar pela última vez na referida filial do Bob’s no próximo domingo, 12 de abril, a partir das 17 horas. O sucesso da página foi tanto que, até o fechamento desta publicação, o evento já contava com mais de 13 mil pessoas confirmadas. Embora se saiba que esse número nem sempre se torna real na prática, vale destacar a movimentação do fórum de discussão da página, que, entre relatos saudosos e tons de revolta, há também aqueles poucos que questionam o porquê de tamanha euforia, se o Drive-Thru do Off-Shopping só vive vazio. E é verdade.

Anúncio publicitário de inauguração do Bob's Drive Thru da Tijuca, em 1988

Já faz um bom tempo que esta filial do Bob’s, com capacidade para cerca de 250 pessoas, já não funcionava na íntegra. Os três andares da loja, que em tempos remotos serviram como ponto de encontro de estudantes e cenários de festinhas de aniversário, já vinham sendo interditados por falta de público. Soma-se a isso o fato de que o serviço do Bob’s, de uma forma geral, decaiu bastante ao longo das últimas décadas sem que o preço acompanhasse a queda na qualidade dos produtos. É normal, portanto, que a clientela habitual optasse por lanchar em outros estabelecimentos, mas ninguém esperava que isso um dia pudesse acontecer: eis o motivo de tanta comoção, até mesmo de protesto!

Referências do Bob's: milk shake, cheeseburger e batata
Um detalhe curioso cabível de destaque aqui é sobre a menção ao Bob’s como “símbolo da Tijuca”. Inaugurado em 1958 na esquina da Rua Santo Afonso com General Roca, o Bob’s ganhou sua segunda filial alguns anos mais tarde, em 1976, na Praça Saens Peña, e a terceira (e maior da cidade), no final de 1988, inovando como loja na modalidade drive-through. Muitos não se lembram (outros nem mesmo eram nascidos), mas o império do Bob’s na Tijuca durou até 1993, quando finalmente o McDonald’s conseguiu aportar sua primeira filial por aqui, também em sistema de drive-through, no mesmo endereço: a Rua Barão de Mesquita, na outra extremidade do Off-Shopping.

Segundo o professor Eduardo Halpern, professor adjunto do IBMEC e da UNIRIO na área de Marketing Estratégico, o McDonald’s demorou a chegar à Tijuca precisamente porque o Bob’s, com suas três filiais nos arredores da Praça Saens Peña, funcionava como barreira de entrada a outras lanchonetes do segmento de fast food. E tamanho império – que, a partir dos anos 1990, se espraiou para a Rua Uruguai, o shopping e, mais recentemente, para a Haddock Lobo – fazia parte dos hábitos arraigados de consumo do tijucano. Em reportagem de O Globo, de março de 1990, titulada "Caso de paixão radical", (já reproduzida aqui em O passeador tijucano), a repórter Cláudia Belém apontou: “Quando criança, o tijucano passeia na Praça Saens Peña, adora o sorvete do Palheta e do Pinóquio e os sanduíches do Bob’s, que ele não trai por nenhum McDonald’s”.

Veja mais: Último lanche no Bob's Tijuca - Recordar é viver: 12 de abril de 2015 (domingo), 17 horas.

Cartilha de consumo do Bob's: outro clássico publicitário de 1988.

As divagações sobre o futuro do emblemático prédio do Bob’s no Tijuca Off-Shopping são muitas: alguns comentam que se transformará em mais uma agência bancária, o que seria um retrocesso para o bairro cujo perímetro comercial já conta com dezenas delas – incluindo farmácias e óticas, segmentos que vêm assolando a região da Saens Peña há mais de dez anos.

Resta, então, a nossa torcida para que a Tijuca consiga se reinventar mediante o oferecimento de uma nova opção gastronômica neste prédio. Potencial existe de sobra: o Balada Mix, o Koni Store, o Pizza & Grill, entre outros, são exemplos de sucesso na vizinhança do agonizante Bob’s. Além disso, a Tijuca tem uma demanda reprimida por restaurantes e bares; a vacância do Bob’s pode ser uma ótima oportunidade para tal. De resto, basta marcar na agenda: 12 de abril de 2015, o dia do tijucano se despedir do Bob’s que marcou gerações no seu bairro.

3 de abr. de 2015

Arquivo Nacional publica vídeo inédito com cenas da Tijuca nos anos 1950

Praça Saens Peña nos anos 1950.  Fonte: GuaraAntiga.
Os fanáticos (e nostálgicos) da Tijuca tiveram uma grata surpresa esta semana no Facebook. A fanpage do portal Na Tijuca publicou um vídeo do Arquivo Nacional em homenagem aos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro com cenas nunca antes exibidas do cotidiano do bairro em 15 de junho de 1956, produzidas pela antiga TV Tupi.

Com duração de pouco mais de dois minutos, é possível ver cenas dos bondes circulando pelas ruas cujo espaço aéreo era tomado por fiações similares a teias de aranha. Num dado momento do vídeo, a câmera foca a Praça Saens Peña (em especial, a uma placa de rua) e toda a movimentação na porta do Cinema Carioca e do Metro, este demolido em 1976 para dar lugar à C&A. O burburinho do Café Palheta é antevisto por uma concentração de pessoas à espera do bonde, na Conde de Bonfim. Nos anos 1950, as ruas da Tijuca já evidenciavam a disputa dos seus espaços pelos bondes e pelos automóveis.

A outrora bucólica Praça Saens Peña é exibida como lócus das sociabilidades locais, lugar ideal para brincadeiras infantis, passeios e leituras de livros e jornais. O extinto Cine Olinda também aparece em 1:56 junto a outros ícones da arquitetura residencial do bairro. No final, um breve relance mostra a Igreja dos Sagrados Corações, um dos templos católicos mais célebres da Tijuca.


Um passeio pela História da Tijuca.Arquivo Nacional nos 450 anos do Rio de Janeiro #rio450Imagens do bonde circulando pelas ruas da Tijuca, do comércio e de praças do bairro, em 1957.Arquivo Nacional. Tv Tupi. Cenas da Tijuca. [Imagens do bairro da Tijuca no Rio de Janeiro]. Crônica da cidade de G. Figueiredo, 15/06/56.BR AN, RIO NO.0.FIL.297
Posted by Na Tijuca on Sexta, 27 de março de 2015

À beira da mediocridade, Prefeitura inaugura a nova Praça da Bandeira

Imagem aérea da nova Praça da Bandeira, inaugurada em 7 de fevereiro: projeto pobre compromete
a estética local. Fonte: Divulgação Prefeitura do Rio.

Após dois anos interditada para obras contra enchentes, a Praça da Bandeira foi reinaugurada no início de fevereiro deste ano com novo mobiliário urbano e paisagismo. O evento, que reuniu autoridades locais e municipais, contou com a apresentação do concerto da Banda da Guarda Municipal acompanhada da cerimônia de hasteamento da bandeira brasileira, devolvida finalmente à praça carioca que lhe dá o nome.

A interdição fez parte de um conjunto de obras destinado a melhorias urbanísticas na cidade do Rio de Janeiro em virtude dos jogos olímpicos do ano que vem, 2016. Desse modo, a construção de um reservatório subterrâneo na Praça da Bandeira promete acabar com as clássicas enchentes que assolam tal área do município, e, consequentemente, é motivo de comemoração para os moradores e comerciantes de lá que há tantas décadas sofrem com os temporais.

Mesmo diante de tantas perspectivas otimistas sobre a região da Praça da Bandeira, que, a partir deste ano, ao que tudo indica, estará “salva” dos dilúvios cariocas, é cabível destacar a decepção com o resultado final da praça em si. Fruto de um projeto urbanístico que aparentemente tem sido igual para todas as outras praças e espaços públicos revitalizados há pouco tempo no Rio, a remodelação na superfície da praça durou pouco menos de dois meses. Para uma área que ficou interditada por dois anos, o que seriam dois meses? Eficiência ou trabalho mal feito?

As imagens divulgadas nas redes sociais da Prefeitura e da Subprefeitura da Grande Tijuca não deixam mentir: a Praça da Bandeira foi contemplada por um projeto pobre em termos estéticos. Quem passa pela região com frequência e tem um mínimo de senso crítico, também já deve ter percebido este detalhe. A nova praça dispõe de pisos acimentados (ficarão encardidos logo, logo), palmeiras esquálidas sustentadas por pedaços de madeira, gramado e jardim simplórios, que beiram a inexpressão, sem mencionar a sensação de aridez emanada pelo local nos dias de calor.

O panorama não difere em nada do que foi feito recentemente no entorno do estádio do Maracanã, por exemplo, onde a inclusão de elementos de entretenimento, como a academia da terceira da idade e a pista de skate, por outro lado, parecem ser as únicas qualidades. Esses elementos são ressaltados no vídeo abaixo publicado pelo prefeito Eduardo Paes em sua página do Facebook em 13 de março. Na matéria, percebe-se claramente a sobrevalorização da construção do reservatório subterrâneo (vulgo “piscinão”) e da academia da terceira idade como mascaramento à pobreza e à má qualidade do projeto executado.




Para quem não se lembra, a “antiga” Praça da Bandeira dispunha de abricós frondosos e pisos cobertos por simbólicas pedras portuguesas, que fazem parte da identidade do Rio. Muito embora fosse mal conservada, dado o fato de que a praça é pouco acessível a pedestres por estar rodeada de autopistas, opino que a “nova” Praça da Bandeira reproduz uma concepção urbanística de “praça revitalizada”, muito em voga atualmente no Rio, que rompe com a identidade e os símbolos cariocas a favor de atributos como eficiência, agilidade e redução de custos que, claramente, estão comprometendo a estética e a sustentabilidade das nossas áreas públicas. A nova Praça da Bandeira é, portanto, um (infeliz) retrocesso, que preocupa o futuro das praças Varnhagen e Niterói, na Tijuca, que estão sob as mesmas circunstâncias.

23 de fev. de 2015

A versão tijucana de I LOVE NY em arte urbana, por Felipe Madeira

O designer Felipe Madeira, graduando em Desenho Industrial (UFRJ), é o autor da obra que
 ressalta, em forma de arte, a devoção dos tijucanos pelo seu bairro

O pedestre atento que circula pela Tijuca já deve ter reparado que, em questão de arte urbana, o bairro é uma verdadeira galeria a céu aberto. Recentemente, o que mais tem chamado a atenção nesta categoria em ruas como a Barão de Mesquita e a Professor Gabizo é a releitura tijucana do emblemático logotipo americano I LOVE NY (I ♥ NY), criação do designer gráfico Milton Glaser nos anos 1970 como parte de uma campanha para difundir o turismo na Big Apple nos anos de 1970. O símbolo, que tornou-se referência mundial e hoje serve de inspiração para diversas outras obras de arte, anúncios publicitários, estampas etc., chegou à Tijuca como I LOVE TJK (I ♥ TJK) em formato de lambe, uma espécie de pôster que vem ganhando cada vez mais espaço no rol da arte urbana carioca.

Um dos exemplares do I ♥ TJK, na Barão de Mesquita
Idealizador da ilustração, feita de jornal e stencil, o designer tijucano Felipe Madeira, de 22 anos, conta que desenvolveu esta ideia a princípio para estampar uma camisa, mas que acabou decidindo por usar a técnica do lambe quando participou de um workshop com o coletivo paulista SHN. O encontro rendeu-lhe não só um know-how, mas também a paixão por esta técnica que vem norteando sua trajetória artística. 

Sobre a arte, em primeiro lugar, cabe destacar que TJK é a abreviatura "internética" para Tijuca, muito difundida nos bate-papos de mensagens instantâneas durante os anos 2000. Daí a adaptação do NY para TJK, correlação igualmente pop ao NY e tributo de Felipe, nascido no Hospital da Ordem Terceira e ex-aluno do Colégio Pedro II, ao bairro onde reside:

— Quis fazer uma brincadeira com a "marra" tijucana, mas acabei percebendo que me apropriei de um ícone tão forte, que trazia consigo um contexto tão poderoso, que acabou caindo como uma luva para o espírito tijucano. Acredito que seja de fácil identificação e compreensão para os demais bairros, afinal, quem não conhece o "I ♥ NY"? – aponta ele.


A versão original, marca registrada de Milton Glaser: inspiração mundial.
Felipe na ativa em região próxima ao Hospital Oscar Clark, no Maracanã,
junto ao mosaico de Elisa Pessoa, sua parceira "de rua"

Reprodução: Instagram.
Felipe explica que seus pôsteres, conhecidos em inglês como wheat-paste posters, são pregados com uma cola especial à base de farinha com água e soda cáustica (prática, segundo ele, mas nociva à saúde se não tomar os devidos cuidados) e que, embora não tenha uma parceria direta na produção dos seus lambes, não dispensa a companhia de amigos na hora de sair pelas ruas:

— Não saio para colar sem amigos, são eles quem me dão ânimo de sair à rua depois de um dia de estudo e trabalho. Geralmente, meus lambes são vistos perto dos da Elisa Pessoa, também tijucana, estudante de design gráfico, que tem um trabalho muito interessante fazendo praticamente um mosaico de estampas feitas por ela. É tudo artesanal, bem manual.

Embora o I ♥ TJK seja uma de suas obras mais especiais, Felipe argumenta que não pretende se limitar à Tijuca como área de colagem, pois "se sentiria enjoado em ver a Tijuca infestada de I ♥ TJK's", atestando que produzir materiais novos é uma de suas necessidades pessoais enquanto artista. Além disso, alega que sua obra, além de prática e barata, dialoga diretamente com outras técnicas artísticas que, vez ou outra, se sobrepõem ao seu trabalho, como os adesivos (stickers).

Numa das imagens enviadas a O passeador tijucano, Felipe exemplifica esta interação entre o lambe e o sticker: ao invés do simbólico coração vermelho, surgiu o adesivo de um coração literal, ou seja, em sua versão biológica. Segundo o próprio, a arte de rua está a exposta a um tipo de efemeridade que proporciona tais interações e ressignificações constantes que, se por um lado, pode ser interpretado como vandalismo, por outro, é uma resposta positiva ao trabalho apresentado, capaz de mobilizar um diálogo direto com seus interlocutores.

Felipe, além de artista propagador do espírito tijucano pelas ruas do bairro, é graduando em Desenho Industrial com foco em Projeto de Produto na UFRJ e também estagia numa empresa focada em visual merchandising em Laranjeiras. Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, ele o expõe neste site (https://www.behance.net/felipemadeira) e no seu Instagram (https://instagram.com/felipe__madeira/).

Saudações tijucanas, Felipe!

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