24 de ago. de 2014

Bike Rio chega à Tijuca

A nova estação do Bike Rio, no canteiro central da Avenida Maracanã junto à Varnhagen:
sustentada por energia solar.

Com três anos de atraso, o sistema de bicicletas laranjinhas do Itaú, conhecido como Bike Rio, está finalmente chegando à Tijuca e arredores desde meados deste mês de agosto, quando o tijucano já pôde avistar algumas de suas novas estações sendo implantadas na Praça Varnhagen (180) e no Largo da Segunda-Feira (177) - as únicas estações até agora em operação, ou seja, já disponíveis para uso.

Detalhe da estação 180 (Varnhagen)
O Bike Rio surgiu em meados de 2011 apenas na parte turística da cidade, expandindo-se posteriormente para outras localidades da zona sul até alcançar o Centro - que, há cerca de 3 meses, foi contemplado por um número expressivo de novas estações - e o Parque Madureira, a única área isolada desta grande região atendida pelo sistema. Aqui na Tijuca, a estação mais próxima até então era a de número 174, localizada no Largo do Estácio.

Quando falo que o Bike Rio chegou com atraso à Tijuca e arredores deve-se ao fato de que foi precisamente em meados de 2011 e início de 2012 que ganhamos nossas primeiras ciclofaixas nas ruas Barão de Mesquita e Major Ávila, conectadas ao Estádio do Maracanã, além de outras do mesmo porte em Vila Isabel e no Grajaú. Isto é, na mesma época em que o Bike Rio foi implementado na cidade.

O Bike Rio será uma "mão na roda" para o tijucano se deslocar pelo seu bairro; afinal, a Tijuca, por ser extensa, é quase uma mini-cidade dentro do Rio. Isso sem levar em consideração os bairros contíguos como Vila Isabel, Grajaú e Maracanã, tão populosos e densamente ocupados como a Tijuca. É por essa razão que a Grande Tijuca merece um sistema de transporte alternativo como esse, que facilite a locomoção de seus moradores dentro da própria região; no fim de contas, entre essas vizinhanças, as distâncias são pequenas e seus caminhos têm grande rotatividade por a Tijuca ser um grande centro econômico e de serviços na área. 

Muito embora o mapa da estação 180 na Praça Varnhagen assinale que a Tijuca será contemplada com mais duas estações na Praça Xavier de Brito (188) e no Metrô Uruguai (185) - além da estação Maracanã Norte (197), junto ao estádio -, foram licitadas em 2013 um total de 26 estações do Bike Rio entre Tijuca e Vila Isabel, segundo a página Os Ciclanos:

TIJUCA (16 estações)
175 - Metrô Estácio
176 - Rua Dr. Satamini / Rua do Matoso
177 - Largo da Segunda-Feira
178 - Afonso Pena
179 - Colégio Militar
180 - Praça Varnhagen
181 - Heitor Beltrão
182 - Praça Saenz Peña
183 - Shopping Tijuca
184 - Praça São Charbel / EXTRA Maracanã
185 - Metrô Uruguai
186 - SESC Tijuca
187 - Oi Futuro
188 - Praça Xavier de Brito
189 - Praça Pinheiro Guimarães (Hospital da Ordem Terceira)
190 - Largo São Camilo (Usina)

VILA ISABEL/MARACANÃ (10 Estações)
191 - Shopping Iguatemi - rua Barão de São Francisco
192 - Praça Barão de Drummond
193 - Boulevard 28 de Setembro / Rua Souza Franco
194 - UERJ
195 - Maracanã
196 - Maracanã Sul
197 - Maracanã Norte
198 - Estádio Célio de Barros
199 - Praça Niterói
200 - EXTRA Boulevard

12 de ago. de 2014

Obras que não acabam no piscinão da Praça da Bandeira


A Praça da Bandeira, digníssimo (e alagadiço) logradouro tijucano que dá as boas-vindas à Zona Norte e, mais adiante, aos subúrbios, encontra-se assim, nesse estado, como se fosse um areal há mais de dois anos. As obras intermináveis do reservatório (vulgo piscinão), que promete acabar com as enchentes no bairro, exterminaram a arborização da Praça da Bandeira, que dispunha de lindos abricós-de-macaco.

As outras duas vítimas são a Praça Varnhagen e a Praça Niterói, na Tijuca e no Maracanã, respectivamente. Não há previsão de devolução das praças à população. Enquanto isso, partes do nosso bairro continuarão dessa maneira, cinza e sem vida. 

10 de jul. de 2014

Maracaí, Saens Peña, e outras memórias afetivas de ônibus

Linha 221 (Maracaí x Praça XV): extinta no ano 2000. Foto: Companhia de Ônibus.

Dia desses, esperava um ônibus na Rua São Francisco Xavier, bem naquele ponto em frente à Escola Orsina da Fonseca, quando observei a placa que informava as linhas que paravam ali. Aproximei-me, analisando-a atento, pois o semblante era de surpresa ao perceber que a extinta linha 221 ainda constava na tal sinalização. 221! Quem se lembra dessa linha, Maracaí x Praça XV, que deixou de circular pelo bairro no início dos anos 2000?

Para quem não sabe, Maracaí é o nome de uma estradinha no Alto da Boa Vista já quase nas imediações de São Conrado, na Zona Sul. Tal linha, operada pela Auto Viação Tijuca (vulgo Tijuquinha), era a única cujo itinerário contemplava a Rua Mariz e Barros rumo à Usina (sim, não há mais linhas na Mariz e Barros que passem pela Usina).

Bateu uma onda nostálgica após esse encontro inesperado com uma placa – presto muita atenção em placas, diga-se de passagem. Recordei imediatamente as antigas pinturas que existiam nas latarias dos veículos, abolidas em 2010 com a padronização de cores por consórcios. É bem verdade que o sistema ficou mais organizado. Por outro lado, esquecemo-nos de que os ônibus, por mais odiosos que sejam no contexto do Rio, também têm o seu lado afetivo na vida dos cariocas.

Sou um usuário exemplar de transporte público desde os 10 anos de idade. Aqui na Tijuca, os ônibus mais marcantes para mim eram os da empresa Alpha e os da Tijuquinha. Afinal, eram os que eu mais pegava rumo à Zona Sul, no caso da Alpha, ou ao Centro, no caso da Tijuquinha. O layout de ambos era idêntico, mudando apenas a paleta de cores. Para a Alpha, tons avermelhados; para a Tijuquinha, azulados. E a Alpha sempre teve fama de possuir itinerários inseguros, alvo de assaltos.

Não bastasse o orgulho naturalmente bairrista do tijucano, além de uma empresa de ônibus com o nome do bairro, ainda tínhamos outra empresa cujo nome aludia à nossa principal praça, a Viação Saens Peña, com lataria que expunha em letras garrafais a sigla SP. O curioso era ver que mesmo com a alcunha tijucana, a empresa operava linhas bem longe do bairro, como a 125 – Central x General Osório ou a variante Central x Horto. Recentemente, a Viação Saens Peña mudou seu nome para Nossa Senhora das Graças. Fiel e orgulhoso tijucano que sou, obviamente preferia a versão antiga.

7 de jul. de 2014

A placa que parou no tempo

Na Usina, placa desatualizada ainda mostra entrada para o extinto Carrefour: negligência.

Quem vem do Alto da Boa Vista pela Rua Conde de Bonfim se depara com uma placa de trânsito da CET-Rio informando ao motorista que, à direita, está a entrada para o hipermercado Carrefour. Até aí tudo bem, não fosse pelo fato de que o Carrefour encerrou suas atividades na Usina em 2005.

Este caso é um exemplo perfeito de como a CET-Rio não tem tido o devido cuidado com a sinalização da Tijuca. Pretendo discorrer sobre esse tema em um post mais detalhado.

2 de jul. de 2014

O agonizante e venerável America Football Club: demolição à vista?

Sede do America Football Club: degradação das dependências do clube resultou na
suspensão das atividades no local.


“Hei de torcer, torcer, torcer...
Hei de torcer até morrer, morrer, morrer...
Pois a torcida americana é toda assim
A começar por mim
[...]
Campeões de 13, 16 e 22
Tra-la-la
Temos muitas glórias
E surgirão outras depois”


O trecho do hino americano, composto por Lamartine Babo, já não reflete tão bem assim o estado atual do America Football Club – pelo menos o da sua sede, na Rua Campos Sales 118, aqui na Tijuca. Da glória à agonia, o Mecão parece estar dando seus últimos gritos de dor. Porém, no que depender dos tijucanos, americanos e simpatizantes, haverá resistência!

Em nota oficial divulgada pelo site do America ontem, 1º de julho, o presidente Léo Barros Almada suspendeu, por prazo indeterminado, todas as atividades de caráter social que funcionam na Sede com o objetivo de “preservar a integridade física dos associados e frequentadores do clube”.

As razões para tal bombástica decisão estariam justificadas pela falta de verba na manutenção das dependências do clube, visivelmente degradadas e, recentemente, interditadas pelo Corpo de Bombeiros. Além disso, pesou o fato de que a Administração atual estaria muito insatisfeita em ceder lotes da Sede para atividades que nada tinham a ver com a finalidade do clube, sobretudo as ilegais. Há boatos de que um bingo clandestino estaria funcionando ali dentro. 

A notícia tomou um conhecimento maior do público após a publicação do Diário do Rio, em sua página no Facebook, sobre a Assembleia Geral dos sócios que, indignados, teriam votado contra o fechamento da Sede, promovendo, inclusive, um abaixo-assinado que exigia a destituição dos presidentes do Conselho de Administração e do Conselho Deliberativo.

Vista aérea de sede do America, na região da Praça Afonso Pena: localização cobiçada pelo setor
imobiliário e empreiteiras resultou no tombamento do imóvel, em 2012.  (Foto: Agência O Globo/Pedro Kirilos)

No entanto, em outro comunicado oficial do America, foi explicitado que, das 150 assinaturas exigidas para que tal “abaixo-assinado” surtisse efeito (isto é, valor correspondente a 1/5 do número de sócios adimplentes), foram contabilizadas 145 pessoas apenas em meio a “fraudes grosseiras e gritantes” como: duplicidade de firmas, nomes ilegíveis sem qualquer identificação, além da assinatura de sócios inadimplentes.

Em meio à polêmica de que o imóvel centenário do America seja exterminado da Rua Campos Sales para dar espaço a um centro comercial ou a um empreendimento imobiliário – o que seria impossível, neste último caso, já que o prédio é tombado e não pode ter outro uso se não esportivo, recreativo ou lúdico –, Almada afirma que há um grupo de trabalho envolvido na idealização de um novo prédio para a Sede americana no mesmo endereço:

“O Grupo de Trabalho, nessa fase inicial, manteve até o presente momento cinco reuniões com profissionais da área imobiliária, com profundo conhecimento nesse mercado, visando a construção da Nova Sede Social do América. Essas (reuniões) tiveram um único objetivo: tornar vitorioso o projeto (da Nova Sede Social americana), nos padrões mais modernos e confortáveis e de melhor relação custo-benefício para o América Football Club”.

O Conselho Administrativo sublinha que se mantém rígido no seu objetivo de “moralizar” o clube para que, deste modo, possa entregar ao quadro social uma nova sede condizente com as tradições do America e que resguarde o seu patrimônio.

Há controvérsias. 

30 de jun. de 2014

"Meu bairro canta", por Quatro Ases e Um Coringa (1950)

Eu quero enaltecer 
Um bem que adoro 
O meu bairro, onde moro 
Meus amigos fiéis 

Dizer que do meu coração não sai 
Saenz Peña, rua Uruguai,
A Muda, o Ponto Cem-Réis 

Citar a velha Fábrica das Chitas
Tantas garotas bonitas 
Que o Salgueiro tem aos pés 

E também eu quase que me esqueço 
Não é só nesse endereço 
Meu samba vai mais além 

Eu quero relembrar por muitos anos 
Salve Unidos Tijucanos 
Minha gente, o que é que tem 

Quando a cidade toca os seus clarins 
Convocando os tamborins 
Meu bairro canta também. 

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composição de Valdemar Ressurreição
interpretado por Quatro Ases e Um Coringa (1950)




É por essas e outras que meu coração tijucano, nunca adormecido, dispara de emoção e contentamento. 

28 de jun. de 2014

O chão da Rua Campos Sales

No chão da Rua Campos Sales, alguns resquícios de história.

Em geral, os pedestres não são lá muito atentos com os detalhes das ruas. Dificilmente abaixam ou levantam o olhar; para qual razão desviar o foco? É numa dessas andanças despropositadas, entretanto, que vamos descobrindo as belezas e surpresas do nosso bairro. 

Na Rua Campos Sales, por exemplo, no trecho entre a Doutor Satamini e a Haddock Lobo, se não fosse pelo meu cadarço solto do tênis, provavelmente não teria reparado no antigo bueiro da Companhia Telephonica Brasileira que jaz por ali. De origem canadense e nacionalizada em 1956 pelo governo JK, a CTB foi a antecessora da Telerj, criada nos anos de 1970.

Além disso, é interessante observar as descontinuidades do piso da calçada. Toda a área do bueiro era preenchida por pedras portuguesas, o que nos faz deduzir que a Campos Sales mantinha esse padrão. Com as descaracterizações das últimas décadas, cada trecho, hoje, conta com seu próprio tipo de piso. A predominância, agora, é de piso acimentado, algo, sem dúvidas, muito menos charmoso do que as típicas pedras lusitanas. 

27 de jun. de 2014

Mariz e Barros ganha área comercial voltada à gastronomia fast food

Filial da Burger King, na Mariz e Barros com Rua Visconde de Cairu: gastronomia
fast food em peso na área.

Inaugurado há pouco mais de um ano, o novo edifício residencial da Rua Mariz e Barros, em estilo "condomínio avarandado", inovou e tem seguido o mesmo modelo implantado pelo lançamento imobiliário da Rua Nelson Mandela, em Botafogo (zona sul da cidade), que parcelou e destinou o seu térreo à locação de empreendimentos comerciais. Hoje, é um sucesso de público e referência em entretenimento nas bandas de lá, na praça próxima ao metrô.

As dependências da Catarina Doces e Salgados,
braço da Fornalha.
A ala gastronômica da Mariz e Barros, por sua vez, já conta com grandes expoentes das cadeias de fast food, como a gringa Burger King, em processo de expansão pelo Rio, além de franquias nacionais e já bem conhecidas nossas como Spoleto, Koni e a novata Catarina Doces e Salgados, que pertence à mesma rede da Fornalha, sem filial na Tijuca, entretanto. Estão previstos, ainda, a abertura de um pub e uma farmácia (mais uma!) neste complexo comercial, além do salão de beleza Lui's Coiffeur, que também já possui outra unidade no bairro, na Rua Santo Afonso.

A localização é estratégica, uma vez que a Rua Mariz e Barros é um grande pólo estudantil na Tijuca. Nas redondezas, estão o Instituto de Educação, o Instituto Isabel, o Instituto Guanabara, GPI, SENAC, Colégio pH, Colégio Militar, Pedro II, entre outros. Em frente ao empreendimento, há a presença também do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. Nos dias úteis, tanto o Spoleto como o Koni são altamente procurados pelos estudantes da área em busca de um almoço rápido. Perto dali, na esquina com a Campos Sales, já havia um Mc Donald's e um Subway, que, pelo visto, agora estão precisando competir com os novos investidores. Vale destacar igualmente que fora do âmbito fast food, a região da Mariz e Barros já vinha se mostrando como um celeiro de boas opções gastronômicas para um público mais exigente, como o Brasa Goumert, o tradicional Salete e a segunda filial tijucana do Otto, no lugar do antigo Devassa.

Koni e Spoleto: os preferidos dos estudantes e trabalhadores no entorno.

É interessante observar como este modelo de empreendimento é uma releitura do que se praticava no processo de verticalização dos bairros lá anos 1960, sobretudo nas suas artérias principais como a Conde de Bonfim, Dias da Cruz, Nossa Senhora de Copacabana, Voluntários da Pátria etc. Essa maneira de se congregar o uso residencial com o comercial num único terreno deixou de ser usual a partir do crescimento da Barra da Tijuca, na zona oeste, que projetou, em relevância, um novo estilo de vida galgado na separação dos usos, muito embora os condomínios de lá congregassem serviços variados, como padarias, nas suas dependências.

Assim sendo, tal investimento na Mariz e Barros parece refletir uma maior otimização do uso do solo, especialmente em bairros muito adensados como a Tijuca. Essa conjunção, se for propagada em outros locais, promete ser uma alternativa viável à revitalização do espaço público por intermédio do estímulo ao comércio de vizinhança. Tomara que dê certo, pois público, já tem.

17 de jun. de 2014

Tijuca, esse bairro apaixonantemente "parado"

"Salve Tijuca", por Elli, na Rua Almirante Cochrane.

Faço pós-graduação em Planejamento Urbano pela UFRJ e, numa das aulas de Cidade e Sociabilidade, começamos a discutir sobre o jeito de ser da Tijuca. Toda essa querela se deu após a leitura do capítulo “Muda – Quando se Muda”, do livro Prosas Cariocas: uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004), organizado por Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki.

A autora deste texto, a jornalista e atriz Bianca Ramoneda, exaltou sua relação com a Muda, onde residia – sublinhando enfaticamente a fase violenta da Tijuca, nos anos 90 e 2000 -, fazendo uma comparação com o momento em que finalmente deixou a região para morar num quarto-e-sala no Leblon. Pretendo comentar sobre esse texto em outra oportunidade, embora valha a pena destacar, diante do propósito deste post, o seguinte trecho:

"Eu tinha 18 anos, morava na Muda, pequeno bairro dentro da enorme Tijuca, onde era feita a troca de bondes. Lindo bairro pra morar, se a sua ideia for passar os dias e, principalmente, as noites dentro de casa. Como uma legítima cidade do interior, na Muda o transporte acaba antes das 22 horas e é impossível comer um salgadinho onde quer que seja, pois não há nada aberto. A Muda tem um silêncio impressionante durante a madrugada, herança da proximidade com o Alto da Boa Vista, um silêncio que só é rompido pelo latido dos infinitos cães que reagem ao som de cada folha que cai no asfalto (p. 51).”

Apesar do cenário descrito acima ser da Muda – de fato, uma cidadela pra lá de pacata entre a Tijuca e a floresta –, muita gente ainda associa essa ideia de bairro “parado” à Tijuca como um todo. “Ah, não há vida noturna na Tijuca”, apontam alguns. Mas como não, cara pálida? E a boêmia dos arredores da Praça Varnhagen? O que dizer, então, da balbúrdia dos pés-sujos da Haddock Lobo?

No entanto, entendo o que querem dizer com isso, principalmente quando esse argumento vem de um tijucano menos esclarecido: a Tijuca não é o bairro da moda. Logo, o que há de entretenimento por aqui nem se compara à diversão cosmopolita de Botafogo, esse sim o bairro vitrine do Rio, cheio de novidades, bares estilosos que abrem e fecham conforme a demanda de público, shoppings, excelentes livrarias e cinemas badalados. Paraíso do consumo cool, onde volta e meia me abasteço, é claro. Não há disso na Tijuca.

Por vezes não nos damos conta da influência impressionante que a publicidade e a mídia têm no nosso modo de viver. Neste sentido, o estilo de vida da zona sul (ou seja, o lugar que dita a moda) se impõe como padrão e, forçosamente, acabamos acreditando nessa concepção de que a Tijuca não é tão bacana assim. Daí surgem os argumentos mais ultrapassados possíveis contra este nosso vale: “bairro de gente velha e moralista”, “só tem farmácia”, “não tem praia”, “o lazer se resume ao shopping” etc.

Tá, tá, tá, tudo bem. O jeito como alguém gosta de se divertir é muito particular, não há como questionar. Se os encantos do capital são os que te cativam, é para a zona sul ou para a Barra que você, caro tijucano, deve ir mesmo. A Tijuca é prática e sem firulas, mantém a tradição, não se diversifica, com exceção do shopping center. Eu e minha família vamos sempre, há anos, no mesmo braseiro, o arrebatador Lareira, na Rua Major Ávila. Mas há quem prefira comer o mesmo galeto, e pagando talvez até mais caro, lá nesse tal de Braseiro do Baixo Gávea, lugar dos chamados trendsetters (grosso modo, termo em inglês para dizer que alguém lança moda).

A vida cultural do Centro ou de Botafogo são irresistíveis, confesso. Só que também me invade uma sensação muito esquisita quando volto desses lugares, algo que nasce e cresce dentro de mim, sempre que saio do metrô e deparo com o chafariz da Praça Saens Peña ou cada vez que um 415 cruza o viaduto Paulo de Frontin, perpassa a Praça Afonso Pena e segue reto, toda vida, até chegar à Usina. Bate uma emoção em atravessar tantas ruas queridas, tantos monumentos esplendorosos como a Igreja de São Francisco Xavier e o Colégio Marista! O encantamento com a zona sul fica pra trás.

Voltar à Tijuca, após uma noitada na Lapa, por exemplo, é retornar literalmente para casa. A gente se diverte lá e regressa sabendo que na Tijuca encontraremos o descanso e o silêncio. O afastamento necessário à vida mundana exalada pelos bairros notívagos. É como se as nossas ruas respeitassem seus próprios relógios biológicos: durante o dia, vivacidade, à noite, adormecimento. O clima de família, ainda que ultimamente visto como um valor antiquado, tempera o nosso bairro com doses irresistíveis de hospitalidade.

Vendo assim, a Tijuca pode até ser um bairro meio sem nada para fazer mesmo, mas um bairro apaixonantemente "parado".

Prédio do antigo Cinema Carioca amanhece pichado

A fachada do extinto Cinema Carioca após vandalismo

Há cerca de dois meses, o belíssimo prédio art déco do extinto Cinema Carioca, situado na esquina da Conde de Bonfim com a Rua das Flores, passou por uma remodelação completa na sua fachada: nova pintura e revitalização dos detalhes azuis que circundavam o antigo letreiro. A obra, realizada pela Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária atual deste imóvel, foi feita com o maior esmero, dando todo um ar mais gracioso à paisagem caótica da Praça Saens Peña.

Eis que, infelizmente, nesta semana, a fachada central do Carioca amanheceu vandalizada com os dizeres "Igreja Universal faz lavagem cerebral". É certo que os moradores do bairro, sobretudo os mais saudosos, prefeririam que, ao invés da igreja, continuasse funcionando ali o cinema, mas para tudo há um limite. Além do ataque à crença alheia (cada um possui o direito de seguir o credo que escolher), o Carioca é um prédio tombado, patrimônio citadino, que agora está porcamente barbarizado.

Lamentável.

28 de mai. de 2014

"Eu, tijucano", por Tutty Vasques

Crônica publicada, originalmente, na
Veja Rio (1º/06/2005), por Tutty Vasques
O orgulho de ser carioca da Zona Norte, recentemente celebrizado por Fernanda Montenegro em anúncio de shopping center de Del Castilho, não significa necessariamente que a atriz não esteja bem lembrada do lugar onde nasceu. Nós é que não conhecemos a aprazível Campinho dos anos 1930. A Tijuca que me pôs no mundo em 1954 também já não existe, o que não me impede de ter boas lembranças dos quintais da minha infância querida, que os anos não trazem mais. Precisaria o Rebouças ser um túnel do tempo para reencontrar esse passado. A Zona Norte de hoje, acreditem, não tem nada a ver com a Vila Isabel de América. Ninguém, que eu saiba, jamais teve orgulho de nascer na Rua Leopoldo, mesmo depois que Gilberto Braga recriou o Andaraí em Celebridade. Mais perto da verdade, cá pra nós, está o colega de Veja Rio Manoel Carlos, que modestamente se contenta em glamourizar o Leblon.

Por mais que a novela das 8 e os comerciais de TV insistam em associar a Zona Norte ao bom malandro, ao sambinha da esquina e àquela gente humilde em casas simples com cadeiras na calçada, na fachada escrito em cima que é um lar, nada disso existe mais por lá. Restam o abandono, sinais de empobrecimento, o medo das balas perdidas, as grades e o mau gosto. Sejamos francos: a Zona Norte é horrível, eu sou de lá, eu sei. O caos arquitetônico avançou sobre a paisagem humana que a violência baniu das ruas. Sou do tempo dos cines América, Carioca, Olinda, quando a Praça Saenz Peña era um Multiplex a céu aberto. Só vendo o que aquilo lá virou! Sempre que visito meus pais – como bom tijucano, visito muito meus pais – passo pelo lugar que me fez moleque e, olhando a muralha de prédios erguida ao redor, não sei dizer a meus filhos exatamente onde era a minha casa. Nem a dos meus amigos ou a daquela velha chata que furava as bolas que caíam no seu jardim. Dessa época, sobrou por lá o nome da rua na placa da esquina: Maria Amália.

Migrei há 27 anos. Do outro lado do túnel, Humaitá, Bairro Peixoto, Jardim Botânico, Lagoa, Botafogo, Leblon, Urca, Gávea, já morei em tantas casas que nem me lembro mais, nada que me faça esquecer de onde eu vim. Quem é tijucano sabe que, embora seja possível escapar da Tijuca, jamais a Tijuca sairá de você. Por mais que o sujeito disfarce, a gente sempre nota o que há sob as roupas Richards de um ex-tijucano. De repente um gesto inseguro, uma indecisão no olhar, uma preocupação desnecessária com o cabelo, o trepidar da perna na ponta dos pés, aquela agonia de não saber o que fazer com as mãos e, pronto, o cara se entrega. O medo de errar, de ousar, de arriscar, de mudar, de falhar, dessas coisas que atormentaram minha juventude ninguém se livra assim, de uma hora para outra.

O poeta Torquato Neto, um raro vizinho malcomportado que só descobri no livro póstumo Os Últimos Dias de Paupéria – ele se matou quando eu tinha apenas 17 anos –, usava uma frase doce para definir o que azedava minha relação com o bairro: "O tijucano se diverte olhando". Gente que não precisa beber, comer, dançar, conquistar, comprar, tocar, experimentar, participar, agir, transgredir, nada. Olhar a vida – eis o mistério da satisfação tijucana naquela época em que havia muita coisa para olhar em volta, morávamos então numa espécie de calçadão da Zona Norte. Uns miravam os outros, comiam uma pizza no Palheta e, hoje percebo, não há nada de errado em se dar por satisfeito com isso.

A Tijuca já foi para mim muitas coisas, mas acho que nunca consegui vê-la como ela exatamente é ou foi. Era sinônimo de vida no paraíso quando eu andava de pés no chão pulando de um quintal para outro, subindo em árvores, soltando pipa, moendo vidro para cerol em trilho de bonde, jogando pião, amarelinha, carniça, pique, queimado, marimba, bicicleta, botão de galalite, carrinho de rolimã, bola de gude, marraio feridô sou rei. Perdeu a graça quando me vestiram uma calça comprida e disseram "agora cresce". Ficou insuportável quando percebi que queria mais, muito mais do que ver a banda passar. A vida não é lugar para estar à toa.

Quando o amor me chamou pela primeira vez e eu atravessei o túnel para casar, não demorei muito a perceber que levava a Tijuca dentro de mim. Longe dos tijucanos, eu era o próprio. Passei vinte anos tentando me livrar desse sotaque que nos denuncia mesmo calados. Sou resultado dessa batalha diária contra a caretice programada como destino. Deu nisso: uma espécie de maluco responsável, encabulado, engraçadinho, medroso e atrevido, não necessariamente nessa ordem ou ao mesmo tempo. Parei de brigar com a Tijuca quando passei a usá-la em legítima defesa dos meus instintos. É ela que me faz decidir "não vou" quando Xangô manda dizer "vai, vai, vai, vai..." De vez em quando eu vou, e volto.

Virei um tijucano de ocasião. Evoco minhas raízes toda vez que sou flagrado avançando o sinal do bom comportamento. "Eu? Claro que não, gente! Sou tijucano, caramba!" O argumento é inapelável. Como ninguém – acho que isso ficou claro nesse texto – sabe exatamente o que é a Tijuca, posso inventar o que quiser a respeito do lugar onde nasci. Nessas horas, do mesmo jeito que a Fernandona, morro de orgulho de ser da Zona Norte.

26 de mai. de 2014

O reforço da identidade tijucana através da publicidade

Publicidade encontrada no O Globo (30/03/1982)

Ainda que inerente às décadas passadas, o estereótipo tijucano galgado na ideia de família, valores conservadores, cultura clubística e situação financeira "bem-resolvida" ainda é, de certa forma, muito presente no imaginário carioca. Por outro lado, é curioso perceber como os arquétipos publicitários de antigamente faziam questão de reforçar essa identidade através da propaganda. Ou seja, ressaltar o jeito de ser tijucano, mais do que promover uma personalidade comunitário, era mostrado como status.

Garimpei esta propaganda publicada em O Globo de 1982 pelo comerciante Luiz Melo Dias, proprietário da "charmosa" Cláudia Boutique, localizada à Rua Santo Afonso. A loja, autorreferida como o lugar da moda esportiva para a jovem tijucana, além de exaltar o seu suposto requinte a preços honestos, afirma que seus fregueses não são meros compradores, mas sim amigos! Melo Dias explica que esse é um padrão de atendimento cujo círculo de amigos só vai crescendo, algo que só pode acontecer num bairro na verdadeira acepção da palavra. E daí percebemos como a identidade do modus vivendi tijucano é visto como um atributo de diferenciação.

Repare, também, como a percepção do tijucano visto como parte de uma classe média estável e honrada é sugerida no seguinte trecho:

Isto é o que leva a um fato inteiramente inusitado: Luiz Melo afirma que possui cadastrados cerca de 4.000 clientes em seu crediário e que o percentual de inadimplência é 0 (zero). "Pode haver atrasos - compreende-se", continua aquele líder lojista, "mas falta de pagamento, nunca".

A publicidade contemporânea não dispõe mais desses artifícios: os textos não passam de frases curtas quase enigmáticas, sem falar na predominância de grandes corporações no mercado publicitário em detrimento do pequeno comerciante, algo tão peculiar ao comércio da Tijuca em outras épocas.

Confrontar o conteúdo da publicidade da Cláudia Boutique com o panorama atual é constatar que a Tijuca, um bairro até então bastante provinciano, apostou suas fichas no cosmopolitismo e no "progresso" sem prever que o território do bairro passaria por uma série de agruras nos anos seguintes. É normal; nenhum lugar "fechado", social e culturalmente como a Tijuca, sobreviveria em cidade tão global como o Rio. Contudo, penso que a identidade tijucana ainda persiste, mas na sombra de muitos outros modos comportamentais cariocas que interessam bem mais à publicidade do que a exaltação de um jeito de ser/viver num bairro convicto de seus valores, embora sem apelo midiático.

7 de mai. de 2014

Placa centenária da Rua Sabóia Lima some misteriosamente

O antes e o depois da placa da Sabóia Lima: em cima, abril de
2014, e na parte de baixo, em agosto de 2013.

Quem já percorreu toda a extensão da bucólica Rua Sabóia Lima, nas imediações do Colégio Baptista, sabe que lá em cima localiza-se uma represa do Rio Trapicheiros colada à Praça Hans Klussmann - aquela praça meio quimérica, cheia de animaizinhos de argamassa. É neste local onde, no início do século XX, o então Departamento de Águas e Esgotos, proprietário da área hoje pertencente à CEDAE, instalou a seguinte placa junto aos resquícios do antigo portão da represa:

SENDO PRESIDENTE DA REPUBLICA
O Sr. Dr. FRANCISCO DE PAULA RODRIGUES ALVES
E MINISTRO DA INDÚSTRIA VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS
O Sr. Dr. LAURO SEVERIANO MÜLLER
A INSPECÇÃO GERAL DAS OBRAS PUBLICAS
ASSENTOU ESTE CONTADOR VENTURI NESTE GÊNERO 
INSTALLADO PARA O SERVIÇO DO ABASTECIMENTO D'AGUA
À CAPITAL FEDERAL
28 - 2 - 1906

Tijuca & Floresta. Coleção Bairros do Rio. 
Editora Fraiha, 2000. Página 76. 
Placa que deveria ser patrimônio oficial da cidade, sumiu misteriosamente em meados de março deste ano. Deparei com a sua ausência ao levar um amigo de fora da Tijuca para conhecer este recanto - agradabilíssimo, por sinal -, quando, ao nos aproximarmos da entrada da represa, não havia mais do que um vestígio retangular da mesma. 

Cheguei a perguntar ao guarita da Rua Sabóia Lima se ele sabia sobre o paradeiro da placa, mas recebi uma resposta negativa. Isso foi no dia 6 de abril; passado um mês, retornei à rua para investigar o caso, e mesmo assim ninguém sabe ao certo o que ocorreu.

Neste período, tentei divulgar a gravidade do caso junto ao colunista Ancelmo Góis (do jornal O GLOBO) que, apesar de sua equipe ter me exigido o envio de uma série de documentações e imagens sobre a placa, não deu prosseguimento ao caso tampouco publicou notas a respeito, tanto no jornal impresso como no blog deles. A última notícia que me foi dada é a de que "um morador havia guardado". Por qual razão?

Estes episódios servem para refletirmos como o patrimônio da Tijuca - e da Zona Norte como um todo - é ignorado e, por vezes, desvalorizado. Divulguem nas redes sociais!

O Rio Trapicheiros na Rua Sabóia Lima: pequeno riacho. (Fonte: As Ruas do Rio)

Para ler mais sobre a Rua Sabóia Lima, leia estas crônicas fotográficas publicadas por mim na minha coluna As Ruas do Rio:

Praça Hans Klussmann: o recanto dos bichinhos, As Ruas do Rio (10/08/2013).
Rua Sabóia Lima, Tijuca, As Ruas do Rio (26/08/2013)

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